Um homem que desconhece a sua ascendncia a origem. S um
medalho que traz ao peito desde sempre o pode levar a descobrir quem .
Um enigma humano a verdadeiro passado em Portugal no sculo XVI.
Romance histrico nas rigorosas reconstituies factuais a locais, no
recorte de muitas das figuras que atravessam a cena, fico na intriga a no
delineamento de personagens inteiramente criadas ou apenas recriadas, A
Casa do P tem como pano de fundo um drama ocorrido em Portugal no sc.
XVI protagonizado por membros da mais alta nobreza das cortes de D. Manuel
I e D. Joo III. Drama envolto em mistrio, teve o condo de apaixonar a
opinio pblica da epoca a de inflamar a pena de escritores coevos ou
posteriores. A Casa do P lana sobre os factos uma curiosa hiptese que,
no podendo ser mais do que isso  mngua de documentos,  verosmil, hbil
a logicamente tecida. A aco estende-se por Portugal, Espanha, e toda a
bacia mediterrnica dominada por Venezianos a Turcos, at  Palestina a nela
se sucedem episdios cheios de lirismo, de crueldade a de aventura. Um
humor delicado a uma boa dose de suspense  maneira dos bons policiais
so outras marcas do texto. Mas o autor, ele mesmo o escreve em nota final,
no pretendeu apenas fazer uma mera incurso pelo chamado romance
histrico. O que a est so velhos- problemas da humanidade que, vindos de
h sculos, ainda hoje persistem nos mesmos cenrios a saltam para outros
mais alargados a vastos.
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A CASA DO P
Obras do autor
Didcticas:
Prosadores Religiosos do Sculo xvr (antologia organizada de
colaborao com Alcide Soares), Coimbra, Livraria do Castelo, 950.
A Redaco (orientao a exerceios), Porto, Livraria Avis, 968, 970,
972. A Vida de S. Teotnio uma fonte de Os Lusadas?, in Panorama,
n.44 e separata, Lisboa, 972.
O arinteiro de el-rei (monografia de investigao etimolgica), in Armas e
Trofus, 972,  Srie-lomo , Jul.-Set., n." 2, pp. 96-202.
Fico: A Casa do P, romance, Lisboa, DIFEL, 986, 2.` e 5.u ed. 987,
6. ed. 988, 7.' ed. 99, 8. ed. 994, 9." ed. 996, 0. ed. 997; trad. francesa de
Ldia Martinez a Guy Vivien, La Maison de Poussire, Paris, Sylvie Messinger,
989, id. 990; trad. alem de Maralde Meyer-Minnemann, Das Haus des
Staubes, Freiburg, Beck & Glckler, 990
O homem da mquina de escrever, stira, Lisboa, DIFEL, 987, 2? ed.
997; trad. francesa de Jean-Marie Saint-Lu, L'homme  la machine  crire,
Casteinau-le-Lez, ditions Climats, 990; trad. italiana de Rita Desti, L'uomo
dalla macchina per scrivere, Roma, Biblioteca dei Vascello, 993
Psich, romance, Lisboa, DIFEL, 987; 2. ed. 988 O pesadelo de dEus,
romance, Lisboa, DIFEL, 990
A Esmeralda Partida, romance, DIFEL, 995 (prmio Ea de Queirs, da 
Cmara Municipal de Lisboa); 2~. a 3. ed, id., 995, 4L. ed. Crculo de Leitores, 
996
Antologias em que est includo: Imaginrios Portugueses, Antologia de 
Autores Portugueses Contetuporneos, Fora do Texto, Lisboa, 992: o conto 
Flor de Estuf; O Escritor, revista da APE, n." 3, 994; Fundao Calouste 
Gulbenkian, Boletim Cultural, Metnrias da Infncia, VIII Srie, n." , Dez. 994: o 
eonto A, fonte da pacincia; Europa Come, l5 Racconti per 5 Nazioni, antologia 
de 5 contos, um por cada pas da UE, promovida pela Itlia, Florena, Giunti 
Gruppo Editoriale, 996; o conto Ritorni; colaborao regular no JL com crnicas 
intituladas genericamente Os Trabalhos a os Dias.
Outras
Portugal, lbum, texto do autor a fotografias de Jean-Charles Pinheira,
Lisboa, DIFEL, 989.
FERNANDO CAMPOS
A CASA DO P
.a edio
M] DIFEL
Difuso Editorial. S. A.
 986, DIFEL - Difuso Editorial, S. A.
", DIFEL
Difuso EditoriaI,S.A.
Denominao Social - DIFEL 82 - Difuso Editorial, S .A
Sede Social        - Avenida das Tlipas, n. 40-C
        - Miraflores
        - 495-95 Algs - Portugal
        - Telefs.: 420848 - 420849
        - Fax: 420850
        - E-mail: Difel.SACa?mail.telepac.pt
Capital Social        - 60 000 000$00 (sessenta milhes de escudos)
Contribuinte n."        - 50 378 537
Matrcula n. 8680        - Conservatria do Registo Comercial de Oeiras
Capa de Rogrio Petinga sobre pormenor de um quadro de Vercellio
Ticiano Composio: Tipografia Guerra, Viseu
Impresso a acabamento: Tipografia Guerra, Viseu, 999
Depsito Legal n. 42 492/99
ISBN 972-29-03- / Outubro 999
Proibida a reproduo total ou parcial sem a prvia autorizao do Editor
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// Ir ~~BDE EDI~~
...Esta  a casa cujos habitantes esto na escurido; o p  o seu
alimento e a lama a sua carne. Esto vestidos como pssaros cobertos de
asas, no vem luz, esto nas trevas. Eu entrei na casa do p a vi os reis da
Terra com as coroas retiradas para sempre, os governadores a os prncipes, 
todos aqueles que um dia usaram coroas reais a governaram o mundo nos dias 
antigos. Aqueles que estiveram no lugar dos deuses, de Anu a de Enlil, serviam 
agora como criados que iam buscar a carne assada  casa do p, que 
carregavam a carne cozida e a gua fria do odre. Na casa do p onde entrei 
estavam altos sacerdotes e aclitos, sacerdotes da encantao a do xtase; 
havia servidores do templo, a estava Etana, o rei de Kish, que a guia levou 
para o cu no tempo antigo. Vi tambm Samuqan, deus do gado, a estava 
Ereshkigal, a rainha do mundo inferior, a Belit-Sheri, que  escrivo dos deuses 
a guarda o livro da morte, agachado diante dela. Ela lia uma tabuinha que tinha 
na mo...
(De A Epopeia de Gilgame.rh)
E gacu-rv
De to funestos acontecimentos se fez meticuloso a severo silncio a h 
muito que foram queimados ou misteriosamente feitos desaparecer todos os 
documentos, todos os papis que sobre o assunto esistiam. As bocas que o 
podiam divulgar haviam sido caladas, sela.das com o lacre do juramento, do 
confessionrio, do medo, da ameaa, do fogo dos autos-de-f. Houve mortes a 
sangue pelo caminho a eu, ignorante de tudo, passava pelas coisas cantando 
hinos ao Criador e admirando a fruindo, em meu esprito alegre a bem 
disposto, as grandes a pequenas maravilhas da vida. De tudo fiz crnica, cujo 
ncleo  a minha viagem  Palestina por ser durante essa romagem que os 
acontecimentos trgicos comearam a descobrir-se  minha volta. Aproveitei a 
minha estada na Terra Santa para recolher notas de um itinerrio. Quando dei 
por mim tinha montanhas de material. Mostrei a alguns amigos essa parte das 
minhas notas. Insistem comigo para que publique a obra. Deigo o tempo 
passar... Sinto relutncia em tirar do tegto as anotaes ntimas de tanta 
emoo vivida, de tanto desencontrado disctuso travado no meu pensamento... 
Que fazer?... Encontrei h dias nas ruas de Lisboa o reverendo Frei Lus de 
Sottomaior, que eu diria um homem santo se mo no proibisse a Madre Santa 
Igreja. Como ia minha paternidade, que caminhava to em-mim-mesmado? 
H quanto tempo l... Sabia que trazia consigo, ao pescoo, um agnus dei com 
uma das relquias que eu lhe trougera da Terra Santa? Homeml E esse livro, 
esse Itinerrio? Era pecado de egosmo quer-lo s para mim, guard-lo vinte 
a oito anos sem o publicarl... No achava? Claro que sim!-a dava-me uma 
palmada no ombro. Olhassel Porque o no dedicava ao arcebispo? D. Miguel 
de Castro era muito receptivo e o seu nome num frontispcio constitua uma 
garantia inegvel da qualidade da obra. No quereria eu
9
um destes dias ir falar com Sua Eminncia? No se importava a sua 
humilde pessoa de me acompanhar... Que sim, que sim - anua eu... -, Sua 
Reverncia tinha razo a eu iria penitenciar-me do meu egosmo...
E assim  que me decido finalmente a dar  estampa o meu Mnerrio da 
Terra Santa. Ele vai passar sob os olhos palados dos ministros dessa 
Inquisio que eu tantas vezes, pela vida fora, em ocasies de completa 
liberdade da minha opinio a sentir, critiquei em termos duros. Antes porm 
que tenham qualquer motivo de me censurarem, eu preparei-lhes o repasto. O 
texto que lhes envio, alm de estar semeado de oraes, antifonas, hinos em 
latim, de referncia minuciosa s indulgncias que se ganham naqueles 
sagrados lugares, vai expurgado por mim prprio. Armo-me em censor da 
minha prpria obra e; se deigo nela transparecer algo da minha 
espontaneidade e sinceridade,  em coisas exteriores a minimas. Talvez algum 
leitor mais sagaz, espreitando nas entrelinhas, pretenda ver para alm 
vestgios da minha personalidde. Espero no deixar, contudo, nenhuns 
importantes indcios. Que tambm sobre mim se faa silncio  Retiro da obra 
toda a nota ntima a pessoal. Tiro-me da obra no mesmo gesto defensivo a 
paternal com que um dia aqueles que me deram o ser me retiraram da sua vida 
para me protegerem de um destino maldito. O texto original guard-lo-ei zi 
Egacurv, s para mim.
Enxobregas, a. , D. x 5 9I
I
O medalho de ouro
...et tanquam navis quae pertransit fluctuantem aquam: cujus, cum 
praeterierit, non est vestigium invenire, neque semitam carinae illius in 
fluctibus...
... e tal como a nave que atravessa a gua ondeante: dela, assim que 
passou, no  possvel achar o vestgio nem a senda da quilha nas ondas...
(Sap., 5.io)
Alonga o caminheiro atrs os olhos, a avaliar a distncia percorrida. Vo-
se-lhe esbatendo a esfumando .os contornos a as cores da paisagem, at por 
fim no poderem ser fixados na retina... Tambm no percurso da, vida com o 
avanar da idade se vai esmaecendo e esvaindo, na retina da memria, a 
notcia das coisas passadas. Procuro ir ao fundo do tempo, vasculhando nas 
minhas recordaes, numa tentativa de isolar na infncia o primeiro momento, 
a primeira circunstncia em que tive conscincia de mim, de que era um ser 
vivo com personalidade prpria, isto , com uma vontade a um pensamento 
que no era o dos outros, conscincia de que tinba a minba sombra. Esta 
expresso especialmente me intriga. Ando  volta dela, buscando localiz-la no 
tempo a no espao sem o conseguir. Tenho todavia a sensao de que 
algum, uns olhos sbios a penetrantes, algures, em certa altura, ma imprimiu 
na alma a me impressionou para sem
to 
pre.  como uma voz que vem de longe a que eu no sei identificar: 
quem no fazia sombra no era ningum; visse como at a mais pequenina 
das formigas arrastava colada ao corpo a sua sombra...
No bastava que toda a minha vida foras ocultas, que eu ento nem 
sequer sonhava existirem, se empenhassem constantemente em me confundir 
com a multido, se esforassem por me tirar a minha individualidade, a minha 
sombra. Vem tambm agora a memria, enfraquecida pela idade e a 
distanciao, abrir graves lacunas na reconstituio do que foi a minha 
infncia. A medida que eu avanava na vida, havia quem - e igualmente eu 
sem o pensar - fosse apagando os vestgios dos meus passos. Como restos de 
um cataclismo, de um naufrgio, de um incndio, ficaram-me no entanto 
desses tempos alguns reliquia isolados que agora procuro colar, como cacos 
de uma baixela partida, no grande painel da minha existncia. Um deles  o 
vago sentimento de contnuas mudanas de lugar a de pessoas na minha mais 
remota puerlcia, mudanas que, ao anularem - creio que acinte - a minha 
fixao afectiva, criaram-me na alma a no corao uma constante necessidade 
da presena humana, o que, moldando o meu carcter, me levava a procurar o 
convvio das pessoas e a ser extremamente comunicativo a afvel com elas, 
ou, quando em grupo, muito exuberante a at irreverente. Mais de uma vez me 
aconteceu passar por uma terra cheia de movimento a de vida a de rudo que 
em primeira mo visitava. De repente faz-se dentro de mim um estranho 
silncio a as casas, as rvores, esta ou aquela particularidade, ganham um 
agressivo a quase doloroso relevo a provocam-me a ntida impresso de que 
tudo aquilo me  familiar, de que j ali estive no sei quando. Vm-me ento ao 
esprito certas leituras, que ns franciscanos tanto estimamos, do sbio Plato. 
Ser que esta  uma das suas famosas reminiscncias? No sei onde fui 
criado na minha primeira infncia, no conheo sequer qual a terra onde nasci. 
Sou como uma rvore que, apenas despontou no viveiro, logo foi desarreigada 
a transplantada a jamais h-de conhecer a sua paisagem. Sou como a planta 
que nasceu de uma semente germinada numa poa de gua a que, mal criou 
razes, se plantou num vaso e, dentro de casa, tanto ornamenta a . janela do 
nascente como a do poente. No deve ter sido por acaso que me fizeram 
ingressar na ordem dos andarilhos, como em muitos stios a h muito tempo, 
por essa Europa fora, so conhecidos os irmos de So Francisco. Sempre me 
foram
familiares as amendoeiras das terras do meio-dia, as suas figueiras, as 
suas alfarrobeiras; os sobreiros a azinheiras das plancies calcinadas de alm-
Tejo, com suas longas a estreitas sendas a caminhos anilados  distncia por 
alas de pinheiros mansos; as suas vilas a aldeias de casinhas trreas 
branquejando arrimadas ao castelo tutelar; as accias a mimosas de fresca a 
farta sombra da serra de Ossa; as lezrias das ribas do rio, desde Santarm a 
Lisboa, verdejantes a ondulantes de searas a perder de vista, onde aqui a alm 
se destacam as manchas escuras dos bois a pastar e o relevo das motas, ou 
desoladamente alagadas pelas cheias. Trago nos olhos as dunas da pennsula 
de Tria, as doces baias azuladas em que se vo precipitar as alturas da 
Arrbida, os fraguedos do cabo Espichel, o largo esturio do Tejo, os ululantes 
ventos de areia do Gzincho, a imponncia do arvoredo de Sintra, onde temos 
um conventinho de capuchos. Mas, corizo se do alto dessa formosa serra 
olhasse o horizonte que corre a foge para setentrio, vo-se-me delindo na 
lembrana e tornando indefinidas as linhas, as formas, as mincias 
topogrficas de montes a vales, florestas, povoados, rios, at aos sinceirais do 
Mondego.
Toda esta vasta rea se anima de cenas particulares, de tarefas 
especificas, de actividades muito definidas, em dada quadra do ano... mas as 
pessoas no tm rosto nem nome, so sempre uma generalizao - os velhos, 
os novos, as crianas, um homem, uma mulher, uma rapariga... ningum 
individualmente assinalado, meu conhecido. Tomo com religiosa emoo esse 
como que livro de horas da minha vida a folheio ao acaso as suas iluminuras 
finamente lavradas na minha memria. As rvores na sua maioria j perderam 
as folhas. Ao longe, ao correr de um ribeiro, esbate-se na mancha mais escura, 
anilada, de montes baixos a fieira dos choupos esguios, de varas apontadas ao 
cu azul onde passa um bando de patos bravos a um esmerilho plana 
cahnamente em atentas volutas. Uma leira de terra est a ser arroteada. A 
junta de bois inclina-se para a frente no possante esforo de puxar o arado 
sobre o qual o lavrador se apoia para que o ferro entre bem no hmus. Noutro 
lado, em campo que j foi embelgado, o abego avana, sacola no ombro, 
fazendo com o brao e a ,mo o gesto ritual a sagrado do lano da semente e, 
para a cobrir, j a grade com as aguadas puas anda a estorroar a afofar a 
terra.
2 3
Uma voz ecoa nos meus ouvidos : quisesse Deus viesse chuva, que o 
cho no tinha lentura 
Numa cangosta o carro de bois, carregado de lenha apertada at cima 
entre os fueiros a cordas, vai seguindo devagar, nos eixos chiando a sua 
chorada melopeia. Um moo vareja as bolotas dos sobreiros. A sombra por 
baixo andam os porcos, grunhindo, comendo a tenra glande. De algumas 
rvores j foram extradas grandes placas de crtex e o tronco desnudado, 
vermelho, a sangrar, contrasta com o cinzento-azulado da cortia. De quantos 
outonos, de quantos novembros como este est povoada a rnnha experincia  
A irm natureza!... Que no tenho vocao para a vida monstica? L isso  
verdade. Mas uma coisa  certa: sou franciscano de-.rain e a terra, o cu, a 
gua, as rvores, a seara, as sementes, as aves, os animais do campo, tudo 
faz eco dentro de mim a em mim canta, num hino magnfico, os louvores de 
Deus.
Recordo outras estaes do ano, outras tarefas, outras canseiras, que 
pelas suas caractersticas foi noutras regies que me tiveram como espectador. 
Martius habet dies xxxj.. A tosquia das ovelhas, o amanho dos pmpanos, a 
chegada das andorinhas, o canto do rouxinol, os bandos de tordos... mas onde 
foi isto? Onde?... E que casa era aquela que me persiste concreta na memria, 
mas que vejo s de fora? Porta larga, em arco, sem batentes, um boqueiro 
escuro que me impede de querer entrar... Por cima a janela quadrada, aberta, 
tambm negra para quem tivesse a veleidade de espreitar sequer o tecto. A 
seguir o telhado, de uma gua. A ramada, em frente, a todo o correr da casa 
para formar dossel, a ser podada a atada por um moo meio sentado num 
degrau da escada arrimada  parede lisa. Em baixo, o poo de que uma 
cachopa tira gua, um renque de rvores de fruto e a caniada que veda da 
vinha a cortinha da casa. Mais adiante uma fiada de cortios que algum vigia, 
os coelhos  solta em redor e, a distncia, penhascos alcantilados, arvoredo, 
um rio... Actividade febril. Por toda a parte homens a mulheres, que trabalham 
em ritmo certo mas vagarso,. quase mecnico, calados. De quando em 
quando, isolado, o canto triste de uma rapariga, enquanto num galho de rvore 
o pisco-ferreiro martela a tilinta a sua bigorna.
L h-de vir, meses depois; o colher dos frutos. Augustus habet dies 
xxxj. luna xxx. nox habet horas xj. dies "vo. x~i... Por onde andaram perdidos 
meus passos qu a paisagem  outra? Ao fundo, numa depres
so da linha verde-anil das colinas, polido como um espelho o cobre do 
mar oceano. Para c, aloirada a brilhante do restolho; a vasta plancie, em que 
se distinguem disseminados os vrios armazns da quinta ,com seus telhados 
de colmo, cheia de vida: Uma carroa de quatro rodas, tirada por duas juntas 
de bois, aguarda ao fundo que acabe de ser atulhada at ao cimo com o trigo 
recentemente ceifado que se v, por toda a parte, arrimado em altas medas 
boleadas. Uma outra, a abarrotar, vem j mais perto, puxada por duas parelhas 
de muares que um moo de comprido varapau ao ombro vai guiando. Um carro 
de bois, ainda por descarregar descansa com a cabealha no apoio, enquanto 
em volta, indiferentes  faina, porcos  solta esfocinham a terra a um bando de 
patos se passeia em fila desengonada, grasnando. Aves esvoaam em torno 
das rvores pejadas de frutos coloridos e, a um canto, um par de corvos 
banqueteia-se, em cima de uma meda,  vista de um enorme sardo policromo 
refastelado ao sol ardente. Passa l adiante o feitor a cavalo e, no centro, na 
grande eira, homens a mulheres com as cabeas resguardadas por largos 
chapus de palha limpam, peneiram a amontoam o gro. Dos corpos 
encalorados foram-se tirando peas de roupa que se penduraram na bifurcao 
dos ramos de uma rvore. O sol aperta. Um cantil de gua est 'suspenso dum 
galho. No cho uma cabacinha de vinho, par refrescar a goela a nimar os 
espritos, que a jorna no  a seco.
O grande ritual do vinho comea em Setembro. September hZ dies xxx. 
luna xxix. Nox h!~ horas x~. dies uero x~... Que azfama vai na vinha  Um 
carro de bois, com uma grande dorna em cima, est parado a meio, guardado 
pelo moo com seu cajado ferrado. Filas de rapazes a raparigas vm de todos 
os lados, com os cestos vindimos ao ombro, descarregar as uvas. Na vinha - o 
azul dos cachos a contrastar com o verde das folhas - homens a mulheres 
vindimam vergados. H cestos de uvas por toda a parte, no cho, pequenos 
para mais facilmente serem transportados. No terreiro, em volta da adega, 
procede-se ao ltimo preparo do vasilhame : uma fieira de pipas j est pronta, 
o tanoeiro d o derradeiro aperto nos aros de uma outra, enquanto dentro dos 
balseiros homens de pernas nuas vo pisando. a uva a debaigo do telheiro 
tambm o grande lagar de. peso e fuso geme espremendo os cachos. Escorre 
o sumo em sangue da ,bica:de pedra' para o cntaro colocado numa vasilha de 
aduelas a logo substitudo por utro mal se enche. Tenho ainda nos sentidos o 
gosto
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e o cheiro do vinho novo, que os da minha idade tanto gostvamos
        muitas vezes dava comigo  noite, na cama, a afag-lo com as mos,
de provar com grande distrbio das nossas barrigas. No tardava        a 
cismar no seu significado, at que o sono viesse diluir-me os pen-
muito tivssemos de ir a correr satisfazer as necessidades atrs de
        samentos com retalhos de vida que eu nunca soube aonde ia buscar.
uma rvore. Aflito arriar de calas, fazamos de esguicho, numa        At de 
dia era frequente tentar abri-lo, mas as minhas mos peque-
risota pegada vendo o cu e a grila uns aos outros. Tambm era assim
        nas a desajeitadas n.o o conseguiam, a alm disso havia sempre 
algum,
com o po acabado de sair do forno. Ainda ouo vozes esganiadas
        uma pessoa idosa, que eu via sempre alongando-se esbatida dos ps
gritarem-me: Po quente, muito na mo, pouco no ventrel Mas         
cabea l muito em cima a que a meu lado prevenia, numa voz inde-
que bem me sabia, sobretudo aquele po, creio que de farinhas mis-
        finida, ou melhor, numa mistura de vozes, roucas, claras, trmulas,
turadas, a que chamavam smea, saboroso a perfumado, entre a rudeza
        distantes, prximas, como ecoando em dornas vazias
da boroa e o apuro a brancura do trigo  Identifico sensaes da infn-
        - No mexas nisso 
cia no tempo que no no espao. O espao roubavam-mo com as        Nunca 
me falavam dele, at que um dia um frade no muito
contnuas mudanas, j que n.o podiam ou n.o queriam tirar-me
        velho, olhando em volta a ver se nos espreitavam, me sussurrou ao
o tempo. O gosto de certos frutos, de determnada casta de uva,        ouvido 
: Pchiu  No dissesse nada  Aquele medalho era uma caixi-
destes figos, daqueles albricoques, da.s amoras (Gostas de amoras?
        nha de ouro que continha uma relquia de So Pantaleo..., mas logo
you dizer ao teu pai que j namoras  - risadas da garotada, lem-
        assaltado no sei por que medos se afastava de mim, apressado : Por
bra-me bem), dos medronhos, o perfume de algumas plantas sil-        todos 
os santos ! No revelasse a quem quer que fosse que me tinha
vestres que me habituei a ver no monte - do rosmaninho, das este-
        dito aquilo... Nessa noite quase no dormi, a pensar na ligao
vas, do alecrim, do tomilho, do poejo, dos orgos, da nveda a at
        que poderia haver entre um tal So Pantaleo a mim. Resolvi perguz-
da irritante arruda- esses paladares a esses aromas sempre tiveram
        tar quele frade, no dia seguinte, quem era aquele santo. Procurei-o
o condo de me transportar aos tempos da minha meninice...        com 
ansiedade mas em parte nenhuma o encontrei, na capela, no
No me lembro da morte, pelo menos da morte de alb um que
        refeitrio, na cozinha. Era-me defeso ir bater  porta da sua cela e
particularmente me tocasse. Tinha dela notcia indirecta pelos sinais
        assim perguntei por ele a um irmo novio que encontrei na horta
egteriores que a sua passagem deigava nas pessoas: aqueles vultos
        do convento. Que o frade de que falava havia sido transferido pelo
rebuados de luto, de onde saam olhos entumescidos a vermelhos
        superior para um convento distante. Qual? No sabia mais nada,
de chorar, passando por mim, que me escondia nos vos dos por-        no 
perguntasse mais nada... a curvava-se a amanhar a terra em redor
tais, como figuras de pesadelo num grave silncio que parecia ter eco,
        dos ps das couves. Na altura no dei importncia ao facto. Nos dias
o guaiar pungente das carpideiras que eu ouvia de longe, o dobrar
        que se seguiram, na minha inocncia tornei-me extremamente indis-
soluante do bronze lgubre, em ulos uivantes apenas quebrados        creto, 
pois perguntava aos frades, ao catequista, aos monitores que
pelo grito frio do tintinbulo. Dir-se-is que ela passava ao largo,
        encontrava se sabiam dizer-me quem fosse So Pantaleo. Nenhum
sem me'deixar marcas na alma. No  por a que me aparecem na
        deles sabia, quase todos ficavam embaraados a alguns, depois de uns
lembrana as primeiras pessoas individualizadas a nominalmente idea-
        segundos de hesitao, voltavam-me as costas sem nada responderem.
tificadas, mas  relacionado com ela que isso acontece. Creio que        Nessa 
altura eu no podia entender que aqula era, para homens de
estava numa espcie de orfanato contguo a no sei se dependente
        religio, uma estranha ignorncia a um invulgar comportamento.
de um convento de franciscanos. No me recordo de quantos anos
        Grande dificuldade tive, portanto, em saber quem era esse santo e,
tinha. Assim como no sabia onde tinha nascido, tambm desco-        s 
COmo com a dificuldade aumentasse o interesse e a desconfiana, tor-
nhecia quando. Presumia, no entanto, que num dia vinte a sete de        nou-
se demasiado bvia a minha obsesso, de maneira que no tar-
Julho, se aquele medalho que trazia ao peito tinha alguma relao
        dou nada fosse levado por um fradelo franciscano para um stio
com a minha pessoa, como j ento me parecia natural. Desde 
pequeno,        diferente. Elboro hoje, sem dificuldade, o pensamento de quem
6        7
tinha o meu destino nas mos : um meio grande, populoso, 
movimentado, era a escolha excelente entre todas. Obviava a duas 
necessidades, a de melhor me misturar com os outros e a de me distrair das 
minhas preocupaes. Assim teriam pensado a assim se fez, mas sem os 
resultados esperados, porque a mim doravante j ningum me podia deter, o 
processo estava iniciado, eu partia  procura de mim prprio. Encontrei-me, 
assim, em Setbal, burgozinho agradvel, com suas colegiadas de frades, seus 
paos senhoriais, suas lindas igrejas a as pracetas onde desembocavam ruas 
aconchegadas cheias do movimento dos mercadores, a beira-rio to animada 
da faina dos pescadores, o largo esturio em que por vezes, rodeada pelos 
barcos de pesca, se via fundeada uma nau de el-rei, de partida para as ndias. 
O teor da minha vida no variou muito : a maior parte do tempo era passada no 
aperfeioamento da leitura a da escrita, na catequese, no estudo da msica, do 
canto, a por essa ocasio iniciou-se a aprendizagem do latim. Um vago 
pressentimento de que a minha mudana de terra estava relacionada com as 
perguntas que eu fazia sobre So Pantaleo tornou-me mais prudente. Resolvi 
disfarar a curiosidade e fingir que a ideia se me tinha varrido da cabea: no 
fiz mais aluses ao santo, na presena de pessoas nunca tocava no medalho 
ou sequer reparava nele. Senti que a vigilncia em volta de mim afrouxava, 
mas por meu lado jamais estive to atento, a espreitar a mais pequena 
circunstncia ou probabilidade de vir a saber o que queria: Um dia, sozinho, 
tentei abrir o relicrio: havia de facto, por detrs, uma espcie de tampazinha 
redonda a um fecho muito simples mas impedido de ser aberto por um pingo 
de chumbo. Uma pedra resolveria o assunto. Ainda cheguei a pegar nela, mas 
receei amolgar a caixa a que isso fosse notado. Desisti, decidido a aguardar 
melhor oportunidade.
Custou-me muito a adaptar-me aos novos companheiros, aos novos 
mestres. A medida que crescia cada vez me era mais penoso. Sentia-me 
isolado, mais s - uma solido a um isolamento todo de dentro, que me 
apartava do mundo exterior at quando esse mundo se apresentava ao 
derredor barulhento a bulioso - um solitrio andar por entre gente como por 
motivos bem diferentes a em desigual idade dizia um poeta meu amigo que 
Deus tenha. Criava ento o meu prprio mundo dando vida s coisas, falando 
com elas e fazendo-as falar comigo. Brr , dizia eu  gua gelada do Inverno,
quando de manhzinha, no lusco-fusco, tinha de lavar a cara. No s 
nada suave. Quem to ps assim to m? Mas nas horas de calor e de sede: 
Que boa s, amigal Deixa-me beijar-te. Sentia prazer em dizer isto, deixa-
me beijar-te, mas eu no conhecia beijos a no ser de ver alguns dos meus 
companheiros a beijarem as mes a por elas serem beijados quando iam de 
frias... Falava com o po, com a fruta das rvores, com os bois da quinta - 
Eh, Manso  Eh, Pintadol-, com os ces, com os coelhos a as galinhas... Se 
dava uma topada numa pedra, saa-me da boca um palavro daqueles que ns 
os putos surpreendamos aos adultos ou aprendamos uns com os outros a 
gostvamos de dizer pela calada para nos sentirmos homenzinhos. Porra! 
Merda! Filha da... saltibrrial Ahl Belas palavras universais que arrostavam 
com o tempo a com o espao, com as modas e os preconceitos! Sabiam-nas 
os prncipes a os vassalos, a taverna e a corte, a os marinheiros, quando em 
terras longnquas das ndias precisavam de organizar seus rudimentares 
lxicos para poderem dar-se a entender -e entenderem, no se esqueciam de 
as incluir..: Dirigia improprios a tudo o que me desagradava. Depois, 
malandreco que era, divertia-me todo na confisso - Mea culpa! Mea culpai 
Pecar por pensamentos, palavras a obras... - a ver o padre corar..: e no meu 
ntimo, quando ele me dava a absolvio, eu absolvia-o tambm do pecado de 
maus pensamentos... Falava com os livros, com a pena e o papel. Mas isso era 
outra histria. Eram os meus melhores companheiros... E no entanto era-me 
fcil, ainda sem o desejar nem promover, atrair as pessoas a criar amigos. 
Alm da minha afabilidade a desinibio, que me tornavam capaz de abordar 
os outros, at os mais severos, com naturalidade a desenvoltura, concorria 
para isso a minha prpria aparncia externa, que logo ao primeiro relance 
chamava as atenes. Eu bem o sentia a bem mo faziam sentir as moas 
quando eu passava na rua: O, lourinho! - Ai que azadinho, mulher! Ests a 
ver aquele que ali vai? Que belo marido vai dar!, e Deus me perdoe se me 
no envaidecia... A altura bem proporcionada do corpo, os cabelos de um loiro 
de espiga fartamente anelados a que a tesoura do barbeiro, no sei por que 
bulas, respeitava quando era desapiedada para com os outros rapazes que 
deixava quase carecas, as feies regulares animadas por uns olhos de um 
verde-azul-claro, transparente, a por uns lbios em cuja comissura se 
esboava o sorriso que a todo o momento se esperava ver desa
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brochar, o que de antemo predispunha os outros  simpatia. Estas 
caractersticas corporais contrastavam de tal maneira com as dos meus 
companheiros - geralmente meos, seno atarracados, trigueiros, cabelos 
negros a denotar o sangue das raas autctones, mediterrnicas, africanas-, 
tornavam-se, nesse cotejo, de tal jeito raras ou inesperadas que naturalmente a 
sua existncia ou insuspeitada a sbita revelao despertavam nos espritos - 
at no meu interrogaes que s com o tempo porventura algum ousaria 
formular. Os -da minha idade rodeavam-me, gostavam de sentar-se ao p de 
mim, disputavam-me para seu parceiro nos jogos do recreio, elegiam-me seu 
chefe natural; os mais velhos sentiam-se importantes a intimamente 
envaidecidos se me tomavam sob a sua proteco; os superiores tratavam-me 
com deferncia a se, pelas minhas diabruras, tinham de me castigar, faziam-no 
com uma bonomia que retirava ao castigo grande parte da sua rudeza a mo 
fazia assumir... sorrindo.
Entre os meus .amigos recentes havia um jovem postulante que desde 
logo se aproximara de mim, numa hora de descanso ao ar livre, me levara a 
passear pela quinta do convento com seus talhes de terra muito bem 
alinhados a aproveitados. Aqui as alfaces, cujo verde-claro a vioso realava 
com a bordadura das couves azuladas. Ali a alm o cebolo, o faval, a salsa. 
Aps a horta uma vasta rea perfumada de rvores de espinho, mancha de 
verde pespontado de amarelo, onde cantavam melros a cotovias. O 
franciscano no quer riqueza, ps-se o postulante a falar, num tom 
sentencioso, usando por vezes palavras menos costumadas a metforas 
triviais, dir-se-is que gostava de se ouvir. Como a ave do cu, bebe a gota de 
gua que Deus lhe atira da nuvem e, levada na asa do vento, ele recolhe na 
fresca cisterna, ou cada na terra a dessedenta, se aprofunda nela e vai brotar 
de uma frincha da rocha, encetando, fio de ouro a reverberar ao so , sua longa 
caminhada. O franciscano sustentava-se - estava eu a entender? - dos frutos 
ubrrimos da terra-me e, agradecido, esbatendo-se na natureza como um seu 
humlimo elemento, cantava louvores a Deus pelas suas ddivas...
As visitas  horta a ao pomar do convento ajudaram-me, nessa tenra 
idade, a tomar gosto por tudo o que era nascena a fruto natural a pelos nomes 
que se lhes dava. Este atento exame do pormenor a do particular d forma 
desde logo a uma das minhas tendncias adquiri cedo um esprito propenso  
anlise. Mais tarde, com as via
gens a com as leituras de obras ecumnicas que revelavam, em amplo 
panorama, os factos importantes que se estavam a passar no mundo, 
completei esse meu pendor com o justo remate da sntese. Sentados por 
momentos  sombra das laranjeiras, sorvendo o suco refrescante dos seus 
amarelos pomos sumarentos, o meu amigo contava-me estar aguardando que 
os superiores, o captulo, dessem o men ao seu ingresso no noviciado. Era 
um primeiro passo difcil na sua vida - no estava a ver? -, quase to 
importante como depois, mais tarde, quando fizesse os votos a se tornasse 
monge confesso. Ah  Mas ele estava firmemente decidido, a sua vocao - no 
tinha dvidas - era segura...
- E to queres ser franciscano? - perguntava ele.
E dentro de mim soava a reboava a tocava a rebate aquele queres. 
Dava-me conta de que, ainda que no quisesse, no tinha querer. Sabia que 
no queria e, de sbito, caa sobre mite a evidncia de que tinha de querer o 
que no queria, de que no era senhor de mim, de que a minha vida era guiada 
a destinada por algum,. de que nem ao menos conhecia a quem pudesse 
gritar que no queria. Sentia-me dependente de um ser invisvel. Quem 
mandava em mim? De quem era eu? Olhava em volta. De quem eram eles, os 
meus companheiros?... Ser de, naquela idade, no era afinal coisa de 
somenos. Perguntado, o meu amigo contou-me que tinha sado de casa com a 
anuncia a compreenso de seu pa.i a com as lgrimas da me. Como ficasse 
por instantes com a voz embargada, calou-se. Senti que aquele era para 
ambos um assunto melindroso a desviei a conversa para ponto que mais me 
interessava a perguntei-lhe se conhecia So Pantaleo. Que no, que no 
conhecia, mas o missal referia o santo de cada dia a ele podia procurar, ou ver 
em algum hagiolgio como os Legenda Aurea, de Voragine, ou no Flos 
Sanctorum. Pedi-lhe que o fizesse com toda a ca.utela a discrio a referi-lhe o 
suficiente das mnhas apreenses para que ele o levasse a peito. Estivesse 
descansado que logo ia deitar mos  obral... Da a dias veio ter comigo, 
estampada no rosto a egpresso do maior espanto. No havia nenhum So 
Pantaleo  Nem no missal, nem em Voragine, nem no Flos Sanctoruml... 
Fiquei perplezo. Conversmos algum tempo sobre aquele inslito facto de eu 
trazer ao peito uma relquia de um santo que no existia. Depois calmo-nos, 
com uma enjoativa sensao de medo, que nos fazia arrepiar-se a pele, de 
estarmos a caminhar em terreno perigoso, a tocar em arca
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nos que no deveriam ser sondados. Os nossos receios nao eram 
infundados, pois no tardaram a surgir sinais de que no era desejada to 
chegada amizade a comrcio com a minha pessoa. O meu amigo, nas horas a 
que habitualmente nos poderamos encontrar, era subitamente afastado com 
tarefas que pareciam ocorrer por acaso, at que totalmente o deigei de ver. 
Chegou-me ao conhecimento que haviam considerado no ter ele suficiente 
vocao para ingressar no noviciado, pelo. que teve de abandonar o convento 
sem poder sequer despedir-se. de mim.
Rumo inesperado tomam todavia os acontecimentos. Com a 
aprendizagem do latim, ns, os mais pequenos, comemos a ajudar  missa. 
Todos os dias calhava a vez a um, enquanto os outros combinavam o fio 
purssimo das suas vozes cm os cheios a graves dos mais idosos a 
adiantados, entoando em coro os hinos litrgicos. Corria o ms de julho. Um 
fidalgo da mais alta nobreza, parente de reis; mestre de Santiago a de Avis, 
que, alm de possuir abastados senhorios no Centro do pals, era senhor de 
vastas terras que se estendiam desde Setbal, onde tinha seus paos, at ao 
termo de vora, havia uferecido ao convento um missal novo, obra ultimamente 
impressa, encadernado a couro, pregueado com broches de prata, assim como 
de prata eram suas cantoneiras. Os irmos franciscanos, na sua simplicidade, 
habituados a no terem mimos nem atavios, com pouco se contentam, quanto 
mais com uma ddiva to preciosa! Era gostoso de ver - at os mais novos 
notvamos - a alegria com que o presbtero folheava aquelas pginas ainda 
brancas, ornadas de finssimas iluminuras coloridas, a lia aqueles caracteres 
ntidos que cheiravam a tinta fresca e o prazer que tambm ns, os pequenos 
ajudantes, sentamos em pegar nele quando se apresentava a ocasio de 
haver de mud-lo do lado da epstola para o do evangelho ou vice-versa. 
Quanto a mim sentia profunda emoo em ajudar  missa. Estar ali to perto 
daquilo que para mim era redobrado mistrio ... Mistrio era palavra que ouvia 
todos os dias na catequese e que muito fundamente me tocava. No havia 
tambm em mim,  minha volta, escuro mistrio? O insondvel marcou=me 
pela vida fora, porque depois, desde bem cedo, a com o avanar da idade, 
aprendi que a religio vive do mistrio a que a revelao tem de ser sempre 
meia revelao. u ouvira falar, ou lera algures, dos mistrios de Elusis; no 
vasto templo rodeado de ciparissos da deusa Demter, divin
dade que representava o volver cclico das estaes do ano. Sabia das 
iniciaes esotricas da seita pitagrica a dos segredos dos rituais rficos a do 
inefvel simbolismo de Isis, nas margens do Nilo onde, por entre os papiros a 
as flores de ltus, passeia a suave ibis a esvoaa o falco a rasteja a cobra-
capelo,  luz ardente do sol do deserto, em frente das grandes pirmides. Lera 
o livro de Marco Polo que narra os costumes estranhos a as crenas esquisitas 
dos povos que habitam na grande China. Pessoas que a todo o momento 
acudiam das ndias Orientais contavam os mais inauditos factos relacionados 
com a f daquelas- naes. Tudo era mistrios, segredos bem guardados. A 
mais leve indiscrio podia pagar-se com a vida. Recentemente tenho 
confirmado este meu sentimento a opinio, com os muitos contactos a 
conversao havidos com tantas a desvairadas gentes de utras religies, 
sobretudo judeus portugueses de c, fugidos a espalhados por terras do 
Mediterrneo. A f hebraica sustenta-se na crena de que o Messias est a 
chegar. Ele chegou a no o reconheceram nem o aceitaram. Era lgico : 
perderiam a sua crena nos antigos mistrios, tal o vigor das novidades que 
Ele veio trazer. Muitos dos meus irmos franciscanos, quando me ouvem falar 
assim, dizem que tenho ideias muito ousadas, mas eles bem sabem que elas 
no passam da verificao de um facto que nada tem a ver com o meu repdio 
das ideias a falsos deuses dos pagos. Vem a colao apenas para notifica.r 
que desde muito novo me habituei a sentir como coisa palpvel o mistrio que 
impregna e  sustentculo da religio...
Naquele tempo, pois, ao aproximar-me do altar sentia na pele o mistrio 
que dele se evolava, que ele egalava das formas, dos simbolos, das figuras 
hierticas dos cones, da talha dourada do retbulo, do baldaquino, da porta do 
sacrrio, do rudo da chave na porta do sacrrio, do ouro a lavrado das alfaias 
do culto, do bordado dos paramentos, do linho alvssimo das toalhas, do cheiro 
a cera e a incenso. Realavam-no o silncio e a meia obscuridade do templo 
ou a luz coada por vitrais, o andar vagaroso a concentrado das pessoas, o 
ciciar das vozes... Sempre que chegava a minha vez de ajudar  missa, fazia-o 
com uma solene religiosidade, no isenta de certa emoo, o que um dia me 
levou a quase me desequilibrar a meio dos degraus do altar. Tropecei. O 
missal, aberto, oscilou na sua estante, algumas laudas abriram-se com o 
deslocamento de ar que entre elas se insinuara por momentos a uma pequena 
tira de papel, que talvez
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estivesse a marcar uma pgina, soltou-se ento, a librando a ondeando 
foi cair no cho. Recuperado rapidamente o equilbrio, coloquei o missal sobre 
o altar; no lado esquerdo, a vim ocupar o meu posto, de p, enquanto o 
ministro lia o Evangelho. De novo de joelhos, ao Credo, reparo no papel cado 
num degrau, ali a meu lado. Apanhei-o, naquele gesto quase automtico de 
quem foi habituado  mais escrupulosa limpeza, a no lanar papis no cho, a 
como a continuao do ofcio divino exigisse a minha ateno - seguia-se o 
Ofertrio a era preciso apresentar as galhetas ao celebrante - guardei-o num 
bolso por baixo da sobrepeliz. Aps a missa, que era muito cedo, a hora de 
prima, dirigimo-nos, como sempre, em fila - os mais novos  frente, seguidos 
dos outros em gradao de estudos a de hierarquia -, no mais rigoroso silncio, 
ao refeitrio. Depois de uma breve orao a pedir a Deus a bno do alimento 
que amos tomar, serviam-nos leite a p,o que ns consumamos com grande 
consolo dos nossos estmagos, mas sem sofreguido: j havamos sido muitas 
vezes admoestados pelos monitores de que o acto de comer deve ter a 
elevao espiritual bastante para lhe retirar quaisquer resqucios de 
animalidade - non vivit homo ut manducet, .red manducat ut vivat. Sempre 
tenho pensado nesta sentena de Digenes de Larcio, de que mais tarde, em 
Veneza, adquiri uma velha edio de 49o das Vitae et Sententiae. No me 
esqueo, at, de um dito do mestre monitor que naquele tempo nos tinha a seu 
cargo como se framos o seu rebanho. Frade muito jovem, de feies brancas 
a angulosas, queixo proeminente, cabelo ruivo, ondeado, sobre a testa um 
caracol pendente que constantemente anelava com o polegar e o indicador, e 
aqueles lbios muito bem recortados, como os de uma esttua grega, que se 
abriam a fechavam com uma preciso matemtica ao pronunciarem, na sua 
voz encorpada a timbrada, numa dico perfeita, todas as slabas das palavras. 
Sempre nos devamos levantar da mesa com um pouco de apetite: essa era a 
regra de ouro da higiene corporal e espiritual. O facto, porm, era que, no 
obstante estas ideias calarem em mim, no deixava eu de pensar, olhando 
bem em volta a realidade das coisas, que tudo se processava ao invs. O 
homem vivia na busca do imediato, do ter a do comer. S uns quantos, muito 
poucos, conseguiam desprender-se das urgncias da carne a superar, 
espiritualizar, sublimar os instintos. Nesse aspecto, embora me soubesse muito 
bem a refeio que tomava - aquele leite denso a suculento, aquele po 
perfumado -, no me custava nada aceitar a orientao dos meus superiores 
franciscanos, que tinham como norma a pobreza e o evanglico angariar do 
estrito po de cada dia. Acabada a refeio a recitada a orao de aco de 
graas, dirigamo-nos para o grande salo de estudo onde nos preparvamos 
para as aulas, que no tardavm a comear, mal a sineta tocava. Toda a 
escola, contgua ao convento, era ento uma grande colmeia de trabalho. No 
havia ningam desocupado, desde as crianas que ns ramos - uma espcie 
de viveiro ou seminrio -, passando pelos mais adiantados, os postulantes, os 
novios. Os mestres eram recrutados no convento entre os frades de mais 
sabedoria a experincia, que leccionavam as disciplinas mais avanadas a 
especializadas. As aulas de iniciao eram ministradas pelos irmos que 
haviam professado recentemente a revelado propenso para o magistrio. 
Sempre me infundiu um profundo respeito ver os mestres passarem, com seus 
livros nas mos ou debaixo do brao, o andar calmo e o semblante sem 
paixes de quem atingiu a serenidade da sapincia. Ouvi-los falar era para mim 
motivo de enlevo a os seus ensinamentos penetravam-me no espirito sedento 
sem admitirem rplica : o que eles diziam era a verdade. Ento, eu no sabia 
ainda o que era a opinio, desconhecia que um mesmo assunto podia ser 
encarado por ngulos diferentes a nem sempre as ideias das pessoas 
coincidiam. Quando mais tarde assisti maravilhado a algumas sesses do 
Concilio de Trento, aprendi que homens tidos como sbios a doutos, os mais 
doutos a sbios que a Cristandade elegera a enviara quela cidade italiana, 
podiam discutir a debater uma questo por prismas diversos a no raro 
antagnicos. Era este um terreno resvaladio, diziam-me, que s a muita 
santidade a iseno desses doutores e a sua inteligncia iluminada pelo divino 
Esprito Santo podiam arrostar, estava eu a entender? A incerteza a 
pusilanimidade eram armas do anjo das trevas. Assaltavam os menos 
escudados a ai de quem vacilasse a deixasse entrar no seu corao a semente 
da dvida. A escola no entanto, sobretudo nos anos de iniciao, tinha o 
sacrossanto encargo de formar os espritos a as alinas, lanando os alicerces a 
as traves-mestras da verdade que havia de levar  santificao, ltimo escopo 
de toda a cincia humana. Tinha pois de ser normativa a dogmtica.
Eu ficava parado a ver passar os mestres e a cismar em que tambm 
um dia gostaria de ser sabedor como eles. Isso levava-me a dedi
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car-me afincadamente ao estudo.  por essa altura que as pessoas que 
me rodeiam surgem na minha memria com nome prprio, bem identificadas. 
Recordo-me a estou a ver como se fosse hoje... Porque me ficou essa cena to 
gravada na lembrana que ainda agora h qualquer coisa, muito vaga, nas 
profundezas de mim, que me di?... Era numa sacristia. Ao longo da paxede, 
engastado nela a em cima de um estrado baixo, corria aquele imenso, 
comprido a alto mvel, de bela nogueira lustrosa de um castanho rosado a 
quente, com seus enormes gavetes onde se guardavam as alfaias do culto a 
os paramentos, que cheiravam a alecrim e a espicanardo. Na parede seguinte 
um axcaz grande, tachonado, um banco corrido a por cima uma janela gtica, 
geminada, com vitral. No lado oposto, logo  esquerda de quem entra, a pia da 
gua benta, concha espalmada de mrmore branco, com nervuras a relevos 
lavrados por fino cinzel, a que a maior parte de ns ainda no chegava seno 
em bicos dos ps. E ns ramos aqueles pequenos seres que no meio da 
ampla quadra, sentados em cr culo nuns escabelos de madeira, muito rasos, 
rodevamos aquele jovem fradelo vestido de grosseiro burel castanho, cingido 
de corda, que lhe fazia cair em pregas midas a sotaina. Capuz atirado para a 
nuca, segurando na mo uma cana que no nos metia medo, o caxacol ruivo 
na testa a atrair-nos a ateno, ensinava-nos- a doutrina. Nessa poca - 
estaramos a por volta de r 5 3q. - ainda n.o tinha reunido o Conclio de 
Trento para sair a terreiro contra o protestantismo que campeava na Europa. 
Ainda no havia surgido a nova formulao da doutrina, a remodelao dos 
mtodos de ensinar que haviam de esclarecer os espritos perturbados a 
incautos em face da heresia que alastrava. No tardaria, com efeito, em 
resultado dessa esforada a ingente mobilizao dos mais doutos crebros da 
Cristandade, a ver-se chegax aos prelos das naes catlicas, em 
extraordinria profuso, as teses, os sermes, as homilias, os novos missais, 
os compndios a esses pequenos livros, maravilha de sntese de toda a 
doutrina, que eram os catecismos. Bem me lembro de ver a folhear essas 
novidades nas bancas dos livreiros nas ruas buliosas de Roma, de Veneza, 
de Trento, por toda a Itlia. Grande impulsionador desse esforo de publicar os 
resultados do conclio, para os pr em aco, foi o arcebispo de Milo, Carlos 
Borromeu, ele prprio autor de um catecismo que veio a lume em i 5 66, a no 
nosso Portugal recordo o zelo incansvel de D. Frei Bartolomeu dos Mrtires, 
arcebispo e
senhor de Braga, primaz das Espanhas, que, entre outras obras de 
arstianssima doutrina, publicou em i 5 6q. naquela cidade, por mandado de el-
rei a em casa do tipgrafo rgio Antnio de Mariz, um catecismo ou doutrina 
crist a prticas espirituais, para use no s dos sacerdotes que tm cargo de 
almas nas igrejas de sua obrigao, mas ainda dos mestrados de Santiago a 
de Avis, obra que foi depois'vrias vezes reeditada em Coimbra a em Lisboa. 
Eu a os livros entendemo-nos. Somos irmos de solido. Falo com eles a eles 
comigo. Chamam-me. Uma ocasi entrei em casa. do imprimidor Marcos 
Borges, que tem oficina ali por detrs da Ermidinha de Nossa Senhora da 
Palma, e de uma estante em que se enfileirava com outros ele chamou por 
mim, como se me puxasse pela manga, quando eu folheava outras obras: 
Ento no o via? O seu autor era meu conhecido a amigo, o arcebispo de 
Braga... Tambm a me chamou a ateno com insistncia. a Cartinha para 
Ensinar a Ler, com os Mistrios de Nossa Santa F, de um outro amigo meu, 
douto telogo, D. Frei Joo Soares, bispo de Coimbra a conde de Arganil. Obra 
maneirinha a leve, que se pode trazer na algibeira ou na manga do hbito a 
no como essas outras pesadonas, grossas, incmodas, que encontramos nas 
bibliotecas acorrentadas s estantes, pobres livros agrilhoados!... Outro 
catecismo, agora de Nossa Santidade o Papa Pio V, ps-se-me aos gritos a 
chamar por mim ao passar eu um dia pela Rua dos Espingardeiros, em frente 
da casa do livreiro Joo Lopes.  uma obrinha que por mandado do 
Ilustrssimo a Reverendssimo Metropolitano Arcebispo de Lisboa, o Senhor D. 
Miguel de Castro, foi tresladada do latim em linguagem pelo doutor em 
Teologia padre Cristvo de Matos a publicada na oficina de Antnio Alvares, 
impressor do arcebispo.
Era uma das minhas muitas fraquezas essa do apego aos livros, mas 
acontecia que, quando eu saa a calcorrear Lisboa, sempre acudia algum, o 
abade, o bibliotecrio, a incumbirem-me de adquirir livros que iam enriquecer a 
livraria do convento. Agora sei que no era ocasionalmente.
A doutrina, portanto, naquela poca da minha meninice, era-nos 
ministrada  maneira velha a tradicional, cujas bases a orientao radicavam 
em obras muito antigas, como o tratado de nosso padre Santo Agostinho, De 
Catechisandis rudibus, os Discursos Catequisticos, de So Cirilo, a Orafo 
Catequtica, de So Gregrio de Nissa. Muito da antiga tradio oral dos 
ensinamentos persistia, embora a j cada vez mais
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apoiada em textos sagrados que o leitor nos fazia ouvir a comentava em 
esclios conceituosos. Eram crescentemente evidentes os frutos que se 
estavam tirando dessa nova a maravilhosa inveno que  a arte da 
imprimisso de livros. Dizem alguns que  pau de dois bicos : Os inimigos da 
nossa santa religio tambm escrevem e no desfalecem de publicar as suas 
ideias aleivosas a de assaltar a fortaleza da F  Bem as vi, nas terras por que 
passei, essas obras que saram da pena de um Lutero, de um Zwnglio, de um 
Calvino e de outros autores.
Nesse dia o fradelo havia-nos lido o Sermo da Montanha, do Evangelho 
de So Mateus, a comentava uma a uma as oito bem-aventuranas. Na fase 
da fixao memorial, obrigava-nos a repetir em coro, monocordicamente, as 
oito bem-aventuranas, numa cantilena enfadonha, fastienta, at  saciedade, 
ao sono, que ns prosseguamos olhando distraidamente ou para o vitral e o 
sol que por ele coava, ou para a porta que deitava para o ptio, na nsia de 
irmos brincar a comer
- Bem-aventurados os mansos, porque ho-de possuir a terra. - Bem-
aventurados os que choram, porque sero consolados. - Bem-aventurados os 
pacficos, porque sero chamados filhos de Deus.
Eu beliscava o companheiro do lado. Irmo, este menino beliscou-me.
- Bem-aventurados os que sofrem perseguio pela justia, borque deles 
 o reino dos cus.
E enquanto eu fico de castigo, de joelhos, de costas para o vitral, o 
fradelo manda os outros irem correr l fora, ao sol, a sai tambm. Eu viro-me 
logo de frente para o vitral, sento-me sobre os calcanhares, esquecido de tudo, 
boca a olhos bem abertos na funda contemplao do deslumbramento da luz, 
da polifonia das cores, da transfigurao sobrenatural das formas. No decorre 
muito tempo desde que estou neste enlevo quando ouo passos a entra na 
sacristia uma mulher nova que denota uma certa inquietao. Se vira Frei 
Andrade. Fora at l fora com os outros - respondia. E eu no ia? Estava a 
rezar? No, estava era de castigo.
- Oh, meu pequenino - a pega-me ao colo, sentando-se no banco. 
Como me chamava?, os seus olhos sorriem-me, os seus
lbios, quentes, macios, beijam-me, mas so os seus seios estalando 
rijos a pejados, lcteos, no corpinho leve, que me atraem numa atraco 
indizvel a me provocam na boca uma inslita salivao.
- Joo. .
- Joo qu?
Nunca sen.o naquele momento havia reparado que era s Joo. Os 
outros podiam dizer que eram Fulauos de qualquer coisa, Sicranos de tal, filhos 
de algo.
- Joo - respondo eu, encolhendo os ombros. Ela compreendia. Um 
rfo certamente. E que fizera o joozinho para merecer castigo?
- Belisquei o meu companheiro.
- Seu maroto - exclama sorrindo-me a endireitando-me os caracis na 
cabea. Um menino to bonito ! Prometesse-lhe que no tornava a fazer 
aquilo, prometia?, a encosta-me maternalmente a cabea ao peito, enquanto 
me afaga.
- Prmeto - respondo, deixando-me estar encostado, fechando os olhos 
por momentos, sentindo em todo o meu ser um indefinido cansao que vem de 
trs, doutro tempo, no sei de onde, a um estranho bem-estar que deve 
certamente de ser o que sentem os anjos no Cu.
- Lindo menino - diz ela, dando-me um beijo. Depois, pondo-me no cho: 
Se lhe ia pelo fradelo? Precisava muito de falar com ele.
Vou pr-me a caminho quando entra o fradelo
- Que ests a fazer? - grita zangado. - No to disse para ficares de...
- Fui eu que lhe disse que vos fosse chamar, irmo - interrompeu ela. A 
me do Berto acabara de falecer. Tinha de o levar consigo...
O Senhor tivesse a sua alma em descanso  Seguisse-o. Ia chamar o 
menino.
- Amm - diz ela a vai seguir o fradelo mas eu toco-lhe a mo, olho-a a 
sorrir. Ela inclina-se, d-me um beijo a sussurra-me ao ouvido
- No to esqueas do que prometeste.
- No me esqueo - respondo eu, sussurrando por minha vez, num 
perfeito estado de beatitude.
2g 29
Ela saiu. Nunca mais a vi, mas tambm nunca mais me esqueci do que 
lhe havia prometido a passei a beliscar os outros companheiros... menos 
aquele. Durante muito tempo tambm no tornmos a ver o Berto. Soubemos 
que esteve gravemente doente com o abalo sofrido pela morte da me. Deixara 
de comer, chorava lgrimas a fio constantemente, no dormia a definhava de 
tal sorte que era s ossos. Mais se acentuou ento no meu esprito o reparo 
que j havia tempos fizera de que aquele grupo de catecmenos era 
constitudo por duas espcies de rapazinhos, os externos a os internos. Aos 
primeiros vinham-nos buscar, ao fim das aulas, as serviais das senhoras suas 
mes e, s vezes, as senhoras suas mes em pessoa, todas perfumadas a 
ataviadas de veludos a de sedas, tecidss. preciosos cujo uso; por ordenao 
do tempo de el-rei D. Joo II, s no era defeso a donas a senhores muito 
ilustres. Quanto a ns outros, recolhamos ao internato, em regime de completo 
silncio, as horas todas distribudas por tarefas impostas em calendrio rgido, 
ordenado a toque de sineta, com interminveis rezas a cantos na capela, 
severa disciplina na grande sala de estudo a no refeitrio, at acabar o dia no 
recolher, exaustos, ao dormitrio de brancas camas alinhadas, homogneas, 
fris, no desvo de umas compridas a desconfortveis guas-furtadas. Nessa 
noite, mal me deitei; adormeci a desatei a sonhar. Eram imagens dispersas, 
dilaceradas, partidas, que apareciam a se transformavam, iam a vinham, 
ntidas, esbatidas ou disformes, mas sempre acabavam por vir dar a um tema 
central: uma descomunal pia de gua benta encimada por um imenso vitral, 
cuja figura principal, em p, esguia, a toda a altura, era Nossa Senhora. 
Segurava ao colo o Menino Jesus. Eu estava sentado nos calcanhares, em 
cima de uma nuvem que no sei se fazia parte do vitral se no, a aos meus 
olhos a figura da Virgem Maria comeou a sorrir-me, com as feies bonitas 
que eu vira na sacristia quela mulher jovem que, por via da morte de me de 
algum indefinido, me pegara ao colo... O Menino Jesus era eu, ela anelava-
me com seus dedos suaves a madeixa dos cabelos a eu, os ps descalos a 
rechonchudos a rebulir irrequietos e rosados, tomava consoladamente a 
mamada de um dos seus rotundos a fecundos seios. Interpunha-se depois a 
imagem de Berto, a chorar, levado pela mo de uma figura esfumada, a logo a 
desvanecer-se a com ela a esvair-se o sonho todo. Quando de manh a sineta 
tocou, lavei-me como um sonmbulo, vesti-me como um sonmbulo,
fiz a cama como um sonmbulo a com os outros dirigi-me para a capela 
como um sonmbulo, de tal modo o que se passara na vspera e o que eu 
sonhara ocupavam o meu esprito. Todavia a divina Providncia havia 
destinado que outro facto bem mais extraordinrio viesse relegar esse para um 
plano no de esquecimento mas de momentneo apagamento. Foi o caso que, 
ao meter inadvertidamente a mo num bolso; dei conta daquela tira de papel 
que havia cado do missal quando eu ajudara  missa. Estvamos j na capela. 
Um corredor ao meio, a todo o comprimento, separava as duas sies de 
bancadas. Dupla fila de sobrepelizes brancas segue em silncio e abre a um 
lado a outro para nos acomodarmos nas fileiras daqueles longos assentos 
cujos espaldares serviam, para os de trs, de apoio cimeiro do genuflexrio. 
Calhara-me encabear a entrada numa das fileiras, de modo que o meu lugar 
era junto da parede. Tinha apenas um companheiro  minha esquerda, o que 
sobremaneira me aprazia, pois gostava, sbretudo naquele momento, de estar 
isolado. Atrs de ns ouviam-se os passos dos que vinham chegando a se 
arrumavam. Enquanto espervamos que as bancadas,  nossa retaguarda, se 
fossem enchendo, num gesto inconsciente olhei a tira de papel que conservara 
na mo. Como a tinha amarrotado um pouco ela entreabrira-se a eu reparei 
que afinal n.o era uma tira mas uma folha dobrada a meio, no sentido 
longitudinal. Abri-a. Estava toda escrita de alto a baixo com uma letra miudinha, 
muito certa a alinhada como a rgua. Logo s primeiras palavras ps-se-me o 
corao, como um louco, a pulsar muito depressa a tudo o que estava  minha 
volta desapareceu. Fechei a folha a guardei-a no bolso, para sossegar a com 
medo de ser visto : ela referia-se a So Pantaleo  Precisava de estar s, mas 
estar s  coisa difcil numa comunidade. Praticamente, tirante a hora do sono 
e a do banho, s h uma ocasio em que se pode estar s. Aproveitei-a, logo 
que pude, a ento, no recato pouco cmodo da sentina, li o que estava escrito 
naquela folha de papel.
Em i 4 S 3 , no dia vinte a sete de julho, fundeara em Miragaia, no rio 
Douro, uma embarcao tripulada por cristos armnios que vinham fugidos 
das chacinas que Maomet II havia praticado nas longnquas terras do Imprio' 
Romano do Oriente a sobretudo em Constantiaopla. Quando as hordas 
daquele rei infiel saquear-am a cidade, a custo aqueles cristos conseguiram 
escapar a savar da devastao furiosa dos mpios as relquias de So 
Pantaleo. Era este santo um fisico ilus
30 3
tre de Nicomedia, na Bitnia, filho do gentio Eustrquio a de uma
        licena para executar a promessa do pai. O rei no s consente como
moa crist chamada Eubula. Havia a me sabido transmitir ao filho
        ele prprio d ordem para que, a suas expensas, se d aviamento 
a verdade de Cristo e, no tempo do imperador Diocleciano, foi ele        feitura 
da obra, de modo que ela seja condigna de uma promessa real.
preso por causa da sua f. Recebeu a coroa do martrio cerca do ano
        Uma vez acabada a estando D. Manuel de longada em peregrina.-
303 da nossa era, sendo venerado, pelos seus extraordinrios mila-
        o a Santiago de Compostela, ao passar pelo Porto, num luzido e
gres, na Igreja Ortodoxa grega. As relquias do taumaturgo, vindas
        solene to deum presidido pelo bispo D. Diogo na s catedral, entrega
agora para Portugal, foram depositadas na Igreja de S. Pedro de Mira-
         cidade, na companhia de D. Jorge, o precioso relicrio.
gaia, junto da qual aos armnios, que pediam asilo, foi concedido        Mais 
no dizia o papel a eu ficava perplexo. Nesse dia vrias
tomarem arruamento, constituindo-se eles foreiros do cabido da s
        vezes fui repreendido pelo meu alheamento a s pude pensar sosse-
do Porto. Ainda hoje essa rua, se chama Rua dos Armnios. Esse
        gadamente  noite na cama. Que tinha eu sabido que desse resposta
mesmo ano abateu-se sobre o velho burgo portucalense uma terr-
        s minhas interrogaes ? Que teriam a ver comigo os factos rela-
vel peste que ameaou desde logo dizimar muitas vidas. Apegaram=se
        cionados com a queda do Imprio Romano do Oriente? Ou com mar-
os fiis a So Pantaleo a logo aquela pestilncia se extinguiu. Seme-
        trio de S4 Pantaleo nas terras longinquas da Bitnia, no longnquo
lhante maravilha trouxe redobrado prestgio ao santo de Nicomedia,
        sculo IV? Ou a fuga dos armnios?... Nada, evidentemente. Seria
de modo que os burgueses da cidade, agradecidos, tendo  cabea
        ridculo. E Miragaia? E a cidade do Porto? Ou o bispo D. Diogo
o seu prelado, o proclamaram padroeiro do Porto e, poucos anos        de 
Sousa? Ou as promessas feitas durante a peste grande? Ou el-rei
volvidos, em doze de Dezembro de 496, o bispo D. Diogo de Sousa
        D. Joo II? Ou o duque de Coimbra, mestre de Santiago a de Avis?
fez trasladar, com solene procisso em que se incorporou toda a        Ou D. 
Manuel?... Procurava hierarquizar as perguntas a eliminar
gene do stio a das redondezas, as santas , relquias para a s catedral.
        imediatamente as mais ilgicas a insensatas. Quem me havia pendu-
Aconteceu, ademais, que em 482 - subira ao trono por morte de        rado 
ao pescoo um medalho com uma relquia de So Pantaleo?...
D. Afonso V seu filho D. Joo - assolou o reino, vinda de Veneza,        Ao 
chegar a este ponto das minhas interrogaes, parei. Talvez fosse
a peste grande que s na cidade de Lisboa fez sessenta mil vtimas.
        isso  Era o mais simples, a explicao mais plausvel : algum, uma
Ouvindo el-rei falar dos milagres que Deus fazia por intermdio do
        mulher talvez, talvez aquela que me dera  luz, empreendera ao ter
seu servo, o padroeiro da cidade do Porto, ateve-se quele santo mila-
        de me deixar, sabia-se l porqu, encomendar-me quele santo que
greiro a fez promessa de lhe mandar lavrar um relicrio de prata que
        to subitamente viera de longes terras dar alvio aos Portugueses
condignamente acolhesse as sagradas relquias. O cumprimento desta
        em tempo de peste a sofrimentol... Mas quem podia ter acesso a
promessa todavia foi-se atrasando, protelando a caindo quase no        uma 
relquia
pequena que fosse
do santo taumaturgo
se o rei e o
esquecimento, dados os agitados a perturbantes factos que sucessi-
        ,
,
,
bispo solenemente guardaram aqueles sagrados restos em riqussimo
vamente foram abalando o reinado daquele monarca: a morte, em
        relicrio,  vista do povo de Deus? E aquele precioso medalho de
Setbal, do duque de Viseu, s mos do prprio rei; a execuo do
        ouro? No era qualquer pessoa que podia encomendar uma tal jia.
duque de Bragana, D. Fernando, na praa pblica de Jvora; o desas-
        No o permitiam as posses da maioria, nem o consentiam as leis do
tre trgico do prfncipe D. Afonso, ao qual o rei pouco sobreviveu,        use 
dos metais preciosos. E a que critrio teria obedecido a escolha
falando-se  puridade que a sua morte intempestiva no fora casual...
        daquele santo? Teria eu estado doente? Teria sido a data, tal dia e
No conseguira D. Joo II que fosse herdeiro do trono seu filho bas.
        tal ms? Mas nesse caso porque no escolher, para esse mesmo dia
tardo D. Jorge,..duque de Coimbra, mas o novo rei, D. Manuel, dese-
        a ms, o outro santo do calendrio do martirolgio? No era ver-
jando imprimir ao seu reinado o timbre do apaziguamento que o        dade 
que So Pantaleo no figurava ainda nesse martirolgio e, por-
anterior no houvera, adopta a trata D. Jorge como se fora seu filho.
        tanto, no missal romano?... No encontrando resposta para a mul-
Aproveitando este o bom clima esistente entre si e o rei, solicita        tido 
de perguntas que me acudiam ao espirito, pensava ser preciso
32 33
saber se dentro do medalho havia algum sinal esclarecedor. Era 
urgente abri-lo e, a partir de ento, no descansei enquanto o no consegui. 
Um dia, de tanto o roar, esfregar, limar com todo o caco de vidro ou pedra 
mais lascada ou acerada que encontrava, o pingo de chumbo que impedia o 
fecho cedeu a eu pude finalmente abrir aquele cofrezinho. Dentro havia um 
pedacinho de tecido desbotado e quase a desfazer-se. Retirei-o com cuidado. 
No fundo da pequena caixa estava gravado um enigmtico desenho: um 
pelicano com uma estrela de cinco pontas no peito. No verso da tampa, em 
bem visvel inciso, pude ler o seguinte:
II
A letra pitagrica
XXVIJ . IUL LHO . M.D.
xxVJ
... bivium autem Y litterae a iuventute incipere...
... porm a bifurcao da letra Y comeava com a juventude...
(Srv., Aen., VI, 36)
- V tu, irmo Diogo - digo eu -, como a minha vida se assemelha no 
presente momento a esta encruzilhada de caminhos 
Trazemos os ps macerados das longas caminhadas e a garganta seca 
do p das sendas de terra batida a do sol violento, a pino. Recorta-se j na 
linha do horizonte o perfil de vora, aonde contamos chegar a meio da tarde, a 
horas de vsperas. Vimos de longe, no nosso tirocnio de novios. H mais de 
um ms andamos calcorreando toda a regio. Seguimos pelo trilho que corre a 
par com o aqueduto em obras de reconstituio. O sbio Andr de Resende 
descobrira os vestgios do antigo aqueduto romano de Sertrio a el-rei D. Joo 
III convenceu-se da bondade de tal empreendimento.
Sbito bifurca-se o caminho e, hesitantes, paramos a perscrutar o rumo. 
A encruzilhada da vida? Como assim?, pergunta o meu companheiro.  ele 
o corao mais bondoso a temente a Deus que eu jamais vi, mas a cabea um 
tanto dura a no dada  leitura dos livros. A horta ou a cozinha, depois dos 
deveres da orao na capela, so o seu lugar certo, nunca a biblioteca. 
Sentamo-nos  sombra de uma azinheira, numa grossa raiz que emerge 
coleante da terra. Ali esta
34 35
vam dois caminhos diante de ns: um virava  esquerda, o outro  
direita, a era foroso que tomssemos pox um deles. Estranho dilema se 
patenteava ao caminheiro se no queria perder a tramontana. Isto para mim 
era simblico. No sabia que fazer. Conhecia Diogo o mito de Hrcules e a 
encruzilhada?
- No.
- Tinha Hrcules chegado  adolescncia a seguia pox um caminho, 
quando se lhe deparou uma bifurcao. Indeciso, sentou-se... - Tal como ns...
- ... a pensar pox qual deles meteria... - Tal como ns...
- ...Eis que ao seu encontro a vindas de cada um dos caminhos se 
aproximam duas mulheres jovens. A que avanava da esquerda vestia uma 
tnica to dfana que permitia se lhe vissem as formas extremamente bem 
proporcionadas do corpo, as ancas, o busto, as pernas, o rosado da carne, o 
carmim dos bicos dos seios, a sombra violeta do pbis...
- Jesus - benzeu-se irmo Diogo.
- ...Os olhos, pintados, eram dois abismos de promessas a os lbios, 
carnudos, vermelhos, sensuais, inculcavam beijos que ...
- ... que?...
- ... que nem tenho nomes adjectivos, irmo Diogo, para os caracterizar. 
E dirigindo-se a Hrcules fez-lhe vex, em palavras suaves a numa voz quente a 
maviosa, quanto era boa a saudvel juventude dele, to apta aos prazeres da 
vida, do lazer, da riqueza, da luxria... E enlaava-o com os seus braos rolios 
a quentes, perfumados, nos olhos cintilando revrberos de desejo, a boca 
aflorando-lhe a pele em carcias indizveis. Hrcules sentia-se extasiado, 
enleado, tentado; a ia a levantar-se para seguir a jovem, quando a outra lhe fez 
sinal que esperasse. Era igualmente jovem, mas a sua beleza vinha de dentro, 
como que se lhe espelhava no semblante a formosura da alma, todo o seu 
porte era recatado a sem artifcios de pinturas ou. perfumes, sem requebros do 
corpo nem desafios dos olhos, isenta de sorrisos equvocos a de provocaes 
na voz. Falou-lhe com aquela conteno grave a sisuda que  timbre dos 
prudentes a avisados, mostrando-lhe como exam falazes a ilusrios os 
prazeres do mundo e como a virtude s se alcana seguindo o duro caminho 
do domnio do esprito sobre a carne, dos sacrifcios a privaes, da humildade,
do esforo a do trabalho. Ao fim desta penosa caminhada encontrar-se-
ia, ento, o prmo que a divindade reserva aos justos a virtuosos. No lhe 
prometia, se escolhesse segui-la, seno canseiras e renncias, mas o prmio 
final a coroar merecidamente a labuta a as atribulaes da vida.
- Qual dos caminhos escolheu Hrcules?
- O segundo - respondo eu, enquanto desenho no p do cho a figura da 
estrada que se bifurca.
- Ainda bem! - sossega irmo Diogo.
- Pitgoras de Samos figurou na letra psilon o smbolo deste mito de 
Hrcules. A vida humana decorria como na forma dessa letra: a senda inicial a 
nica representa a primeira idade, uma idade incerta, indefinida, nem dada aos 
vcios nem s virtudes; depois vem o bivium, que comea na adolescncia, a 
via da direita uma via rdua que leva  vida feliz, e a da esquerda um caminho 
fcil que vai dar ao labu e  perdio. Muitas vezes os que seguiam a sua 
filosofia a religio assinalavam as campas dos seus mortos com lpides 
funerrias que representavam o bvio da letra pitagrica. Qualquer coisa como 
agora, quando morre algum, l vm os elogios pblicos, aquilo  que era um 
santo!... E to bonzinho para toda a gentel... No fazia nial a uma mosca! O 
Senhor o tenha no Cu!... Tambm essas pedras tumulares queriam dizer que 
o defunto sim senhor escolhera o caminho das agruras a dificuldades, fugira 
dos prazeres fceis a agora frua nos Campos Elsios o prmio da sua virtude...
Tomssemos ento o caminho da direita, exclamava o meu 
companheiro levantando-se. Ergo-me tambm. Reparasse no entanto que 
neste caso era o da esquerda que parecia dirigir-se para vora. Mas Diogo, 
supersticioso, teima em que havemos de ir pelo da direita e  pox esse que 
metemos. Sem nenhuma oposio da minha parte. Tudo o que neste momento 
me afaste de vora representa para mim uma dilao cmoda. De caminho 
prosseguimos a conversa:
- Quanto mais prxima est a data da tomada de votos a de ordens, 
mais o meu esprito se perturba com este terrvel dilema. Tambm eu, como 
Hrcules, me encontro perante a encruzilhada da vida a tenho de tomar uma 
deciso. E no , de nenhum modo, a escolha entre o vcio e a virtude, entre o 
mundo e a sua renncia, entre a carne e o esprito, entre o bem e o mal. Sei 
bem que no  necessrio sex-se padre para se sex um perfeito cristo. A 
minha dvida
36 37
tem razes mais fundas. J que no me sinto com vocao, sei-o bem. Sei 
tambm que no foi por minha escolha que desde longa data me encontro 
entre frades, que por eles fui educado, que sou novio franciscano. O Senhor  
testemunha de que nada tenho contra eles, os bons irmos de So Francisco. 
Estou-lhes grato, pois tudo lhes devo. Aprecio o seu teor de vida, a sua 
bondade, a sua singeleza, a sua humildade, a sua extasiada atitude perante a 
obra do Criador. Se me fosse dado ter vontade prpria...
Que dizia? Ora no tinha vontade prprial, interrompia-me Diogo. Vou 
para lhe responder de forma directa a incisiva, mas, depois de breve 
perscrutao interior aos pensamentos que se me atropelam a entrechocam 
com incrvel rapidez, decido, para chegar ao ponto, fazer uma incurso por 
mais longe
- Notaste decerto a liberdade que temos tido, a facilidade com que o 
Dom Abade nos deu suas licenas para sairmos por tanto tempo... Notara, sim. 
Mas sobretudo notara, e o espantava ainda agora,
o modo como o superior o chamara a lhe comunicara, melhor, lhe 
ordenara que se dispusesse a acompanhar-me. Embora ainda no tivesse 
votos, tal como eu, aprazia-lhe desde j ser obediente como se os tivera. 
Curvara a cabea em sinal de acatamento e o superior dispensara-se de lhe 
dar qualquer esclarecimento. Dizia-lhe a conscincia que no devia alimentar 
em seu esprito qualquer espcie de curiosidade, para que fosse mais acabado 
o seu desapego do mundo.
- Tens razo. Se h defeito que um bom franciscano no deve ter  o da 
curiosidade, quando ela tem sua fronteira com o mexerico. Existe, porm, outra 
espcie de curiosidade que faz parte inerente do esprito humano, 
naturalmente sequioso de saber os segredos da obra de Deus a os seus 
desgnios quanto ao destino do homem.
- A santa religio, os santos doutores de Igreja j disseram a ltima 
palavra sobre o assunto, Joo. Recorda nosso padre Santo Agostinho.
- Mas Santo Agostinho teve de decidir por si, foi a sua vontade que 
executou o que o seu pensamento havia ditado. Deu-nos Deus livre alvedrio a 
eu parece que o no tenho. Se o tivesse...
- No blasfemes.
- ... estaria em posio de aceitar ou negar o tomar dos votos e das 
ordens. No entanto, tenho a cultivo a curiosidade : a curiosidade de saber qual 
o meu destino; a curiosidade de conhecer este
mistrio que me rodeia a leva o superior a calar-se em tudo o que me diz 
respeito; a curiosidade de chegar ao porqu de eu no poder escolher se sim, 
se no; a curiosidade... Ah  Mas isso sabia eu  Irmo Diogo conhecia porque 
fora ele o indigitado para me acompanhar? Figurava que essa indigitao devia 
ter dado muito que pensar ao superior e a no sei quem mail?
- Joo, confundes-me.
- Era preciso um novio, mas no um novio qualquer... um novio muito 
especial. Estou a v-los: Frei Ndiol, inquire o superior. Queira Vossa 
Paternidade dizer, responde Frei Ndio, que de ndio no tem nada. 
Corlheceis algum novio que no seja nada, mesmo nada, curioso? - Saiba 
Vossa Paternidade que sim. - O seu nome? -  o irmo Diogo, meu 
padre. - Deus vos acrescente, Frei Ndio. Podeis retirar-vos... - Vossa 
Reverncia d licena?, conheces a voz de falsete? Frei Lus, sabeis de 
algum novio que no seja nada, mesmo nada, dado aos livros? -Nada, 
mesmo nada?... Distingo. Tenho o novio que demandais. - E qual  a sua 
graa? - Diogo, reverendssmo prior, Diogo. - Nosso Senhor vos abenoe, 
Frei Lus. No preciso mais de vs. - Frei Archer,  porventura do vosso 
conhecimento algum novio que, alm de ter boa voz para os hinos da capela, 
goste de ser hortelo ou cozinheiro? A resposta  um vozeiro: Bom cantor, 
bom hortelo, bom cozinheiro? No h que ver, s h um : o irmo Diogo. - 
Agradecido, Frei Archer. Rezarei por vs nas minhas oraes. Podeis ir. E o 
superior suspira de alvio e manda-lo chamar.
Diogo ri a bandeiras despregadas
- Mas que tero as couves murcianas a as alfaces a ver com o ter sido 
eu o escolhido para to acompanhar?
Paro um pouco a olh-lo nos olhos a depois digo-lhe:
- Nem as couves nem as alfaces falam. O trabalho do hortelo  um 
trabalho silencioso, religioso, franciscano. A horta  como um templo e o 
hortelo, vendo a novidade a medrar e a crescer, est a rezar.
Diogo, muito srio, murmura numa voz que quase no se ouve:
- No sei dizer essas coisas como tu. Mas  assim precisamente que 
sinto quando estou a tratar da horta.
3g 39
Queda-se um longo momento a olhar para mim. Um pouco        de Veneza, e 
a grande azfama que, mais adiante, fervia com o afa-
mais adiantado paro tambm. O seu rosto ilumina-se quando me diz :
        digado trabalho dos pescadores que chegavam do mar, os barcos
- E tens to dvidas, to que s franciscano por dentro ...        carregados 
de pescaria. Ao correr da ribeira, a seguir  lota, esten-
II' Guardamos um grande silncio, ali estacados no caminho, mas        dia-se 
o mercado com suas tendas das mais variadas mercadorias, os
aquelas palavras reboam dentro de mim, como se eu seja um oco
        preges dos vendedores, na sua maioria judeus. Meti conversa com
vale ou uma gruta vazia a cuja boca se lana um grito, um repto, que
        alguns que nos disseram do seu receio das perseguies, de que a
a ressonncia nos devolve em ondas reboladas. Vales, furnas, grutas,
        todo o passo eram vtimas. Mal pudessem sairiam do reino em busca
os ecos do vento a do mar, plancies escorridas, os caminhos da alma
        de terras mais seguras para as suas vidas a haveres. Judeus como 
estes
e da vida ... Lano atrs um olhar,  estrada, como a querer com os
        a tambm queixosos a receosos, sobretudo depois da notcia que
        olhos retroceder a recordar todas as vias percorridas nestas 
ltimas        tiveram da matana de seus irmos em Lisboa, em tempo de el-
rei
        semanas. E quantas foram l ...        D. Manuel, a de outros sinais de 
dio a perseguio aos cristos-novos,
        Tnhamos descido, em nosso vagar, por Ferreira, Odemira, Alge-
        encontrmos ns muitos noutras terras que visitmos. Alm das igre-
zur e, deixando a orla martima a atravessando a serra do Espinhao,
        jas, ermidas a casas que havamos avistado de raspo na tarde ante-
atingramos a vila de Lagos, cujo casario muito branco, a brilhar ao
        rior quando chegramos  vila a que agora percorramos com demora,
sol, j extravasava das velhas muralhas torreadas, de pedra tisnada,
        admirmos ainda a vetusta Ermida de Santo Amaro, a de Santa Brbara
        de tal maneira que o seu alcaide, Diogo da Silva, andava 
empenhado        e a da Senhora da Conceio, e o edifcio do Convento dos 
Carme-
        no levantamento de uma segunda cerca que envolvesse toda a 
povoa-        litas. Os mareantes genoveses a milaneses haviam mandado 
cons-
        o e a protegesse. Depois de passarmos pela Ermida da 
Senhora dos        truir trs ermidas da sua devoo: a de So Brs, a de So Roque 
e a
        Aflitos e, mais perto das primeiras casas, pela de So Joo 
Baptista,        de Porto Salvo, mostrando bem com isso quanto ficavam gratos 
        metemos pelo emaranhado das ruelas estreitas, seguimos pela 
gafa-        divina Providncia sempre que chegavam quele porto seguro.
        ria, com seu hospital e a Ermida de So Lzaro, chegmos  
Ribeira        No dia seguinte, muito cedo, pela fresca, metemo-nos a cami-
        dos Touros, junto s muralhas, onde se haviam edificado as 
casas        nho em direco a Silves, que eram bem seis lguas andadas de Lagos.
        da Misericrdia, os Paos do Concelho, a Vedoria, a Portagem a 
se        A longura da jornada no amedronta franciscanos e a mim muito
        erguia o pelourinho, a pela Porta da Vila entrmos a cerca, atingi-
        menos, que qualquer trecho de paisagem, recorte de rvore, canto
        mos a Igreja de Santa Maria - onde por algum tempo se encontrou
        de ave, colorido de flor ou rescendncia de arbusto  quanto baste
        o tmulo do infante D. Henrique, antes de ser trasladado para 
Santa        para cair em xtase quase mstico. Por vezes era a branda encosta
        Maria da Vitria -, caminhmos colados  frontaria do Convento
        escorrendo at o vale a neve das amendoeiras. Outras vezes cami-
        de So Joo de Deus, de irmos hospitalares, ao p da Ermidinha 
de        nhvamos por urn cho de tojo, de sargao a rosmaninho, de ser-
        Nossa Senhora da Graa a da de So Pedro, onde os mareantes 
tm a        
po, arruda, morrio a tomilho, entre espinheiros agrestes a estevas
        irmandade do Corpo Santo, a chegmos finalmente ao Convento
sua        
ostentando nas flores a spia das cinco chagas. Seguamos pela som-
        de So Francisco, dos nossos irmos capuchos, fundado em z S r 
8 pelo        b
h

        bispo D. Fernando Coutinho. A, apresentadas as nossas 
obedincias        o por so
n
bra das alfarrobeiras a das figueiras, cortvamos cam
        por irmo Diogo, fomos acolhidos com grande alegria a mostras 
de        um laranjal onde cantavam melros.
        cristo acatamento a repousmos essa noite. Na manh seguinte,
        - Sabes o que diz o metro, Diogo? - perguntava eu.
        depois de rezarmos as matinas, samos a visitar a vila mais de 
espao.        - Que ?
        Chegados ao Palcio dos Governantes, samos pela Porta do Mar
        E eu muito depressa, acentuando as vogais, a voz ora em flauta
        e fomos dar  Ribeira das Naus. Formosa coisa de ver a baa toda
        ora em assobio: Cereja bical, c pr meu papo real! Cereja negrita,
        engalanada de embarcaes, algumas das quaffs de Milo, de 
Gnova,        esforrica, esforrica, esforrica!...
4p 4
Diogo ria
- Onde aprendeste isso?
Era do povo. Algures o ouvira, quando era pequeno, mas no sabia 
onde...
Saltava-nos aos ps um coelho, uma lebre fugia disparada  nossa 
frente pelo brejo fora, ou um bando de perdizes afastava-se lesto caminhando 
solidrias pelo mato. Um simples escaravelho, empurrando vagarosamente a 
sua enorme bola de esterco, nos fazia paxar, ou um formigueiro escavado na 
vereda ou a borboleta variegada que pousava perto de ns. A meio caminho, 
na encosta da serra, sentmo-nos  sombra de uma mimosa e, enquanto 
olhvamos ao longe, na fmbria do mar, o lugar de Portimo, fazamos as 
honras ao farnel que os bons dos frades em Lagos nos tinham dado para a 
jornada. Em seguida retommos a caminhada, apenas interrompida quando, 
ante um fio de gua que brotava das rochas, sacivamos a sede. Anda que 
anda na contemplao das maravilhas de Deus caa o dia sem quase darmos 
conta a sem cansao. Quando chegmos ao alto de um monte dos muitos que 
compem a serra de Monchique a comemos a dobrar a encosta, avistmos a 
velha cidade, o violeta crepuscular das colinas a coroarem o castelo, muralhas 
de pedra avermelhada, polida, faiscante sob os raios de sol que abrasavam, 
cingindo de fogo a brancura do casario baixo. Era uma jia de ouro e prata 
engastada na prpura dos montes em anfiteatro. Descemos rapidamente a 
vertente, observando o manso rio a deslizar rumorejante entre choupos 
esguios, hortas viosas, suculentos pomares e jardins floridos que a ponte 
romana, falva, galgava com leveza. Silves, a moura encantada l... Tinha lido 
alguma coisa do seu passado a sabia que antes desta Silves outra existira, 
nostlgico paraso de rabes, cantada por dlcidos poetas, que o tempo, os 
terramotos, as guerras, a depredao dos homens haviam feito quase 
totalmente desaparecer.
Seguimos na correnteza do canal que abastece de gua a cidade e 
chegmos junto de um lindo cruzeiro lavrado em pedra calcria, brancura 
realada pelo verde-negro aprumado dos ciprestes em roda. De um lado 
apresentava a imagem de Cristo crucificado, na outra face depois de descido 
da cruz, nos braos de sua Me. Atravessada a ponte sobre o rio Arade, 
passmos pela Ermida da Senhora dos Mrtires, que era do tempo de D. 
Sancho , a admirmos ento toda
a imponncia das muralhas, com suas torres a adarves, a guarnio das 
ameias, a torre de menagem e, na praa de armas, a lendria cisterna da 
moura. Caminhmos pelas ruas j desertas e a grande mole da s catedral, 
com sua formosa bside de estranhas grgulas, suas frestas estreitas, seus 
botarus quadrados, sua portada de arquivolta, em ogiva, pesava sobre ns 
como a noite que vinha caindo. Urgia tomarmos pousada, o que no foi coisa 
difcil. Os nossos irmos franciscanos encontram-se espalhados por toda a 
parte.
Outra vez de longada na manh seguinte a caminho de Tavira. Como a 
distncia era muito grande, fizemos uma paragem em Loul, que era condado 
desde o tempo de el-rei D. Afonso V, mas havia recentemente voltado ao 
senhorio da coroa. A gente da vila estava ainda fortemente emocionada com os 
acontecimentos que ocasionaram tal facto. No falava noutra coisa quando 
encontrava algum forasteiro, como ns, que ainda no estivesse a par de to 
extraordinrio sucesso. Foi assim que ouvimos, em mais de uma verso, a 
estranha histria do casamento do infante D. Fernando, filho mais novo de el-
rei D. Manuel, com a condessa 3e Marialva e de Loul, D. Guiomar Coutinho.
- No devia ter casado ! - dizia uma mulherzinha que lavava roupa num 
tanque,  sombra de uma frondosa figueira, onde tnhamos parado a matar a 
sede.
- Pudera ! - dizia outra, sem deixar de esfregar uma saa ensaboada. - 
Ela j tinha casado com outro!...
Aquilo era a puxar conversa, a ver se ns arrebitvamos a orelha da 
curiosidade, se perguntvamos alguma coisa, que o que elas queriam era dar  
lingua. Mas ns, fizas, moita! Elas continuavam:
-  mulher, eu ainda tremo toda s de pensar!... Deus no perdooul
- No, que o pecado era de alto l com ele ! Cruzes canhoto ! - Eu 
quanto a mim foi castigo de mais. Morrerem assim os filhos, marido a mulher 
no espao de um ms!...
- Era um coito danado !
- ... Sabe-se l se ela no falou verdade a era o outro que estava a 
mentir dizendo que tinha casado com ela a furto?
- A mentir o senhor marqus de Torres Novas ? Um senhor daqueles, 
neto de rei? Ora! No me venhas com essa, mulher! Eu seja ceguinha se o que 
ele disse no  verdade... E vede como ele
42 43
anda  Afastou-se da come a os anos vo passando a ele no h meio de 
receber mulher...
- L isso  verdade 
- Aquilo  paixo assolapada que lhe ri o peito...
- A mim ningum me tira da cabea que ela era aleivosa - dizia a 
primeira, torcendo com gana uma camisa como se tivesse nas mos o pescoo 
da infeliz.
Juntando os retalhos da conversa das lavadeiras, ficmos a saber que, 
quando el-rei D. Joo III confirmou o contrato feito por seu pai com o conde de 
Marialva, D. Francisco Coutinho, quanto ao futuro casamento do infante D. 
Fernando com D. Guiomar Coutinho, interps-se o marqus de Torres Novas, 
D. Joo de Lancastre, filho do duque de Coimbra, D. Jorge. Afirmava que tal 
casamento no se podia realizar dado que a condessa de Marialva a de Loul 
j era casada com ele. Grande escndalo a interdio na corte!... D. Joo III 
v-se entre o dever de manter a palavra de seu pai e a amizade que dedicava 
ao companheiro de infncia D. Joo de Lancastre, neto de D. Joo II. Ordena 
ento que o caso fique sob a alada de um tribunal eclesistico, visto tratar-se 
de problema do seu foro. Durante nove anos se arrasta o assunto, sem que se 
lhe desse resoluo, at que por fim, ouvida mais uma vez a condessa, esta 
nega ter alguma vez casado com o marqus de Torres Novas. Realiza-se 
ento o casamento do prncipe D. Fernando com D. Guiomar, casamento 
infeliz, pois quatro anos passados morrem os filhos do casal, morre o marido a 
morre a esposa. A verso da maior parte das pessoas era que tais mortes 
haviam sido castigo de Deus e, como os acontecimentos estavam ainda muito 
frescos, no se falava doutra coisa e cada vez que contavam a triste histria 
acrescentavam-lhe pormenores ouvidos s comadres das comadres dos 
compadres : que o marqus estava a definhar de langor no seu palcio de 
Azeito; que havia dele a de D. Guiomar uma filha clandestina, freira em 
Setbal, que era tal a qual o retrato da me; que o prprio rei andava rodo de 
remorsos porque conhecera muito de perto os amores do marqus com a 
condessa...
Deixmos as mulherzinhas na sua infindvel tagarelice a fomos visitar a 
vila, que era muito pitoresca. O seu castelo conservava ainda trechos de 
muralha mourisca, junto da qual se erguia um cruzeiro de granito escurecido 
pelo tempo; o casario tpico, de jane
las a portas trabalhadas, seus terraos a aoteias, a suas chamins 
peculiares em forma de canudos, de espigueiros, de zimbrios a minaretes, de 
coruchus; a igreja matriz de portal em ogiva; o hospital ou albergaria da 
Misericrdia, o pelourinho, a Ermida da Senhora da Conceio, os seus 
conventos, de que se destacava pela sua beleza a sumptuosidade o dos 
agostinhos.
Demormos em Loul apenas o tempo de refazermos as foras e o 
farnel. No dia seguinte, de manhzinha, pusemo-nos a caminho. Quando 
amos a passar pelo Santurio da Senhora da Piedade, abre-se-nos aos olhos 
um largussimo panorama de terras acidentadas a pobres de vegetao.
- No quiere usted leer la sina, jovencito? -era uma velha cigana que se 
acercara de Diogo, num sotaque meio espanholado. Diogo fez sinal que no 
com a mo e a cabea, mas a velha insistia: Tenia un futuro mui bueno, 
casaria dos veces, seria mui rico y habria diece hijos. Dejasse-le veer su mano 
que le diria mas cosas.
Como o meu companheiro no estivesse pelos ajustes, ela virou-se para 
mim
- Usted, loirito? Deje-me leer la buena-dicha.
No me fiz rogado.  meu feitio o convvio com as outras Pessoas e o 
experimentar coisas ainda no sabidas da vida ou ainda no vividas. Estendi-
lhe a mo, com grande escndalo de Diogo : No fizesse isso, que era 
pecado , em voz baixa ao meu ouvido. A cigana, sem olhar, ia a comear a 
sua lengalenga quando de repente se calou a mirar-me a palma da mo. 
Esteve assim uns longos segundos.
- Que h, tiazinha? - perguntei a rir. - Que vs na minha mo? A linha da 
vida  assim to curta?
- Saiba usted, mi hidalgo - respondeu reservada -, que habr una lunga 
vida.
Diogo aproximava-se curioso. Ela entretanto murmurava umas palavras 
incompreensveis a comeou ento a falar muito depressa, em cantilena h 
muito decorada, dando a clara ideia de que encobria um a ror de coisas .
- Usted gusta mucho de las chicas y las chicas le gustan mucho de 
usted. Tiene usted un malo olhado de hace mucho tiempo, pero va le aparecer 
una persona que le va cambiar la vida. Miro en su mano un M que no le hace la 
vida negra. Usted tien acordado con enxaquecas y en su sina grabada en la 
palma de la mano est escrito que
44 45
va usted a tenir mucha dita y mucha fortuna. Dice aun su sina que va 
conocer un E que le trar mucha felicidad y mucho carino. Vea que le quieren 
enganar y en sus costas hablan mui malo de usted, usted ha sido hecho para 
vencerlos. Es mui alegre y holgazan y hade viajar mucho y conocer otras terras 
y pueblos. Andar sobre la mar pero las tempestades no le hande molestar. 
Hay una mujer mui hermosa y mui guapa y mui noble en su vida, pero usted 
jams la conocer. Hay mas mujeres en su camino... Usted estar sozinho y...
Interrompeu-se a observar-me a mo com muita ateno. Estvamos 
suspensos eu a Diogo.
- No puedo... decir ms... - terminava ela. - Linhas mui confusas... Un 
gran mistrio en su vida, mi hidalgo. Tengo visto muchas manos pero jams 
una como esta. La otra, por favor.
Estendi-lhe a mo esquerda. L estava  Mano de hidalgo y las linhas 
del mistrio...
- Deseo que usted sea _ mui feliz. - No o serei?
- Pero si, pero si 
Dei-lhe uma moeda a ela beijou-me a mo. Seguimos caminho. Eu ia 
pensativo. No era a primeira vez que eu pensava nas minhas mos, as 
cotejava com as dos meus companheiros, com as das outras pessoas. Dir-se-is 
que alguma coisa lhes rectificara, apurara a adoara as linhas, havia nelas o 
que quer que fosse de feminino. Quando me quedava em frente de uma galeria 
de retratos, por vezes mais que os olhos e a expresso do rosto eram as mos 
que me tomavam a ateno. As minhas pareciam mos de um retrato. 
Considerando que a velha cigana era pessoa habituada a ver mos de toda a 
maneira e feitio, no era de estranhar que tivesse logo dado conta de que as 
minhas eram fora do normal. A sua hesitao em ler a sina interpretava-a eu 
como o desejo de se adaptar a uma situao que pretendia deitar-se a 
adivinhar. Como, porm, conservando-me calado, lhe no dei qualquer espcie 
de lamir, ela encontrou-se desasada. No cuidei mais do caso.
Chegmos a Tavira pelo fim da tarde. Entrando as muralhas pelo Arco 
da Miserierdia d-se com uma cidade sossegada, pouco movimentada, a logo 
nos chama a ateno a substituio dos terraos e aoteias, que doutras terras 
vizinhas so caracterstiea, pelo telhado mourisco de quatro guas, as gelosias 
quase sempre fechadas, a res
guardar o recato das casas, a multido de igrejas, que as h espalhadas 
por toda a cidade. No porto fundeadas muitas embarcaes vindas de pases 
estrangeiros, o grande porte a contrastar com os pequenos barcos dos 
pescadores. Na arcada dos Paos do Concelho estavam j a desfazer as 
tendas da feira a esse era o ponto da cidade em que, quela hora, ainda havia 
algum bulcio a movimento. Procurmos o Convento de So Francisco e, 
quando o ostirio abriu a porta, Diogo disse quem ramos e, depois de 
entregar as obedincias para o prior, Frei Gaspar da Conceio estava?... 
Que lhe trazia recado do superior do convento de vora. O ostirio foi dentro, 
demorou algum tanto a por fim apareceu acompanhado de um frade muito 
velho. Reconheci-o logo, apesar das mudanas da idade.
- Que me trazeis recado?
Diogo aprsentou-lhe uma carta selada que o superior de vora lhe 
encomendara entregasse a Frei Gaspar. O frade quebrou os selos, leu com 
ateno e, por momentos, ergueu para mim os olhos, que logo baixou ao 
encontrar os meus. Dobrou os papis a com um aberto sorriso a um abrao 
paternal disse:
- Sede bem-vindos, meus carssimos irmos. Sua Paternidade, o prior, 
pede-me que vos d agasalho. Vinde. H duas coisas que esperam o 
franciscano quando regressa do seu peregrinar. gua para se lavar do p a do 
suor dos caminhos e o conforto da cozinha. Eu vos guiarei. Vinde.
Passada meia hora, estvamos, limpos a frescos, na grande cozinha 
abobadada do convento. Propositadamente, como quem depois do banho se 
esquece de apertar um boto junto ao pescoo, eu deixava entrever o relicrio 
de ouro. Frei Gaspar, depois de nos pr na mesa uma terrina com feijo, 
cenoura, couve a rodelas de chourio, um naco de po de milho, azeitonas a 
um pichel de vinho tinto, sentou-se em nossa frente. Perguntou-nos pr onde 
tnhamos andado e ns respondamos-lhe circunstanciadamente. Via-se que 
conhecia em mincia toda a regio a tinha gosto em saber a histria de cada 
pedra antiga. Em breve, por esta afinidade de gostos, s eu a ele 
conversvamos. Diogo levantou-se a perguntou se podia ir breves instantes  
capela. Frei Gaspar indicou-lhe por onde seguir para a encontrar a ficmos ss. 
As pedras das paredes a da abbada pareceram mais frias, carregaram sobre 
ns o seu silncio constrangido.
46 47
- No sabia o vosso nome - disse eu -, mas lembro-me muito bem de 
vs. Teria eu nove anos, se tanto, a estava no sei onde quando vs... me 
falastes na relquia...
Calado, sem um gesto a com ar muito entristecido, Frei Gaspar deixava-
me falar.
- Andei  vossa procura no dia seguinte. Nunca mais vos vi ou de vs 
ouvi, at este momento... Depois levaram-me para Setbal... - De Enxobregas 
... - murmurou. - Mas estas coisas no
so para nelas se falar. Da outra vez disse-vos aquilo irreflectidamente. 
Que mal havia nisso? Que . significava aquele medalho que eu trazia ao 
peito? Falasse baixol No lhe fizesse perguntas a que no podia responder, a 
impaciente levantava-se. Ouviram-se passos no lajedo exterior. Tambm j de 
p, insisti em voz sumida, nervosa: - Que sabeis de mim?
Diogo entrava. Eram horas de repousarmos, dizia Frei Gaspar. Que o 
segussemos. Ia mostrar-nos onde dormirmos. No consegui por muito tempo 
conciliar o sono. Receava mais uma vez no tornar a ver Frei Gaspar, mas de 
manh, depois das oraes a da missa, o velho frade esperava-nos para nos 
levar junto do prior do convento. Era este um homem alto, robusto, cabea a 
alargar em tringulo a partir do queixo, nariz comprido, cabelo espetado como 
escova cortado muito curto, grisalho nas tmporas, olhos vivos, atentos, voz 
fanhosa. Tinha fama de grande filsofo. Pairava nas alturas do pensamento 
abstracto: notava-se o esforo que fazia para descer daqueles pramos at s 
coisas insignificantes a caducas que ns ramos, mas como era sbio 
conhecia-se tambm a si prprio e, dando conta do esforo que fazia, tornava-
se ento humilde, simples a dizia coisas graciosas. Afirmavam os que o 
conheciam de perto, e eu ali o confirmei, que eram essas as nicas ocasies 
em que se lhe abria o semblante num sorriso que lhe transfigurava o aspecto 
severo.
Ajoelhando levemente, beijei-lhe o anel, tal como Diogo, sentindo a 
resistncia que a sua mo fazia na minha a contrariar um costume de que se 
n sentia digno. Dir-se-is que at isso havia sido objecto de exame do seu 
esprito alertado.
- Deus vos abenoe. Como eu gostava, Frei Gaspar - disse ele, virando-
se para o velho irmo-, de ter a idade e o sangue na guelra destes bons 
novios, o irmo Diogo e o irmo Joo, que espero o sejam muito breve. Mas j 
no tenho pernas para tais andanas ...
48
No sei como, encontrei-me a dizer-lhe
- Em vez de pernas, tem vossa paternidade as asas do pensamento que 
permitem os voos altos das guias, ao passo que ns rastejamos como pobres 
vermes...
Era demasiado retrica a frase a postia. Verduras ! Frei Gaspar ficou 
interdito, Diogo corou como uma rom, o prior todavia olhou-me com um 
sorriso luminoso: Falava eu por metfora? Prouvesse a Deus fosse verdade o 
que eu dizia. De qualquer maneira agradecia-me a palavra amvel. Alis, quem 
falava como eu no era de forma alguma um bicho rastejante. Deixsse-lhe 
contudo dar-me um conselho que lhe estava ditando a experincia. Eu pensava 
a pensar era o comeo do...
- ... do tormento. Eu sei - conclu eu.
Olhou-me fundo nos olhos, a espreitar-me os pensamentos ntimos.
-To novo falais assiml...  cedo,  muito cedol Sursum corda, irmo  
Rezarei por vs. Frei Gaspar, curai de que lhes no falte nada dizia o prior, 
como se j outros pensamentos o solicitassem. - Quando partis? Ficai o tempo 
que quiserdes... Dou-vos a bno.
Com a mo direita erguida, o anel a rebrilhar, traou no ar a cruz, 
fitando-me acintemente : Benedico vos, in nomine Patris et Filii et Spiritus 
Sancti. E quando, depois de inclinados termos proferido o men, levantmos 
as cabeas, j s o vimos de costas a desaparecer na umbreira de uma porta. 
Ficmos ali especados, com o indefinido sentimento, eu mais que os outros 
dois, de que algo de no certo, de inadequado, de no coadunado com a 
situao, se esfumava pairando no ar. Frei Gaspar cortava o enleio: Bem! J 
tnhamos a bno do prior. Decerto queramos agora visitar a vila. Era digna 
de se ver. Tinha pena de no poder servir-nos de guia, pois no poderia 
aguentar a nossa agilidade no andar, seno ainda nos mostraria algumas 
curiosidades daquelas que falam da vetustez dessas pedras... Mas eu 
interrompia, discordando. Muito gratos ficaramos a Frei Gaspar - no era 
verdade, irmo Diogo? - se nos quisesse acompanhar na visita. Quanto  
nossa destreza de andarilhos, prometamos que o travo da curiosidade lhe 
abateria a fervura... Irmo Diogo anua. Frei Gaspar no quis perder a 
oportunidade, havia tanto tempo madrasta - segundo dizia -, de um pouco de 
liberdade.
49
-  esta uma terra realenga desde D. Afonso V - vai ele dizendo 
enquanto caminhamos pela sombra dos choupos que marginam o Asseca.
Leva-nos a visitar a fonte das termas, onde a gua  to quente que 
serve para curtir peles, alm de que tem muitas virtudes, no s bebida, para a 
cura de maleitas do estmago a ventre, mas tambm em banhos - 
compreendamos? - para os achaques das articulaes. Havia tambm uma 
fonte de bonssima gua fria... Frei Gaspax punha cuidado no falar, saboreava 
as palavras, havia sido professor de Portugus de inmeras geraes de 
jovens... As gentes do stio serviam-se dela para seu consumo. Era em 
extremo gostosa a leve, fresca de Vero, branda de Inverno, indicada para a 
desobstruo dos hipocndrios, para caqucticos a hidrpicos, para desopilar, 
para as diarreias. Dava-se muito bem com ela. Mas ali estava a casa de mestre 
Jacob, fsico muito competente a sabedor, seu conhecido a amigo de longa 
data, que melhor que Sua Ignorncia nos poderia falar da excelncia das 
guas destes lugares, se lhe dssemos o gosto de no-lo apresentar.
 uma casinha trrea, despretensiosa, muito branca a limpa. Bate  
porta a no tarda que venha abrir uma mulher dos seus qua.renta anos.
- Ah  Sois vs, Frei Gaspar? Entrai, sejais bem-vindo mais a vossa 
companhia.
Entrmos. - Mestre Jacob est?
- Aqui me tendes, Frei Gaspar - dizia Jacob vindo de dentro. - H muito 
tempo que no passais por c. Tendes estado doente? O velho frade ia a 
esboar a desculpa habitual que no mas
que tambm, Jacob continuava: Mas via que trazia amigos...
- So dois novios que vieram de vora a visitar-nos, Diogo e Joo. 
Iamos a passar, depois de termos apreciado as caldas e a fonte de Santa 
Catarina, a falvamos da virtud daquelas guas quando me lembrei que vs, 
como mdico...
- .. poderia diner-lhes mais umas patacoadas, com propriedade a 
.autoridade, acerca dos seus benefcios. - E fazia uma vnia e abraava-nos 
em sinal de satisfao por nos conhecer. - Sejais bem-vindos  So de facto 
umas guas magnficas a milagreiras, mas deixai que neste momento vos faa 
as honras da minha casa a vos
SO
fale da virtude do po de centeio com queijo de cabra, feito aqui pela 
minha senhora Sara, a de uma boa pinga, de estalo, do moscatel da minha 
lavra, que eu, apesar de fsico, nas horas vagas cultivo a minha leira.
Sara j estava em aco a comeava a estender na mesa uma toalha de 
linho muito branco, que tirara de uma gaveta. Num gesto espontneo, eu fui 
ajud-la a Diogo imitou-me. Ela achou muita graa e muito inslita delicadeza. 
No nos dssemos ao incmodol, dizia sorrindo. A um canto, tendo-se 
afastado de ns por momentos, Frei Gaspar falava baixo a Jacob a mostrava-
lhe um papel que me pareceu ser a carta do superior de vora. Jacob fitava-me 
curioso, pelo canto dos olhos. Sara ps na mesa po, queijo, vinho, mel das 
suas abelhas, maravilhas de que, para no desfeitearmos tanta cortesia, nos 
servamos apesar do cedo da hora e, enquanto ns comamos, a pretexto de 
irem  cozinha por azeitonas ou outra qualquer iguaria, marido a mulher num 
breve instante cochicharam entre si olhando-me pela porta entreaberta. Como 
o vinho, o po, o queijo, o mel eram muito saborosos, resolvi para comigo 
deixar para uma melhor oportunidade, para quando estivesse sozinho, a 
anlise desses olhares a cochichos misteriosos.
Despedidas cordiais, com abraos a protestos de nos vermos 
brevemente. Jacob, quando me abraou, humedeceram-se-lhe os olhos a 
Sara, num gesto indizvel a uma expresso de suave mgoa, passou-me a mo 
pela face. Pareciam pais a despedirem-se de um filho que no veriam nunca 
mais. Diogo ou no deu conta ou, na sua discrio, fez que no viu.
Durante todo o resto do dia andmos pela cidade. Frei Gaspar fazia-nos 
parar diante de cada monumento, de cada pedra de que conhecia a histria. 
Agora apontava-nos o pormenor gtico do prtico da Igreja de Nossa Senhora 
do Castelo, ou no seu interior nos levava  Capela do Senhor dos Passos, 
desta nova traa peculiar aos arquitectos de el-rei D. Manuel que gostam de 
lavrar na pedra objectos que nos recordem as nossas navegaes, cordame 
dos navios, algas marinhas, ondas do mar, peixes, esferas do inundo, cruzes 
de Cristo, caracterstica certamente muito de apreciar pela novidade e 
independncia de imitao estrangeira... Duas grandes lpides a estavam a 
chamar-nos o olhar. So os tmulos, embutidos na parede, de D. Paio Peres a 
dos sete cavaleiros cristos...
S
Pela tardinha regressmos ao nosso convento. Frei Gaspar, apesar de 
caminhar muito devagar, parecia ter remoado, as flores do rosto belas a 
coradas, risonho a feliz por ter vivido um dia de liberdade fora da rotina 
conventual. E, enquanto dentro de mim eu anotava este facto e o punha a par 
com os meus escrpulos de novio cheio de dvidas, chegava-me aos ouvidos 
a voz do velho frade:
- Digo-vos, meus filhos, que h muito tempo no tinha usufrudo de um 
dia to maravilhoso a sentido um apetite to sfrego como agora sinto.
A nossa irmandade j se encontrava recolhida. Silncio de cistema a 
guas paradas, to cavo que os nossos passos ressoavam no lajedo a 
ecoavam pelas salas desertas. Entrmos de novo na cozinha abobadada. Um 
rudo surdo a prolongado chegou aos nossos ouvidos. Ou se enganava muito 
ou amos ter trovoada, enchiam todo o espao da quadra as palavras de Frei 
Gaspar dirigindo-se para a despensa. Mas a mim afigurava-se-me que no era 
s das nuvens que vinha o rurnor. Parecia estar tambm debaixo dos nossos 
ps. Ia a transmitir essa impresso aos meus companheiros, quando um 
relmpago sbito iluminou de uma fria lividez as paredes nuas da estncia, 
logo estalava a cascalhava um trovo seco, medonho, a dois violentos estices 
estremeceram o solo. Em brechas se fenderam e apartaram as lajes com 
fragor e a abbada a as paredes comearam a desabar. Instintivamente dei um 
salto para debaixo da pesada mesa da cozinha, a tempo de me resguardar das 
pedras que caam a rebolaram durante segundos lentos, infindveis... Quando 
tudo sossegou e a ltima pedra rolou nos montes de destroos, procurei sair de 
sob a mesa, mas no consegui. Estava encarcerado numa pequena gruta 
formada pelo tampo a pelo entulho. Apenas havia um estreito buraco por onde 
a custo podia introduzir a mo. Chamei:
- Diogo! Frei Gaspar! Acudi aqui!
Felizmente Diogo havia-se deixado ficar sob o arco ogival da porta e, 
embora a parede se tivesse quase toda desmoronado, o arco aguentou-se 
firme a protegeu-o. Acorreu imediatamente a conseguiu remover alguns 
pedregulhos, o que me permitiu sair.
- Ests ferido? - No. E tu?
- Tambm no, graas a Deus 
O nome de Frei Gaspar acudiu-nos aos lbios. Procurmos. De um 
monto de pedras a calia saa um p, um brao em estranha posio, como 
partido, surgia mais acima. Ajoelhei, removi algumas pedras e a cabea 
ensanguentada apareceu. Curvado sobre ela, o medalho a pender-me do 
pescoo por um rasgo da camisa, segurei-lha e chamei:
-Frei Gaspar!
Abriu os olhos. Reconheceu-me. O relicrio balouava-lhe diante da face 
muito plida. Notou-se-lhe o esforo que fazia tentando falar. S consegui 
perceber-lhe o nome de mestre Jacob. A cabea descaiu-lhe, rendendo a alma, 
um fio de sangue a escorrer-lhe pelo canto da boca. Ajoelhado tambm, Diogo 
rezava: Requiem aeternam dona ei Domine...
Ai de mim! No era em rezar que eu pensava naquele momento! Mas fui 
tirado das minhas preocupaes por Diogo, que, logo activo a prtico, me disse 
no podermos ficar ali parados quando tanta gente esperava certamente 
socorro. No conhecamos ainda a extenso do sinistro, presumamos ser 
muito grande a grave, mas no supnhamos vir a encontrar uma viso to 
horrvel a apocalptica como aquela que se nos antolhou quando samos: o 
nosso convento jazia por terra em escombros, a cidade to formosa que 
tnhamos visitado esse dia estava irreconhecvel, poucos eram os edifcios de 
p a as prprias muralhas, to grossas a fortes, haviam em grande parte rudo. 
As pessoas comeavam a juntar-se nas ruas, desorientadas, angustiadas. De 
sob as runas vnham ais, choro, gritos, pedidos de ajuda. Dir-se-is que os 
montes de escombros tinham vozes fantasmagricas. Na noite vagueavam 
crianas seminuas chorando perdidas por entre os destroos  procura das 
rnes. Urgia acalmar a angstia, encaminhar e ordenar os braos vlidos para 
as tarefas de acudir aos feridos, amparar crianas a velhos, a enterrar os 
mortos, no sobreviesse o flagelo da peste. Foram Bias de pesadelo os que se 
seguiram, em que s a piedade nos dava nimo perante os quadros 
sanguinolentos dos crnios abertos escorrendo a massa enceflica, olhos 
pendentes de rbitas esvaziadas, peitos esmagados, barrigas desventradas, 
pernas e braos estropiados. Em silncio a maioria das pessoas trabalhava 
rezando, muitas vezes com as lgrimas a rolarem em fio pelas faces a baixo, 
outras com um ricto seco a severo na comissura dos lbios.
52 53
A princpio notou-se que gente sem escrpulos nem sentimentos se 
aproveitava da ocasio para saquear a cidade. Todavia os meirinhos logo 
acudiram a pr cobro ao desmando, que esmoreceu mal se espalhou a notcia 
de que punham em execuo as mais pesadas penas para quem fosse 
apanhado a roubar a de que alguns j haviam sido amarrados ao pelourinho... 
Improvisaram-se hospitais nas arcadas onde ainda no dia anterior se realizara 
a feira, nos claustros que se tinham conservado de p. Mdicos eram ajudados 
por freiras; homens chegavam com colches, cobertores, lenis, toalhas; 
mulheres acendiam fogueiras nas praas, ao ar livre, a faziam comida em 
grandes panelas para acudir a toda a gente. No cemitrio os coveiros caam de 
cansao a eram revezados por lavradores a outros mesteirais. Tinham-se 
armado a altares a constantemente sacerdotes diziam missa a sufragar as 
almas dos mortos.
Pouco a pouco a vida comeou a normalizar-se e o trabalho da 
reconstruo iniciava-se. S quando me vi mais livre  que me lembrei de 
mestre Jacob, certamente muito atarefado naqueles dias, pois era mdico. 
Procurei-o nos diversos postos hospitalares improvisados, mas em nenhum me 
souberam dar notcias dele, ningum o vira, os seus colegas de ofcio 
estranhavam at. Pensmos o pior. Corri  rua onde morava: a casa era um 
monto de pedra sobre pedra. Um vizinho disse-me que ele a sua mulher 
tinham ido a enterrar dois dias atrs. Fiquei descorooado. Andei ao acaso pela 
cidade em runas a fui dar ao porto de mar. Um barco de Veneza recolhia a 
escada de portal, preparando-se para a largada. Viam-se passageiros no 
convs a olhar tristemente a terra destroada. Talvez alguns tivessem deixado 
ali pessoas queridas! Havia lenos brancos a enxugar olhos vermelhos, 
entumescidos! De sbito, no meio daqueles rostos, pareceu-me ver uma cara 
conhecida. No, no era engano dos meus olhos ! Era Sara, a mulher de 
mestre Jacob ! O barco passava lentamente em frente de mim a eu vi com toda 
a nitidez que ela me lanava o olhar, me fazia um desolado gesto de adeus a 
desatava num choro convulsivo. No me lembro de alguma vez antes disso ter 
chorado. Porque seria ento que naquela altura se me arrasaram de gua os 
olhos, se eu conhecera mestre Jacob h to poucos dias?...
Em silncio, tendo presenciado a minha comoo, Diogo, que
me procurara pela cidade, pousou a mo no meu ombro. Ainda olhei
ao longe o barco a sair a barra. Caminhmos depois pela borda de gua 
e o meu companheiro, que era de poucas falas, disse-me:
- Talvez to interesse ler o papel que, na preocupao de preparar para a 
sepultura o corpo de Frei Gaspar, meti inadvertidamente ao bolso...
Era a carta do superior do nosso convento de vora para o nosso velho 
a infeliz amigo. Estava amarrotada a rasgada do cataclismo por que tambm 
ela passara. Muito breve dizia assim:
De Fr. Agostinho de Jesus a seu ir... Fr. Gaspar da Conceio. 
Sauda...s crists. Muito vos rogo, irmo, tomeis ao vosso ......... novios, 
Diogo a Joo ......... entregar estas letras em mo prpria ............  a pessoa 
que sabeis e h tanto tempo ............ Pelo seu aspecto peculiar a pelo nome 
............ logo vereis qual. Sede discreto como sempre ............ a Inquisio aqui. 
Avisai Jacob ............... urgncia. Os inimigos querem apanh-lo ............ O 
Senhor vos ............ a vos abenoe.
Olhei desconcertado para Diogo, que, no seu costumado silncio, me 
retribuiu um olhar compassivo. Tumultuavam-me no esprito os pensamentos: a 
conversa inicial com Frei Gaspar, a nossa visita a casa de mestre Jacob mais 
as falas em voz baixa deste com o frade a com a mulher, a despedida 
comovente que me fizeram, as tltimas palavras de Frei Gaspar balbuciadas  
hora da morte, o gesto doloroso de Sara no barco que partia a agora a leitura 
daqueles fragmentos da carta dilacerada, a ligar todos os factos ...
Diogo chamava-me  realidade. Deu-me a conhecer a sua preocupao 
pela nossa famlia franciscana de vora a quanto era urgente pormo-nos a 
caminho, tanto mais que havia j rumores de, havendo ainda corpos debaixo 
dos escombros, ser iminente a pestilncia. Dispusemo-nos, pois, a apressar o 
regresso, sem mais delongas, deixando de lado todos os nossos planos para a 
longa volta que nos propusramos dar. Depois de nos termos abastecido, 
encetmos caminho esforadamente, evitando as povoaes com receio da 
peste, bebendo gua apenas nas nascentes dos montes ou nas fontes naturais 
dos vales no povoados.
54 55
L, i
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III
Um olhar entre muitos
... Un verde praticel pien di bei fiori un rivolo lhe 'erba intorno bagni un 
augelletto lhe d'amor si lagni acqueta molto meglio i nostri ardori.
... Verde pradinho cheio de belas flores um riacho que a erva em torno 
banha uma avezinha que de amor se entranha acalmam bem melhor nossos 
ardores.
(Lorenzo de'Medici, Poesie)
Qualquer tugrio servia para dormirmos. A primeira noite descansmos 
num curral velho que encontrmos vazio numa cumeada, antes de Almodvar, 
a no dia seguinte, mal rompia a alva, pnhamo-nos de novo a caminho, por 
trilhos de pampilho a nardo, de carqueja a sargao, cujas cores a 
rescendncias me devolveram a minha normal boa disposio de esprito. As 
vezes os caminhos embraveciam, a terra apresentava-se estril, ressequida, 
gretada, o deserto escaldava, o suo queimava a vegetao precria a 
enfezada a estalava-nos os lbios e a pele. Cheios de calor, sedentos, no 
deixvamos de andar, que no se avistava no horizonte sombra de rvore ou -
pano de gua. Por isso, quando, passado o inferno, topmos com um pobre 
riacho que a terra sfrega chupava, quase no o deixando cminhar, era de ver 
a pressa com que tirmos as roupas a nos banhmos a sacimos a sede. 
Lavmos todas as peas do nosso vesturio
57
e pusemo-las a enxugar nos galhos das rvores a nos arbustos. Depois, 
sentados, nus,  sombra dos frescos lamos da margem, refizemos as foras 
comendo do farnel - gostoso po de centeio, rodelas de salpico, figos secos - 
e bebendo da gua do regato.
- Que bem saberia agora aquele pichel de bom vinho que nos serviu Frei 
Gaspar - recordo eu.
- Que Deus tenha em sua. glria ! - emenda Diogo piedosamente com a 
boca cheia.
Recosto-me na relva, de papo para o ar, a no demora muito que o sono 
tome conta de mim. Diogo, por caridade, no me acorda e, s tantas, faz o 
mesmo. Quando acordei ainda ele ressona. Ponho-me a cantar:
Eu venho da macelada venho de colher macela
 daquelas cantigas de que os meus ouvidos de menino esto cheios a 
que eu aprendi no sabia onde. Ento coisa curiosa se passa comigo.  nos 
olhos que eu sinto o perfume da macela a ouo os pssaros a trinar, a chilrear, 
a gorjear! Os meus sentidos esto todos baralhadosl Certamente ainda no 
estou completamente acordado! A cor de um campo de papoulas, que se avista 
na outra margem do ribeiro, entra aos berros, a baloiar, pelos ouvidos dentro, 
o sabor de um naco de presunto sinto-o no olfacto, apalpo as formas boleadas 
a aveludadas do perfume das estevas a as pontas aguadas a agrestes do 
cheiro forte da arruda. Todo eu sou sentidos tresloucados  Transmito a Diogo, 
que acaba de acordar, os meus pensamentos, as minhas sensaes. Ele 
escuta pacientemente aquilo a que chama as minhas trenguices, mas s vezes 
acha graa a ri-se. Creio que entrev pela primeira vez um mundo que sozinho 
nunca sonharia existir. Deitado de costas, com as pernas dobradas, deixo o 
olhar perder-se l em cima, por entre as folhas de um olmeiro, no cu azul. 
Apanho um trevo amarelo a ponho-me a chupar-lhe o caule acre, enquanto falo 
com Diogo. As vezes vinha-me  ideia compor um hino s com perfumes... Qe 
tal achava o amigo?... Ah! Se eu tivesse uma oficina de perfumistal... Recolhia 
em frascos todos os perfumes do mundo a depois subia ao alto da serra mais 
alta e, desarrolhando aqui, tapando ali, como se faz com os registos dos 
rgos das catedrais,
iria deixando os perfumes evolar-se numa imensa sinfonia de tons e 
meios tons, numa polifonia de fusas a colcheias, sustenidos a bemis numa 
hbil combinao de todas as figuras do gregoriano, a gradao do climacus, o 
alongar do porrectus, o volteado do torculus, volutas de incensamentos que 
iriam subindo, chegando ao Cu ...
De repente desato a cantar:
Meglio a cnfora da ndia cinamomo a benjoim
louvai ao Senhor!
Malbatro da Prsia mlino, cprino
louvai ao Senhor!
Afafro da Assria a da Caldeia sndalo a alos
louvai ao Senhor!
Aonde fora eu aprender aquilo?, alertado Diogo soergue-se apoiado 
nos cotovelos. Sem responder, continuo:
Rosas de Babilnia reseda, lrio
louvai ao Senhorl
Musgo a mbar da Arbia mirto a clamo
louvai ao Senhor!
A- partir daqui, Diogo, rendido, passa a recitar o refro do terceiro verso, 
aps eu cantar a antfona dos dois primeiros:
Resinas de Sdon a Tiro incenso a esmirna
louvai ao Senhor!
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nix odorfero da judeia glbano, estoraque
Cfea do Egipto psagda, metpio
louvai ao Senhor!
louvai ao Senhor!
Numa boua prxima melros faziam o acompanhamento com suas 
flautas e o pisco-ferreiro tinia ferrinhos.
Manjerona de Chipre mirostilo, bcaris
louvai ao Senhor!
Alforva da Hlade panatenaico unguento
louvai ao Senhor!
Blsamo de Cartago olor de mel a alcara
louvai ao Senhor!
Brinia a rdino de Itlia verbena, accia
louvai ao Senhor!
Sandraca da Clia exalafes de lis
louvai ao Senhor!
Cravos de Espanha almscar, espicanardo
louvai ao Senhor !
Suspendo o canto, de propsito, a espevitar Diogo. - E ns? - pergunta 
ele.
- No queres to acabar? - desafio. Que no conhecia desses perfumes 
raros, como eul, lamenta-se.
- Para ns creio que o mais bonito  escolher os aromas simples que 
esto  nossa volta:
Rosmaninho, alecrim da nossa terra nardo a junta dos br jos
louvai ao Senhor!
-  lindo! -exclarna Diogo.-Nosso padre So Francisco por certo 
gostaria.
Ficamos calados algum tempo, revolvendo na alma ideias a sentimentos 
suscitados por aqueles versos. Os nossos sentidos no eram igualmente 
nobres - quebrava eu o silncio. Como assim?... Reparasse. As principais 
artes eram a pintura, a msica, a escultura, queria dizer, as manifestaes da 
vida que se exprimem pelos olhos, pelo ouvido, pelo tacto: as formas das 
coisas, a sombra e a luz, o claro e o escuro, as cores a seus cambiantes; os 
sons, os rudos, tons a meios tons, a voz humana, o vibrar de uma tripa 
ressequida, o soprar por um tubo de bambu ou de metal, a percusso de uma 
esticada a seca pele de boi numa caixa de ressonncia, o tinir de metais, o 
canto multssono a multmodo das aves; o plano e o volume, o spero e o 
macio, o duro e o mole, os contornos boleados das dunas ou de um corpo de 
mulher, o mrmore e o bronze, o cinzel arrancando ao seio da madeira as trs 
dimenses de uma forma sonhada... - que sabia eu?... Podia haver arte na 
matemtica do movimento, adianta Diogo como a medo. Sim, era verdade. A 
harmonia celeste, a concinnitas das esferas celestes de que falava Ccero no 
Sonho de Cipio a que, segundo Pitgoras, gerava uma melodia astral. 
Movimento a sinfonia! Eis duas artes que se casavam na dana. Ou melhor: na 
dana casavam-se trs artes : o movimento, a msica e a escultura. No se 
esquecesse o amigo de que os danarinos eram esttuas arrancadas  sua 
esttica imobilidade, que no estavam mas se moviam... No achava Diogo? 
Podia eu acrescentar mais uma, visto.estar presente o elemento visual. 
Tinha ele muita razo. Portanto, nos sentidos, como na sociedade, havia os 
nobres a havia os... ... os pobres!, rematava o meu companheiro com uma 
gargalhada a coroar a rima, a conclua: Os sentidos nobres eram a vista, o 
ouvido e o tacto... Os pobres...
60 6
- Os pobres so o olfacto e o paladar. Ora eu gostaria de reabilitar estes 
sentidos pobres, fazer por exemplo a tal sinfonia de perfumes...
- No me digas que tambm pretendes compor um Gloria Patri com os 
sabores de um refogado, de um coelho  moda do Alentejo, de...
Mas a ideia era essa precisamente! No estava a ver? Contudo era 
preciso elevar os paladares s alturas da arte a do gnio. Um Gloria no o 
imaginava com o sabor do estrugido, mas o do coelho na caarola vinha a 
matar, se Diogo o pusesse de vspera em vinha de alho, com a folha de louro 
a muitas ervas cheirosas como o tomilho, a carqueja, os orgos, a hortel, a 
salsa. Quem mo dera ter ali naquele momento, que era um glorificar ao Criador 
que to boas coisas nos dera...
- Amen 
Dois dias depois estamos s portas de vora, falamos dos meus 
escrpulos em tomar hbito, das minhas hesitaes, de Hrcules e da 
encruzilhada, do bvio pitagrico, e, por escolha de Diogo, metemos pelo 
caminho errado, que nos afasta da cidade, sem qualquer espcie de oposio 
da minha parte, que via nisso o adiamento de uma definitiva resoluo. O 
aqueduto, linha de referncia a apontar-nos vora, deixara de se avistar. Diogo 
nem reparara no facto. Est descendo o crepsculo. Numa volta da vereda 
aparece uma pequena casa sombreada de pinheiros mansos que desenham 
uma suave mancha verde-anil na neblina da paisagem dourada pelos ltimos 
raios de sol. Uma moa de uns dezoito anos tira gua do poo quando nos 
aproximamos. Deus a salvasse  Se lhe dava uma pcara da gua, pede 
Diogo. Sem uma palavra, ela mergulha um tarro de cortia na selha a oferece-
lho. Diogo bebe lentamente, consoladamente. Ela observa-o, depois olha para 
mim.
- Tambm tens sede?
- Tinha - respondo-lhe eu. - Mas, desde que estou a olhar para ti, a 
minha sede  outra.
Diogo, atnito, pra de beber. Ela serenamente tira-lhe o tarro da mo, 
deita fora o que resta da gua, enche-o de novo olhando-me de soslaio, com 
um sorriso brejeiro, a apresenta-mo:
- A tua sede  desta gua, loirao duma figa 
62
Bebo agradadamente, fitando-a nos olhos a sorrindo. Ela retribui-me 
sem rebuo o olhar e o sorriso, franco, aberto, como um fio de gua sem lodo.
A noite caa. ramos novios de So Francisco de vora, dizia Diogo 
na sua simplicidade. Tinha acaso um palheiro onde pudssemos dormir? De 
imediato se levanta a moa. Que ia falar  me. Esperssemos um pouco. Foi 
dentro a no tarda a aparecer a me, mulher ainda fresca, toda embiocada de 
preto, de uma viuvez recente. Morrera-lhe o marido numa refrega com os 
rabes no Norte de frica. Aproximamo-nos. Mede-nos dos ps  cabea.
- Sois do Convento de So Francisco? - pergunta. - Somos - responde 
Diogo.
- No trazeis hbito - nota.
- Somos novios. Tomaremos hbito daqui a alguns dias ou semanas.
Eu conservava-me calado a pensativo, a olhar a moa. Recortava-se-lhe 
a figura por detrs da me no escuro da porta, o corpo fino, esbelto, onduloso, 
a adivinhar-se sob a roupa justa, o corpete a realar o relevo dos seios. Olhava 
para mim a sorria. Sentia-me subitamente perturbado, de uma perturbao que 
j de outras vezes experimentara ao olhar outras raparigas. Era este mais um 
motivo por que considerava no ter vocao para padre.
- Temos um coberto atrs da casa. H l boa palha. Limpa. Podereis 
ficar l. Vinde por aqui.
Levou-nos, contornando a casa, at s traseiras. Um co enorme 
desatou a ladrar e a forar a corrente. A moa correu a segur-lo.
- Quieto, Pastor! - ralhou ela a meia voz, ameaando-o com a mo 
levantada.
Mas Pastor resolveu apenas mudar o registo das ameaas e ps-se a 
rosnar. Que aquilo era tudo finta, dizia-me a rapariga. Ele era manso que 
nem um cordeiro. Enquanto a me se dirigia ao coberto, seguida de Diogo, 
aproximei-me do co a fiz-lhe uma festa na cabea. Calou-se a lamber-me a 
mo. A moa largou a corrente e o co, livre, ps-se a farejar-me, num exame 
meticuloso, a por fim resolveu que eu era persona grata. Ela caminhou para 
junto da me e eu fiquei parado a v-la. O co deitou-se, eu baixei-me a afag-
lo, olhando a moa, que se virou para trs. Os nossos olhos encontraram-se.
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Ela estava muito corada a sria. Eu tinha uma enorme angstia na alma. 
Que me estava a acontecer?
A me indicava a um canto um stio que considerava abrigado e, a seu 
modo, acolhedor. Diogo agradecia. Se no queramos comer qualquer 
coisa? - No se apoquentasse suamec. Tnhamos ainda do nosso farnel a 
no queramos dar-lhes mais incmodo.
- Ento at amanh. Espero que durmais bem.
- At qualquer dia a obrigados. Seguiremos caminho muito cedo e  
natural no nos vermos. Mas um dia, quando j formos frades, passaremos por 
aqui a agradecer-vos melhor.
- At amanh - repetiu a mulher.
- At amanh - disse a filha com voz sumida dirigindo-se a mim.
- At amanh - desenharam os meus lbios quase sem som. - ... se 
Deus quiser! - emendava Diogo, com os braos em cruz sobre o peito.
Essa noite comecei a sentir arrepios a suores frios. De madrugada ardia 
em febre. Quando Diogo acordou disse-lhe como me encontrava. Ps-me a 
mo na testa. Ih! Deus do Cu! Como ardia! Devia de ser a febre das 
carraas. No me podia levantar naquele estado. Deixasse-me estar ali. Ia 
pedir  dona da casa que lhe emprestasse um cobertor, para me agasalhar 
melhor, a ver se ela podia arranjar uma tisana quente de dedaleira ou de 
tamarindo. Depois ia a vora por um boticrio. Esperava no se demorar. 
Saiu. Deu a volta  casa. Senti-o bater  porta a ouvi-os falar por algum tempo. 
No tardou rnuito que aparecessem os trs. A me, sabendo como eu estava, 
no consentiu que ficasse ali no coberto. Que tinha um quarto vago em casa a 
era para l que eu devia ir at vir o boticrio ou o fsico. Eu no estava em 
condies sequer de esboar qualquer opinio ou protestar pelo incmodo que 
ia causar. Diogo agradeceu a ajudaram-me a caminhar at casa a deitaram-
me. O meu companheiro partiu imediatamente para vora montado num 
burrinho que a boa mulher lhe emprestou. No fica por aqui a sua caridade, 
pois da a pouco entra no quarto mais a filha. Traz uma tigela nas mos. 
Aquilo ia fazer-me bem. Era uni ch de laranjeira. Tinha a virtude de abater a 
febre. Na testa um leno embebido em vinagre frio a roupa bem aconchegada 
at ao queixo. Deixam o quarto meio escurecido, ao verem-me com os olhos 
fechados. Adormeci. Acordei no sei quanto tempo
depois, com a moa sentada na borda da cama a tirar-me o leno da 
testa. Eu estava todo molhado de suor a tinha a cabea ourada.
- Como to sentes? - pergunta-me vendo-me abrir os olhos. Fao-lhe um 
gesto desolado. Toca-me a mo:
- Ests a suar. Precisas de roupa seca. Vou ver se to arranjo. Sai mas 
no demora. Traz uma comprida camisa de dormir, de flanela. Faz-me sentar 
na cama, tira-me rapidamente a roupa - tens um undo medalho! -, enxuga-
me com uma toalha de linho, muito fresca, esfrega-me as costas e o peito, 
enfia-me a camisa seca, deita-me, cobre-me, limpa-me as bagas de suor da 
face - ... a um lindo cabelo - e aplica-me na testa outro leno fresco 
embebido em vinagre. - Dorme. Voltarei mais tarde.
- Obrigado. Como to chamas ? - a custo consigo balbuciar. - Margarida.
- Obrigado, Margarida! - digo afagando-lhe a mo.
Pelo meio-dia ouviu-se o rodar de uma carroa ou coisa que o valesse. 
Era o fsico que chegava, enviado pelo Dom Abade. Vinha buscar-me. No 
me quero ir embora, pensei. Abriram-lhe a porta a conduziram-no junto de 
mim. Mal me viu torceu o nariz a resmungou qualquer coisa. Vou exagerar a 
expresso de sofrimento, a pus o ar mais compungido a doloroso que me foi 
possvel. Ergueu-me as plpebras dos olhos, examinou-me a lngua, pediu uma 
colher para me poder ver a garganta - di, menti eu mesmo com a colher na 
boca -, sentou-me na cama e, tendo colocado um fino pano no meu peito, 
encostava o ouvido a auscultar, mandou-me tossir, fez o mesmo nas costas, 
nos hipocndrios... A um canto, muito caladas, com a respirao contida, olhos 
muito abertos, as duas mulheres assistiam  cena como quem est pendente 
de um assunto de vida ou de morte. Diogo chegava entretanto, atrasado 
porque o burro, que tinha de devolver, no andava to depressa como os dois 
muares que tiravam o carro.
- No  aconselhvel - disse o mdico virando-se para Diogo, que 
entrara no quarto -, no estado em que ele se encontra, lev-lo daqui, como 
quer o superior.
- Mas tem de ser! - ripostou Diogo. - O superior foi peremptrio. Temos. 
de correr esse risco.
Um mdico no corria desses riscos. Voltariam a vora. Ele prprio 
falaria com o abade, enquanto Diogo ia aviar na botica do convento a receita 
que prescrevia, e, dirigindo-se s mulheres, con
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a iI
tinuassem a pr-me na testa pachos de vinagre fresco a vissem se no 
poo haveria umas sanguessugas... Far-me-iam bem...
S ao fim de duas semanas a doena comeou a ceder. Diogo, que a 
princpio no me abandonava, vendo os cuidados que as mulheres da casa 
tinham para comigo, passou a vir ver-me dia sim dia no e a dormir no 
convento. Depois espaou as vindas, mas ganhou um amigo no burrito que o 
levava a trazia, para o qual tinha sempre prestes o mimo de um punhado de 
favas. Quando chegava, os alforges vinham abastecidos de carne, ovos, leite 
e, por insistncia do superior, obrigava a viva a receber dinheiro por trabalho a 
hospedagem to incmodos, com grande arrelia dela, que nada queria aceitar.
Margarida - porque se nos prendem os olhos, as mos? ficava a 
fazer-me companhia, desde que eu adoecera, a no ia com a me  cidade 
vender fruta a hortalia. Vinha costurar para a minha beira a punha-se a cantar:
.Quem tem pinheirales tem pnhas quem tem pinhas tem pinhes
quem tem seus amores ausentes so dobradas as paixes...
- Sempre vais para padre? - perguntava-me. - No sei ainda. Canta 
mais.
- Gostas?
Fiz que sim com a cabea. Depois de um silncio, como a rebusca.r nas 
lembranas, cantou num fio de voz muito fino a muito lmpido
Se fores lavar para o rio lava na pedra do meio. Se l cafrem flores 
recolhe-as no teu seio...
Mas, como se o pensamento no se tivesse desligado da. conversa 
inicial, disse:
-  pena. Se fores, d.iz-me, porque me quero confessar a ti. - No sejas 
tonta. Tu que pecados tens?
Pecados de pensamento. Queria desviar-me de Deus. Visse eu se no 
era um pecado tamanho: querer roubar-me a Deus!
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Deitava-se ao meu lado a punha-se-me aos beijos a afagos, a que de 
pronto as minhas mos a os meus lbios correspondiam.
Margarida era capitosa: cabelos muito negros a fartos a ca.rem-lhe 
ondados sobre os ombros: uns olhos profundos em que brilhavam cintilaes 
de desejos; lbios polpudos a pedir outros lbios; seios firmes, espetados; 
ancas boleadas depois da cintura delgada. Todo o seu corpo era moreno. 
Gostava de ter as minhas mos nas suas: as minhas, muito brancas a esguias, 
contrastavam na sua cor tisnada. - Quem so os teus pais?
- No sei.
- Ests a mangar comigo. Mos assim no so de um filho das ortigas. 
s para a filho de algo. Os senhores nobres fazem filhos a torto e a direito a 
depois mandam-nos para os conventos para serem bispos.
No meu ntimo pensava eu se ela no teria uma boa dose de razo... 
Outras vezes encontrava-me a ler algum livro. Sentava-se muito de manso na 
beira da cama, em silncio, as mos ocupadas numa camisola de l, cujas 
medxdas tiraxa no meu corpo. Que estava a ler? Eu explicava-lhe com muito 
pormenor. Margarida suspirava: No era chinela para o meu p!...
A noite, antes de se recolherem, as duas mulheres vinham fazer-me um 
pouco de companhia,  luz da candeia de azeite, enquanto eu tomava uma 
canja de galinha cheia de olhos de gordura a os ovinhos amarelos a boiarem, 
rescendente. Boa canja, sim senhora! -  para se comer toda. - Est 
quente! -  ir soprando a comendo devagar... E a canja vai desaparecendo, 
com elas regaladas a contemplarem-me, como se eu fosse um santo no altar. 
Menino bonito , diz Elsa tirando-me a tigela da mo. A me de Margarida  
uma bela mulher dos seus trinta a cinco anos. Quando se inclina sobre mim 
para me aconchegar a roupa, sinto-lhe os seios a roarem-me e o perfume 
forte que dela emana. Todo o meu corpo desperta. Ponho-lhe a mo na cintura 
a ela, com o rosto quase chegado ao meu, olha-me fundo nos olhos, sorri com 
doura a diz, dando-me um beijo na testa: - Dormi sossegado, para amanh 
estardes bom.
Mas eu sentia que tambm a sua carne tinha frmitos. Nessa noite 
custava-me a adormecer, a tratos com os meus sentimentos contraditrios, 
malavindo comigo prprio, acusando-me a conscincia de no estar a proceder 
bem, quando senti que algum entrava de
67
err
mansinho no quarto, levantava os cobertores e o lenol a metia-se na 
cama junto a mim.
- Chiu! No faais barulho!
Era Elsa. Margarida tratava-me par tu. Senti-lhe o corpo nu, fremente, 
ansioso. No me fiz rogado. De manh acordei tarde, cam Margarida a insistir 
que eram mais que horas do julepo que o fsico receitara a do leite quente cam 
sopas de po.
- Seu preguioso! Isto so horas de acordar?
Enquanto eu fao as honras s sopas, que no ao julepo, you dizendo  
moa que me sinto cam foras para me levantar a ir apanhar um pouco de sol, 
depois de tomar um banho, se ela quiser ter a canseira de me arranjar gua 
quente. Pe-se logo ao trabalho a eu, embrulhado num cobertor, you at  
cozinha v-la proceder.
- j ests bom, vejo.
- Sinto as pernas ainda um pouco fracas - digo-lhe eu, pensando cam os 
meus botes que essa fraqueza tem uma causa bem prxima e no provm 
apenas da longa doena ... a sentando-me num macho.
Enquanto na lareira a gua aquece nos paneles negros colocados nas 
tripeas, Margarida pe-se a cantar:
Joo-Zinho, cara de anjo, serpo da minha varanda, caixinha dos meus 
segredos, onde o meu sentido anda.
Joo.Zinho, cara de anjo, caixinha dos meus anis, se to queres casar 
comigo vamos tratar dos papis.
Ambos rimos. Ponho-me tambm a cantar No meio daqueles matos... 
Conheces esta moda? Ela conhece a modinha a secunda-me:
No meio daqueles matos andam dais coelhos bravos. J  tempo de se 
unirem aqueles dais namorados.
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Ai amor, ai amor, ai amor! Ai amor do me'coraffo
qui tollis, qui tollis, qui tollis a gnus Dei miserere nobis miserere nobis!
A cantiga termina numa grande risota a ela sentada nos meus joelhos, 
abraada a mim, aos beijos.
Foi, a princpio, uma posse rpida, frentica, mtua, a em seguida, par 
largo tempo, serenamente saboreada a consolada. Comemos depois um 
almoo reforado, acompanhado de um bom vinho que ela foi desencantar a 
um esconso. A tarde, quando a me chego`u, arrumava ela a cozinha enquanto 
eu refazia as foras numa longa a bendita sesta.
Nos dias que se seguiram eu convalescia a olhos vistos, amava a filha 
de dia e a me de noite, comia cam apetite e o bom vinho restaurava-me as 
energias, aquecia-me o sangue a restitua-me a costumada boa disposio. De 
repente o ardor das duas mulheres esmoreceu a eu compreendi que elas eram 
seres muito naturais a instintivos, cujo cio, coma nos animais, tinha perodos 
certos. O horizonte dos seus interesses era bem estreito: limitava-se  
satisfao das necessidades da sobrevivncia - as do estmago, para manter a 
vida, as do sexo, para continuar a espcie. Os apelos espirituais eram nulos: 
iam  igreja par rotina a par medo de no sabiam qu, acreditavam em Deus, 
rezavam, mas em tudo isso a f confundia-se cam a crendice e a religio era 
mais um meio de procurar pr o Eterno ao servio dos interesses pessoais, de 
estar de bem cam Deus a cam os homens. Entendi ento que falar de pecado 
em pessoas como elas no tinha qualquer razo de ser. Quanta a mim, talvez 
nunca ningum tenha entendido melhor do que eu aquele famoso dito de 
Ovdio, na sua Ars Amatoria, de que post coitum omne animal triste. Onde 
estavam os arroubos da alma, os voos do esprito, as subtilezas volteis dos 
sentimentos sem mcula? Ai de mim, que falar de pecado a meu respeito tinha, 
isso sim, mais que razo de ser. Sentia a necessidade de um banho lustral par 
dentro, par todos os recnditos insuspeitados da alma e, embora estivesse 
grato quelas mulheres que me acolheram em sua casa, me trataram na 
doena, me deram o seu amor que mais no pbdiam dar, era sobretudo par me 
terem mostrado no ser aquele o meu caminho que eu as no poderia jamais 
esquecer. Quando, j
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completamente refeita a sade, me despedi delas, choraram abraadas 
a mim a por entre beijos obrigaram-me a prometer-lhes que as iria ver de vez 
em quando, o que eu fiz mais que uma ocasio, sem no entanto repetirmos as 
nossas relaes amorosas. Apesar da sua rudeza e nenhuma instruo, 
possuam uma fina sensibilidade para estes pruridos de conscincia: no me 
tornaram a provocar a dedicaram-me uma daquelas raras amizades, perfume 
de alma que tudo em derredor embalsama a purifica.
Diogo veio buscar-me. - Como ests?
- Bem. A cidade sofreu muito com o terramoto ? - lembrei-me. - Quase o 
no sentiu.
- Tudo normal?
- L, quase tudo. J to contarei. E tu? - perguntou olhando-me 
intencionalmente nos olhos.
- Tudo normal - respondi com um sorriso. - Agora est tudo bem.
Respirou fundo e, enquanto caminhvamos, punha-me ao corrente do 
que se passava em vora, nessa altura centro das atenes da nao no s 
por l ter fixado assento a corte, mas pelos sucessos importantes que 
anunciavam grandes mudanas. O bispo de Ceuta, D. Frei Diogo da Silva, que 
quatro anos atrs havia publicado ali aquele monitrio em que se 
discriminavam as culpas sob alada da Inquisio... lembrava-me? Sim, 
lembrava-me muito bem: o judaizar, ter prticas luteranas a maometanas, fazer 
feitiarias, sortilgios... Pois fora substitudo em seu cargo de inquisidor-mor, 
imaginasse eu por quem... Por quem?... pelo arcebispo de Braga, por D. 
Henrique. O rei nomeara o irmo inquisidor-geral. Sabia eu o que isso 
significava?... Se sabia! Isso queria dizer que D. Joo III estava a levar a 
melhor na sua pertincia junto do Papa Paulo para que se estabelecesse em 
Portugal uma Inquisio centralizada a toda-poderosa como em Espanha. 
Para que se estabelecesse? J estava praticamente estabelecida. Os bispos, a 
quem incumbia at a o assunto, j nada contavam para o efeito. In nomine 
tudo se centralizava em Roma; in facto, no rei a nos homens da sua confiana, 
em D. Henrique.
- Presumo que sobretudo os cristos-novos estejam receosos. 
Receosos? Atemorizados! Constava que o xodo do pas estava a crescer dia 
a dia. A primeira medida de D. Henrique fora nomear
um Conselho Geral. Olhasse os nomes: Frei Joo Soares, o Dr. Rui 
Pinheiro, o Dr. Rui de Carvalho, o Dr. Joo de Melo. Este sobretudo parecia 
que, em Lisboa, j vinha com ameaas de ir aos portos de mar, entrar nos 
barcos que estavam para levantar ferro a tirar de l todos os fugitivos para os 
queimar vivos...
- No duvido de que o faa. Pobre gente!
- No percebo esta sanha contra eles... No seu tempo, el-rei D. Manuel, 
segundo ouvi dizer, utilizava todos os subterfgios para no pr em prtica a 
expulso dos judeus, a que fora obrigado por fora de uma clusula do seu 
contrato de casamento com a princesa espanhola D. Isabel, filha dos Reis 
Catlicos. Obrigou-os a baptizarem-se, dificultava-lhes o embarque para fora 
do pas... Queria que eles c ficassem,  o que ... Agora todo este fervor 
religioso de D. Joo III...
- Mais fervoroso que o do papa, no h que ver. - No entendo nada.
- Sim,  difcil. Mas uma coisa  certa:  que, por detrs de toda esta 
fachada inquisitorial que se est a erguer - e sabe Deus aonde levar o 
fanatismo dos homens -, h foras obscuras, o poder do dinheiro, as ambies 
de hegemonias, mando, privilgios, que no vem com bons olhos a crescente 
importncia da burguesia judaica e a sua tendncia para misturar o seu sangue 
ao dos cristos-velhos. Qui tyrannidem affectant, alienis dissidiis suas augent 
vires -  uma sentena do inefvel Erasmo de Roterdo : os que procuram 
tiranizar acrescentam suas foras com as dissenses alheias. Gostas?
Ih  Deus do Cu  Erasmo ! Onde o fora eu desencantar? Que era uma 
edio que corria clandestina, sem as licenas do Santo Ofcio, tendo apenas 
no clofon a indicao do livreiro Germo Galhardo... Qualquer dia ia parar  
fogueira s por me ouvirl Desatei a rir. Ele recordou:
- Hoje precisamente vai-se proceder a um auto-de-f na cidade. Dizem 
que haver pela primeira vez um relaxado em carne.
- Sinto crescer dentro de mim - disse eu - uma grande revolta contra 
essas perseguies. Cristo no poderia sancion-las. Alegavam ser para 
purificao da religio, contra as heresias
que proliferam a para salvao das almas. Ora! Cada qual em sua 
conscincia, j que Deus nos dera livre arbtrio, tinha direito a ter a sua 
crenca. Prender um homem honesto, tirar-lhe toda a protec
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o a defesa, obrig-lo, se preciso fosse pela tortura, a confessar crimes 
que no praticara, a professar a f em que no fora criado, s porque afiara a 
faca na unha do polegar, ou trabalhara ao domingo, ou comera carne  sexta-
feira... Visse eu como falava! Era o que lhe dizia! O abrir-lhes os olhos a 
lev-los a abraar a verdade de Cristo era pelo exemplo a pela palavra 
persuasiva que se fazia. No pelo pelourinho, a mutilao, o garrote, o 
esquartejamento, a fogueira. Eram criminosos, esses sim, perante Deus os que 
tal prtica usavam.
Se me ouvissem, os senhores da Inquisio diriam que falava como 
Lutero ou como esse Erasmo de que havia pouco citara uma frase. Quando 
estivesse na cidade tinha de ter tento na lngua, que as pedras agora possuam 
olhos a ouvidos.
- Porque no me denuncias to a uma Inquisio que incita o filho a 
delatar ao pai, a esposa ao marido, o amigo ao amigo... ?
- Joo!
Desculpasse. No resistia a brincar, at com coisas srias. Eu sabia 
que ele era o nico a quem podia dizer tais barbaridades. Teria cuidado 
comigo, no se preocupasse. J estava habituado havia muito tempo !
- O caso  que me preocupo. H nas tuas opinies a no teu 
comportamento matria cabonde para repasto daqueles senhores sequiosos: 
convives com judeus, s seu amigo, tolera-los, ouves a sina s ciganas, citas 
Erasmo a sustentas asseres que me pem os cabelos em p, tens comrcio 
com mulheres... Se eles soubessem!
- No julgues que s o nico a sab-lo. No tenho a mnima dvida, por 
exemplo, de que, sem que to lhe tenhas dito fosse o que fosse, o superior sabe 
tudo o que se passou em Tavira e, agora, na casinha do vale aquando da 
minha doena.
- Julgas-lo espiado?
- Sou espiado! - e desato a rir: - O que eles no podem saber, seno tu, 
so os nossos hinos de louvor a Deus,  beira do riacho, nus, enquanto a 
roupa secava. A menos que at as aves do cu sejam minhas espias, ou que 
uma asa de vento lhes v soprar ao ouvido, ou uma gota de gua do rio, 
evolando-se no ar, v cair, transformada em chuva de segredos, na careca de 
quem se est interessando por mim...
Quando entrmos em vora, pela porta do sul, a cidade encontrava-se 
sob a emoo da expectativa de assistir ao auto-de-f. Dobram
os sinos sinistramente a anunciar o justiciamento dos penitentes. Corre 
gente, aos magotes, para ir a tempo ocupar posies que lhe permitam melhor 
viso do espectculo. Da igreja da Misericrdia vem j saindo a procisso. Um 
homem, vestido de um balandrau preto, caminha  frente com a bandeira, 
ladeado por outros dois, vestidos da mesma maneira, que seguram tocheiros 
acesos. Tm os trs os rostos medonhamente cobertos. Diante da bandeira 
segue um dos irmos da Casa com a vara. De um lado a outro, do fundo 
escuro da porta, vm surgindo as duas compridas alas dos capeles, de mos 
postas, regidas por um outro membro da Irmandade. Apaxece em seguida, no 
couce deste conjunto, o Crucifixo, trazido pelo irmo domairo a acompanhado 
por quatro homens igualmente de balandraw preto a capuzes a tapar-lhes os 
rostos. Detrs do Crucifixo avanam solenemente quatro irmos da Mesa, com 
varas, a os mordomos dos presos com as consolaes apropriadas a 
esforarem e animarem os padecentes. Um aclito transporta a caldeira a um 
hissopo. Algumas pessoas, como ns, param a presenciar o cortejo, mas a 
maior parte auda os passos para chegar depressa  praa principal, onde se 
realizar o acto. A procisso agora alonga-se, porque na sua cauda vm 
seguindo, em seus hbitos, irmos franciscanos, trinitrios, dominicanos. Num 
silncio que mais reala o dobre lamentoso dos sinos, a longa fila mete por 
uma estreita rua a dirige-se  cadeia, a fim de a buscar os que vo ser 
justiados. Metemos no seu encalo e postamo-nos em lugar de que podemos 
presenciar de perto o que se vai passar. A porta da cadeia abre-se a os 
penitentes, conduzidos pelo alcaide a demais carcereiros, aparecem:  frente, 
com um crio amaxelo na mo, surge um homem envelhecido, vestido com 
urna tnica de linho branco. Reconheo-o imediatamente e a cabea comea-
me a andar  roda:
- Olha! - digo a Diogo. -  mestre Nicolau!
- Eu sei. Nicolau de Chanterenne, o escultor. Foi denunciado por um 
pedreiro que com ele trabalhava, Joo Rombo.
- De que o acusaram?
- J veremos, mas a sentena no deve ter sido pesada, que vem  
frente.
Seguem-se duas mulheres, tambm vestidas de branco a com crios 
cujas chamas lhes tingem as faces exangues com laivos de cera cadavrica. 
Choram desfeitamente a no  possvel abafarem-se-lhes
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os ais a os gritos de aflio. Recebe-os do alcaide o meirinho, com suas 
justias, que ali mesmo os fazem ajoelhar diante do Crucifixo dado a beijar. 
Colocam-nos, depois, no lugar que lhes cabe na procisso:  frente do 
Crucifixo. Atrs deste postam-se uns outros oficiais segurando um caixo com 
os ossos de um padecente que no havia resistido ao crcere. Dois meirinhos 
trazem as efgies em corpo inteiro de dois cristos-novos, um que tinha 
conseguido fugir para o estrangeiro a outro que havia morrido. Vem depois um 
homem ainda novo mas to desfalecido, to desfeito pelas torturas, cujos 
sinais so bem visveis nos dedos das mos, ensanguentados a torcidos, que 
dois meirinhos tm de o amparar, um de cada lado, obrigando-o a caminhar 
penosamente. Os sinos parecem passar a segundo plano, agora que os 
capeles de uma das alas comeam a entoar a ladainha Kyrie, elison, 
respondendo os da outra Christe, elison, sinos a ladainha que me azoam a 
zunem nos ouvidos, me entontecem o crebro, me ouram a pontos de um 
instante me ter de apoiar a Diogo, que no d conta da minha tontura. A 
procisso recomea a andar, na mesma ordem por que ali chegou, com a nica 
diferena de que os quatro irmos que vm atrs do Crucifixo passam para a 
frente, cedendo o seu lugar aos ltimos padecentes, que so os relaxados em 
carne. Mas a partir da tudo chega at mim como um pesadelo longnquo, em 
que as formas, as cores, os sons se distorcem constantemente, se misturam no 
tempo a no espao, se desmembram a aparecem-me isolados, ou se 
combinam em ligaes aberrantes... Christe, audi nos, cantam as vozes dos 
padres a logo o ricto de um esgar de dor se destaca daquele amlgama de 
gente, de crios a tocheiras, a vem, concreto como pedra arremessada, ao 
encontro da minha retina, imediatamente seguido por retalhos de cores a 
formas de tnicas, hbitos, castanhos, brancos, escapulrios pretos, 
sobrepelizes de renda, estolas de ouro, negras carapuas de rebuo tapando 
caras, sambenitos com labaredas vermelhas... Christe exaudi nos, ais a 
gritos, mos de frades que avanam de crucifixo em punho a consolar os 
padecentes, caretas de dio a apupos da populaa enfurecida: Sancta Maria, 
ora pro eis..,
- Ora pro eis! - repito eu a Diogo, como em sonho -, roga por eles a no 
pro nobis, por ns a pela nossa loucura. Vamos daqui, irmo, que me 
estomagam estas cenas.
Esperasse um pouco. Olhasse! Era imprudente retirar-me agora. O 
pesadelo continua. Pem-se todos de joelhos ao passarem 
porta de uma igreja e o grito imenso, angustioso, reboa no silncio e nos 
meus ouvidos: Senhor Deus, misericrdia! Os ps do Crucifixo a os lbios 
lvidos de um desgraado a beij-los espumando; o largo grande da cidade 
cheio de gente; a tribuna de honra com o inquisidor-geral a presidir, ladeado 
das caras severas, insensveis, dos inquisidores; a voz de um pregoeiro: 
Justia que manda fazer el-rei nosso senhor, manda queimar em esttua ao 
cristo-novo Jacob, fsico de Tavira, impenitente a relapso...; Diogo que me 
segura para eu no cair desfalecido, olhando no meio da praa as chamas a 
envolverem as duas efgies dos judeus; a cabea descada sobre o peito do 
padecente atado a um poste no centro da pira; labaredas, fumo, cheiro a carne 
assada e ossos calcuza.dos; os sinos a ulularem plangentes; frases soltas de 
um frade a vociferar imprecaes de Inferno do alto de um plpito improvisado; 
olhos esbugalhados de terror a contemplarem aquele homem transformado em 
tio ardente; algozes de bioco negro revirando raiadas rbitas de dio de 
olhos que espreitam as vtimas; a voz do promotor Frei Cosme lendo retalhos 
de sentenas: ... acusado de ledor da Bblia a de possuir em sua casa uma 
mandrgora... condenado a abjurar com penitncia... acusadas de feitiaria... 
condenadas a priso indefinida... culpados de judasmo... relapso... relaxado 
em carne... Frades ajoelhados a rezar, diante das fogueiras, rostos com 
lgrimas, rostos hirtos, esgares, bocas cerrando os dentes para no gritarem 
seus protestos, a os sinos a os sinos a os sinos... os bronzes dos templos a 
martelar infandos, plangentes soluos, lgubres lamentos... e a praa de 
repente deserta de todos, como se nada se houvesse passado se no fosse l 
ao centro, a fumegarem lentamente, os restos das efgies e o carvo negro em 
que se tornara uma criatura de Deus... e a voz de Diogo, assustada, que me 
diz:
- Vem. Que tens tu? Ests doente? J todos se foram. Pareces estar 
sonmbulo. Estou a chamar-lo h uma poro de tempo... Olho-o tristemente, 
sentindo as lgrimas escorrerem-me pelas
faces a baixo, a sem dizer uma palavra ponho-me a caminhar ao lado 
dele, as labaredas do tio humano nos olhos, os ulos de dor nos ouvidos, a 
alma a sangrar-me...
Naquele dia, como cheguei ao convento combalido das cenas a que 
assistira, julgando-me ainda convalescente dispensaram-me
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do horrio normal, deram-me uma cama na enfermaria a tive refeio de 
doente, que era sempre melhorada. Deitei-me logo em seguida pois desejava 
estar s comigo a fechar os olhos era para mim, naquele momento, uma real 
maneira de olhar para dentro. Bem precisava, que a hora de tomar a deciso 
definitiva estava a chegar. Mas ento que dvidas me restavam ainda? A 
experincia com Margarida a Elsa no me tinha esclarecido? O que me 
abalava agora era a impresso que me ficara das cenas do auto-de-f a que 
assistira, aquele fanatismo, aquela intolerncia, aquela barbaridade... em nome 
de Cristo  No podia concordar com o esprito da Inquisio a isso quereria 
dizer que eu no era catlico a muito menos poderia em conscincia ser 
padre...
Estava nesta tortura de escrpulos de conscincia, quando Diogo, pela 
tardinha, me veio ver. Desabafei com ele. Escutou-me todo o tempo em 
silncio, de semblante grave mas sereno. Quando me calei, disse:
- Julguei que tudo estava resolvido. No tenho eloquncia nem agudeza 
de esprito para desfazer os teus escrpulos. Fala amanh com o superior. 
Conta-lhe das tuas dvidas. Por mim, recuso-me a esquecer-me, desde que to 
ouvi compor a cantar hinos a Deus, a aceitar que to no sejas um franciscano 
nato. Lembras-te? - e trauteou
Rosmaninho, alecrim da nossa terra nurdo a junfa dos br jos...
E eu, num soluo convulso:
. .. louvai ao Senhor l
No dia seguinte, antes que me dirigisse ao superior, este, sabendo que 
eu j no estava de cama a me preparava para me integrar na vida normal do 
convento, mandou-me recado que o procurasse. Acolheu-me com um abrao 
paternal e, depois das perguntas formais sobre a minha sade, veio ao ponto
- Ento j decidiste?
Contei-lhe as minhas dvidas recentes, que as antigas haviam deixado 
de existir. Que os meus escrpulos no tinham razo de ser
- respondeu-me com um sorriso -, pois o prprio papa, como estava 
mostrando pela resistncia ao pedido de el-rei, pela promulgao d, bula de 
perdo que protegia os cristos-novos, pelas dilaes dos nncios apostlicos 
que nos vinham de Roma. afinal pensava como... - Como eu? ! - perguntei 
espantado.
- Como to a como eu! - replicou o superior. - E no tenhas dvidas, que, 
se eles pudessem, queimavam na fogueira da Inquisio a Cristo, ao papa, a 
mim e a ti - e ps-se a rir, considerando-me convencido a dando o assunto por 
terminado.
Quase sem resistncia - se alguma restava naquele momento ficou 
comigo toda a vida - deixei-me convencer.
- Ests pois resolvido? - Sim... Creio que sim.
- Graas a Deus, irmo! Posso ser o primeiro a chamar-lo assim?
-  muita bondade de vossa paternidade...
- Ora, ora, Joo ... Mas tenho uma pergunta a fazer-te... Calou-se, por 
momentos, procurando encontrar o meu olhar. Conservei-me srio, calmo, na 
expectativa. Perguntou-me ento - Que nome de religio pretendes tomar?
No era assunto em que nunca houvesse pensado. Tinha at, h muito, 
uma resoluo tomada. Respondi prontamente: -Pantaleo, senhor, Pantaleo 
de Miragaia!
Olhou-me completamente atnito: Pantaleo? Pois sabia?... - O que 
eu sei... no sei. Creio at que desconheo quase tudo. Sei que o medalho 
que trago ao peito contm uma relquia de So Pantaleo, que morreu mrtir 
na Bitnia a cujos restos uns armnios, fugidos da destruio de 
Constantinopla, trouxeram at Miragaia. Sei tambm que as suas relquias 
esto em precioso relicrio na s do Porto. Talvez seja a altura de vossa 
paternidade me dizer mais alguma coisa de quem sou, nesta hora decisiva da 
minha vida...
Fez um longo a cavo silncio. O seu semblante tomou um ar angustiado, 
esboou com a mo um gesto de hesitao a por fim disse: - Segredos de 
confisso no se revelam a h outros que sem
o serem so como se o fossem. Tudo o que tenho feito, tudo o que fao 
a farei  para teu bem... Deixa-me dar-lo uma sugesto.  uma maneira de 
responder-lo sem quebra de sigilo. Pantaleo, sim, mas no de Miragala: 
Pantaleo de Aveiro... - e repetia, repisando as
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slabas : - ... de Aveiro... de Aveiro... No me perguntes mais coisa 
nenhuma, que isto tem de morrer comigo... - e abraou-se a mim a chorar... 
Fora l que eu nasci? Deixasse-me l ir antes de tomar hbito.
Olhou-me, muito nervoso, os olhos em movimento como se estivesse a 
querer agarrar a fixar os pensamentos que iam a vinham em tumulto, a 
respondeu:
- Nunca por nunca! Jura-me que no, que nunca irs a essa terra, que 
nunca tentars ir...
Vi-o to aflito que prometi:
- Est bem  Descansai. No irei.
Duas semanas depois, luzida cerimnia se realizava na s catedral, com 
missa cantada e a presena da corte a de muitos fidalgos das cercanias. O 
vasto templo estava apinhado quando ns entrmos, vindos da sacristia,  
frente do cortejo eclesistico, a nos postmos nos lugares que non eram 
destinados junto do altar. O deo, com os cnegos a aclitos, desceu a igreja 
por entre alas de povo, at  porta, a esperar o prelado e, quando este chegou, 
ali aguardaram a vinda de el-rei, que todos os domingos vinha assistir  s, 
com a rainha, ao ofcio divino. A sua presena motivava a don principais 
senhores da regio a naturalmente toda esta nobilssima assistncia fazia que 
o povo acorresse  igreja, mais por curiosidade que por devoo. El-rei 
chegava a era conduzido a lugar de honra, na capela-mor, do lado do 
evangelho, a depois de com a rainha ajoelhar por instantes non riqussimos 
genuflexrios de veludo carmesim debruado a ouro, tomavam ambos assento 
nos cadeires especiais que atrs de si os aguardavam. Dois degraus acima 
estava o bispo em seu trono. Como ns, os ordinandos, ocupvamos lugar 
apropriado, ao correr da parede, do lado da epstola, podamos apreciar as 
pessoas que se encontravam na capela-mor a abrangamos com a vista larga 
rea do pblico, pela nave central a baixo. Eu sobretudo, dado o meu feitio 
curioso, em tudo reparava, com prejuzo, ai de mim, da concentrao a 
devoo que devera ter em to grave solenidade. Perto do rei via-se um fidalgo 
de cabelo todo branco, porte altaneiro, que eu no conhecia.- Gloria in excelsis 
Deo!, o rgo e o coro enchiam com suas ondas sonoras todo o templo at s 
altas abbadas... Aproveito o ensejo para perguntar a Diogo, que se encontra a 
meu lado:
- Quem ?
-  o mestre de Santiago a de Avis, D. Jorge, filho de D. Joo  a duque 
de Coimbra. Podia ser ele o rei, mas Deus no quis.
Agnus Dei ... qui tollis pecata mundi miserere nobis qui tollis peccata 
mundi suscipe deprecationem nostram..., cantava o coro. Lembrei-me de 
Margarida a da nossa cantiga estouvada. Lancei um olhar  assistncia a foi 
sem qualquer espcie de sobressalto que, numa nesga entre cabeas da 
multido, a descortinei. Tinha os olhos vermelhos de chorar a fitava-me. Atrs 
dela estava Elsa, tambm comovida. Sorri-lhes. O cotovelo de Diogo tocou o 
meu:
- O que est junto de D. Jorge  seu filho, o marqus de Torres Novas a 
duque no me lembro de qu, o do casamento a furto de que ouvimos em 
Loul.
Olhei para ele. Era alto, ao contrrio do pai. Tinha um ar muito sisudo a 
triste. O seu olhar de vez em quando percorria o altar, parava atentamente nas 
coisas, nas pessoas, em ns, a ia perder-se depois na aglomerao de gnte 
da nave principal, para regressar, se erguer at ao rgo, s cpulas das 
abbadas, ao lanternim octogonal a cair de novo no altar. Era evidente que 
aquele homem tinha o pensamento em contnua ebulio. Outros muitos 
nobres ali se encontravam: o duque de Bragana, D. Teodsio, e, com seu 
hbito de beneditino, muito importante, seu irmo D. Fulgncio; D. Rodrigo de 
Melo, marqus de Ferreira a conde de Tentgal, primo de el-rei; D. Francisco 
de Portugal, conde de Vimioso, vedor da Fazenda a membro do conselho 
real... a muitos mais cujos nomes nem eu nem Diogo sabamos. Quantas 
coisas algumas destas figuras evocavam l D. Rodrigo era sobrinho daquele 
duque de Bragana, D. Fernando, que el-rei D. Joo l havia mandado degolar 
em vora; por sua vez, D. Teodsio a D. Fulgncio eram filhos daqueloutro 
duque de Bragana, D. Jaime, que andava ainda na memria de todos devido 
a ter, por cimes infundados, apunhalado nos seus paos de Vila Viosa sua 
mulher. De D. Fulgncio se dizia que, apesar de frade, abade comendatxio de 
So Salvador de Travanca, prior de Santa Maria de Moreira, cnego regrante 
da colegiada de Barcelos a prior comendatrio de Santa Maria de Guimares, a 
sua condio de religioso no o impedira de ter um filho, que era frade 
algures... Tambm era coisa muito de deleitar os olhos -Deus me perdoe! - a 
beleza das donas a donzelas, esposas a filhas de to subida fidalguia, 
ataviadas de sedan, veluds a brocados, enfeitadas de riqussimas jias que 
rebrilhavam Iam
78 79
pejando finssimas alfinetadas de luz ao mais pequeno movimento dos 
formosos colos a cabeas.
A cerimnia prosseguia. O meu olhar vagueava. Voltei a fix-lo no ponto 
em que avistara Margarida a Elsa. j l no estavam. Compreendi a sua 
delicadeza e a partir da passei a concentrar o esprito no solene acto que se 
processava. De sbito, tive a impresso de que havia olhos pousados em mim. 
Apresentvamos-nos, os ordinandos, vestidos muito singelamente com calas 
inteiras, pretas a justas, e uma camisa branca sem gola, prontos a envergar o 
hbito no momento apropriado, de maneira que era bem visvel o medalho 
que me pendia do pescoo. Por instantes, no sei porqu, tive receio de 
levantar os olhos, mas logo achando isso sem fundamento ergui-os a encontrei 
muitos outros fixos em mim, sobretudo olhos femininos. Ocasio houve em que 
o prprio rei me olhou, e o bispo, e o mestre de Santiago, a seu filho, a outros 
nobres, a gente do povo. De entre tantos, que olhos seriam esses que tiveram 
o poder de me atravessar o crebro como se fossem uma coisa concreta? 
Sentia que no era apenas o facto de dar nas vistas, j por causa do medalho 
- eu era o nico com um tal objecto a reverberar seu ouro no meu peito -, j 
pela compleio do meu corpo, as minhas feies e a cor do cabelo anelado: 
alguma coisa mais que fendera a pairava no ar como um eflvio indefinido. A 
minha ateno, porm, foi desviada, pois a missa terminara e o bispo 
preparava-se para proceder  cerimnia principal daquele dia, a prima tonsura, 
incio da escada que levava ao sacerdcio. Vestidos agora com a sotaina 
castanha de So Francisco, tendo sobre o brao esquerdo uma sobrepeliz 
branca, cada um de ns, ao apelo do bispo, que sentado a meio do altar nos 
chamava pelo nome, destacava-se a avanava, com um crio aceso na mo 
direita, indo postar-se em semicrculo a ajoelhando nos degraus.
- Irmo Alvaro de Santarm! - chamava o bispo.
lvaro dirigia-se para o altar a ajoelhava junto do companheiro que havia 
sido convocado antes de si. Diogo a eu ramos os ltimos. - Irmo Diogo da 
Purificao - continuava o prelado a Diogo, na sua nsia, j ia a caminho.
- Irmo Pantaleo de Aveiro 
Palpava-se na atmosfera um certo nervosismo, desde que a longa 
cerimnia comeara, montona, que se traduzia no rudo das roupas que 
roam, de pigarros que se tossem, de lenos a assoarem, de
ps que mudam, impacientes, de posio. Atrs de mim, quando 
ajoelhei, ouvi um sussurro de espanto, um murmrio quase imperceptvel: - De 
Aveiro I
j o prelado, de p, entoava o salmo Conserva me, Domine, quoniam 
speravi in te, que o coro prosseguia cantando, a tomava das tesouras para 
cortar em forma de cruz os cabelos dos tonsurandos, que no acto da tonsura 
murmuravam: Dominus pars hereditatis meae et calicis mei: to es qui restitues 
hereditatem meam mihi. Caam as madeixas, negras, castanhas, no gomil de 
prata que o aclito segurava, e o silncio era absoluto quando os meus 
caracis de ouro por sua vez tombaram. Apesar de no sentir pena, 
considerava no meu ntimo no estar ainda suficientemente desprendido do 
mundo. Lanou o bispo ento a sobrepeliz aos tonsurados, depois de dizer 
secundado pelo coro: Induite novum hominem qui secundum Deum creatus 
est in justitia et sanctitate. Cantados os ltimos hinos, o prelado virou-se a deu 
a sua bno e, enquanto ns voltvamos ao nosso posto, com seus aclitos 
preparou-se para acompanhar o rei at  porta do templo, seguidos da 
fidalguia. A capela-mor ficou deserta e, uma vez que o cortejo real deixou a 
igreja, ns seguimos em fila em direco  sacristia a atrs de ns os demais 
sacerdotes que haviam ficado no altar e o deo da s que regressara de se 
despedir do bispo. O povo tambm j saa, a igreja comeava a ficar vazia, o ar 
estava pesado dos cheiros misturados de cera, incenso a suor. Mas na retina 
dos meus olhos, nos meus ouvidos, permaneciam fragmentos de sensaes 
que eu no sabia ainda examinar: um semblante, uma voz, um retalho de 
rgo a coro, a imagem fugidia de Margarida a Elsa, a sobretudo a impresso 
concreta, epidrmica, de que algum ali tinha uns olhos que me enviavam uma 
mensagem particular.
80 8
IV A porta do mundo
Que grandes povoaes?
que grandes reis? que riquezas? que costumes? que estranhezas? que 
gentes a que naes?
(Garcia de Resende, Misc.)
Estive ainda alguns anos em vora antes de vir para Enxobregas. Nesta 
poca da minha vida, vagueio por toda a regio, fazendo centro nesta cidade, 
mas agora as minhas incurses vm mais para norte. Vagueio, quase diria 
vagabundeio, porque este meu deambular, embora as pessoas assim o 
pensem, no meu ntimo reconheo no ser um andarilhar de franciscano seno 
um deambular perdido, desorientado, em busca de no sei qu, na procura de 
tudo aquilo que me os olhos, os ouvidos, todos os sentidos, .captam 
avidamente. Sou um ajuntador de imagens que guardo na retina... Trechos de 
lugares, de pessoas, de coisas nfimas para que mais ningum olha: aquele 
ptio largo a arejado de uns paos em Almeirim, o recorte negro do granito das 
ameias do castelo de Avis a contrastar com a brancura do casario;- a 
sumptuosidade da rica casa dos senhores de Bragana em Vila Viosa; coutos, 
honras a senhorios por terras de alm a riba Tejo to frequentemente visitados 
que me tomo utna figura familiar de todos, se bem que ningum saiba quem  
este frade que no tem parana, de aldeia em aldeia, de lugar em lugar... Sou 
um ajuntador de imagens que no rro trazem at mim fragmentos de 
recordaes longnquas : o trinco ou a soleira daquela porta em
83
Palmela, a boca desdentada daquela mulher a quem um dia pedi gua 
em Sesimbra, a forma daquele pcaro de barro vermelho ladrilhado de 
pequenssimas pedrinhas, na feira de Nisa... Sou um captador de sons que 
conservo no ouvido : de uma ave que canta, um rio que marulha, a voz de uma 
pessoa... Sou um olfacteador de cheiros a aromas que perpassam na asa de 
uma aragem ou de um movimento de corpo. Muito atento sempre, procuro se  
possvel identificar os novos lugares visitados com lugares que conservo em 
reminiscncia do passado, vozes de pessoas agora encontradas com vozes de 
outras que ouvi na minha infncia. Porque ser que  vulgar, quase constante, 
encontrar postos em mim olhos perscrutadores, mas lbios cerrados? Todavia 
nada h como os cheiros e o sabor para nos evocarem o tempo escoado: o 
perfume que se exala da terra depois da primeira chuvada ou o cheiro forte do 
feno curtido pelo gado, o gosto aromtico da ameixa de Elvas ou da laranja 
sumarenta dos campos de Setbal... De todas as terras por onde passava, que 
conhecia como as palmas das minhas mos, nenhuma no entanto se igualava 
 fresca serra de Ossa, em cuja sombra acolhedora muito gostava de me 
refugiar quando me assaltava a melancolia monstica, estado de esprito que, 
por meu mal, me era cada vez mais frequente. A minha vida parecia no fazer 
sentido e, quando eu me fatigava deste contnuo mudar de lugar, passava 
longos tempos agarrado aos livros a ler e a estudar tudo o que me vinha ao 
alcance, a muito era, que vora se tornara um centro muito activo a importante 
na produo de novidades que doutssimos sbios constantemente faziam 
editar.
Diogo, ao contrrio de mim, entrava num perodo de exaltao 
apostlica a requereu licena para ir missionar s nossas ndias Ocidentais. 
Deixei assim de ter companheiro para as minhas deslocaes a um confidente 
insubstituvel das minhas mgoas, dos meus escrpulos, a um ouvido atento a 
caridosamente compreensivo das minhas loucuras a da minha irreverncia. A 
ltima vez que samos juntos, amos ns por uma rua da cidade a os sinos de 
vrias igrejas repicavam. Disse-me:
- Vou ter saudades das tuas traquinices, da tua poesia, da tua boa 
disposio, como you ter saudades destes sinos a do nosso convento.
- Nada disso  irremedivel - retorqui eu, naquele meu jeito de desarmar 
a emoo iminente por meio da brincadeira. - Encon
trars outro convento a outros irmos amveis como eu. E, quanto aos 
sinos, por todo o mundo, onde quer que estejas, a conversa deles uns com os 
outros  sempre do mesmo teor.
Tambm eu abandonava de vez vora, para me dirigir ao nosso 
Convento de Enxobregas... vora a Diogo ! Encerrava-se um importante 
perodo da minha vida, mas outro no menos assinalvel se iniciava. Fiz 
coincidir a minha partida com a de Diogo a uma manh de accias, glicnias a 
laranjais a embalsamarem o ar despedimo-nos do Dom Abade, que nos 
abraou muito sensibilizado a me rogou com empenhada insistncia, dizendo 
ser servio de Deus, fizesse caminho pela Arrbida a lhe levasse recado aos 
nossos irmos capuchos que l tm seu eremitrio. Acedi com agrado a 
acompanhei Diogo at Setbal, donde partia a nau que o havia de levar. Tomei 
depois pela beira-rio em direco  serra a pude, durante muito tempo, 
acompanhar o barco com a vista at desaparecer no horizonte. Fazia teno 
de pernoitar no convento, mas a Providncia divina disps as coisas de outro 
modo, pois estando a de visita o seu fundador a protector, o senhor D. Joo de 
Lancastre, insistiu comigo o acompanhasse a seu pao de Azeito, onde ao dia 
seguinte, que era domingo, folgaria muito que lhe dissesse missa na igreja da 
terra, que era ao p. Como no pudesse dizer que no a um to grande 
senhor, desci a serra em sua companhia, montado numa azmola que sua 
senhoria para mim mandou aprestar. Durante o carninho, tinha a bondade de 
se pr a meu lado todas as vezes que as veredas, quase sempre 
estreitssimas, ladeadas de vegetao cerrada, o consentiam a fazia-me muitas 
perguntas acerca da minha pessoa. Lembrava-se bem, agora que eu lho 
recordava, de ter assistido  cerimnia da minha tonsura a quis saber o motivo 
por que eu havia escolhido um nome to estranho.
- Porqu Pantaleo? - perguntava.
Disse-lho, contando com muito pormenor a histria da vinda para 
Portugal das relquias do santo mrtir de Nicomedia a mostrando-lhe o 
medalho que trazia ao pescoo. O caminho estreitava, tornando-se um 
apertado carreiro entre arbustos agrestes a medronheiros emaranhados de 
silvados. Seguimos em fila por algum tempo, distanciados.
- E porqu de Aveiro? - perguntou, erguendo a voz a virando-se para 
trs.
- Julgo que nasci l - respondi, quase gritando.
84 85
'' - Julgais? No tendes a certeza?
- Por mais estranho que parea,  essa a verdade. Algum II i
 ", ~' mo inculcou. . .
A ceia fez-me sentar  sua mesa. Far-lhe-is companhia. Como I i~', 
via, no tinha ningum. Era um solteiro impenitente, por mais que el-rei 
insistisse com ele para que tomasse estado. Mas que queriam?, interrogava 
com ar alheado, como se falasse s para si. No se modi~ ICI ficava de um 
momento para o outro o corao de um homeml
Senti-lhe a mgoa na voz a pensei para comigo que aquela alma ainda 
estava muito ferida da paixo que a avassalara.
- E vs que achais, Frei Pantaleo? - inquiria. - Achais que ',I deva 
casar?
ii' Quem era eu para dar conselhos a sua senhoria?, respondi. " ~'' E 
demais em assunto de tanta monta!...
Mas ele insistia: Considerasse-o um amigo que precisava da !,~ minha 
ajuda, dizia, sorrindo pela primeira vez. No se negava o I, auxlio a um 
amigo, no era verdade?
I, -  muita bondade de vossa senhoria - exclamei e, de repente, resolvi 
sair-me do embarao com uma das minhas gaiatices: Se Sua Senhoria 
tivesse ali  mo umas barbas postias de ancio, ento eu poderia dar-lhe um 
conselho a preceito.
Riu-se com agrado e, enquanto me enchia a taa do bom vinho da sua 
quinta, respondeu
- No tenho, no. Mas a vossa imaginao a boa vontade que ; as 
supra. Fazei de coma. a venha embora essa resposta: devo casar-me II ;;ou 
no?
Pigarreei a afinar a voz, compus um ar muito circunspecto e respondi 
solenemente em verso
Grande prole deve ter casa de tanta valia... Para tal ento casar deve 
vossa senhoria.
I' Riu-se a bom rir com a minha sada. Que o punha bem disposto. 
Havia muito tempo que no sabia o que era rir. Era curioso que a minha 
resposta, tirante o ser em redondilha, era igual  de el-rei. 86
Agradecia-me do corao. Para si eu era maior autoridade que sua 
alteza. Cria que no lhe restava seno seguir o meu conselho.
- Que sejais muito feliz, senhor! - respondi com seriedade. Rezasse por 
elel, murmurou comovido.
No dia seguinte assistiu concentrado  minha n-issa, acompanhando as 
oraes pelo seu livro de horas, de linda capa com dizeres dourados a no texto 
muito formosas iluminuras. A comunho veio ajoelhar-se no primeiro degrau do 
altar e, quando eu lhe cheguei aos lbios a sagrada hstia, notei que uma 
lgrima se lhe desprendeu do canto da plpebra a se foi esconder por entre a 
barba loura. Recordei a histria que tinha ouvido s lavadeiras a compreendi a 
sua dor. Acabada a missa, preparava-me para seguir caminho de Lisboa, mas 
sua senhoria j havia dado ordens para que dois dos seus criados me tivessem 
um cavalo aparelhado a me escoltassem at Almada, onde deveria tomar o 
barco para atravessar o rio. Deu-me um apertado abrao de despedida a 
ofereceu-me um exemplar da sua Paixo de Cristo, que escrevera a acabara 
de sair a lume. Insistiu comigo que o visitasse muitas vezes e, sem eu o saber, 
havia mandado pr no meu bornal uma bolsa cheia de bons reais de ouro, 
esquecendo-se de que eu era franciscano.
Deslumbramento  vista do Tejo! O rio coalhado de mil embarcaes de 
toda a sorte, naus, caravelas, galees, barcas, barinis, algumas delas 
engalanadas pelas enxrcias de bandeiras multicolores! Ao (undo o casario da 
cidade que galgara j a alastrara para fora das muralhas fernandinas. Nunca, 
como ento, senti quanto Lisboa era o porto do mundo a logo ali tomei a 
resoluo de me aproveitar da minha estada em Enxobregas para perscrutar 
miudamente a actividade da grande urbe. Durante a travessia, apercebi-me de 
que at nas coisas mnimas se notava que a azfama se media  escala do 
orbe da Terra e no j do minsculo ponto que era a nao. Tais quilhas 
haviam sulcado guas de mares longinquos, traziam os marinheiros a pele 
tisnada por outros sis a nos olhos as imagens de paisagens exticas, nos 
ouvidos sons de outras algaravias, nas mos a sensao de apertar mos de 
cores diferentes, nos espritos o universalismo dos horizontes rasgados pelo 
conhecimento de outros costumes, outras formas de pensar, outras crenas e a 
correspondente tolerncia. (E s homens, os carrascos da Inquisio?, 
lancetava-me o esprito.) Chegavam naus vindas das ndias, carregando a 
bordo riquezas nunca
87
vistas, de espantar as gentes; de partida, provia-se uma armada de 
biscoito a conserva, como para dar a volta ao mundo. O pequeno batel em que 
eu seguia coleava por entre as embarcaes de alto bordo ali ancoradas. 
Provindas das mais variadas naes a terras, da Flandres, da Inglaterra, da 
Frana, de Veneza, de Gnova, de Milo, de Espanha, alm das nossas 
prprias, chegadas das ndias, todas elas se apresentam garridas a lous em 
suas cores a vernizes, vaidosamente ostentando na popa o nome prprio. Era 
sobretudo o nome que lhes dava uma personalidade to forte que em minha 
imaginao me pus a figurar se elas falassem - e no me admiraria nada o que 
diriam. Pr-se-iam a contar as viagens feitas, os perigos passados, as 
maravilhosas baas, angras a enseadas em que descansaram, os 
estranhssimos fenmenos presenciados, os medos a os sustos, as alegrias a 
tristezas, as tempestades, os naufrgios iminentes, o fogo a bordo, as 
tripulaes amotinadas, as abordagens de corsrios... Chegavam at mim 
canes lentas de marinheiros em modorra ou as suas vozes em estrdulas 
altercaes j ogando as cartas, mas, sobrelevando-as, era a voz das 
embarcaes que eu interiormente ia escutando, o que se me facilitava por ser 
taciturno a lacmco o meu remeiro. Subia-me o olhar meticuloso pelo pesado 
leme de uma nau que contornvamos, anotava as junturas calafetadas das 
tbuas curvas do costado a ia ler-lhe, l bem no alto, o nome em letras gticas 
muito bem recortadas no seu vermelho sobre fundo azul a debruadas de 
amarelo - Bruges. Era holandesa.
- Chegmos - dizia-me o barqueiro com insistncia, vendo-me distrado, 
enquanto, j muito perto da margem, contornava um obstculo a fazia manobra 
para acostar ao cais.
- Frei Fuo - chegava do alto de uma amurada o ronco de II um 
mareante de nariz vermelho a dentes podres -, passe em boa hora vossa 
paternidade, que com o que os meus olhos tm visto a os meus ouvidos ouvido 
j no hei mister vossa bno!-a grunhia uma gargalhada avinhada que 
preludiava o vmito.
E eu seguia pensando que tambm havia a lugar para destemperos que 
cetamente seriam frutos naturais de tempos de tanta convulso a novidade.
Desembarquei na Ribeira, junto dos estaleiros, que fervilhavam na 
azfama da construo a restauro de embarcaes. Perto de
mm os carpinteiros pregavam j as pranchas curvas do bojo de um 
costado que os tanoeiros tinham afeioado. Mais adiante procediam calafates, 
manejando hbeis o malo,  substituio da estopa das junturas- de uma 
velha caravela por estopa nova que primeiro mergulhavam num caldeiro de 
piche para em seguida a encalcar outra vez nas juntas das tbuas com a 
encalcadeira. Uma nau j pronta, a madeira crua ainda por pintar, toda branca, 
lembrava uma criana acabada de nascer - que milagre  Envernizava-se, mais 
 frente, uma outra a revestia-se, at  linha de gua, de espessas chapas de 
breu, que fervia em enormes paneles fumegantes. Na taracena, um galeo 
axrombado aguardava a sua vez de ser curado das feridas havidas nas 
traies das sirtes...
No poucas vezes, depois, nas minhas deambulaes pela cidade, 
vinha at ali presenciar a faina, ver uma nau, toda garrida, deslizar pela 
primeira vez na rampa do estaleiro a entrar baloiante na gua que chapinava. 
Era uma espcie de baptismo a assim o bem entendiam os mesteirais, pois 
esse acto era para eles uma verdadeira festa, que celebravam engalanando a 
nau a bebendo vinho em sua honra. Aconteceu um dia estar presente  largada 
de uma armada na praia do Restelo, cerimnia que a presena do rei em 
extremo solenizou. Cantou-se missa no recente a formoso mosteiro dos frades 
jernimos e, em seguida, caminhou-se em procisso at ao areal, onde os 
mareantes haviam de tomar os batis em direco s naus, que se viam ao 
largo embandeiradas. El-rei e a sua comitiva j tomavam lugar no varandim 
rendilhado do baluarte de Belm, de cujas ameias chanfradas, no ptio em 
baixo, o bispo dava a bno  armada a aos maxinheiros. Era o momento 
mais penoso! Cenas lancinantes de lgrimas, gritos a desmaios  Mes, 
esposas, filhos que se tinham de desarreigar dos braos dos que partiaml... 
Bem se esforavam estes por sorrir, por dizer palavras despreocupadas... Via-
se-lhes bem no brilho do olhar a no embargo da fala o que lhes ia l por dentro. 
Alguns, para conservarem a firmeza de nimo to necessria naquelas 
circunstncias, no olhavam de frente os seus, fingiam-se alheados a quase 
no se despediam, viravam costas a metiam-se no primeiro batel que largava. 
Quando todos j estavam embarcados, fez-se entre a multido da praia um 
grande silncio a at aqueles que por seus ditos e resmungos se mostravam 
em desacordo a inconformados deixavam de se ouvir. S voltariam a falar e a 
vociferar argumentos que cala
88 89
        
I
I                vam fundo em muitos dos que ficavam quando, consumado 
o acto,
Ij        I                j se no avistava a armada, encoberta pela terra 
ultrapassada a barra.
                        Dispersava ento a multido em pequenos grupos 
que, pela sua pos-
~I! ii
I        !                tura, procedimento a aspecto, denotavam 
sentimentos a opinies diver-
I~~ ji                        sos a at contraditrios, a tristeza, a dor, a angstia, 
a desolao, a
                        raiva impotente, a euforia, o orgulho contido, a 
serena aquiescn-
                        cia - de tal modo era tamanha a incerteza do 
desfecho destes empreen-
                        dimentos. Para muitos era um pranteado regresso, 
um magoado siln-
                        cio, como quando se volta do cemitrio aps um 
enterramento; para
                        outros, um apressado a tagarelado debandar, como 
quem vem da
        j                romaria.
                        Caminhei por entre as pessoas, ao longo da 
margem. Um bando
                        de rapazes entre os dez a os doze anos jogava o 
eixo a quando um
                        saltava por cima do outro exclamava Vasco da 
Gama  India! e
                        is amochar mais adiante. De maneira que - 
considerava eu com os
        ~"I,,        I'        meus botes - at nos jogos dos Autos (como dizem 
os italianos,
                        que tantas vezes os ouvi, em Veneza, em Trento a 
noutras terras, cha-
                        mar putti  rapaziada a at uma ocasio li num livro - 
j me no lem-
'~'        k                bro qual - a mesma designao aplicada ao Menino 
Jesus: Quando
                        Nostro Signore era putto...) ...at nos jogos dos 
Autos se notava a
                II,        influncia da novidade dos tempos. Volvi a vista 
atrs a apreciar,
                ,        numa viso de conjunto, a grande mole do Mosteiro 
dos Jernimos
                        a engastar a brancura da sua pedra na verdura 
espessa da vertente
                        da serra de Monsanto, e o perfil delicado do baluarte 
do Restelo, que
                        enfrentava o Tejo como a proa e o castelo de uma 
nau altaneira a se
                        recortava atenta no azul do cu. Esses dois 
monumentos a ocidente,
                II        e a Madre de Deus, que andava em obras de 
ampliao a enrique-
                        cimento, a oriente, fechavam os extremos por onde a 
cidade se estava
                a expandir. Por toda a parte a febre da construo : eram 
os novos
                        paos reais como o de Enxobregas, o de So 
Cristvo, o da Ribeira,
                        que, de certo modo, destronavam o velho pao dos 
Estaus; eram os
                edifcios do Hospital de Todos-os-Santos a da Misericrdia, 
os sola-
                        res da fidalguia, os armazns, a Casa da ndia, as 
oficinas dos mes-
                        teirais a lojas dos mercadores, que na cidade antiga 
adentro das mura-
                lhas se arrumavam ordeiramente por ruas certas, do 
ordenamento
                do bom rei D. Joo primeiro deste nome, mas agora se 
espalhavam
indisciplinadamente extramuros. Todavia era esta variedade e mstura 
de mesteres a mercancias que dava a nota indita a peculiar da
cidade nova que crescia a alastrava como leo perfumado de benjoim, 
pois se sentia por detrs de todo este af a medrar a riqueza vinda do ultramar. 
As caws de morada enfileiravam-se em novos bairros que galgavam a desciam 
as colinas em redor da velha cerca. Abriam-se ruas novas a largas, mais 
arejadas a limpas que as vielas e betesgas antigas, to sujas a malcheirosas, 
onde morava a doena e nascia a mide a pestilncia. Rasgavam-se mais as 
janelas a portas, erguia-se mais um sobrado, lanava-se telhado de quatro 
guas, talhava-se nas traseiras a horta e o pomar, onde se abria o poo a par 
do tanque. A mudana das coisas significava, obviamente, a mudana nas 
pessoas. Algumas disposies reais revelavam a preocupao de criar aos 
naturais da terra condies de melhor vivenda a trabalho. Como corria o 
dinheiro e o comrcio prosperava, havia menos privao, o luxo era uma 
tentao natural e, de longada, o abrandamento, seno o relaxamento dos 
costumes, surgia como lgica e necessria consequncia. Enxameavam as 
ruas de gentes de muitas naes, o que se notava pelo aspecto corporal, pela 
maneira de vestir a pelo falar. Sinais dos tempos eram as coisas nunca vistas 
que levavam os transeuntes a especarem-se embasbacados arrectis auribus 
oculisque! Um indgena de pele bronzeada sentado no dorso de um enorme 
elefante, acabado de desembarcar, conduzia o pesado a bamboleante 
mastodonte atravs das ruas da cidade, oferta de um vizorei da ndia ao 
soberano. A janela de uma casa apalaada um papagaio de ricas cores em seu 
poleiro era as delcias-oh!, velho Catulo!..., oh , fumos de imprio ! ... - de 
grandes a pequenos a quem dizia ol. Na sombra de um caramancho, 
numa gaiola pendurada saltitavam colibris vindos do Brasil. Um homem 
passava levando no ombro um sagui que arreganhava os dentes s pessoas 
com quem se cruzava e fazia momices como se fosse uma criatura trenga. 
Seguia eu ao longo de um comprido telheiro de duas guas, estaquei a 
observar os canteiros de mestre Boitaca, de escopro a cinzel nas mos 
enfarinhadas do fino p da pedra de An, a lavrarem seus cantos: lindas 
goteiras e grgulas diablicas, carrancudas, pinculos esguios, nervuras de 
rosceas, fustes de colunas, folhas de capitis a tantas outras maravilhas que 
me faziam pensar que tambm em pedra se podia ser poeta. Seguiam-se 
oficinas operosas a barulhentas de carpinteiros a tanoeiros que no tinham 
mos a medir. De um carro de bois estavam-se descarregando tbuas de 
madeiras raras, mogno, teca, siss, bano,
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que se empilhavam num terreiro onde se viam toros de rvores por 
aparelhar. Noutro ponto um entalhador esculpia finamente em madeira um 
retbulo para um altar e, na sua banca de trabalho, mais adiante, um ourives 
dava os ltimos retoques numa salva de prata que reproduzia cenas de caa 
na selva africana, elefantes, palmares com bananas, negros tangendo suas 
marimbas. Montava-se alm um astrolbio ou afeioava-se um sextante, uma 
balestilha. Aqui um ca.ldeireiro batia um panelo de cobre, enquanto  porta da 
oficina de um latoeiro se viam pendurados baldes, lanternas de folha-de-
flandres, funis, panelas, serts. No largo de Pampulha pedreiros ajustavam as 
pedras da bacia de um chafariz, em frente de um pelourinho de coluna 
enroscada em corda a encimada por uma esfera armilar com a cruz de Cristo. 
Um tapeceiro expunha preciosos tapetes persas trazidos pelas naus das ndias 
Orientais a noutra parte da sua loja vendia colgaduras bordadas com linho de 
Guimares a seda da China, que em seu lavor contavam cenas como o 
julgamento de Salomo ou os trabalhos de Hrcules ou lavradas de aves a 
montaria, feitas umas em Goa, outras em Malaca a Bengala.
- A rainha - dizia-me ele - tem um grande salo onde mulheres a 
raparigas indianas tecem a bordam ricas colchas como estas. Trazem-nas os 
capites das armadas a so muito hbeis lavrandeiras de bastidor.
Numa marcenaria havia muitas peas de fino mobilirio que acusavam 
tambm a novidade : entre mesas, camas, cadeiras, arcas e arcazes, vi um 
contador feito em Goa, de bano incrustado de madreprola, marfim a pedras 
preciosas.
Atrai a minha ateno uma oficina de tipgrafo. Um homem assoma  
porta, a apreciar uma folha de papel acabada de imprimir: reparo nas letras 
gticas, em linhas muito certas, a na iluminura a vermelho.
- Se gostais de ver, entrai, irmo - diz-me, notando a minha curiosidade. 
- A casa  vossa.
Como se afasta um pouco para me dar passagem, entro, ao mesmo 
tempo que agradeo
- Um criado de Vossa Merc.
- Germo Galhardo s vossas ordens.
Digo-lhe o meu nome a relanceio a vista por toda a quadra, enquanto ele 
pendura com todo o cuidado a folha numa corda, ao
lado de outras que esto a secar.  uma sala ampla, iluminada  
esquerda por grande janelo abobadado, em cujo vo (Traz obra para 
publicar vossa paternidade? ...) se encontra uma alta estante que segura, 
numa a outra face, as caixas inclinadas dos caracteres tipogrficos. (Escritor? 
Eu? ...) No topo de cada caixa, presa no divisrio, encontra-se uma lauda 
manuscrita ( dessa massa que eles se fazem!...) por onde dois oficiais, 
sentados em frente, vo lendo o texto para de seguida escolherem os 
respectivos tipos a comporem as formas. (Se algum dia escreverdes uma, j 
sabeis: tendes aqui o vosso tipgrafo, se Deus me der sade.) Trabalham 
com rapidez, como quem de h muito se acostumou ao ofcio. (Muito vos 
agradeo, mestre Germo.) Mas mestre Germo j se encontra metendo 
outra folha no prelo a empurra com ambas as mos uma alavanca que, ligada 
a um grosso parafuso de madeira, o faz girar a chiar, apertando a prensa de 
modo a premir a chapa contra o papel. No meio da sala trabalham outros 
obreiros, em frente de caixas que contm letras iniciais de imaginosos feitios, 
vinhetas, tarjas, flores, grav uras, estampas, portadas a outros muitos 
elementos da arte. Numa grande mesa vem-se rimas de papel a mais papel 
vem entrando por uma porta ao fundo,  cabea de um servial. Atrs de 
mestre Germo um batedor segura em cada mo as maanetas de pelica 
embebidas em tinta, bate-as a esfrega-as numa placa de mrmore, para 
regularizar por toda a bala o lquido negro a viscoso, a procede depois  
cuidadosa tintagem de uma nova forma. No lado oposto  o canto do 
encadernador e j se vem em cima de uma mesa alguns volumes que, sados 
de fresco do prelo, ali foram vestir a sua camisa de pele. Numa linda estante 
rendilhada, de p torneado, est aberto para regalo dos olhos um riqussimo 
livro de horas, iluminado a ouro a prata.
- Acabmos ! - exclama alegremente mestre Galhardo, deslassando o 
torno, pegando na ltima folha impressa e, com ela bem alta nas mos, lendo 
os dizeres finais do clofon:
Impresso em a muito nobre a sempre leal cidade de Lisboa, por 
Germo Galhardo imprimidor, aos vinte a trs dias de Abril, ano da nossa 
salvaam de mil quinhentos a quarenta e trs.
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 o Reportrio dos Tempos em Linguagem Portugus, de Valentim 
Fernandes, mas mestre Galhardo j me toma do brao a me leva a ver, num 
aposento ao lado, a sue livraria, formada pelas edies da sue oficina, ao longo 
dos anos, desde que se estabelecera em Portugal. Vem-se os volumes, j 
encadernados, muito bem enfileirados nas estantes. A tinha minha 
paternidadel, satisfao  flor da pele no rosto do mestre tipgrafo a um gesto 
largo do brao direito a correr aquelas lombadas. Uma vide de trabalhol...
- ... que esperemos em Deus - atalho eu - seja ainda muito longa.
- Amm !
Aproximo-me. Aqui est o Tratado da Esfera, de Cludio Ptolomeu 
Alexandrino, tirado do latim em linguagem pelo doutor Pedro Nunes, 
cosmgrafo de el-rei. Lembro-me de ter visto o De Amicitia e o Somnium 
Scipionis, de Marco Tlio Ccero, livros que eu j tinha adquirido num livreiro da 
cidade, bem como uma Gramtica da Linguagem Portuguese mandada 
imprimir pelo nobre senhor D. Fernando de Almada, uma Prtica de Arismtica, 
da autoria do licenciado Rui Mendes, a autos de Antnio Ribeiro Chiado, a 
muitas, muitas mais que  impossvel citar tantas elas so... Mestre Germo 
folheia alguns a incite-me a apreciar as ornamentaes do rosto a do interior 
das sues edies, mostra-me com natural orgulho as suas marcas de 
imprimidor, que em alguns livros so a esfera armilar a noutros, visto ser 
tipgrafo de el-rei, o escudo das armas reais com um grifo no timbre. Toma da 
Crnica do Imperador Clarimundo donde os Reis de Portugal Descendem e 
aponta-me a gravura que representa o imperador, de p, junto de um trono em 
que se apoiam as razes da rvore genealgica dos reis portugueses. Como eu 
sou franciscano, escolhe numa estante um pequeno volume a mostra-mo
- Como So Francisco - l ele - Buscasse a Pobreza. Por Um 
Franciscano da Provncia da Piedade. Lisboa, i 5 z9.
Insiste em que o folheie. O ttulo  enquadrado por uma portada de 
colunas encimadas por um fronto que, ao meio, figura um pelicano com. o 
bico a espetar o prprio peito, sobre um ninho cheio de filhinhos de goela 
aberta.
- Porqu o pelicano? - pergunto, lembrando-me do meu medalho.
- Quando uma oficina destas acaba, por morte do seu dono ou por outro 
motivo, os herdeiros ou prosseguem a obra ou vendem o recheio. Tenho 
adquirido algum material tipogrfico por este processo. Haveis de concordar 
que o smbolo do pelicano  um lindo smbolo.
- Conheceis um desenho de um pelicano com uma estrela de cinco 
pontas no peito?
Com uma estrela?!... Ora deixasse ver!..., dizia ele, cofiando o queixo 
a revolvendo os olhos. Com uma estrela... No, julgava nunca ter visto. A 
estrela ou estrelas entravam muitas vezes nos brases de certos fidalgos. Cria 
que significavam vitrias sobre os mouros...
- E o pelicano ?
O plicano?... Esperasse... Tinha ali, salvo erro, um livro..., e ia  
estante procurar um volume. No encontrava logo. Toma um, abre-o no rosto, 
aponta-me despreocupadamente vinhetas, a alternncia de cores, o negro e o 
vermelho, uma iluminura envolvendo uma inicial...
- Ah ! C est  Kegra a Estatutos da Ordem de Santiago.. . Vede. a 
mostra-me o frontispcio. Os caracteres gticos do ttulo so enquadrados por 
tarjas ornadas onde se vem aves entre flores a frutos. Ao centro, em baixo, 
um L com a haste posta no meio de uma coroa. Voltado o flio, um braso a no 
braso... um pelicanol... -- So as armas - explica-me Germo Galhardo, 
respondendo  solicitao do meu olhar - do mestre de Santiago a de Avis, o 
senhor duque de Coimbra... Este L quer dizer Lancastre, D. Jorge de 
Lancastre, filho de D. Joo II. Conservou a divisa do pai, que era o pelicano.
Em meu esprito surgia a relutncia de aceitar aqueles dois factos como 
indcios de algo que me dssesse respeito a achava ridculo tomar a srio 
meras coincidncias. O pelicano da portada tipogrfica e o do braso de D. 
Jorge tinham tanto a ver comigo como ser o pano do hbito franciscano da 
rainha velha, D. Leonor, da mesma pea que o do meu hbito. Quando me 
despedi de mestre Galhardo, em mim no havia o mais leve trao do incidente 
e a minha ateno era solicitada de novo pelo movimento a rudo da cidade, 
cada vez maiores  medida que me aproximava do centro. Ouviam-se os 
preges cantados dos aguadeiros, das peixeiras, carvoeiros, retalhos de con
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versas em que no raro se distinguiam lnguas estrangeiras. Dois 
homens criticavam o surto de grandes riquezas que apareciam sem se saber 
como
- Quem tira todo o proveito - dizia um - so os que de todas as 
mercadorias fazem estanques a de um momento para o outro engrossam tanto 
!
Ora a novidade! Esses eram ladres fidalgos!, ripostava o 
companheiro. Abarcavam de antemo o slido e o lquido, pelo menor preo, 
a depois talhavam-lhe outro preo a seu paladar. Era o pastel e a coirama das 
ilhas, a canela, o anil, os bazares a outras veniagas de Ceilo, da China, da 
Prsia. Era, c no reino, a passa, a amndoa e o atum do Algarve. Era tudo o 
que vinha importado, os livros, o tabuado, as sedas, as baetas, as telas. Era o 
que lhe dizia ao compadre. Os atravessadores iam  origem a tomavam por 
junto essa mercadoria, para em seguida a venderem a retalho em quatro 
dobros ou mais.
- Eu fico na minha. Que se faa estanque em solimo, pimenta, prolas 
a diamantes, cartas de jogar, perfumes a outros luxos, v que no v. Passa-se 
bem sem essas coisas. Mas que se atravessem as coisas de primeira 
necessidade, mantimentos a roupas, o prprio po, e se permita que ricos 
avarentos sem escrpulos faam negcio chorudo  custa do povo, isso  
coisa que se devia atalhar severamente...
O que devia era pr-se taxa em todas as mercadorias. Ento podia l 
ser que uns sapatos, que no chegavam a cinco vintns ainda h pouco, se 
tivessem de comprar agora por no menos de dez!
- Sabe o que lhe digo, compadre? No basta que os almotacis vigiem 
padeiras, regateiras, estalagens a tavernas, se vendem as coisas por justo 
preo ...
Se fosse ele a mandar, fazia uma lei com pena capital para quem 
vendesse por mais que o taxado...
Eu prosseguia meu caminho. Um ceguinho, em toada monocrdica, 
apregoava umas folhinhas toscamente impressas que tinha penduradas de um 
cordel:
- Olhai a maravilhosa histria da imperatriz Porcina, mulher do imperador 
Lodnio de Roma, em a qual se trata como o dito imperador mandou matar a 
esta senhora . ..
Concorriam pessoas a ouvirem, boquiabertas
-Aqui est a histria jocosa dos trs corcovados de Setbal, Lucrcio, 
Flaviano a Juliano   s meio vintm cada folh,eto ... - dizia a mulher que 
acompanhava o cego.
- Lede o miraculoso caso - continuava o homem - de Roberto do Diabo 
que acabou sendo Roberto de Deus, ou o da Princesa Magalona, que, perdida 
do seu amado, atravessou adversidades a obstculos sem conta, at 
reencontrar a felicidade nos braos do marido...
- Ajudai o poeta cego Baltasar Dias - gritava a voz esganiada da mulher 
- a quem el-rei nosso senhor deu privilgio de caridade para poder imprimir os 
seus autos a rimances. Olha o auto de Santo Aleixo, filho de Eufemiano 
senador de Roma, e o de Santa Catarina virgem a mrtir, e o de el-rei 
Salamo, e o da feira da ladra l Tudo obras do poeta cego Baltasar Dias aqui 
presente! Comprai, comprai, que tudo  barato ! Custam apenas um vintm os 
quatro autos ... Olha o auto do nascimento de Cristo e a tragdia do marqus 
de Mntua, e o auto da malcia das mulheres... Quem quer comprar, quem 
quer?...
Baltasar Dias era um homem dos seus quarenta anos. As suas feies 
impressionavam pela tez branca como cera, pelo suave sorriso que delineava a 
comissura dos lbios exangues, pela serenidade interior que dele irradiava a 
era sublinhada pela ausncia de chama e viveza do olhar, pois tinha as 
plpebras totalmente cerradas. Conquanto estivesse longe de possuir o sal e o 
engenho de mestre Gil Vicente, escrevia autos, farsas a pequenas histrias 
que na sua singeleza agradavam ao povo a que ele prprio vinha, com a 
mulher, vender pelas ruas a arcadas de Lisboa. Vendia tambm folhas volantes 
a obras de outros autores, algumas delas verses em linguagem das que 
corriam noutras naes, a assim ia angariando o seu sustento. Ele e a mulher 
continuavam a apregoar estranhos casos e mirabolantes sucessos de 
lobisomens a de dragos, de sereias a de homens marinhos a de no sei que 
mais. Muitas pessoas compravam, dando um pouco de descanso s vozes 
enrouquecidas dos vendedores. Eu fui um ptimo fregus, como sempre 
levado pela minha curiosidade e nsia de ler. J virava costas, com a minha 
mercadoria, recomeava a lengalenga
- Olha o relato verdico do triste naufrgio da nau So Gabriel, que 
regressava da ndia Oriental, a do que aconteceu aos sobrevi
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ventes na selva do Cabo - gritava a mulher, ao passo que a voz calma e 
lenta do cego anunciava a mui nomeada a agradvel gloga chamada Crisfal, 
que conta os infelizes amores de Cristvo Falco ao que parece aludir o nome 
da mesma gloga.
Comprei tambm estes dois folhetos e, enquanto retomava caminho, 
abri o ltimo. Era escrito em redondilha maior a logo no comeo rezava assim:
Entre Sintra, a mui pre7,ada, e serra de Riba-Tejo
que Arrbida  chamada, perto donde o rio Tejo
se mete n'gua salgada, houve um pastor a pastora
que com tanto amor se amaram como males lhe causaram
este bem, que nunca fora, pois foi o que no cuidaram.
Era a histria de um casamento a furto, que as convenes do mundo, 
concretizadas nos interesses de nome a de riqueza, contrariavam, obrigando a 
rapariga a recolher ao Convento de Lorvo e a renegar do seu primeiro amor, 
tomando infeliz o pobre do rapaz.
- Enfiml - suspirava eu, num desalento moral por ver como to 
mesquinhas coisas fazem as pessoas malaventuradas. -  destas mgoas que 
vivem os poetas . ..
Tornava a deitar um lance de olhos queles versos e a coincidncia da 
localizao desses amores, entre Sintra e a Arrbida, trazia-me  lembrana 
aquele outro caso do fundador do convento dos capuchos franciscanos nesta 
serra... E de sbito eis que o prprio texto lhe faz referncia  Por um 
extraordinrio artifcio tudo era contado como se se tratasse de uma imaginria 
viagem area do poeta, que descreve os montes a os vales, os rios a as 
rvores, caminhos e casas, pessoas a gados, como se fossem pequenos 
pontos vistos de cima, miniaturais, l muito em baixo. No era para mim total 
novidade o facto. Havia lido aquele relato de uma viagem  Lua feito pelo grego 
Luciano de Samsatos, no sculo II da nossa era, no seu
Icaromenipo. O filsofo cnico Menipo, desejoso de saber como est 
organizado o universo, resolve ir l acima ver com seus prprios olhos como  
que as coisas se processam. Arranja umas asas de abutre a de guia, adapta-
as a ajusta-as muito bem s suas espduas a ei-lo no ar passando sobre o 
Himeto, o Acrocorinto, o Erimanto e o Tageto, voando mais alto que o Olimpo, 
at chegar  Lua. Da, olhando a poeira dos astros no meio da qual dificilmente 
identificaria a Terra se no fosse reconhecer o colosso de Rodes e a torre do 
farol de Alexandria, tece desenganadas consideraes sobre a pequenez e 
insignificncia do homem no seio do cosmo a que no vale a pena estragar a 
breve existncia com tristezas a compaixo de ns prprios. Tinha eu tambm 
algumas vagas notcias de histrias orientais das Mil a Uma Noites em que se 
citavam viagens maravilhosas feitas em tapetes voadores. Por outro lado, a 
viso panormica do mundo, vista de um ponto alto, tinha-a igualmente lido em 
Ccero, no Sonho de Cipio, a conhecia-a muito bem do Evangelho, na cena da 
tentao de Cristo, quando o diabo o leva ao cimo de uma montanha... Mas o 
que de sbito me impressionou, na narrativa da viagem de Crisfal,  que em 
dado momento ele, ao olhar para baixo quando passava por terras de Azeito, 
nas vertentes da Arrbida, v um tal Natnio vestido de luto a chorando de 
amores contrariados, como os seus, e lamentando a infidelidade da amada, 
exclamando entre soluos Ah  Guiomar  Guiomar 
No tive dificuldade em identificar esse Natnio. Teria ele j decidido 
casar, conforme aquele conselho que lhe dei em verso, quando estive em sua 
casa? Prouvera a Deus que sim a que tambm o pobre do Cristvo Falco 
pudesse superar a sua mgoa, que, embora a dor alheia atenue a nossa 
prpria, no me parece salutar remoer sentimentos frustrados... O tempo se 
encarregou de me dar resposta a essa interrogao do meu esprito, pois, 
passados dois anos, estando eu em meu remansoso estudo no Convento de 
Enxobregas, me veio ao conhecimento ter o senhor de Azeito tomado estado 
com uma senhora muito nobre, D. Juliana de Lara, a que a partir da el-rei, 
desejando sanar feridas antigas, alm de o querer frequentemente na corte a 
de lhe ter concedido o ttulo de duque, o incumbia de embaixadas importantes, 
como a de encabear, na companhia do bispo de Coimbra, D. Joo ,,Soares, a 
comitiva que receberia na raia de Espanha a princesa D. Joana, noiva do 
prncipe D. Joo. Soube tambm das tontices do
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velho duque de Coimbra, D. Jorge, que com a idade de sessenta e sete 
anos pretendeu casar ou ter casado com uma lindssima menina de dezasseis, 
que era aafata da rainha, o que muito os filhos e o prprio rei contrariaram e o 
povo comentava divertido. No sorvedoiro do tempo, muitas coisas no reino 
estavam a acontecer que eu s viria a conhecer bastante depois, dado que 
tambm a minha vida, em tempo em que eu me encontrava descuidado de 
qualquer desejo, levou de sbito uma reviravolta a que havia muito no estava 
habituado a que me afastou para fora do meu pas. Foi o caso que um dia o 
Dom Abade me mandou chamar a me disse:
- Tenho para vs, irmo Frei Pantaleo, recado de monta, por minha f. 
Vem do nosso provincial, que por sua vez o recebeu do nosso padre geral. 
Muito humilde a calado deveis de ser que to bem escondeis a vossa 
familiaridade a conversao com pessoas de influncia, porque o que vos you 
dizer vem certamente tocado de muito alto.
- No estou a entender vossa paternidade - disse-lhe eu, com 
sinceridade a sem saber que pensar, em minha expectativa.
Olhou-me com um sorriso a uma expresso que traduziam o sentimento 
de que compreendia bem a minha discrio, o que me incomodou porque eu 
no estava a ser discreto de coisa nenhuma, visto no conhecer o que se 
passava.
- Sois destacado - disse-me, acentuando lentamente as slabas como a 
prolongar a empolgar a notcia - para ajudante do secretrio-geral da nossa 
ordem junto da Cria romana... a deveis partir quanto antes.
A princpio no entendi e a expresso do meu rosto deve ter sido 
significativa, porque ele acrescentou:
- Quer isto dizer que ireis para Roma. No gostais da notcia? - Para 
Roma? Eu? - perguntava interdito, desorientado, sem saber que pensar, 
deixando-me cair sentado numa cadeira, perante o ar risonho do meu 
superior...
V
Roma... Veneza... Trento...
... Tac-roc xoci Tc -roLacra OCVOC7LO(v x.8~Agacc pwv 
7r~ otvo7roc 7rvrov xaci T~v acv cpX-~v ExW'-~v xoci XpuP8iv xad -~v 
7rLxw8uv-roa,rov ro-rov 7ropggv cayv)v g,v rw gveLv, 8ocxpcv 8 
T~5 p.-~' 8vaaO(xa 7raesou, 7zopcv 8'tiTL 7roceiv Xp~ ~ 7roc y~5 it).
... revolvendo tais coisas no meu esprito, eis-me sentado olhando este 
mar cor de vinho e a sua querida Cila a Carbdis a este perigosssimo estreito, 
sofrendo por ficar, chorando por no poder partir, no sabendo que fazer ou 
para que lugar da terra v.
(J. Lascaris, in Iriarte, Regiae Bibliolheca Matritensis Codices Graeci.)
J me no recordo bem se foi em Roma se em Veneza que at mim 
chegou a espantosa notcia de que mestre Jacob, muito ao contrrio do que em 
Portugal se cuidava a eu prprio pensava, estava -vivo algures em terra do 
Mediterrneo oriental. Quem mo noticiou foi uma velha judia... Ah!, sim, lembro-
me agora... Foi na ilha de Corfu, numa sinagoga onde eu a Frei Antnio Zedilho 
tnhamos entrado para... No foi em Roma nem em Veneza. Em Roma no 
Podia ser, claro. Roma, afora alguns poucos factos que contarei com 
brevidade, representou uma rotina burocrtica a uma transio para tudo o que 
depois sucedeu.
00 0
Cheguei  cidade leonna, que agora se chama Vaticano, depois de uma 
trabalhosa viagem de trs meses por terras de Espanha, Frana e Itlia, de 
cujos pormenores no dou agora crnica, por ir direito ao assunto a me no 
dispersar. Registarei no entanto a minha inesquecvel entrada em Itlia, vindo 
de Avinho a transpondo os Alpes debaixo de um intenso nevo que a tudo 
estendeu seu alvo a silencioso manto, at sobre as orelhas do meu burro. No 
 pequeno privilgio estar um pobre franciscano portugus, o menor dos 
menores, na cidade de Roma, colocado junto da Cria que a reside para os 
negcios importantes da ordem, como companheiro do procurador-geral, Frei 
Antnio de Pdua. No o  menos quando este procurador-geral  secretrio 
de Frei Francisco Zamora, comissrio-geral de toda a ordem. Tais nomes a 
personalidades sobremaneira me confundiam a tornavam inexplicvel a minha 
escolha para o cargo. Frei Francisco Zamora era um dos mais doutos telogos 
da Espanha, que Pio IV acabava de nomear padre do Conclio recentemente 
convocado para Trento, onde ia presidir  Congregao dos Telogos. Frei 
Antnio de Pdua, meu compatriota a filho de um ilustre cavaleiro da Ordem de 
Santiago, era lente de Teologia na Universidade paduana a agora secretrio-
geral. Estes factos, sem que o eu merecesse, davam-me natural notoriedade, 
assim como me possibilitavam conhecer muitos dos meus confrades da grande 
famlia franciscana espalhada pelo mundo, pois que me incumbia a mim em 
primeira mo receb-los e- ouvi-los. No justificavam todavia, em meu 
entender, a assiduidade com que era procurado a visitado pessoalmente por 
ilustres membros de outras ordens, dominicanos, agostinianos e outros, que 
para tratar de seus assuntos tinham como ns junto da Cria seus 
representantes, nem to-pouco a escolha que sobre mim recaiu, algum tempo 
depois, para acompanhar a Jerusalm o guardio da Terra Santa.
Corria o ano de sessenta a um, estavam chegando de toda a parte os 
padres conciliares, o escol dos telogos, embaixadores e ministros da 
Cristandade, uns alardeando luxuosa grandeza, fazendo-se acompanhar de 
principescas representaes, outros escondendo a grandeza a santidade da 
alma, a sabedoria do esprito, com ser acolitados da escassa a indispensvel 
comitiva. Eram paradigmas destes dois casos, no que tocava aos portugueses, 
por um lado o bispo de Coimbra, D. Frei Joo Soares, por outro D. Frei 
Bartolomeu dos
Mrtires, arcebispo de Braga, primaz das Espanhas. Ao primeiro j eu o 
conhecia, de modo que logo o identifiquei quando, com grande espanto meu, 
ele me entra pela porta adentro, estava eu descuidado conferindo uns papis. 
Lembrava-me de o ter visto, ainda no era bispo, como membro do Santo 
Ofcio, em vora. Esteve at presente na cerimnia da minha prima tonsura. 
Era um homem de delicado a agradvel parecer a de um to esmerado asseio 
que logo se via tinha a preocupao de cuidar da sua pessoa. Quando me 
inclinei a beijar-lhe o anel send-lhe o perfume da mo.
- Vossa reverendssima aqui? O comissrio-geral j partiu para Trento 
!...
-  a vs que procuro, Frei Pantaleo ! - disse ele sorrindo. Falava 
suavemente, adocicadamente, a as palavras eram rebuscadas No queria 
privar-me, sabendo-me saudoso da ptria, como era natural a todos os xules, 
de me trazer um poucachinho do ar do nosso Portugal! E fazia-o nas boas 
palavras portuguesas, no recorte da frase, no jeito do olhar, do sorrir a do 
sentir. Dava-me novidades da terra, mas algumas j eu as conhecia. As mais 
importantes, como era bvio em bispo to palaciano, diziam respeito  corte: a 
morte sbita de D. Joo III, a regncia da viva, D. Catarina, na menoridade de 
D. Sebastio, as indecises acerca dessa regncia a da educao do prncipe, 
a nomeao de D. Constantino de Bragana como vice-rei da ndia... Via-se 
que tinha gosto em mostrar o seu trato pessoal com os grandes do reino, numa 
atitude de puro narcisismo, e, enquanto me dizia faleceu o senhor D. Jorge, 
duque de Coimbra, filho de D. Joo II, eu ia pensando que precisamente esse 
facto tornava ainda de mais difcil explicao aquela visita. Recomendar-me-is 
ao comissrio-geral, disse ao retirar-se. Cheguei  janela. Ainda tenho nos 
olhos a imagem daquela elegantssima sotaina vermelha, o solidu lustroso na 
cabea bem penteada, a brancura da face a das mos, o anel grande a 
rebrilhar no dedo. Tudo relevando no negro cabedal do assento em que se 
recostava, zia linda carruagem puxada por dois cavalos brancos, com cocheiro 
a lacaios de libr, a portinhola que se fecha mostrando o braso a as armas, 
parecendo dizer:  assm que anda em Roma um bispo-conde portugus ! 
A segunda visita, tempos depois - j o Conclio discutira as primeiras 
clusulas a tomara as primeiras decises -, no foi menos
02 03
extraordinria. Na verdade quem haveria de dizer que aquele humlimo 
frade dominicano que ali surgia diante de mim era nem mais nem menos que o 
j to falado arcebispo primaz D. Frei Bartolomeu dos Mrtires? E se o hbito 
que trazia era de pano novo, foi porque lho impuseram, com sua grande 
contrariedade, os seus servidores. Para o efeito, sabendo Frei Joo de Leiria 
que o arcebispo por humildade s gostava de trazer roupas velhas a coadas, 
a que, quando lhe ofereciam algum pano novo, chamava  socapa um alfaiate 
seu conhecido a mandava-lhe fazer vesturio para os seus pobres, teve mo, 
antes que se partisse para Itlia, de um estratagema de que D. Frei Bartolomeu 
no podia fugir: mandou-lhe fazer hbitos, sem lhe dar conta nem preceder 
medida, a ordenou aos que estavam incumbidos da sua cmara lhe retirassem 
os velhos a em seu lugar deixassem os novos. Era este dominicano que se no 
sentia bem em vestido novo quem ali estava na minha presena a eu no o 
conhecia, embora soubesse dele muitas coisas : que havia sido mestre de 
artes no Colgio de Lisboa a professor de Teologia na Batalha; que tinha 
recebido grau de magister em Teologia na cidade de Salamanca; que pela sua 
cincia a virtudes o escolhera o infante D. Lus para preceptor de seu filho D. 
Antnio, futuro prior do Crato; que fora eleito prior do Convento de S. Domingos 
de Benfica a que, por falecimento de D. Frei Baltasar Limpo, arcebispo de 
Braga, a rainha D. Catarina, aconselhada por Frei Lus de Granada, o indigitara 
para o arcebispado. Sabia ainda que ele havia recusado a dignidade a s por 
instncias prementes do provincial a aceitou, pois tinha feito voto de obedincia 
aos seus superiores, a que, tendo por essa altura cado doente, fora 
convalescer para Azeito, onde lhe chegaram de Roma as cartas que o 
confirmavam arcebispo. Sabia eu tudo isto mas no o conhecia, pois os nossos 
caminhos at a nunca se tinham cruzado. Era alto e magro, bem 
proporcionado, a cabea grande, rosto comprido e seco, a alargar na testa 
ampla que a calva rematava. Nariz direito levemente arrebitado, boca grossa, 
queixo a lbio inferior salientes, e a dar vida a tudo isto, de maneira 
surpreendente, os olhos pequenos, sumidos a estrbicos.
Abraou-me a pediu-me a bno, como se fosse um simples leigo, a eu 
retribu solicitando a sua.
- No sei a quem tenho a honra de falar, irmo - disse eu. - Sou 
Bartolomeu dos Mrtires, Frei Pantaleo.
A minha estupefaco foi to grande que por momentos no consegui 
falar. Procurerlhe assento a fiquei de p. No consentiu, pondo-se 
imediatamente de p tambm.
- Vossa reverendssima aqui! E conhece-me! Sabe quem eu sou ! - 
exclamei, s depois de ter pronuncado a ltima frase notando-lhe a 
ambiguidade.
Falava-se muito, ento, da sua rude frontalidade nas respostas que dava 
sem olhar a quem, a corriam j algumas em que era notvel o despejo com que 
falava no Conclio sobre a necessidade de reforma dos cardeais ou, nas suas 
conversas com o papa, acerca da pompa de que se rodeia a Igreja. Mas se  
primeira vista, a para quem no o conhecesse, parecia esquivo a intratvel, no 
entanto conversado ningum era mais brando, mais cho, mais facilmente 
humano a cristo.
- Dir-vos-ei, irmo, ao que venho - disse ele - e desculpar-me-eis o 
tempo que vos tomo.
Muito atrapalhado ainda a confuso, balbuciei uma desalinhavada 
resposta em que me referia ao grande incmodo a transtorno que certamente 
teria sido para to eminente pessoa dispor de seu tempo a visitar um to 
humilde frade franciscano. Respondeu-me colhendo de mais longe o 
pensamento: Que ns, os padres, sabamos bem como era servio de Deus o 
calar muitas coisas ou ajudar, calado, a alguma atribulao humana. Algum 
lhe pedira viesse junto de mim e me trouxesse seu recado. No lhe fizesse 
perguntas a tomasse aquela bolsa que continha com que prover minhas 
necessidades quando eu fizesse peregrinao  Terra Santa.
-Mas eu, reverendssimo padre, no estou para ir  Terra Santa! - 
exclamei.
- No desejais ir?
- Por Deus, sim! Quem o no deseja?
- Tambm eu gostaria, mas o pastor no deve abandonar as suas 
ovelhas a este  o meu cuidado de dia a de noite. Logo que possa regresso a 
Braga. Vs, porm, no tendes rebanho. Podereis ir  Terra Santa. Ireis 
certamente, no  verdade?
- Quem dera ! - Ireis.
Tornava eu a sentir que o barco da minha vida era governado por um 
invisvel timoneiro a que me rodeavam pessoas sabedoras da minha 
identidade. Que espcie de sigilo calaria as suas bocas?
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Punha-me a seriar os gneros de sigilos que conhecia: o da confisso, o 
de certas profisses como a do mdico a do advogado, o da razo de Estado, 
certos sigilos morais, casusticos... E que quereria dizer essa antecipada 
certeza numa minha peregrinao  Terra Santa?... Dias depois a certeza 
confirmava-se a de que maneira! Uma viagem que eu tinha por impossvel 
poder para mim alcanar me chegou em condies de a poder facilmente 
negociar para outros. O nosso reverendssimo padre geral, Frei Francisco de 
Zamora, nomeara guardio de Monte So ao insigne padre Frei Bonifcio de 
Aragusa, pregador apostlico a leitor de sagrada Teologia, a havia necessidade 
de revezar a famlia de frades que estavam na Terra. Santa, como era costume 
de trs em trs anos, a fim de que pudessem regressar s suas provncias. Frei 
Bonifcio veio  Cria procurar-me. Era um homem de grande estatura a muito 
venervel presena a acatamento. Olhos enormes a formosos. A barba muito 
comprida a quase toda branca. Conversao delicada a afvel, ainda que 
temeroso quando mostrava gravidade. Amado de quase todos, de muitos 
temido. No poucas vezes mais tarde, lembra-me bem, indo ele na rua, ao 
passar eu surpreendia pessoas que o ficavam a ver exclamando. Oh! Que bel' 
fradao ! 
Insistiu comigo para que aceitasse ser seu companheiro nas diligncias 
que se impunha fazer por conventos franciscanos de Itlia para constituir a 
nova famlia de frades. Antes, porm, dizia-me ele, iramos tomar a bno 
a Sua Santidade Pio IV, que teria certamente recomendaes a fazer-nos. No 
lhe iria Frei Pantaleo dizer que no, verdade?
- Frei Bonifcio - respondi eu -, no sei a que devo uma to imerecida 
ateno a tenho o vosso convite por uma bem particular merc, como cada 
uma das muitas que da Divina Majestade tenho recebido.
Sua Santidade acolheu-nos com mostras de entranhvel amor, deu-nos 
a sua bno e, em nos despedindo dele, ps a mo familiarmente no ombro 
de Frei Bonifcio a recomendou: No era a primeira vez que Frei Bonifcio se 
encarregava da guardiania de Monte Sio. Sabia como confiava no saber a 
experincia, na diplomacia dele para tratar no s com os turcos, que por mal 
de nossos pecados tm em seu poder aquele chao sagrado, mas tambm, o 
que por vezes era ainda mais difcil, com as outras comunidades crists que 
tm 06
assento junto do tmulo de Cristo. Recordava-lhe que no ordenasse 
cavaleiros do Santo Sepulcro seno a pessoas muito nobres a ilustres.
Depois de o investir de toda a autoridade para o tocante ao cristianismo 
de Terra Santa, acrescentou-nos grandes ofertas da sua parte e mandou que 
nos fosse entregue um rico ornamento para as cerimnias solenes da Semana 
Santa em Jerusalm. A mim fez-me confessor apostlico.
Entrava Maro de quinhentos a sessenta a dois e a natureza benigna 
comeava a anunciar a Primavera. No havia tempo a perder. Partimos de 
Roma a fomos correr algumas provncias franciscanas mais cercs buscando 
frades. No se tornava fcil a escolha, dado o particular teor da misso a que 
se destinavam. Cumpria que fossem os mais devotos, virtuosos a quietos que 
se podiam achar. Portanto, sobre o seu feitio a comportamento se fazia secreto 
exame com que muito se sobrecarregavam as conscincias dos prelados locais 
e padres velhos dos conventos. Fomos assim juntando at cerca de sessenta 
frades. Dvamos-lhes as obedincias para que com elas nos fossem esperar a 
Veneza, onde se estava preparando a nau dos peregrinos que haviam de ir  
Terra Santa.  este um velho costume da Senhoria de Veneza, o de todos os 
anos mandar aparelhar uma nau das melhores que tem, para, juntamente com 
ir negociar seus tratos a terras do Oriente, levar tambm os peregrinos que vo 
a Jerusalm. Ordinariamente est a nau prestes por alturas da Ascenso, mas 
as mais das vezes no parte antes do So Joo. Nesta nau dos peregrinos 
havia de seguir tambm, este ano, a familia dos franciscanos que Frei 
Bonifcio a eu tnhamos reunido.
No fica, todavia, por aqui o bom acolhimento que a Senhoria faz aos 
peregrinos. Todos os anos os incorpora na triunfal a solenssima procisso de 
Corpus Christi. Este ano de sessenta a dois, depois de escolllida a famlia 
franciscana, dirigimo-nos a Veneza a fim de providenciar-lhe a partida. 
Assistimos ento quela opulentssima cerimnia, que caiu a quatro de Maio. 
Tantas a to momentosas eram as solicitaes que me faziam aos sentidos as 
imagens da cidade em festa que se me torna difcil captar todas as mincias. 
Pareciam ganhar vida a ao mesmo tempo insistir comigo, chamar-me, puxar-
me pela dobra da manga, insinuar-se-me nos ouvidos, no olfacto a gritar-me:
- Olha-me! Escuta-me! Aprecia a minha forma, a minha cor, o meu 
gosto, o meu brilho, o meu som, o meu aroma!...
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Linda  Veneza, a dos palcios de fachadas rendilhadas a varandins de 
nobres a formosas damas, a espelhar-se ondulante nas guas verde-negras de 
canais por onde vogam gndolas esbeltas; das finas pontes solcitas, em que 
suspiram amantes enlaados; das arcadas debruando praas; das tomes 
altaneiras que espreitam o Adritico e as ilhas dispersas da laguna; das 
lquidas ruas angustiadas entre paredes lavradas; dos sinos que ressoam a 
tangem pratas na atmosfera hmida; do suave marulhar das guas nas noites 
calmas de luar  Mas em festa atavia-se at ao pormenor requintado, at  
orquestrao delirante das formas. Paganiza-se, paganiza a festa litrgica que, 
por excelncia, no devera de ser paganizvel. Ao meu esprito de franciscano 
 uma demonstrao de fausto a de riqueza que ofende a humildade e a 
pobreza crist, no obstante a argumentao de Frei Bonifcio procurando 
convencer-me do contrrio a at da necessidade da pompa para dignificar a 
Igreja a os seus ministros.
- Meu padre - dizia eu a Frei Bonifcio, a quem muito reverenciava -, no 
achais que toda esta pompa a sumptuosidade nada tm a ver com o Senhor 
Jesus Cristo? O meu pensamento est-me dizendo que toda esta luxria, este 
fausto, esta opulncia a ostentao exterior de riqueza desviam as almas do 
verdadeiro esprito de cerimnia to santa.
A Igreja, visse o seu bom Pantaleo, tinha necessidade de dar de si 
uma alta imagem,  altura se possvel - e oxal pudesse l da majestade 
divina.
- Cristo era pobre ... a era Deus...
O anel que o imperador, o rei, o prncipe, oferecia  desposada no 
era, no podia ser, de modo algum, igual quele outro, de ouropel ou lato, que 
o mesteiral, o campons, entregava  namorada. Cristo era o esposo dos 
esposos. Que espanto que a Igreja, sua desposada, fosse procurar aos mais 
remotos confins do mundo a jia mais rara, o marfim mais branco, o mrmore 
mais puro? Nenhum ouro, nenhuma prata podiam ser bastantes a celebrar a 
majestade das majestades.
- Nosso padre So Francisco no pensava assim...
Nosso padre So Francisco comporia um hino em que cantariam os 
louvores do Criador a safira de azul mais imaculado, o rubi de vermelho mais 
sanguneo, grande a invulgar, o topzio cor de laranja, a verde esmeralda, o 
peridoto, o diamante, a opala, o nix,
a gata, a comalina, restituindo, devolvendo assim a Deus estas 
maravilhosas obras de Deus.
A argumentao de Frei Bonifcio apanhava-me como em ratoeira 
construda por mim prprio. Calava-me, mal convencido no plano do raciocnio, 
mas agradado da ideia, que to bem me quadrava.
Aquele ano partiu a nau dos peregrinos a vinte a tantos de julho, por 
alguns impedimentos, entre os quais o principal foi o facto de ter de levar 
tambm a famlia franciscana, que custava a reunir por ser de diversas 
provncias. Mesmo assim, s partiram desta vez cinquenta a cinco frades. Os 
restantes no chegaram a tempo a ficariam para uma viagem seguinte. Eu a 
Frei Bonifcio assistimos  partida da nau a em seguida partimos tambm ns 
ambos caminho de Trento, onde ficmos por espao de trs meses tratando 
com o comissrio-geral de assuntos importantes relativos aos lugares da Terra 
Santa e  nossa viagem. Seguimos por Pdua, a das pradarias irrigadas a 
beres, onde visitmos a monumental Baslica de Santo Antnio. Pequeno 
dilogo se travou aqui entre mim a Frei Bonifcio,  sada do templo. Depois de 
nosso padre So Francisco, que era mstico a poeta, muito devoto era - dizia 
Frei Bonifcio - deste poverello italiano, primeiro doutor da Igreja da nossa 
ordem, de portentoso saber, que tinha o dom de aliar ao misticismo a teologia, 
fazendo a sntese entre a rigidez da escolstica aquiniana e a humanidade 
franciscana... Dissera poverello italiano?, perguntava eu.
- Antnio de Pdua...
Desculpasse a ignorncia o meu bom padre Frei Bonifcio..., zninha 
pedra no sapato, ... mas julgava ter ouvido ou lido algures que Frei Antnio 
no era italiano.
No era italiano ? ! . . . 
A teologia e a prodigiosa erudio que tanto tinham assombrado as 
terras a naes por onde havia pregado aprendera-as ele em Santa ';ruz de 
Coimbra...
- Coimbra? No  a terra desse vosso bispo que tanto est a dar que 
falar, D. Frei Joo Soares?
Fiz ouvidos de mercador  pergunta, pois tambm a mim me vinham 
soando supostos escndalos que Sua Reverendssima andava dando com o 
elemento feminino, a continuei:
- O misticismo, alm de o ter de muito novo recebido de Deus, hebeu-o 
na orfandade prematura junto da s de Lisboa a na medita
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o inspirada diante dos corpos mutilados dos santos mrtires de 
Marrocos.
Atnito, Frei Bonifco exclamou:
- No me digais, meu querido Pantaleo, que Santo Antnio  um santo 
portugus ! ...
- Sim, meu mestre -lhe disse eu sorrindo a sem acinte -, Santo Antnio 
de Pdua  Santo Antnio de Lisboa.
Com simplicidade franciscana, Frei Bonifcio lanou-me um brao pelo 
ombro
- Mais um motivo, irmo, a que motivo!, para vos considerar um precioso 
amigo.
Depois de Pdua veio Verona, bela a vetusta cidade atravessada, em 
longa curva, pelo rio Adige. Transpusemo-lo pela ponte do castelo velho, 
seguimos por ruas estreitas at uma praa que havia sido um antigo frum 
romano, rodeada por belos palcios de lindas fachadas ornadas de frescos, 
visitmos templos magnficos a seguimos nosso caminho pela margem do rio, 
entre o vio da vegetao luxuriosa, e envolvidos de um deslumbroso 
panorama, com o lago de Garda  nossa esquerda, subimos at Trento.
Era evidente que me aturdia com as imagens externas, mas o ambiente 
de Trento sobrepujava as formas exteriores do velho burgo e por toda a parte 
os espritos estavam virados para a discusso dos problemas da Igreja, que, 
para alm de temas da f, tinham um alcance poltico universal. Porm, sendo 
Trento o templo do dogma, nunca senti tanto em mim crescer a dvida como 
a, pois ao assistir a longos a doutos debates sobre certos artigos de f u 
presenciava o triunfo de uma tese sobre outra tese a no deixava de pensar 
que, noutras circunstncias ou com outros telogos a doutores, talvez fosse a 
tese vencida a vencedora a aquilo que se decidira ser dogma a partir daquela 
votao qui o no seria a partir desta outra. Logo, o dogma no tinha valor 
absoluto, ecumnico, infalvel, divino. Ao ver todas aquelas cabeas mitradas, 
a maior parte delas encanecidas, senis, vinham-me ao esprito ideias loucas 
que depois me atormentavam a conscincia: que Cristo nunca poderia ter 
usado uma mitra, uma tiara; que o aparecimento de um Francisco de Assis era 
sinal da necessidade peridica que a prpria Igreja sentia de se purificar a se 
aproximar da divina fonte; que a reforma de que a Igreja necessitava no era 
aquela que estava a ser feita, mas sim a daquele esprito que presidiu  ideia 
de convi0
dar, como de facto se convidaram, os nossos irmos protestantes e 
todos juntos tentarmos unir a grande famlia crist dividida. Bastava um pouco 
mais de humildade, de caridade, de parte a parte! Mas tudo isso estava a 
falhar!...
O exame interior das minhas dvidas levava-me a encarar de novo com 
a minha alma, a minha vida, os meus problemas subjectivos, por algum tempo 
adormecidos pela novidade das viagens, dos lugares, das pessoas, do 
trabalho. Caa em mim. Que estava eu aqui a fazer? E de repente senti-me s 
no mundo a as pessoas a coisas que me rodeavam tornavam-se-me 
estranhamente alheias a agressivas. Tinha saudades de no sei quem a de 
no sei que terra longnqua, imensas, pungentes saudades!...
Em Trento fiz um conhecimento que, tornando-se amizade, muito me 
ajudou neste meu estado de esprito. Frei Antnio Zedilho fazia parte da 
comitiva do doutssimo Frei Francisco Orantes, que viera ao Conclio -em 
representao do bispo de Palncia. Teria os seus trinta anos a picos como eu. 
Estatura acima da me, magro em sua estamenha de franciscano, cabea 
pequena que estreitava em direco ao queixo pontiagudo, para quem o 
estivesse a olhar de frente; nariz afilado, adunco; o jeito peculiar de encavalitar 
o lbio superior sobre o inferior; barba rala, orelhas enormes realadas pelo 
cabelo cortado rente; pouco falar, muito ouvir: sbia disposio! Conquanto 
telogo, a sua sabedoria ainda incipiente a livresca, pois de pouco se formara, 
revelava-se mais de memria que de destreza no raciocnio e no discurso. 
Quando soube que eu me preparava para acompanhar Frei Bonifcio de 
Aragusa  Terra Santa, manifestou-me desejos, h muito acalentados no 
escrnio da esperana, como ele pomposamente dizia, de ir visitar os sagrados 
lugares. Apresentei-o a Frei Bonifcio e ficou assente que, colhidas as licenas 
dos superiores, iria connosco para Veneza a fim de nos embarcarmos, tanto 
mais que Francisco Orantes no desejava demorar em Trento a resolvera 
regressar  sua terra.
Em Veneza, enquanto no chegava o dia da partida, dedicmos o nosso 
tempo a prover-nos das coisas indispensveis para tornar a viagem um pouco 
menos desconfortvel ao corpo: colcho, almofada para a cabeceira, cobertor, 
c-lcha de algodo, lenis, tudo artigos que se adquirem por preo muito baixo 
a que, no regresso, se vendem outra vez com facilidade a az com ganho. Se 
se leva bolsa que no falte, convm abastecermo-nos de algumas outras 
coisas

necessrias: roupa interior a alguma comida, como biscoito, queijo e 
outros mimos, porque ainda que se coma  mesa do patro da nau, sucede 
frequentemente no serem as refeies do nosso gosto, ou nos intervalos ter-
se corporal necessidade, ou desejar-se convidar a um amigo ou fazer alguma 
obra de caridade ao prximo, ou adregar de ser o despenseiro pouco caridoso 
a algum tanto avarento. Pessoalmente queria tambm levar outras pequenas 
coisas, como papel e tnta, pois tinha a inteno de anotar o mais possvel do 
que me fosse dado conhecer numa para mim to rara a importante 
peregrinao. Fui pelas lojas  procura do que havia deliberado comprar a 
entrei s tantas na de um judeu velho que era uma espcie de tem-tudo. 
Vendo-me comprar tais artigos, inteirou-se de que eu ia embarcar para a Terra 
Santa a pediu-me se, ao passar em Corfu, no poderia fazer-lhe a merc de 
entregar a um judeu seu amigo, de quem dizia o nome, uma encomendinha. 
Respondi-lhe que com muito prazer o faria a perguntei
- E esse Isac Beiudo que dizeis onde o posso encontrar? Riu-se com 
gosto o judeu e, num portugus correctssimo a sem sotaque, disse:
- No  Beiudo.  Bensade, Isac Bensade - e inclinou-se sobre o 
balco a escrever num papel a morada do judeu.
Ainda eu no estava refeito da surpresa:
- Aqui tendes - e entrega-me o papel. - Dizei-lhe que ides da parte de 
Joseph. E muito obrigado vos fico pela merc, Frei Pantaleo.
- Pois conheceis-me? ... - exclamei, caindo de surpresa em surpresa, 
pois o papel que me dera tinha desenhada, num dos cantos, uma estrela de 
cinco pontas...
Como muitos de seus irmos de religio a raa, contou-me ele, era 
um judeu portugus fugido  fogueira da Inquisio. Uma triste e dolorosa 
realidade que, pela sua fiequncia, se tornava um facto de que no havia que 
espantar. Vira-me muita vez em vora a um filho seu andara comigo na escola 
quando na idade de sete anos. Talvez me lembrasse dele, o Joaquim...
Sim. Lembrava-me muito bem. ramos amigos. Que era feito dele 
agora?
Mdico em Setbal. Mas no estava contente. Tinha notcias de que, 
logo que pudesse, saa de Portugal a vinha ter consigo...
Reparasse que eu era talvez a nica pessoa, a de certeza o nico padre, 
a quem ele poderia sem receio dar tal notcia... E, se no tivesse por acaso 
entrado ali, ele j tencionava procurar-me, pois sabia da minha presena...
- Porque confiais assim tanto em mim?
- Conheo-vos muito bem a sei que sois amigo dos judeus. - Como me 
conheceis to bem?
Comeou a desviar a conversa, l o estava eu a sentir. Ora  Conhecia-
me, era tudo  Fosse a Corfu... Fosse a Corfu ...
Calava-se Joseph e, apesar da minha insistncia, s me respondia 
fazendo com o polegar e o indicador sinal de que tinha os lbios cerrados. 
Seria eu judeu? - perguntava a mim prprio. Aquela estrela no seria o sino-
saimo?... Em silncio Joseph acompanhava-me amavelmente at  porta, 
como a convidar-me a sair. Apoderou-se ento de mim uma pressa febril de 
embarcar, de ir embora... Levantavam-se obstculos. Era costume, que j 
vinha dos Romanos, no se navegar entre quinze de Novembro e a oitava da 
Epifania. Havia grandes penas, quer-me parecer que tambm a da 
excomunho, para quem sem licena fizesse o contrrio a s se abria 
excepo quando o patro de um barco manifestava necessidade muito 
urgente, como aconteceu com o patro de uma nau que estava prestes a partir 
a na qual Frei Bonifcio, eu a Frei Antnio Zedilho nos preparvamos para 
embarcar. Todavia, com grande arrelia minha, mandou a Senhoria chamar o 
padre Bonifcio a terminantemente lhe ordenou que no embarcasse, que era 
j Inverno a os mares do Levante muito perigosos. Sentiu muito o guardio de 
Jerusalm tal impedimento e, por mais razes que desse, nenhuma lhe foi 
admitida porque todos os senhores venezianos lhe tinham muito amor a 
reverncia, tanto por sua muita virtude a sabedoria como porque havia j sido, 
uns sete anos, guardio de monte Sio, com grande exemplo de sua vida e 
no menos proveito dos lugares santos. Mas se a insistncia de Frei Bonifcio 
junto da Senhoria no surtiu efeito, a minha junto de Frei Bonifcio era preciso 
que no falhasse. Na minha pressa, na minha impacincia, procurava razo de 
peso. Que havia trs anos a famlia franciscana da Terra Santa estava sem 
recursos, no via Frei Bonifcio? Urgia partir quanto antes a levar-lhe apoio a 
conforto. No me importava de correr o risco da prpria vida... No era 
sincero e a mim prprio me soava a falso a minha voz. Acreditou Frei Boni
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fcio? No sei. Deu-me muitos agradecimentos pela boa vontade 
revelada a procurou dissuadir-me de tal propsito a de tais trabalhos e 
canseiras, pondo-me diante os mesmos perigos a si postos pela Senhoria 
veneziana, prometendo-me que logo que fossem baptizadas as guas nos 
partiramos todos na primeira nau que sasse. O baptismo das guas eram 
certas cerimnias que se faziam nas pias de baptizar, na viglia da Epifania, ao 
tempo da missa de tera, com ladainha e muitas oraes a preces apropriadas 
quele ofcio, como vspera de Pscoa ao ofcio das fontes. Eram em memria 
do baptismo de Cristo e dali por diante todos tm liberdade para navegarem 
como lhes parece. No desisti, nem por isso, da minha determinao a 
finalmente, a muito custo a com muito rogo, ele consentiu a logo mandou me 
fosse entregue toda a proviso a matalotagem que para si a para os mais 
estava feita. Que mal chegasse a Chipre entregasse ao nosso sndico a 
proviso para a Terra Santa e o fosse esperar  nau que partiria de Veneza 
depois da bno das guas... Outra, porm, era a mola que me impelia a no 
descansei enquanto no senti que levantavam a ncora e comevamos a 
zarpar. No cais, em Malamoch, diziam-me adeus, alm de Frei Bonifcio, 
importantes personagens que desceram de Trento a despedir-se de mim. Ali 
estava um venerado a doutssimo padre da Ordem dos Pregadores, telogo de 
nomeada, por nome Frei Lus de Sottomaior, leitor em Lovaina, chamado a 
Trento a substituir o padre Pinheiro, da mesma ordem, subitamente falecido em 
Roma antes do comeo das sesses.
- Frei Pantaleo - abraava-me -, trazendo-vos Nosso Senhor a 
Portugal...
- J sei: quereis uma relquia de Terra Santa.
- No mais que qualquer pequena de terra ou pedra da que acheis nas 
ruas ou caminhos pblicos, que todo esse cho at ao abismo est santificado 
pelas pegadas de Cristo.
- Assim farei, Frei Luis.
- Bem me custa no embarcar convosco, mas neste momento a minha 
sade no mo permite.
D. Frei Joo Soares entregava-me, para a guardiania da Terra Santa, 
trint moedas de ouro em memria dos trinta dinheiros de Judas.
- Em breve farei tambm minha peregrinao a visitar-vos-ei em 
Jerusalm.
O arcebispo de Braga, D. Frei Bartolomeu dos Mrtires, tambm ali 
estava, ao p de Frei Bonifcio de Aragusa. Que tambm ele partia - dizia-me 
abraando-me - mas em sentido contrrio, caminho da sua diocese. O seu 
rebanho, as suas ovelhas, compreendia?
J a bordo, da amurada olho a multido que acena com lenos. Boa 
viagem! Que Deus vos acompanhe! Tende cuidado convosco!,  a voz forte a 
timbrada do padre Bonifcio que vem l de baixo, do cais. Entre as muitas 
cabeas, vislumbro o olhar curioso de Joseph.  dia de Santa Brbara, quatro 
de Dezembro de i S 62, uma sexta-feira, ao romper da alva.
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A tempestade
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UTO o E
... tendo j todos desesperado da salvao, eis que apareceu diante 
deles o fenmeno habitualmente chamado sfon, pavorosamente fazendo 
remoinhar a superfcie do mar, e erguendo as areias desde os abismos da 
terra, e levando  sua frente, destrudo, o navio.
(Vita M r. S. Pauli Latrensis)
- C vamos - murmurou emocionado Frei Zedilho, o rosrio de grandes 
camndulas entre os dedos.
Estvamos debruados na amurada apinhada de passageiros e 
_rodeados dos seis irmos franciscanos que se haviam atrasado a tinham 
embarcado connosco. A terra comeava a alongar-se, a fugir, a perder a nitidez 
de cores a formas, a tornar-se uma diluda mancha anilada. Era todavia a 
paisagem interior que me ocupava. Ao partir, em vez de sentir
"` saudades de uma terra que no era a minha a que se afastava a 
esbatia nas br=as do amanhecer, apurava os olhos da esperana na 
egpectativa de ever aprogimar-se finahnente, vindo dos nevoeiros dos 
caminhos '`.'_' deseonhecidos, esse algo indefinido de que eu tinha uma 
necessidade ~'- esfomeada desde que me conhecia.
7
- C vamos ! - sussurrei tambm.
Soprava um prspero vento de poente e a nau, grande a formosa, 
chamada Sanuda, sulcava as ondas com rapidez a leveza. Assim passmos a 
stria quase toda, mas quando comemos a costear a Dalmcia acudiu-nos 
vento do sudoeste, to spero a forte que fomos constrangidos a procurar 
abrigo. Fizemo-lo num lugar de nome Cabea de So Pedro, do lado da stria, 
Albnia, Grcia. No Adritico so pouqussimos, no espao de duzentas 
lguas, os portos que se podem tomar da parte da Itlia - apenas Ancona, 
Brundsio a Otranto oferecem segurana, mas ainda assim as naus s os 
buscam quando tm neles que negociar.
O vento ia em crescimento, tornava-se ciclnico quando a noite caiu. 
Embrulhado na minha manta, sentia-o zunir pelas frinchas, assobiar nas 
enxrcias. Zimbrava o barco da popa  proa, rangendo a guinchando. Principiei 
a sentir-me agoniado. Levantei-me, sa do meu camarote aos apalpes, 
tropeando aqui a ali nos colches dos companheiros de viagem que dormiam 
na coberta. Subi as escadas que levavam ao convs precisava de alijar carga. 
C fora o vento fustigava a era necessrio arrimar-me bem s paredes, ao que 
encontrava, para no ser arrastado. Estava escuro, mas a espaos as nuvens 
que doidejavam no cu numa correria infrene deixavam lampejar uns clares 
de luar. O vmito assomava-me  garganta, cheguei-me  amurada, tremendo 
a cheio de suores frios, ourado. Assim que lancei, permaneci uns momentos 
muito quieto, ofegante. Perto de mim senti um arfar desassossegado, 
angustioso. Pensei vagamente que algum, como eu, estaria agoniado. Pouco 
a pouco o meu corpo recuperava o equilbrio, a respirao tornou-se normal a 
calma, o mal-estar desaparecia. Soergui-me apurando o ouvido. Aquele arfar 
continuava, agora mais apressado, mas de sbito dei conta de que havia dois 
ritmos a timbres diferentes nesse respirar a suspirar doloroso.
 mais que uma pessoa que est mal disposta, pensei eu, procurando 
ver no escuro. Por instantes o luar apareceu a eu pude, num relance, distinguir 
dois vultos que junto de um rolo de cordas se enlaavam. A escurido recaiu a 
os gemidos aumentavam confundindo-se com a ventania. Tolerante, por 
experincia, com aqueles que se amam, dispunha-me a retirar-me quando um 
claro mais forte tornou ntidas as formas: um jovem estava de borco sobre as 
cordas a um homem abraando-o pelas costas sodomizava-o!... Corri para as 
escadas e, como pude, meti-me na cama a tentar adormecer. Onde estavam 
as amuradas para o vmito da alma?...
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Ao dia seguinte, a fria do vento minguava a ns fomos costeando a 
Dalmcia, Argentina, Zara, Lissa, Meleda, Crsula, terras sujeitas umas a 
Veneza a outras  senhoria de Aragusa. Vinham-me  lembrana fragmentos 
de antigas a recentes leituras: a Dalmcia era a ptria de So Jernimo a 
tambm do papa mrtir So Caio, da parentela do imperador Diocleciano; 
Aragusa ou Ragusa, o antigo Epidauro, era ao presente dos Turcos a 
chamava-se Dobrnica, cidade grandssima, rica, muito nomeada naquelas 
partes, terra de grandes tratos a mercadores, onde se fazem muitas naus, as 
maiores a mais grossas de todo o Levante.  daqui o nosso padre guardio, 
Frei Bonifcio. Seguimos sempre ao longo da costa, o que amenizava a 
viagem, pois tinham nossos olhos com que se entreterem.
Que montes seriam aqueles?, apontava Frei Zedilho.
Eu consultava o meu enquirdio a no demorava muito a identific-los: 
eram os montes Acrocerunios, muito afamados na Antiguidade. Ah! Deles 
fazia memria So Jernimo no segundo prlogo da Bblia, comentava o meu 
telogo.
Vinha depois a costa do Epiro, a que est ligada a Macednia, ptria de 
Alexandre Magno, do qual tantas grandezas contam tantos escritores gregos a 
latinos. As lnguas de todas estas terras so muito diversas umas das outras, 
mas os Aragsios a os Dalmacianos entendem-se bem entre si pela continua 
comunicao. Os Albaneses a os Epirotas usam comummente o grego, mas, 
como presentemente esto submetidos aos Turcos, toda a gente principal a 
nobre fala a lngua turca. Estas informaces colhi-as eu de um marinheiro 
grego chamado Prides; a quem frequentemente fazamos perguntas quando 
queramos saber alguma coisa. Era muito sensvel ao facto de a sua ptria 
grega estar sob o dominio turco. Isolava-se amide junto  amurada a olhar a 
linha da costa passar, os montes e vales, as lgrimas a desfiarem-lhe pelas 
faces a cantando baixinho, s para si, saudosas melopeias que aprendera em 
menino. Ansiava pelo dia em que a Grcia sua bem-amada recobrasse a 
independncia. Mal adivinhava eu, naquele tempo, que tambm me estava 
destinado ter, a respeito do meu pas, essa dolorosssima experincia!... 
Contava-nos ele factos nunca ouvidos. De todas as partes a provncias a em 
especial do Epiro, da Macednia a da Albnia, todas as pias de baptizar eram 
obrigadas cada ano a dar certas crianas de tributo ao gro-turco...
- Dar crianas ao turco? - admirava-se, escandalizado, Frei .". Zedilho.
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- Para qu? - secundava eu.
Que as mandava criar com muito cuidado a diligncia, doutrinar na 
bruta a maldita seita do sancarro Mafamede a instruir em todas as boas artes 
militares : na cavalaria, no pelejar com toda a sorte de armas.
- Com que fim?
Criavam assim um corpo militar de eleio, no qual residia toda a fora 
a potncia humana do gro-turco. Era com eles que fazia a guerra a todo o 
mundo...
...e conquistava tantos reinos a provncias como tinha tomado aos 
cristos, por nossos pecados, rematava eu tomando calor no que dizia, e 
pela ambio a cobia de alguns prncipes catlicos, se este nome lhes cabia, 
que procurando com injustas guerras o alheio perdiam o prprio...
Aqueles eram os guerreiros a que se chamava janizaros. Mas no era s 
nas guerras que o gro-turco deles se servia. Usava-os tambm no governo da 
sua corte a de todos os seus reinos a provncias. Segundo o esforo, a 
prudncia, a valentia a virtude que cada um demonstrava, ia-lhes dando os 
ofcios a honras, dignidades a prmios que lhe parecia merecerem: a uns fazia 
baxs, que eram uma espcie de vizo-reis de reinos a provncias, a outros 
sanjacos, que eram governadores das cidades e seus termos, a outros 
berlebis, chauses, cdis, que eram como justias-mores das terras onde 
residiam...
- So grandes senhores  - disse Frei Zedilho.
Sim, eram  Mas, com o serem, continuavam escravos do gro-turco e se 
no cumpriam os seus ofcios a governos como deviam, no se ensaiava nada 
em tir-los do cargo a com facilidade os mandava matar, se lhe parecia, sem 
haver quem lho ousasse contradizer. Se porm serviam fiel e louvavelmente, 
promovia-os de uma dignidade pequena a outra maior. Ordinariamente no 
dava estas funes seno por trs anos, j se via com que inteno...
Tnhamos passada toda a Albnia com a diversidade de seus portos, 
cidades a lugares, entre os quais a famosa Castria, edificada dentro do mar 
como a rica Veneza, e a inexpugnvel Valona, onde ao presente o gro-turco 
tem a sua esquadra de gals a naus de que se serve nas batalhas navais.
Prides, com o seu olhar habituado a perscrutar o horizonte onde 
comeava a sombrear a mancha de uma ilha, disse:
- Tenho de vos deixar. Estamos a chegar a Corfu.
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Bateu-me mais forte o corao a senti subitamente um grande medo do 
que iria encontrar naquela ilha. No tardou muito que a vssemos com nitidez, 
suas muralhas edificadas sobre a rocha viva, a pouco tempo depois dvamos 
entrada pelo estreitssimo canal que vai entre a ilha e a terra dos Turcos, to 
estreito que as embarcaes que entram no podem fazer manobra para se 
voltarem a necessitam de um vento para entrar e outro para sair. Por isso 
muitas vezes sucede estarem ali detidas sem poderem fazer viagem, salvo 
sendo ajudadas pelas gals que a senhoria ve rieziana ali tem continuamente 
para guarda a defenso da ilha. A muita proximidade da terra dos Turcos faz 
que estes a cobicem a mais que uma vez tentaram tom-la, mas sem 
resultado, pois Veneza tem sabido defend-la, com a guarnio militar dos 
seus dois fortissimos castelos roqueiros sobre o mar a as suas cerca de trinta 
gals.
Na cidade, que tem o mesmo nome da ilha, fomos primeiramente ter a 
um mosteiro de franciscanos da observncia que a h. Muito bem recebidos 
pelos nossos irmos a sumamente agasalhados a recriados da aspereza da 
viagem, fomos deles informados, a meu rogo, de como nos orientarmos. 
Ficmos a saber que, alm do seu convento, outro havia de frades gregos da 
Ordem de So Baslio, frades esses que nas partes orientais a por toda a 
Grcia se chamam caloiros, xacayspoc (de xoca5, bom, santo, virtuoso, a 
y'po5, velho, varo), tal como ns chamamos fratres, frades, aos nossos 
religiosos. Tambm h duas igrejas catedrais: uma que faz suas cerimnias  
maneira latina - frequentam-na os venezianos e
:~ todos os gregos nobres a gente principal, que se querem mostrar 
melhores cristos a mais fiis  senhoria veneziana -, a outra que faz  
maneira ortodoxa grega: segue-a a gente comum a popular. As mais
,':. igrejas da cidade como da ilha fazem  grega. E no haveria, 
pergun' Lava eu pensando em minha vida, j adeus na cidade? Que sim, que 
`: havia, no s na cidade mas espalhados por toda a ilha a em sua liberdade. - 
Portugueses? - interroguei.
- Castelhanos ? - acudiu Frei Zedilho.
No eram portugueses nem castelhanos, mas gregos, italianos a de :. 
autras partes de Levante. Tinham uma sinagoga muito grande onde se `' 
~unt.vam aos sbados a nas mais festas da Lei Velha...
jy,. Pensei para comigo que talvez fosse a, na sinagoga, que conviesse 
R Procurar Isac Beiudo, a assim, no dia seguinte, quando samos a visitar 
cidade - meu companheiro saiu comigo a embora eu no desejasse
`,~welar-lhe assuntos da minha privatividade, no queria todavia que se 
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apercebesse desejar estar sozinho quando encontrasse o judeu... 
poderia mago-lo -, orientei caminho nesse sentido. Mas as circunstncias 
encaminharam-me melhor, porque, em certa rua, vendo ns um numeroso 
grupo de judeus que seguia com destino determinado pusemo-nos a andar a 
par deles.
- Ides a alguma festa? - perguntei.
Que iam circuncidar um menino judeu em casa de seu pai. - Podemos ir 
convosco assistir ao acto?
Alegremente responderam que eram disso muito contentes e 
acrescentavam, falando todos ao mesmo tempo
- Vinde connosco, vinde!
- Se no tendes visto outro acto semelhante...
...acertvamos em querer ver aquele... Linda cerimnia era!... 
Acreditssemos!... Franciscanos eram os nicos frades que os entendiam...
- No exagereis! - deitava eu gua na fervura.
Assim fomos com eles at  casa do menino que havia de ser 
circuncidado. Estava cheia de gente, homens a mulheres, mais de cem 
pessoas com toda a solenidade vestidas a dispostas. No pude deixar de 
cotejar a pouca festa com que os cristos levam a baptizar seus filhos, que 
pela maior parte, se a criana no  de alguma famlia grada a principal, muito 
poucos afora os padrinhos a vo acompanhando. Judeus a tambm Mouros a 
Turcos, pelo contrrio, celebram solenemente a com grande regozijo esta 
cerimnia que para eles  como para ns o baptizado. O meu conhecimento de 
como se processava o acto da circunciso era naturalmente vago. Conhecia 
algumas aluses da Bblia a lembro-me de ter visto a sua representao no 
painel do retbulo da s de vora : uma mesa comprida ao centro, com uma 
toalha branca sobre que a madrinha faz o gesto de colocar o menino ; um rabi, 
mitrado a ricamente paramentado, estende os braos para o receber da 
madrinha; em redor muita gente se agrupa, mulheres a homens, cabeas 
cobertas de turbantes, coifas, lenos... A realidade, porm, no era to 
pomposa a rica, se bem que solene a digna. O padrinho senta-se numa mesa e 
a madrinha vem apresentar-lhe a criana, de oito dias nascida, que ele toma no 
seu colo e comea a libertar dos cueiros, enquanto toda a gente entoa 
canes. O rabi aquece as mos numa braseirinha que ali est prestes, e a seu 
lado um ajudante segura uma taa a uma garrafa de gargalo estreito, cheia de 
vinho. Aproxima-se a pane central da cerimza a toda a gente segue a
operao em profundo silncio. Ns estamos  frente, pois amavelmente 
os judeus haviam-nos cedido lugar, de modo que podemos presenciar tudo 
muito bem. Atrs de ns vm postar-se umas moas judias, muito bem-
parecidas. Sinto-lhes os bicos rijos dos seios quando se encostam a mim a 
espreitar por cima dos meus ombros. Por momentos lembro-me do corpo de 
Margarida, mas as moas, sem malcia nenhuma, com muita singeleza a 
sinceridade, assistem atentamente ao que faz o rabi. O padrinho segura a 
criana a conserva-lhe a cabea encostada a si, enquanto o ministro, tomando 
o membro do merino, lhe arrepanha a puxa, com uma das mos, a pele do 
prepcio a com a outra empurra para baixo a conserva bem dentro a glande e 
o membro. Um instrumento de prata segura essa pele a vai permitir cort-la 
circularmente com um cutelozinho de pedra, sem ferir a carne do pnis. Com 
as mos retira a pelcula que envolve a glande a liberta-a totalmente puxando 
para trs a restante pele. Com o seu choro bem mostra o menino que a carne  
sua, o que nos provoca grande lstma. Um clice com vinho  apresentado ao 
rabi, que, sorvendo um pouco na boca, vai assim sugar a glande 
ensanguentada, lanando fora o sangue que dela tomou. Faz esta operao 
trs vezes, aps o que polvilha a ferida com um p vermelho. Envolve em 
seguida, com paninhos muito asseados, a pila do menino.
- Em cinco dias estars curado, pequerruchinho  - ouo atrs de mim 
uma das moas a sussurrar.
O ministro benze agora,  sua maneira, com oraes, o vinho do clice, 
toma uma golada e, metendo o dedo na boca, leva-o gotejando  boca do 
menino para que o sugue, o que tambm faz por trs vezes. O que resta do 
vinho vai ser levado  me e  dado a beber s mulheres. Um ajudante segura 
um queimador de perfumes, de prata lavrada, a aproxima-se do ministro, que 
de boca ainda sangrenta recebe as exalaes no peito e na cabea. Incensa 
depois o menino e o padrinho. Dizem os judeus que quem for umas quantas 
vezes ministro da circunciso os seus lbios sero incorruptveis  terra a aos 
vermes, quando morrer.
Que me parecia aquele acto?,  a pergunta de um judeu que nos 
acompanha c fora na rua. Na Lei Velha, respondo-lhe, dada por Deus aos 
filhos de Israel, fora a circunciso cerimnia muito santa. Ao presente, era 
funo de gente cega a prfida, acrescentava spera e desajeitadamente Frei 
Zedilho. Mas, apesar do desengano to claro que havia nas palavras do meu 
companheiro, no deixaram por isso os judeus
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4f
de ter connosco muitos cumprimentos a de nos fazerem grandes 
oferecimentos, com que nos despedimos deles. Seguindo meu companheiro 
adiante, retardo o passo a pergunto ao judeu que connosco falara e vinha atrs
- Conheceis um judeu portugus por nome Isac Beiudo ou Bensafiide?
Conhecia, sim. Mas no se encontrava na ilha naquele momento. Cria 
que fora a Chipre ou ao Egipto, no sabia bem. Andava sempre em viagem. 
Aquilo ali para ns que ningum nos ouvia, confidenciava, como o no via 
fazer negcio ou s fingia que o fazia, cuidava ser por a algum embaixador 
clandestino a soldo de algum. Pois donde lhe havia de vir o dinheiro? Sabia 
tudo o que se passava, desde as ndias Orientais s Ocidentais, incluindo o 
golfo Prsico, o mar Vermelho, a Turquia a todas as terras de Europa, sia a 
frica...
- No sabeis quando torna?
Ele era imprevisvel. Podia voltar de um momento para o outro... 
Queria-lhe minha paternidade algum recado?
- Entregar-lhe uma encomenda. Se ele no vier antes que me torne a 
embarcar, terei de a deixar em casa dele.
Se quisesse, indicava-me onde era.
- Ficar-vos-is muito grato - disse eu e, dirigindo-me a Frei Zedilho, pedi-
lhe que fosse andando pois eu tinha recado a fazer. Tommos por umas ruas a 
travessas estreitas e, s tantas, o judeu
parou em frente de uma porta a que bateu. Uma velha judia veio abrir e, 
sem que no rosto denunciasse qualquer surpresa ou curiosidade, ficou calada 
aguardando
- Venho da parte de Joseph a trago uma encomenda para Isac. Saquei 
da manga a encomenda que, pelo volume, parecia ser um livro pequeno. A 
judia, em silncio tomou o embrulho a rasgou o invlucro. Era de facto um livro, 
impresso em caracteres hebraicos. Ela leu qualquer coisa no frontispcio, que 
eu no entendi por ser naquela lngua, a depois levantando os olhos para mim 
traduziu: Lisboa, i 5 z6.
Aquela data  Bem a conhecia eu  Sem fazer caso do meu espanto, ela 
atalhou vendo a minha boca a abrir-se para falar:
- N digais nada, Frei Pantaleo (ela dizia: Fra Pantaleone, pois era 
italiana). Entrai. Tu, Ibraim - disse ela para o judeu que me acompanhara -, 
deixa-lo de curiosidade a no metas o nariz onde no s chamado. Vai-lo 
embora.
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- Obrigado, Ibraim - agradeci eu, um pouco enleado com a rudeza da 
judia -, por me terdes trazido at aqui.
Entrei. Comeava a perceber que o livro no era mais do que uma 
senha. Mal a judia fechou a porta, a sua atitude mudou totalmente. Sorrindo 
amavelmente, rogou-me que me sentasse, foi buscar biscoitos - No se 
incomodasse comigo  -, passas, figos, queijo, serviu-me do seu vinho - Ora 
valha-me Deus, que maada lhe estava a darl -, enquanto ia falando. Que 
pena Isac no poder estar, ele que tanto me queria ver a falarl Mas tivera de ir 
 pressa a Chipre a da ao Lbano, a colher umas informaes especiais que 
Jacob, vindo das ndias a passando por Ormuz, lhe queria transmitir.
- Jacob? - estranhei eu. - Ser esse Jacob... ? - _portugus, mdico de 
Tavira. Esse mesmo  - Mas ele... tinha morrido no terramoto 
Assim era necessrio que toda a gente pensasse, como depois se vira... 
Alis era em parte isso que Isac me queria anunciar da parte de Jacob: que ele 
estava vivo a residia com Sara em Damasco. Sentindo-se velho a doente, no 
queria morrer sem me falar, para desobrigar sua alma de um pesado fardo que 
tem suportado. Isac pensava levar-me at ele, mas agora que tivera de 
ausentar-se subitamente deixara recado que me
~' procuraria em Chipre, ou em Jerusalm, ou noutro qualquer lugar. 
No `,' devia preocupar-me: ele havia de encontrar-me...
Estivemos trs dias naquela cidade, por ser necessrio proceder  ` 
descarga de mercadorias que ali se venderam e  carga de outras que se 
hompraram, o que n.o me pesou porque o meu esprito, deslassado de `tanta 
espera infrutfera, caiu numa espcie de apatia a indiferena cansada, que eu 
sabia momentnea. Aproveitei o facto para satisfazer o meu
-~~`''Qatural pendor de desejar ver terras, ritos a costumes estranhos. 
Pude :~ -assim conhecer melhor a grande fertilidade de Corfu em muitos '-'' -
satremados azeites a vinhos, de que fazem exportao para diversas .. ''artes, 
a riqueza do gado que lhe d pingues carnes, a bondade e
ariedade das frutas, em especial a fruta de espinho, mais avanta', ~da, 
que a nossa, e a abundncia de pescado, no obstante o mar de `:~ '-evante 
ser em muito lado falto dele. Visitei at uma grande pesqueira,
'~ niodo de viveiro, que os Venezianos tm num determinado ponto <:':o 
estreito, em terra de turcos, onde criam infinito peixe que rende  ~.horia 
grossa maquia: a maior parte so tainhas, que no  bom peixe ";;,~or estar 
retido naquele viveiro  mistura com cobras a outras imund
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cies, mas h muita gente que o aprecia. O principal dele so as ovas, de 
que os Gregos a os Italianos fazem mais conta: extraem-nas a poem-nas a 
secar e a curar ao sol. So muito estimadas em todo o Levante a inmeros 
mercadores vm comprar o pescado e, tiradas as ovas, a que chamam 
butargas, do-no livremente a quem o quer. Muitas pessoas o comem escalado 
a posto a enxugar, condimentado de alho, mas outras no lhe fazem tantas 
cerimnias.
Negociadas em Corfu todas as coisas necessrias a oferecendo-se-nos 
tempo prspero a bom para navegar, levantmos ncora a demos vela com 
muito contentamento de todos. No dia seguinte passmos a ilha de Cefalnia, 
suas altas montanhas a precipitarem-se vertiginosamente no mar.
- Preciosos vinhos - era o nosso habitual informador, Prides, apoiado 
como eu a meu companheiro  borda da balaustrada. - Os ilhenos dedicam-se 
a fazer muita passa que levam  Itlia e a outras terras Tm grande cpia de 
gado a ls finssimas...
Estava particularmente feliz o bom do Prides, pois mal fundessemos 
iria a correr ver a sua namorada que era dali. Ia dar-lhe milhes de beijos a 
provar uma camisola que ela lhe andava a fazer (Margarida tambm me fez 
uma, lembrei-me ) com a l das suas ovelhas  Era ver-lhe os olhos alongados a 
quererem puxar a si a terra que no havia meio de se aproximar. Era evidente 
que estvamos a passar de largo. A desolao a mgoa de Prides foi 
indiscritvel. Saiu da nossa beira a at ao dia seguinte, que aportmos  ilha de 
Zante, no lhe pusemos a vista em cima. Aqui pouca gente saiu a terra : 
apenas o escrivo da nau, dois ou trs mercadores, eu, depois de ter pedido 
licena ao patro para satisfazer minha pura curiosidade... a Prides 
H aqui tambm um castelo inexpugnvel, com guarnio permanente, a 
um mosteiro de franciscanos que, embora gregos de nao, esto sujeitos  
Igreja Romana. Sejais bem-vindos  Sede bem-vindos  Venhais em boa hora!, 
eram os frades a acolherem-nos com muito amor e caridade. Primeiro tratar 
da almal, a levavam-nos  capela a rezar. Depois cuidar do corpo, a 
seguia-se a visita sacramental  copa.
Toda a gente nobre da ilha frequenta este mosteiro a aqui se enterra. As 
mais igrejas fazem ao modo grego a tm o seu bispo ortodoxo. Os Venezianos 
pagam cada ano de tributo aos Turcos por esta ilha a pela de Cefalnia certa 
quantidade de falces, mas nem por isso deixam de ter guarda de gente de p 
a de cavalo, por causa dos corsrios turcos e
mouros que infestam aqueles mares. Bons vinhos a azeites, muita 
passa, formosura de frutas, tal como por todas estas paragens mediterrnicas, 
mas com tanta abundncia a terra quase toda  enfermia de clima e de ares.
J quase noite nos tornmos  nau. Encontrei-me com Prides, que 
regressava tambm, com ar radiante, vestindo uma camisola de l qua no lhe 
tinha visto de manh quando samos.
- Ento, amigo Prides - lhe perguntei eu -, a vossa namorada  daqui 
ou de Cefalnia?
- Esta  Crsida - respondeu ele com uma simplicidade a inocncia ' 
estudada -, a outra era Melnia.
-Ah! Compreendo! Coleccionais... camisolas!...
Prosseguindo nossa rota, no dia seguinte pela manh costemos a 
Moreia, de muitos chamada Negroponto a de outros Peloponeso, e passmos 
junto das duas pequenas ilhas Estrivais, onde esto como em
~- deserto alguns caloiros gregos que vivem de esmolas. Em seus 
barcos as vo pedir s ilhas vizinhas a tm uma torre onde se recolhem 
quando sentem gals ou fustas de corsrios. A hora de vspera, sobreveio-nos 
vento contrrio, de tal modo que se nos tornou urgente tomar porto,
. que necessariamente havia de ser turco, queria dizer de inimigos. O r= 
patro da nau a os marinheiros, que do porto tinham notcia a conheciam ;, - o 
gnero da gente, mostravam-se muito apreensivos, o que no nos ' escapou a 
mim e a Frei Zedilho.
- Estamos em apuros? - pergunto a Prides, j o barco entrava no porto 
a se preparava para lanar ncora.
Olha-nos muito srio a diz
-  boa altura de rezardes com todas as veras a ganas da vossa ;r 
piedade 
- Ai, meu Deus ! - entra Frei Zedilho de empalidecer, ajoelhando Y. logo 
ali a sacando das suas camndulas.
Mas antes que a ncora fosse lanada o vento virou o rumo que y: 
tazamos e, dando grandes gargalhadas nas velas pandas, assobiou x pelas 
enxrcias que no ganhramos para o susto.
~'- Navegando sempre ao longo da Moreia, a estava o mar Jnio, que 
vutros chamam Egeu a tambm j se chamou Icrio. Quantas Teminiscncias 
de leituras, de estudos, tanto de autores gentios como de
y.,<istos, aquelas terras, aquelas ilhas, aquele mar me traziam ao 
esprito! ~Y~ ,Quanta fbula a quanta histria contida neste grande anfiteatro 
que so as
26 27
s
terras dispostas em semicrculo em roda desse mar I Polvilhado de 
pequenas ilhas que arremedam poldras a manter a ligao humana da raa, da 
lingua, das crenas a costumes, essa lquida orque.rtra de prata a ouro  
rematada pelo palco magnfico, por esse estirado proscnio que  a ilha de 
Cndia, de costas voltadas a esse outro mundo ignoto a misterioso, a frica. 
Onde esto os deuses a as deusas que povoaram essas montanhas azuladas? 
Onde as drades a os faunos que corriam a danavam nas clareiras dos 
bosque amenos, as niades que riam a se banhavam nas fontes murmurantes, 
nos rios a lagos sonoros a cristalinos,  sombra da oliveira cor de cinza ou dos 
choupos mimosos? Onde as ninfas a as nereides? As musas que inspiraram 
to grandes poetas? Os heris que amaram a sofreram a foram cantados ao 
som de ctara de sete cordas nos palcios reais por um aedo cego? J no 
vibra este ar finssimo com as melopeias da lira de Orfeu, nem em redor da 
tmele o coro ditirmbico evoca o suplcio de Dioniso, nem o deus, embriagado 
a frentico, executa, ao som de flautas a crtalos, uma dana orgistica, 
acompanhado de bacantes enlouquecidas a de stiros obscenos, coroados de 
folhas, segurando mirtos, lambuzando-se a salpicando-se de vinho vermelho 
como sangue... Na velha Corinto, no rico templo de Vnus, j no se ouvem os 
suspiros, a respirao ofegante, das mil jovens que saciam a luxria dos ricos 
viajantes a mercadores. Ficaram para trs a saudosa taca a as sombras de 
Ulisses a da doce Penlope. A esttua de Zeus olmpico - marfim a ouro sobre 
madeira preciosa, uma das sete maravilhas do mundo - ardera algures num 
incndio, junto de Constantinopla, a j no tutela as vitrias dos atletas de 
msculos torneados a duros, brilhantes de suor. Nada resta j da formosura de 
Helena a da juventude de Pris, que provocaram a ira de heris a de deuses. 
No cai em transe, ao fundo da caverna, a enigmtica pitonisa, a esfinge no 
importuna o viandante s portas de Tebas, na Becia, nem por caminhos 
estranhos vagueia oscilante a trpego o fantasma cego do rei dipo. No 
vogam lentos a brancos  sombra dos ciparissos, nas guas mansas do 
Eurotas, os cisnes de Artemisa junto aos degraus de mrmore do seu templo, 
em feso... Um dia os deuses eternos morreram a com eles morreu o mundo 
antigo. Passou por aqui depois um sopro novo e escutaram-se palavras nunca 
at a proferidas. Por todos estes lugares deixa vestgios a sombra de Paulo de 
Tarso, as pedras abrem brechas em que nascem ervas, ruem paredes a 
colunas, a este anfiteatro alarga-se, com centro em Roma, a todo o 
Mediterrneo. De novo caem imprios e
renos, a mais uma vez, neste mundo actual a moderno, que est 
nascendo a em grande convulso, o palco, o teatro est a alargar-se a toda a 
Terra. O mar Jnio reduziu h muito as suas dimenses a torna-se agora 
apenas urn pequeno anfiteatro onde, alm das ambies humanas de poder e 
riqueza dos imperadores a tiranos, dos mercadores de Levante a de Ocidente, 
Cristo a Maomet medem metro a metro o terreno que pisam. Tcrras frias, 
cruis, de uma realidade que faz estremecer, a evocao da poesia e o vu de 
doura de que os antigos as nimbaram fazem
<. compreender a comoo inspirada com que os artistas de agora - 
escul`. tores, pintores, poetas - esto fazendo renascer esse amvel esprito. 
Tnhamos ns diante dos olhos a ilha de Cndia, um dia ao cair da
l: tarde o cu toldou-se de nuvens negras a pesadas. Um vento frio 
comeou a encrespar a superfcie das guas e a nossa pele, que logo 
arrepiados ~; puxvamos a roupa contra o peito. Estrondeou em cima a 
trovoada, com
relmpagos sbitos a medonhos, em fragoroso cascalhar. Desabou dos 
cus a chuva em grossas varas, as ondas cavavam esverdongadas, 
espumejando uma -babugem branca, lvida. Os da tripulao mais
' experimentados no mar comearam a temer a tormenta. De um lado a ` 
outro corriam marinheiros aodados s ordens do piloto, rapidamente arriando, 
amainando as velas, atando as vergas a calabres, concertando todas as 
enxrcias para que se no desfibrassem com a fora da borrasca e
t lanando cordas da popa  proa, uma de um bordo a outra doutro, a 
fim '' de que se segurassem nelas para acudirem aonde urgisse. De outra 
maneira era impossvel terem-se de p. Davam de si os madeiros em
' estertor. Os passageiros tnhamos de ficar nos camarotes ou na 
coberta, muito quietos cada um em seu lugar, uns gemendo outros itando 
outros rezando a no poucos transformando o terror numa agonia to grande 
que as tripas lhes davam volta a vomitavam o que no tinham comido, pois em 
todo o tempo que a tempestade durou ningum se lembrou de levar qualquer 
alimento  boca. A coisa chegou a tanto que o
~~- patro a os principais que iam na nau, julgando a morte chegada, 
pediam com muitas lgrimas a confisso. Os padres que amos na viagem no 
tnhamos mos a medir. At o pobre do Frei Zedilho  Homem que em toda a 
sua vida no tinha visto o mar, jazia como morto em cima do catre.
0 Quando tomava seu nimo algum alento, todo o seu negcio era a F 
confisso como boamente podia.
Afoitava-me eu, de vez em quando, a rastejar at  escada que d para 
o convs e, embora a portinhola estivesse fechada por mor da gua no
28  29
entrar, espreitava pelas frestas o que ia l fora. As ondas varriam o 
barco vergastando-o ruidosamente de um bordo ao outro a ora subiam to alto 
que nos parecia estarmos no profundo, vendo-nos de todos os lados cercados 
delas como de muros, a logo se abriam at aos abismos, perturbado o nosso 
entendimento. Trs dias com suas noites nos durou esta cruel tormenta a todo 
este tempo andmos pairando ao mar, fugindo da terra sem no entanto a 
perdermos de vista a procurando tomar porto em qualquer stio da ilha sem o 
conseguirmos, porque o no havia naquela parte e a fora do vento contrario, 
que zunia a chorava no cordame, no consentia que o fssemos procurar a 
outro lado. Andando assim com tanto trabalho a perigo, esperando a 
misericrdia divina que continuamente invocvamos com todas as veras das 
nossas almas, ao tempo-que parecia querer a tempestade abonanar quebrou-
se-nos o traquete da gvea. Causou-nos o acidente grande temor, logo 
acrescentado por um estranho rudo, como de um sorver gigantesco 
acompanhado de angustiados suspiros, silvos a uma espcie de mugido, a 
tanto mais estranho quanto os balanos da nau haviam sossegado. Abri a 
portinhola a sa ao convs, acompanhado j timidamente por alguns 
companheiros. Seguimos o olhar dos marinheiros, que especados tinham um 
ar de espanto. O cu comeava a limpar-se de nuvens que corriam ao longe, 
desfazendo-se, mas no muito afastado do barco passava-se um extraordinrio 
fenmeno. De uma nuvem escura a carregada que pairava nos ares saa um 
como fino cano de vapor que rodopiava em si mesmo e, ondulando como uma 
cobra pelo espao, vinha pousar nas ondas a delas, com aquele fragoroso 
ruido a resfolegar, chupava a gua do mar. Parecia animado de uma misteriosa 
vida a conscincia, e o pavor que infundia era tal que muita gente comeou a 
gritar.
- Um drago  Um drago ! - exclamavam alguns tripulantes de nao 
grega, enquanto os nossos franciscanos, que eram moos muito novos a 
inexperientes, cheios de terror, de olhos esbugalhados, abraados uns aos 
outros, no sabiam coisa que dizer seno : O demnio   o demnio 
- Ecpouva5 (Sfonas ) - murmurava calmo a meu lado um oficial de 
bordo, ao mesmo tempo que alguns peregrinos latinos (um monstro , um 
monstro ) bradavam em alta grita.
O que quer que fosse - um fenmeno fsico, sem dvida - continuava a 
beber a grandes tragos nas ondas do oceano, a engrossar a
olhos vistos e, de transparente que a princpio era, a tornar-se negro e a 
tornar mais negra a nuvem que em cima engordava.
- Que quer dizer sfonas? - perguntei eu ao oficial, depois de procurar 
com os olhos a ver se via Prides a no o encontrando.
- Sfonas quer dizer sifo, cano que chupa gua.  um fenmeno 
atmosfrico muito frequente nestes mares a de que j os antigos gregos - 
Aristteles nos seus Meteoro.r, Arato - falavam. Chamavam-lhe antigamente 
scpwv (sphon).
- A tromba martima! - traduzi eu, recordando leituras de recentes relatos 
portugueses sobre as coisas do mar. -  perigoso?
- Por vezes , e a embarcao pode correr grave risco. H casos em 
que se tenta cortar o cano a tiro de canho, mas quase sempre sem efeito. No 
caso presente parece que no vai haver novidade.
Com a nuvem cimeira saturada de gua, o cano deixou de sorver, 
despegou-se da superfcie das guas a foi-se recolhendo pelo ar, 
aproximando-se de ns. Alguns, vendo aquilo chegar-se, entraram em pnico. 
A gritaria era atordoadora, a fuga para a escada da coberta infrene, os 
atropelos incontrolados, os desmaios frequentes. A coisa passou com um rudo 
cavo, um impetuoso torvelinho de vento a chuva que nos deixou descompostos 
a encharcados, mas tudo isto to rpido que num instante pareceu 
acordvamos de um pesadelo, ao vermos tudo quieto, sossegado a calmo, l 
muito ao longe uma sombrazinha de negra nuvem com um apndice 
pendurado, que fugia, desaparecia, se esfumava. Do fenmeno restava-nos 
ainda uma surpresa: sobre o tabuado do convs centenas de peixinhos 
prateados ainda davam ao rabo a abriam a boca na respirao da agonia. 
Muito nos alegrou uma to grande a inesperada pescaria a to sem trabalho, 
pois no comamos havia trs dias. Mas no estavam terminadas as nossas 
provaes. Ia a nau a ora ao longo da ilha - logo que nos achmos com 
bonana procurmos porto onde recuperar a descansar - vimos boiando nas 
ondas alguns cadveres de marinheiros que as vagas haviam arrastado pela 
borda fora durante a tempestade. Muito perturbados ficmos todos  vista 
deles a eu mais que ningum ao reparar num que, mais perto do barco, estava 
de borco com a cara alagada na gua a os braos estendidos, inchado. Vestia 
uma camisola de l que eu conhecia muito bem.
- Prides ! - murmurei comovido.
Meu companheiro rezava a eu, como pago, recordei o verso de Z'irglio: 
Nudus in ignota, Palinure, iacebis arena...
30 3
Tocava a trombeta da nau. Era o patro que mandava que nos 
juntssemos todos. Rezmos pelos mortos trs padre-nossos a trs ave-
marias, a cantmos o Salve Regina, dando graas por estarmos livres de to 
graves perigos. Mas como a vida continua a era necessrio refazermos as 
foras do corpo, daquele peixe que a tromba martima para ns havia pescado 
fez-se uma saborosa caldeirada de que todos comemos gostosamente.
VII
O brevirio
...Ut quondam Creta fertur Labyrinthus in alta / parietibus textum caecis 
iter ancipitemque / mille viis habuisse dolum, qua signa sequendi / falleret 
indeprensus et irremeabilis error.
...Assim outrora na alta Creta se diz que o Labirinto tinha um intrincado 
caminho de
" ' paredes cegas a um ancpite dolo de mil ruas; falseava os sinais de 
romper sada um errar sem retorno a sem emenda.
(Virg., En., V, 588-59.)
Apoiado na borda da amurada, escrevo uma breve nota: Dezanove de 
Dezembro. Nove horas da manh. Tomamos porto a sul da ilha de Cndia.
- Critas  Critas - bradava um marinheiro, para que os passageiros se 
preparassem para desembarcar. Frei Zedilho, a meu lado, observa
- Estais a ver como eles dizem o nome da ilha? Critas 
- S os Gregos lhe chamam assim. Ainda hoje entre os latinos dizem 
Creta, se no lhe querem chamar Cndia.
Estamos a aportar num lugar de nome Cauda Leonis, que quer dizer 
cauda de leo, muito perto de um outro porto, o Porto Seguro, procuradssimo 
dos barcos que vm de Chipre a de Alexandria.  com grande alegria que 
tripulantes a passageiros vemos a terra aproximar-se e enquanto os primeiros 
se entregam j  faina do recolher as velas a do
32 33
ruidoso levantar de ncoras, todos os outros nos amontoamos na 
amurada, na expectativa de podermos sair em terra firme. Para sul, a umas dez 
lguas, avista-se a sombra enevoada da ilha tambm chamada Cauda. Esta 
ilha e o Porto Seguro so stios afamados pela passagem de Paulo de Tarso, 
em condies de tempestade a de naufrgio. O lugar em que estamos 
aportando  abrigado, resguardado de um lado por umas ilhotas ou sirtes, do 
outro pela costa spera, montuosa, com espessas matas de ciprestes.
A recreao a alvio do enfadamento recentemente passado so motivo 
mais que sobejo para todos desejarmos sair, mas quando nos preparamos 
para o fazer eis do nosso barco comeam a salvar com alguns tiros cinco 
outras naus que tambm se encontram recolhidas no porto, duas delas 
francesas de Marselha a as outras trs da Esclavnia. Respondem-nos estas 
com suas salvas a logo acode em batis a gente, que sobe a bordo da nossa a 
nos ajudar. Outra espcie de ajuda recebemo-la j quase sol-posto de um 
mosteiro que fica a duas pequenas lguas daqui e que, ouvindo as salvas de 
tiros, enviou dois caloiros a trazerem ao patro da nau refresco de po mole, 
verdura a fruta de espinho, da qual h muita na ilha. So de todos ns 
recebidos com muito gasalhado a mostras de amizade a de que sua visitao 
nos  extremamente grata. Despedindo-se de ns, prometem-nos tornar ao 
domingo seguinte para nos levarem a visitar o mosteiro.
Outra visita temos, curiosa a invulgar. Naquelas matas espessadas que 
se vem nos montes, moram nos cerros agrestes a nas brenhas densas, em 
grutas a covas, homens brbaros a bestiais, tidos comummente na ilha como 
selvagens, pois que vivem apartados do convvio humano, jamais descem aos 
povoados a levam um teor de vida primitivo. Sustentam-se da caa a pelejam 
muitas vezes com fustas a galeotes de mouros que por ali ordinariamente 
acodem a roubar, de Rodes, de Escarpanto a de outros lugares vizinhos da 
ilha. Mostram-se contudo afveis a dados com os venezianos, quanto ao que 
entendi, ou por serem estes os senhores da terra, ou porque deles necessitam 
quando os vem aportar quelas partes, ou porque lhes tm o respeito que  
costume ter-se a naus to artilhadas como as de Veneza. Nos dias que ali 
estivemos presenciei o cuidado e resguardo com que sai a terra a gente do 
servio da nau, que quando vai buscar lenha ou gua f-lo sempre 
acompanhada de arcabuzeiros.
Trs destes homens vm a bordo a vender carne montesinha. Trajam 
samarres sem mangas, feitos de couro cru de veado. Debaixo, uma
34
camisa muito spera a grosseira. No trazem bragas, mas umas botas 
de pele crua de vaca, to altas que as atacam com uma tira de couro junto da 
cinta. Na cabea, de cabelos to compridos que lhes chegam a meio das 
espduas, uma espcie de carapuo tambm de couro cru, que juntamente 
com lhes servir para os cobrir lhes serve ainda de arma defensiva em tempo de 
necessidade. Usam arco a setas, que nunca largam cluando saem. Trazem 
perdizes, cabritos, leites, veados. Vendem tudo to barato que quatro 
perdizes custam um marcelo, que  como o nosso real de prata, a pelo mesmo 
preo vendem os cabritos a os leites.
Entre estes homens vem um extremamente comunicativo a faceto, de 
nome Argirpolos, que com todos quer zombar a gracejar, faz todo o possvel 
por dar f de quanto h na nau, andando de cobrta em coberta, a baixo e a 
cima, e, ainda que alguns o convidam a que pouse o arco a as setas, ningum 
o consegue. Passando junto de mim atenta no meu brevirio que, por suas 
capas de carneira castanha, cantos de prata lavrada e letras gravadas a ouro - 
oferta do superior de vora ou, como eu desconfiava, de algum por seu 
intermdio, aquando da minha ordenao -,  diferente dos de todos os outros 
frades. Faz meno de o ter nas mos, no que eu consinto, a profere algumas 
palavras que me parecem uma pergunta. Embora aprecie o espectculo da sua 
viveza e graa, no o entendo. No sei o grego falado. Mas entendem-no 
muitos
-passageiros gregos a os oficiais da nau, quase todos gregos. Esta falta 
tm `s
"-f. as naus venezianas : o trazerem pilotos gregos, recrutados nas 
muitas ' terras a ilhas martimas gregas de que tm o senhorio a cujos 
habitantes, numa tradio que vem dos tempos antigos, se dedicam  arte de 
navegar.
- Que diz ele? - pergunto a um oficial de bordo que est perto a se a'-: 
chama Constantino.
c~, - Perguntou-vos o nome - responde.
., - Pantaleone - exclamo eu em italiano, por me parecer mais sono~ro a 
apreensvel aos ouvidos de um brbaro.
- Pantaleone - repete ele maravilhado, rebolando os olhos ..~`~ risonhos 
a despejando uma algaravia que no entendo mas que . << Constantino, 
fazendo de lingua, se apressa a traduzir:
- Diz que Pantaleone  nome grego a que, se vs sois todo leo, sois 
valente como um leo a ele gosta dos homens valentes como lees. t Todos se 
riem muito com a faccia a eu tambm. Ele entretanto j me
~~:kndava arremedando, passeando devagar para trs a para diante, 
com o brevirio aberto, fingindo l-lo, mexendo os lbios, a deitando fora
35
muitos perdigotos. Enquanto a gargalliada  geral, chega-se a mim com        
        Aproximavam-se os outros fidalgos gregos, curiosos com o ru-
um ar muito composto a entrega-me o brevirio dizendo :                do, 
querendo saber o que se passava.
- Pantaleone                 - Francesco est-lhes a inculcar que, se forem 
connosco, no mais
Como  que de repente me vem  ideia aquela expresso latina        
        regressaro.
os Cretenses so mentirosos? Quem me havia dito que
cretenses mendaces                - Ah  Maldito 
,
esta gente  muito domstica, amigvel a de boa conversao no 
exterior,                - Como podeis dizer tal coisa 
mentirosa a traioeira?...
mas no sea ntimo malssima                -- Infmia! Per la Madonna! 
Quem havia de crer em tal aleivosia?
,
No se esqueceram os caloiros de no domingo seguinte nos virem        
        Julguei necessrio intervir e, virando-me para Francesco, dis-
buscar, pela manh, para nos levarem consigo ao sea mosteiro.        
        se-lhe:
- Meu bom Francesco, muito vos agradecemos, Frei Zedilho a eu, o
Acatamento amistoso, refeio no nosso camarote. Depois de 
comermos                vosso zelo. Mas olhai que exagerais um tanto, porque no 
podeis pautar a
juntaram-se a ns quatro fidalgos cipriotas a cinco passageiros gregos a        
        conduta de to nobres senhores como estes que nos acompanham pela 
dos
todos juntos, com meu companheiro Frei Zedilho, pedimos licena        
        Voltai sosse
salteadores da montanha
ado  nossa nau
ue ns
ao patro para irmos com os caloiros ver o mosteiro. Signor Nicol        
        .
g
, q
no-la com muita cortesia. Tambm de boa vontade is
d                seguiremos nosso caminho em muito excelente companhia.
eu-
conce
orto estivesse seguro de corsrios. Mas eles acudiam
se o
nosco                - S fiz isto por beml - escusava-se envergonhado 
Francesco.
p
,
con
muitas vezes por estes stios, salteando o que achavam mal provido.        
`        Comeava a dar-me conta de uma triste realidade que dizia 
respeito s

Tornssemos coni a brevidade possvel, rogava-nos.        _        relaes de 
cristos latinos com cristos gregos. Uns a outros, esque-

Partimos da nau a j teramos caminhado um bom tiro de arco        
~        condo-se de quo ambos professam a religio de Cristo, em vez de
uando dela veio correndo aps ns um veneziano com quem tnhamos
        ~
-
" `        sentimentos de irmandade cultivam uma tal animosidade quo 
atinge o
i
i
C
G
b
d
d
q        r        regos estar so
o quando  o caso, como o
e
a,
e a terra de
d
nd
muita faxniliaridade.        `,        o dominio de nao latina, os 
Venezianos.
- Fra Pantaleone! Fra Zedilho - gritava-nos ainda de longe,        
.,fi,        
- Maldito veneziano - rosnou-me ao ouvido, quando j s egua-
ofegante. - Aspettate!        '        mos caminho, um dos caloiros gregos 
quo nos acompanhava.
- Que se passa, Francesco?        y:        Porqu?, perguntava eu.
No sabia da nossa partida, disse-nos em voz baixa, tomando-nos
        ';        Fossem para a sua terra l Esta  nossa i Nossa ...
de parte. Foi por acaso quo chegou ao convs a nos via vir. Per-        _.
        Contou-me quo  to grande o dio quo os Candiotos tm aos
guntou a Signor Nicoll e, logo quo soube aonde nos dirigamos, vein
        i
_'        latinos, vendo-se deles sopeados a sujeitos, quo muitas vezes 
tom
                
ter connosco.        ,:        acontecido, achando gregos a algum Latino 
s a em parte quo nin-
- Mas quo se passa, Francesco? - insistamos.        -,        gum o 
possa testemunhar, no terem a menor hesitao a escr-
Per amor' di Rio, no segussemos  Regressssemos  nau. No
        ,
:        pulo em o matar. Mas ns ramos latinos a eles no nos estavam
quisssemos ir com aqueles gregos.        ~_        mostrando dio  
Explicava-me quo o dio era a Veneza, a ns,
- Porqu, Francesco? Porqu?        _         padres da Ordem de So 
Francisco quo eles sobremaneira preza-
Grave perigo, risco de no tornar ...                vam, alm de quo tinham 
em muita admirao a estima Portu-
- Perfdia l M f l Malcia l Torpe mentira l - gritou de sbito,        
        gueses a Espanhis, cujos feitos corriam mundo... Assim, seguindo
muito agastado, um dos fidalgos cipriotas, quo se havia aproximado e
        p '        nosso caminho, por experincia vimos no ser sem causa o aviso 
de
entendido alguma palavra das quo Francesco nos dizia, suspeitando o 
quo        . Fncesco, embora errado em relao aos cipriotas quo nos acompanha-
podia ser. Em companhia de tanta honra como a sua a de seas        
        Yam. Estes senhores gregos no consentem quo um s momento nos
companheiros no havia quo temer ...                ' zpartemos deles. Que 
eram paragens muito perigosas aquelas  Havia
36 37
muitos ladres a os homens selvagens como os que viramos na nau 
estavam acostumados a sair aos caminhos a buscar sua presa.
A jornada, porm, correu pacfica a com grande contentamento 
chegmos antes do sol-posto ao mosteiro dos caloiros, a um tiro de pedra do 
qual nos saiu a receber o abade rodeado de alguns dos religiosos. Com muita 
humildade se lanou a nossos ps pedindo-nos a bno, como  seu costume 
quando se encontram com outros religiosos. Fizemos ns o mesmo pedindo-
lhe a sua a abramo-nos uns aos outros a beijmo-nos na face, por se usar 
naquelas partes a em todo o Oriente, ao modo italiano. Levaram-nos, de 
seguida,  igreja a fazer orao. Noto ento que, por distraco ou troca 
inconsciente, tinha trazido um brevirio que no  o meu. Acabada a orao, 
levam-nos a uma casa a modo de hospedaria, onde nos tm preparada 
colao com muitas tmaras, gros tostados e outras coisas  maneira da 
terra. Vendo-me em to caritativo convite, achei ser essa uma ptima ocasio 
para oferecer ao abade a aos caloiros uma caixa de marmelada. Tinha-a 
comprado, com outra proviso, em Veneza a trazia-a metida na manga, por 
assim me haverem aconselhado na nau: que no fosse de mos abanar. 
Provam-na - que delcia! -, tornam a provar: Nunca naquelas grecianas 
partes, Fra Pantaleone, se vira to delicada iguaria!
Levam-nos em seguida ao pomar do mosteiro que  muito vioso de 
fruta de espinho de toda a sorte, ponteando seus pomos de ouro no verde da 
folhagem, com cuja vista a perfume nos recriamos a tomamos alento do 
passado enfadamento do mar. Tornados ao mosteiro, encaminham-nos para 
um grande refeitrio, em que haviam acendido um acolhedor fogo para quebrar 
o frio que, com o cair da noite, se comea a sentir. A nossa espera uma 
esplndida ceia  Sendo pobres, sua caridade no permite enxergar-se neles 
pobreza para connosco. A nossa mesa se senta o abade com dois caloiros 
velhos. Teve o cuidado, pois era Advento a sabia que, conforme nossa regra, 
nos guardamos nesta altura de comer carne, de mandar fazer proviso de 
pescado. De toda a maneira guisado nos  posto diante com as mais variadas 
achegas de manjares quaresmais. Numa outra mesa esto os nossos 
companheiros leigos, servidos de muitas espcies de carnes de que, em 
especial nesta quadra,  muito frtil a terra. E que bom vinho a capitbso este 
Cndia que nos servem a nos faz dornr a noite num repousante a restaurador 
sono, a mim e a Frei Zedilho.  um aposento alto. Tinham-nos preparado a 
feito as camas, no de colches moles e brandos, mas dos seus prprios 
hbitos a tnicas. Como cobertores, umas
esclavinas, que so mantas brancas, grandes a feltrudas, a modo de 
hrnios. Fabricam-se na Esclavnia a correm por todo o Levante. Serve-se 
delas a gente comum, que no tem muito de seu, mas so melhores a mais 
amorosas que as do nosso Alentejo, frias de Inverno e quentes de Vero.
Agasalhmo-nos, Frei Zedilho a eu, o melhor que pudemos. Os 
companheiros gregos esses levaram a maior parte da noite a cantar e a tanger, 
para o que haviam trazido duas violas de arco a um alade.  esta gente muito 
inclinada  msica e a passatempos, ainda que lhe falte as boas vozes do 
nosso Portugal.
No dia seguinte, tomada a bno do abade, partimos do mosteiro por 
outro caminho, indo connosco dois caloiros para nos guiarem. Acentuou-se em 
mim a impresso que tivera no dia anterior de que
" aquela serra era uma Arrbida em ponto grande, pois a vegetao, a 
rescendncia, a finura do ar, a leveza da gua, a qualidade da caa, o azul do 
cu, a limpidez do mar - tudo me fazia lembrar aquela minha serra. amos 
conversando destas coisas a de outras, pois no era difcil entender-nos 
porque toda a gente nobre das terras sujeitas a Veneza fala e
`;' compreende bem o italiano, quando um daqueles senhores gregos 
nos >~ disse:
`-'-. - Sois decerto inclinados a ver curiosidades... No quereis tomar 
um pouco de trabalho a ir ver uma notvel antiguidade que fica no ,,,... muito 
desviada do caminho que levamos ?
E que antiguidade era essa? O labirinto do Minotauro.
- O labirinto  Mas que maravilha ! - exclamei entusiasmado e x 
agradecendo-lhe exuberantemente a ideia.
,~, Estvamos nisto, chegmos a uma aldeia em que s encontrmos 
mulheres a crianas, muito espantadas a assustadas com o nosso 
aparecimento. Homens nem cheiro. Os caloiros, que eram conhecidos, 
entraram com elas  fala. Que era feito dos seus homens?
Ah! ramos ns  E elas que ouvindo vir gente pelo caminho em altas 
vozes pensaram serem corsrios mouros  Era uma mulher ainda ' nova que 
falava, com o filhinho muito sujo ao colo.
- Ento foi por isso que os homens desapareceram?
Os mouros, intervinha uma outra, o que queriam era homens !clue 
metessem a remos. Mulheres? Isso s se as fossem vender muito
38 s 39
longe a terras do gro-turco ... Mas desse tinham eles medo por mor das 
cruis justias com que os mandava castigar.
- As mulheres, sendo novas - dizia a primeira -, fazem aquilo que sabeis 
a 2o se importam mais com elas.
Pouco a pouco vinham-se chegando alguns dos homens que se haviam 
escondido e, corridos a envergonhados, procuravam dar-nos escusa da sua 
fugida da mesma maneira que as mulheres o tinham feito.
- Que distncia  daqui ao labirinto? - perguntou um dos nossos 
companheiros a um daqueles homens.
- A umas quatro milhas...
- Eu conheo muito bem o caminho - destacava-se um outro. E oferecia-
se: - Se quiserdes, irei convosco.
Concertada a ida a assentada a hora da partida, fizemos uma breve 
refeio por ser altura disso. Despedimo-nos dos caloiros. Da nossa parte 
pedissem ao abade se dignasse mandar uns caloiros  nau para lhe enviarmos 
alguma caridade em recompensa da muita que nos fez no seu mosteiro.
Quase  hora de vspera chegmos ao stio. Era junto de uma outra 
aldeia maior que a primeira. Apresentaram-nos um homem j de idade que 
costumava ser o guia, pagando-lhe seu trabalho. Tudo contado, pusemo-nos a 
caminho a breve chegmos  porta do labirinto. O guia, ajudado por um 
mancebo que vem com ele, retira duas grandes pedras da boca por onde 
havemos de entrar, que  uma espcie de porta de cova. Entram ambos 
adiante, cada um com seu morro aceso na mo, a 2s aps eles, de ps a 
mos porque a entrada  apertada. Caminhamos uma grande milha por 
debaixo de abbadas a abbadas feitas da mesma rocha, sem vermos nada de 
notvel, salvo o intrincado das diversas estncias e o soar por elas uma 
fortssima ventania sem se atinar por onde possa entrar. Chegamos finalmente 
a uma quadra muito espaosa. Na parede, uma argola de bronze, to grossa 
que pesar um bom quintal. Fora ali - informa-nos o nosso guia - que estivera 
preso o monstro Minotauro.
A uma parte desta quadra fica uma pequena entrada, como a inicial. Por 
ali, dizia o homem, continuava o labirinto at ao mar, do outro lado do 
arquiplago... E incitava-nos a prosseguir a visita.
- No - adiantei-me eu, enfadado da fbula que tudo aquilo era e de 2o 
haven nada de notar. -  jornada muito comprida a j  bastante tarde. O 
principal est visto a eu sinto-me extremamente cansado.
Todos concordaram a tornmos a sair por onde tnhamos entrado. I:ram 
duas ou trs horas de noite quando chegmos  aldeia. Repousmos j unto de 
uma grande fogueira que a mulher do nosso guia tinha acendido, por falta de 
camas, porque naquelas aldeias  tudo misria. Logo que amanheceu, 
seguimos caminho direco  nau. Mal chegmos perto do mar a fomos vistos 
de bordo, meteu-se o patro num batel a veio-nos receber, com grande alegria 
de todos e, stisfazendo ao nosso guia e a seu companheiro, se despediram 
estes de 2s contentes da paga. Mas quando entrvamos no batel para 
regressar  nau, o patro, que com o olhar perscrutava miudamente o nosso 
grupo como a contar se estvamos todos, perguntou-me e a Frei Zedilho
- No vistes vossos irmos Pietro a Bertino? - No. Porqu?
- H dois dias me pediram licena para irem a terra a ainda 2o t: 
tornaram. Julguei que se teriam juntado a vs.
- No, 2o os vimos. Quereis que os procuremos? ''- - O ponto  esse. 
Procur-los, onde?
- Certamente - aventou Frei Zedilho - desencontraram-se de ;' 2s. 
Como viemos por outro caminho... Esto no mosteiro, de certeza. - Vou 
ordenar que algum v por eles - disse o patro.
Passmos essa noite repousadamente, 2o nos cansando de contar a 
todos as maravilhas que tnhamos visitado, o que lhes causava admi:.` rao. 
O tempo estava muito claro e o mar bonanoso. No obstante '~ 2o faziam 
mostra de querer levantar vela.
- Mestre Teodoro - perguntava Frei Zedilho ao piloto -, se '` temos tempo 
de feio, porque 2o levantamos ncora?
- Por duas razes - lhe respondeu ele. - A primeira  que o patro nunca 
partiria sem ter a bordo os vossos dois companheiros...
- Oh, meu Deus  Como me esquecia  Desculpai a pergunta.
- Mas se 2o houvesse essa razo de peso, outra haveria para 2o " 
~partirmos antes de lua cheia, que deve ser daqui a dois dias. Teremos de ry 
aguardar, a ver se com ela o tempo faz alguma mudana. Fazendo-a, ento 
;2o liavemos de partir to cedo deste porto. A adiante temos de passar um 
golfo que 2o  para graas. Nele se tm perdido muitas naus.
No dia seguinte, que era vspera de Natal, quando Signor Nicol se 
'Fzcparava para enviar ao mosteiro pelos dois franciscanos, apareceram,
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vindos de l, dois caloiros, mandados pelo abade como lhes havamos 
pedido. Traziam-nos muita fruta de espinho a outro refresco.
- No estiveram no vosso mosteiro dois irmos franciscanos? -- 
perguntou o patro.
Que sim, que haviam estado, respondiam pensando tratar-s t de mim 
a de Frei Zedilho. Mas que tinham tomado por outro caminho a visitar 
antiqualhas.
O momento era de certa euforia. Trocavam-se presentes, fazendo agora 
ns toda a caridade possvel aos dois caloiros, inclusivamente o tirar-se 
particular esmola para eles, dando cada um do que tinha. Ningum notou, por 
isso, a confuso e o equvoco em que se estava caindo a os nossos espritos 
eram serenos. Despediram-se os caloiros muito contentes a ns ficmos 
cheios de alegria, preparando a festa de Natal a esperando a nossa partida.
Em querendo anoitecer, rudo de cavaquinhos, violas, adufes, flautas, 
tambores, que sei eu, tudo de mistura, vem quebrar a monotonia a bordo a 
festival cortejo passeia-se por todo o convs da nau. So os patres a oficiais 
das outras embarcaes que tambm no porto esto aguardando tempo. 
Festejam o nascimento de Cristo, tangendo e cantando. Param de vez em 
quando, a combinar, muito ordeiramente, qual dos grupos vai cantar.  ento 
possvel ouvir lindas canes da natividade em francs, em italiano, em grego. 
No deixa Frei Zedilho os seus crditos por mos alheias e, saindo um pouco 
da sea natural timidez, entoa, logo acompanhado pelos instrumentos msicos, 
um cantar castelhano que comea:
Naci en Beln un nino chiquitin hermoso como un serafn...
Apertam comigo para que tambm cante em portugus. No me fao 
rogado, olha eu! Escolho, entre muitos hinos que sei, um muito vivo e mexido 
que tem o condo de pr toda a gente a cantar:
Pastores Pastores! Vamos todos a Belm adorar o Deus-Menino que 
Nossa Senhora tem.
Preparamo-nos para a missa. Valha-me Deus que, enquanto me 
paramento, ainda com os ouvidos cheios daqueles cnticos de Natal, s me 
acode  lembrana aquele adgio que diz : Itali ululant, Hispani plangent, Galli 
canunt-os Italianos uivam como ces quando cantam, os Espanhis 
mostram chorar porque tudo so sentimentos a endoenas, mas os Franceses 
no see cantar mostram prazer a alegria, coisa natural nos galos em todo o 
tempo a lugar...
Coube-me a mim celebrar a missa, ainda que havia de ser uma missa 
seca, por estarmos no mar, embora sobre ncora a porto seguro. Foi 
acompanhada com violas de arco, cravo a manicrdio. O mais da noite passou-
se tangendo a cantando. O dia de Natal acordou festivo, as naus todas 
embandeiradas, a dispararem sea artilharia. O padre meu companheiro disse a 
missa de alva e, para a missa do dia, houve quem aventasse que se devia 
celebrar em terra, em uma ermidinha que estava algum tanto desviada do 
porto, mas os fidalgos gregos que vinham na nossa nau o atalharam
No o fizssemos! Ali perto havia aldeias a montes, cujos moradores, 
tendo ouvido o estrondo das salvas, porventura acudiriam a saber o que era e, 
vendo que se dizia missa em igreja de gregos, certamente se seguiria algum 
escndalo!
Assim, celebrmos a missa do dia no convs da nau, com muita '>: 
solenidade a festa a deu-nos a bno episcopal um sacerdote maronita F,, 
chamado Jorge, arcebispo de Damasco, que embarcara connosco em  
Veneza. Enviara-o a Roma o patriarca dos maronitas do monte Lbano,
Moiss, com o fim de assistir ao Conclio de Trento. Pio IV, porm, 
embora o tenha recebido com mostras de paternal amor, no acede a `-~ 
envi-lo ao conclio, visto ele no saber latim a conhecer deficientemente
o italiano. Pelo contrrio faz o arcebispo portador de uma carta de 
Setembro atrs passado, para o patriarca Moiss, em que, explicando isto ` 
mesmo, afirma que ser bastante que o patriarca escreva, to depressa ~~, 
quando possvel, uma declarao de como ele, os seus sufragneos e o see 
_:rr clero testificam a aproveitam, tal como o fez o patriarca assrio Abdisu, j_- , 
que recentemente estivera em Roma, os decretos emanados do Conclio
Tridentino, aprovando tudo o que este aprovar a condenando tudo o que 
''este condenar. Quer dizer, Sua Santidade, no confiando muito na cultura o 
see patriarca de monte Lbano, na sea carta enviava-lhe a minuta da -,,`.; que 
ele lhe dever escrever de see punho.
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Era eu muito familiarizado com Frei Jorge, por o haver conhecido e 
ajudado quando estava na Cria romana. Da que no seja de estranhar 
conhecer eu todos estes pormenores, bem como o ter gasto toda essa manh, 
antes da missa, a ensinar ao bispo como havia de proceder ao dar-nos sua 
santa bno em latim, ao nosso modo, recomendando-lhe que se 
paramentasse com aquele magnfico pontifical com que Sua Santidade 
presenteara o seu patriarca.
- In nomine Patris... - repetia eu pela centsima vez. Mas ele, de ouvido 
duro
- M n Ptros...
- In nomine Patris et Filii... - M n Flios...
Com muita pacincia l o fui ensinando como pude e, cuidando que no 
havia mais que fazer, dispusemo-nos a assistir  missa. Quando esta acabou, 
julgando eu que ele ia aparecer de pontifical a mitra, ps-se no altar com uma 
grande trufa na cabea  maneira de turco, em lugar de mitra, a sem mais 
adiutorium noatrorum nos lanou a todos uma rasgada e solenissima bno, 
dizendo em alta voz:
- Mns Ptras, mns Flis, mns Sprits Sancts.
Foi um fungar de risos mal contidos a algumas risotas um tanto 
descaradas, mas o arcebispo estava to radiante que nada notou.
Aquele dia houve banquete a bordo, oferecido pelo patro da nau a 
todos quantos nela iam a tambm aos patres a pilotos das outras naus. 
Tinham os homens da montanha vindo ao barco, no dia anterior, vender muita 
caa, a Frei Zedilho, sem me dar conta, fez pagar uns quatro ou cinco leites, 
porque o escrivo de bordo levava ordens para pagar tudo o que nos fosse 
necessrio at sairmos em Chipre. Mandou aquentar gua para os pelar e, 
com um moo que na nau estava ao nosso servio, ps-se, desatentadamente 
a por festa, a degolar os inocentes. Ainda que no mar, havia quase dois meses 
que guardvamos jejum, por ser Advento a nossa regra assim nos obrigar. 
Tambm o guardam os Gregos a foi isso que extremamente escandalizou, pois 
so supersticiosos, uns quantos que vinham na nau entre s passageiros. 
Levantou-se um murmrio tal e palavras to desconcertadas que Frei Zedilho, 
sentindo-se, desatou a chorar. Estava eu em baixo, no camarote, a ler um 
sermonrio de So Vicente Frrer. Apesar de no ser pregador, muito o 
estimava, com o seu to santssimo o bona gens, quando o meu companheiro 
me aparece lavado em lgrimas.
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- Que  isso, irmo?
Com a voz embargada l me foi contando o sucedido. Acudo eu logo 
acima  coberta a repreender os gregos:
Mas que supersticioso desaforo a desaustinada insensatez era 
aquela?, disparei eu, influenciado pela eloquente leitura do sermonrio. No 
matavam os seus sacerdotes as pulgas a os piolhos quando lhes mordiam?
Claro que sim 
Ento que diferena faziam as almas a os espritos de pulgas e ;;` 
piolhos das dos porcos?
Interditos com uma pergunta to simples a sem sada, no sabendo que 
me responder, acabaram por pedir desculpas a Frei Zedilho e retiraram-se.
- Irmo Zedilho - lhe disse eu, quando ficmos ss -, o que no :.  
honesto fazer-se entre catlicos no ser bem fazer-se entre cismticos e 
demais gregos, to preconceituosos.
- Mea culpa, irmo Pantaleo 
Decorria o banquete com muita alegria, risos, conversa animada e r boa 
disposio de todos, quando de terra veio um batel que trazia uns w'. como que 
meirinhos ou justias-mores do lugar. Logo procuraram o
,', patro a durante algum tempo falaram com ele  puridade Um moo 
veio -' ter comigo: Que o patro me mandava chamar. Levantei-me ~~< 
imediatamente a segui o moo. No seu camarote o patro, sentado a uma
mesa, tinha a cabea entre as mos a chorava. Os dois oficiais de 
justia .' estavam de p junto dele. Depois de um pequeno cumprimento de 
cabea, urn deles perguntou-me
- Sois Frei Pantaleo? r' Acenei que sim.
- Podeis mostrar-me o vosso brevirio?
- Posso mostrar-vos - respondi, tirando do bolso o brevirio em que 
inadvertidamente pegara - aquele que comigo trago a que, por `engano, troquei 
com o de algum companheiro.
- Como  o vosso?
- Tem uma encadernao invulgar de carneira castanha, cantos de 
'`prata, Tetras gravadas a ouro. Que sabeis dele?  livro que tenho em uita 
estima a bem me pesaria perd-lo.
-  este? - e mostrava-mo.
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- Meu Deus  - exclamei eu, pegando nele a tumultuando-me na cabea 
no sei que pensamentos sestros a suspeitas. - Onde o encontrastes?
Que um livreiro da cidade de Cndia - ao norte, o mesmo nome da ilha, 
sabia? Outros lhe chamavam Irdion, do antigo nome de Hercleon... - viera 
procurar a justia, desconfiado de um pescador que tinha aparecido na sua loja 
a vender uns brevirios a outros livrinhos de religiosos latinos. A sua 
desconfiana tinha fundamento, pois que sendo preso o pescador meteram-no 
a tormento a ao primeiro trato confessou o que se passara, denunciando os 
seus trs outros cmplices. Cus! Ainda hoje tremo de horror a de compaixo 
a pensar nisso! Algum havia comprado aqueles homens para matarem um tal 
frade franciscano que trazia na mo um brevirio de couro com cantos de prata 
a letras de ouro. Pietro a Bertino, no sei qual dos dois pegou por inadvertncia 
no meu brevirio. Isto me salvou a vida a custou a deles, porque saindo a terra 
para se recrearem dos enfados do mar foram aliciados por aqueles homens a 
irem visitar umas furnas que eles diziam ser muito formosas a ter uma imagem 
de nosso padre So Francisco feita na rocha viva muito tempo antes de ele ter 
vindo ao mundo. To grande maravilha foi o suficiente para convencer a boa f 
dos dois pobres frades. Uma vez nas furnas escondidas, ataram-nos de mos 
a ps, mataram-nos com pancadas a lanaram-nos ao mar, com enormes 
pedras para os corpos no mais poderem aparecer... Mas a justia humana 
no consentia em perdoar-se to grande crime!, e o meirinho apontava, na 
costa, no muito distante de ns, um morro onde se viam baloiando 
sinistramente ao vento quatro corpos pendurados pelo pescoo em suas 
forcas. S faltava apanhar um, que parecia ter sido o chefe, um tal 
Argirpolos. Mas ningum mais lhe deitara a vista em cima...
juntei minhas lgrimas s de Signor Nicoll a durante dias n.o sa do 
meu camarote nem tomei refeio, to deprimido andava. No era medo, por 
mim. Nem nisso tinha ainda pensado, de tal maneira me obcecava a viso dos 
meus pobres companheiros mortos. Foi o prprio patro que desceu a buscar-
me para comer  sua mesa a quase me obrigou de sua fora-: Era pecado 
mortal o suicdio. E que coisa era seno isso que andava a fazer Frei 
Pantaleo? Rezasse pelas almas de meus irmos, mas cumprisse, enquanto 
peregrinava neste vale de lgrimas, a minha misso com alegria.
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Passava longas horas esquecidas na amurada, sozinho, alheado, 
adormecido, vendo a quilha do barco cortanto monotonamente a gua. j 
amos muito longe de terra, Cndia ficara para trs, passramos Escarpanto a 
estvamos navegando pelo grande golfo de Satlia, felizmente com vento 
prspero a amigvel de poente, o que nos movia a de contnuo darmos graas 
a Deus, porque, segundo nos afirmavam,  rarssimo passar-se ali, 
especialmente no Inverno, sem algum enfadamento dos navegantes a muitas 
vezes se tm perdido as naus.
- Antigamente... - dizia-me um passageiro grego que se viera postar 
junto de mim, que bem sentia o esforo que todos faziam para me arrancarem 
ao meu acabrunhamento. Num barco tudo se sabe a aquela tragdia, alm de 
contristar toda a gente, fez incidir -sobre mim uma especial urea que o 
suspeitado mistrio que me rodeava acrescia de um vago temor a acatado 
respeito - _este golfo era ainda mais perigoso do que ao presente porque, com 
as tempestades, andava aqui um drago marinho, muito grande a espantoso, 
que subvertia as embarca.es.
- Andou aqui - era agora, do outro lado de mim, a voz de Frei Zedilho, 
que tambm viera fazer-me companhia para me distrair - at ao tempo de 
Santa Helena, me do imperador Constantino. Passando ela, um
~?` dia por aqui, lanou ao mar um dos cravos com que o Redentor foi 
pregado na cruz a desde ento nunca mais o drago apareeu.
- Terra  vista - gritou do alto da gvea um marinheiro a logo de todos os 
lados ocorreu gente a olhar ao longe uma tnue mancha que no ~~: horizonte 
comeava a sombrear-se.
-t"" -  Chipre - dizia algum prximo de mim.
Da a pouco via-se nitidamente o monte Trodos, dominando com `:`sua 
grande altitude aquela parte da ilha, dele escorrendo em leque inmeros 
contrafortes entre que se cavavam talhados sombrios e pguberantes.
~Iuito perto da ilha sobreveio um vento sul muito spero . e desumano, 
que nos afligiu a todos a desconsolou, que nisto param de ' ordinrio todas as 
coisas de vida. Mas pudemo-nos remediar, porque,
navegando muito junto a terra, fomos ao longo dela, deixando nosso 
direito caminho, a tommos porto a pouco menos de meia lgua da cidade de 
Pafo.
Lanada ncora, saram a terra alguns passageiros naturais da ilha. Prei 
Zedilho a eu fizemos-lhes companhia a fomos ter  cidade. No
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tnhamos pressa. Vimos os marinheiros comearem a bulir em caixotes 
e sacas que traziam de Veneza a ns j sabamos o que aquilo queria dizer: 
detena no porto para se proceder  venda de mercadoria. Saram tambm 
connosco dois fidalgos gregos que se tornaram nossos particulares amigos a 
ainda o bispo maronita. Frei Jorge conhecia a terra e a gente dela. Sabia falar a 
lngua grega. Foi-nos, por isso, de grande utilidade e ns a ele, por nosso lado, 
pois levava muito fraca a miservel a sua bolsa. Em pessoa nos buscava tudo 
o que havamos mister, sem se preocupar com a sua alta dignidade, mas no  
coisa de estranhar, porque naquelas partes quase todos os bispos so pobres 
a vivem assim. Tinha uma zanga mortal aos Gregos.
- Se me fosse possvel - dizia muitas vezes - ter dntro de mim todos os 
gregos do mundo, consentiria de boa mente que me matassem de um golpe.
- Porqu, Frei Jorge?
- Porque comigo morreriam os Gregos.
A sua contumcia ia ao ponto de, tendo havia anos morrido sua me e 
sido enterrada em igreja de gregos, jamais lhe lanara gua benta... para no 
ter de entrar nessa igreja , exclamava de dentes cerrados.
Isto ouvamos ns dele, enquanto fazamos compras na cidade, depois 
de os gregos se terem despedido em companhia de parentes e conhecidos 
que, com muita festa, os vieram receber. Tais so, por nossos pecados, nestes 
calamitosos tempos, quase todos os cristos de Oriente, criados a alimentados 
no dio cego u.ns aos outros.
O meu esprito comeava a acalmar e a minha tristeza ia-se esbatendo 
com os dias a com ver novas terras, aquela cidade to antiga, aquela gente to 
diferente na maneira a nos trajes a em tudo mais, os edifcios sumptuosos das 
duas catedrais, uma que faz  latina a outra  grega. No oferecem curiosidade 
as casas de habitao, mas h por ali sinais de grandeza a tempos prsperos : 
vem-se muitas antiguidades, como casas su.bterrneas lavradas na pedra 
viva, com cmaras a estncias de formas variadas, feitas todas de pedra de 
uma s pea. Em extremo desleixadas e destrudas, causam ainda assim 
admirao a espanto, mostrando a toda a pessoa curiosa como devem ter sido. 
Notveis as runas do antigo templo edificado em honra de Vnus Pfia: 
espalhados pelo cho inado de ervas vem-se grandes pedaos de colunas 
marmreas a outras pedras raras como jaspes verdes, vermelhos a 
serpentinos, de grande fineza a lavrados com muita arte em diversos estilos, 
corntio, drico, romano... Entre
outras coisas, uma extraordinria abbada que no nos souberam dizer 
para que tinha servido. So muito rsticos a ignorantes os gregos destas 
panes, a sem letras : somente sabem o grego vulgar de que fazem use e, se 
aIguma pessoa mais grada pretende conhecer o grego literrio e gramatical, 
tem de ir aprend-lo s escolas de Itlia a de Frana, sobretado a Veneza. No 
h em toda a Grcia uma escola de grego, salvo em Atenas, onde o gro-turco, 
por memria do que foi a por mostrar sua grandeza,
v' sustenta um estudo.  esta uma das razes por que se perderam 
muitos "- documentos escritos, sagrados a profanos, e a memria de muitas 
4,f= antiguidades da velha Hlade.
Continuando o tempo a mostrar-se-nos contrrio a tudo sendo sinais de 
que a nossa detena li seria de espao, um dia nos levaram a visitar, #gua a 
meia de Pafo, para norte, um pequeno templo, tambm dedicado a Vnus 
Pfia, ainda inteiro. Junto dele uma muito curiosa fonte de .:nlssimo mrmore, 
que presentemente se chama Fonte dos Amores. Em volta runas de edifcios 
que aparentam grande antiguidade. Contam-nos
h due havia muito j que o culto de Vnus tinha acabado, a ainda o lugar 
tontinuava habitado por gente sensual a desonesta, a aquela fonte era 
`;,~pbjecto de muitas supersties a embaimentos : as mulheres estreis
orriam a ela a ver se emprenhavam; as prenhes a ela vinham <ara 
terem um bom parto; as solteiras para atrarem os homens; vivas para de 
novo arranjarem marido -- para tudo aquela gua
virtude. Melhor que estas fbulas patranhosas, histrias frp~as, 
apcrifas a sobremaneira gostosas aos ouvidos, eram os ornatos naturais da 
cidade a seu termo. Hortas viosas, verdes cana
.is de acar a pomares ubrrimos com toda a espcie de arvoredo 
tfero, onde, alm da fruta de espinho que nesta altura est em perfeio, se 
pode apreciar a abundncia de tmaras, grandes,
tmosas a extremamente gostosas, muito inhame a os palmares musas 
que naqueles stios a em todas as mais partes orientais onde as h por outro 
nome, o de pomum paradisi. So umas rvores da altura
uma. lana, se tanto, a de folhas to grandes que duas podem cobrir um 
em. Do uns cachos enormes a compridos, com quinze ou vinte os ou mais, 
que so de muito suave doura, a carne deles como
elada fresca a mole, a modo de figos mas a massa mais tesa. Para se 4 
erem tira-se-lhes a casca, que  como a do figo mas de cor citrina. 'dos pelo 
meio ou de travs, tm uma crux em forma de t.
m orientais a Palestinos ser aquele o fruto proibido de que Ado
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comeu. Eu creio serem estas as bananas do nosso So Tom, segundo 
a informao que me tm dado delas os que as viram a comeram. E para que 
falar dos vinhos de Chipre, to nomeados a louvados em todo o Oriente, se a 
esposa nos Cantares de Salomo os louva com estas palavras Botrus Cypri 
dilectus meus mihi?
Neste espao de tempo, tomou tanta amizade connosco um mancebo 
grego, de nome Constantim Polachi, morador numa aldeia chamada Thimo, 
distante de Pafo uma grande milha, que no podia passar um dia sem nos vir 
ver. Convidava-nos para comer em sua casa, provia-nos de tudo o que de 
melhor havia na terra, sem interesse algum. Como no sabamos o romeco 
nem ele o veneziano, s nos entendamos por meio de intrprete. Esta 
difictdade de entendimento arreliava Constantim, que s vezes, quando 
estvamos  mesa, tomava uma faca na mo a com a outra mo tirava fora a 
lngua a arremedava cort-la, dizendo que lhe vinha essa tentao por no ter 
palavras para exprimir quanta amizade nos tinha.
Trs dias depois de estarmos em Pafo, regressmos  nau. O tempo 
mostrava-se algum tanto bonanoso a ns precisvamos de saber a 
determinao do patro. Mas fomos encontrar todos metidos e enfrascados em 
suas vendas a mercancias, com mais vagar do que desejramos.
- Amanh - proponho eu ao meu companheiro que j se encontra 
deitado em seu catre, enrodilhado na sua manta - vamos visitar outro ponto da 
ilha?
- Com todo o prazer, irmo Pantaleo --responde bocejando cheio de 
sono a deixando resvalar as camndulas por entre os dedos. Ressonava. Eu 
tambm no tardei a adormecer. Mas o dia seguinte esforou-se
tanto o vendaval e o mar comeou a empolar-se de tal maneira e a 
embravecer que, acordando estremunhados, cuidmos que nos iramos perder 
naquele porto. A nau estava apenas com duas ncoras, mas, vendo o perigo, 
ordenou o piloto que lanssem mais duas, uma das quais era a que os 
Venezianos chamam ncora mestra, de tamanho e peso to descomunal que  
necessria toda a gente da nau para a levantar a largar. S a usam em casos 
de tempestade extrema como este.
As ondas pareciam montanhas, de uma lividez esverdongada, que nos 
queriam tragar. No se podia, por mais cordas que estendessem para os 
marinheiros se agarrarem, caminhar de um lado ao outro. Qualquer objecto mal 
amarrado ou acondicionado andava deslizando a marrando
com o que encontrava. Sairmos da nau era coisa impossvel. As duas 
naus francesas que no porto estavam a se dirigiam para Tripoli, na Sria, com 
a grande tempestade que fazia quase as no vamos nem elas a ns, pois as 
vagas desencontradamente ora nos alevantavam s nuvens ora nos desciam 
aos abismos arenosos. Andavam fora de si no s os passageiros, com 
doloridos gritos a lamentaes, mas tambm marinheiros a oficiais, homens to 
experimentados no mar. O que me dava mais pena era ver meu companheiro 
jazer em contnuos desmaios a quando tornava a si, abraar-se a mim a pedir-
me a confisso. Foi terrvel a noite. Atribulados e cansados, ao romper do dia, 
com o vento soprando cada hora com mais ruidosa fria, vimos surgir do 
esverdinhado do mar a das nuvens que nele assentavam o vulto negro a 
enorme de uma nau veneziana. Aproximava-se com incrvel rapidez aquela 
negra sombra a com ela os lancinantes gritos que ao passar deixou em 
farrapos pelo ar, num
': turbilho que parecia um inferno. Mostrava-se o mar cada vez mais 
enfurecido e o chuveiro era intenso. Sobrelevava o nosso prprio perigo `' o 
espanto a admirao de ver coisa to horrenda: aquela massa enorme
afastar-se a correr para ir esfrangalhar-se num estrdulo a pavoroso 
fragor, que estrondeou acima dos uivos do vento a do rebentar das ondas, na 
penedia junto de terra. Sem sabermos que cuidar nem que dizer, fcmos por 
momentos especados; a respirao suspensa, boquiabertos,
;'. Iktnitos, o corao a bater fortemente, e o nosso assombro aumentou 
ao ~: vermos o mar comear a aquietar, o vento a calar, o chuveiro a cessar e 
o cu a aclarar. Eram quase dez horas do dia. Presenciaram o desastre os
~x,,, viles da montanha, que sempre do alto, dia a noite, tm suas 
vigias por ~Ctusa dos corsrios. Gente brbara a cruel logo acudiram  pressa, 
-fr~Lzendo consigo suas bestas, a comearam desumanamente, sem nenhum 
..,; mor de Deus, a roubar a carregar quanto o mar lanava fora. 
Querendo:~;~es ir  mo os pobres homens que do naufrgio a da fria das 
ondas f`rapavam, nus, miserveis, meios mortos, com suas armas os ofendia 
'~~o contra inimigo mortal aquela maldita canalha. Carregavam suas
nas, no meio da mais feroz violncia, a tornavam-se para suas casas 
haver quem lhes pudesse resistir por serem muitos. Todo aquele dia, k ~noite 
seguinte a parte do outro dia exerceu aquela gente to impiedoso
ocnio, at que acudiu a justia de Limison, cidade maior a mais rtante 
que Pafo, que a muito custo correu com os ladres. Tambm Pafo acorria 
muita gente a os das naus, estando j o mar de todo egado, saram em terra. 
Meu companheiro a eu comemos a
50 `?5
caminhar para onde estava a nau perdida, que seria cerca de meia 
lgua, e ao chegarmos apertou-se-nos o corao com o espectculo lastimoso 
de tanto destroo, tanta gente morta a ferida espalhada pelo areal, que, de 
compaixo, no pudemos conter as lgrimas. De encontro s rochas via-se a 
nau partida, meia submersa, toda ela pelas junturas desfeitas rangendo com o 
movimento das ondas, ostentando ainda num pedao da popa o seu nome, 
_Quirinal Restos de corpos desmembrados jaziam entre tbuas ou pendiam, 
presos por fragmentos de roupa esfarrapada de algum cavilhame desventrado. 
Acenava tristemente ao vento que amainara uma tira de vela rasgada. Mastros 
a vergas, desconjuntados a estilhaados, boiavam nas guas, precariamente 
ligados ao tombadilho. Na praia rolavam corpos na fmbria espumosa das 
ondas a outros, lanados j do mar, secavam na areia nus, inchados, 
esqulidos, de borco ou de barriga para o ar, cheios de ptrido mosquedo, 
apodrecendo com um ftido e insuportvel cheiro. Debicavam j abutres nos 
cadveres mais afastados de gente viva a outros pousavam, rondando, nas 
rvores a penedias prximas,  espera do sinistro festim.
Estando ns por algum tempo olhando em silncio aquele lastimvel 
destroo, disse-nos o patro da nossa nau:
- Senhores,  mais tempo de obrar que de olhar.
Movidos desta palavra, comemos todos a acudir aos feridos, lavando 
chagas com vinho a fazendo com muita diligncia tudo o que o cirurgio 
mandava, procurando roupas para a nudez, po para a fome, palavras de 
conforto para o desconsolo de alma, a com a ajuda da muita gente que tinha 
acorrido procedeu-se pelo dia fora ao enterramento dos mortos. Era quase fim 
da tarde quando, tendo preparado com dois pobres lenhos uma cruz para uma 
das ltimas sepulturas, dei comigo a olhar fixamente a cara do morto. Estava 
nu, mas no me foi difcil recordar a figura viva a inquieta, vestida de peles, que 
mimava um frade que passeia de um lado para o outro lendo o seu brevirio de 
capas de carneira castanhas, cantos de prata a letras gravadas a ouro. Era 
Argirpolos. Perante a morte, perdoei-lhe o mal que, querendo fazes-me a 
mim, causara a meus irmos Pietro a Bertino e, quando a ltima pazada de 
terra foi atirada sobre o seu corpo, coloquei-lhe na cabeceira da campa o tosco 
crucifigo feito de lascas dos madeiros da nau destruda.
VIII
O rei de Chipre
...Emmanuelisque nomen et Lusitanae gentis virtutem laudibus summis 
exornavit.
...Exaltou com os maiores louvores o nome de Manuel e o valor da 
gente lusitana. (Jernimo Osrio, De Rebus Emmanuelis Gestis.)
No mais que uma alfndega a casas trreas para recolher mercadorias, 
um pequeno hospital a uma igreja de So Lzaro, mas o branco vivo das 
paredes, quase a cegar os olhos, no verde-azul de montanha a cu, ria 
alacremente para a baa em que se espelhava, em chapadas a laminaes de 
cal ondulante. Havia barcos de olhos arregalados no porto a as algas 
voluteavam a rendilhavam marulhos salgados, espumosos, por entre 
cintilaes de prata a ouro. Acenavam perto, rente  gua, asas lentas de 
gaivotas, dando as boas-vindas.
Voltava  minha boa disposio a aos meus sonhos,  paz comigo 
prprio. Mas seria eu o mesmo? Sentia-me diferente por dentro. Quantas 
cOisas haviam passado, marcado para sempre a minha alma ... Tnhamos 
chegado a Salinas, ou Salamina como dizem outros, depois de trs dias em 
que o vento nos fizera negaas, ora arremedando soprar de feio ora vi.rando 
contrrio. Fomos at obrigados a parar a meio caminho, em Limison. Mas eis-
nos chegados a Saunas ! Grande azfama de carregar e descarregar 
mercadorias, que este  o principal porto da ilha de Chipre, o mais frequentado 
por navios estrangeiros a onde necessariamente ho-de aportar as naus 
venezianas que vm a estas partes. Aguarda-nos uma
52 u 53
pequena multido de pessoas quando atracamos. Sados ao cais, 
dirigem-se-nos com expresso a palavras aflitas, pedindo ajuda.
- Aiuto, aiuto, signori! Siamo pellegrini!
Apontam-nos no porto, sem qualquer espcie de actividade, a nau dos 
peregrinos do ano passado, que, por desordem a pouca diligncia do patro, 
tinha ali invernado, com grande detrimento a prejuzo dos romeiros, no 
regresso da Terra Santa. Vendo-se enganados, os ricos buscaram seu remdio 
por onde puderam, indo-se para Veneza em outras embarcaes, a queixarem-
se  Senhoria da sem-razo a quebra de contrato que lhes fora feita; os pobres 
aqui ficaram na ilha, padecendo mil necessidades a misrias, aguardando que 
aquela mesma nau que os trouxera os tornasse a levar de regresso na 
Primavera que est a a chegar.
- Aiuto, aiuto, signori! Siamo pellegrini! Abbiamo fame a miseria! -.Ajudai-
me, irmo! - sinto-me puxar pela manga do hbito esta doce voz portuguesa.  
uma preta dos seus quarenta anos, de alma branca como arminho segundo 
depreendi da sua muita virtude, confessando-a em Veneza antes da sua 
partida para a Terra Santa. -  Deus que vos envia para acudir  nossa 
necessidadel
Natural da Guin, criada em Portugal, vendo-se um dia forra, no 
descansou enquanto no fez esta santa jornada, no pedindo de porta em 
porta, como muitos fazem, mas com o suor do seu rosto. Deu-se antes, alguns 
anos, a lavar roupa por dinheiro, at amealhar o que lhe pareceu bastar para a 
peregrinao. No podia, todavia, contar com o percalo de uma to 
prolongada paragem em Chipre, agravada pela total ausncia do apoio a que, 
por contrato, os servios da nau se haviam obrigado, a viu-se sem dinheiro 
sequer para comer.
- Mas como foi possvel um tal desleixo do patro?
Trouxera consigo sua mulher e, na volta de Jerusalm, como ela tinha 
irmos a parentes em Chipre, quisera folgar com eles mais do que o tempo lhe 
permitia e, descuidando-se de carregarem a nau, no se puderam partir 
quando convinha...
- Grande castigo por certo o espera, quando chegar a Veneza - disse-lhe 
eu.
Acudi-lhe de meu bolso quanto me era possvel, afirmando-lhe que a 
Senhoria, assim que ela chegasse, certamente a satisfaria conforme o contrato 
feito e a recompensaria do detrimento passado.
Soubemos tambm das muitas necessidades que os nossos frades 
estavam passando em Jerusalm, por haver dois anos que no tinham
,, guardio nem eram providos de Franquia. A sua frente ficara somente 
um ~: vigrio bergamasco, de nome Frei Jeremias de Brxia, que, virtuoso e !:` 
bom religioso, no tinha contudo nimo a suficincia para to grande
'' ,cargo. Assim providencimos, por via de mercadores que naquelas 
partes '.; tratam, para que os frades fossem remediados at  nossa ida, pois 
para tudo de Veneza vnhamos providos. Fizemos ainda prover copiosa
~_.tnente a uns seis frades nossos, da famlia hierosolimitana passada, 
que fir; regressavam a Itlia a estavam extremamente necessitados. Concludo 
,'r sto, fizemos entrega de quanto para a Terra Santa levvamos a Misser ,,. 
AAngelo da Ncolo, procurador a sndico geral dos frades franciscanos
naqueas partes orientais, com autoridade apostlica, por no-lo haver 
assim mandado em Veneza o padre Bonifcio, ao tempo que dele nos 
,,<Oespedimos. Descansmos depois cerca de quatro dias em Argana, vila 
`..~xue fica a uma milha de Salinas, onde encontrei uma judia portuguesa,
ada com um judeu, tambm portugus, fsico, tido nesta terra em toda 
~T conta de bom homem a muito estimado por todos. Chamava-se a - ;,Joseph 
a em Portugal Janalvres, natural do Porto. Perguntou-me esta
por um seu irmo, de nome Joaquim, a dava-me alguns sinais dele: y 
era mais velho que .ela, mas mais baixo, magro a um pouco verdo, o nariz 
grande, muito curvo, mas do rosto sadas nas faces ovadas, mos ossudas, 
friorentas...
- No, no conheo - respondia eu.
i , Mas, tornando-me a Portugal, rogava ela com muita importunan:io 
poderia eu inquirir dele a dar-lhe novas suas? Bem lhe podia oci:ir aquela 
consolao via Veneza, pois as naus venezianas todos os vs iam a Lisboa...
'r Prometi-lho a aproveitei a oportunidade para, por minha vez, lhe 
gurltar: Sabia acaso se por aqueles dias passara ali um judeu "rtugus 
chamado Isac Bensade?
~h  Isac , a riam-se-lhe os olhos. Era muito seu amigo e 'ar. Havia 
quatro dias estivera com ela e o marido, mas, sabendo que 4
fo tinha chegado a nau de Veneza... - ...a nossa...
...partira  pressa, aproveitando um barco que vinha de ;nclria a l 
devia aportar.
Estremeci com a notcia: E como se chamava a embarcao que ra ?
54 `55
Ai, no se lembrava  Ora deixasse ver... Era uma nau muito grande e 
forte, sobremaneira formosa, ainda nova. Ah, sim  Chamava-se _Quirina.
- Meu Deus - exclamei empalidecendo.
- Que foi? Aconteceu alguma desgraa? - interrogou ela reparando na 
minha angstia.
- Aconteceu que essa nau sofreu, ao entrar em Pafo, um horrvel 
naufrgio 
- Ai de mim  O senhor nos acuda - comeou ela de guaiar, caindo de 
joelhos.
Eu continuei:
- Estava l. Vi o sepultar dos mortos, o curar dos feridos. Nenhum judeu 
portugus se encontrava no nmero dos vivos, seno ter-se-is dado a 
conhecer. Talvez fosse um daqueles corpos que ajudei a enterrar... Talvez se 
tivesse perdido no mar a as ondas o tenham tragado...
A judia chorava agora baixinho e o meu pensamento tornava-se de novo 
tumultuoso. Estaria semeado de morte o meu caminho?... Partimos para 
Nicsia, umas oito lguas de Argana, e, andada meia
jornada, veio-nos ao encontro o padre guardio do nosso Convento de 
So Joo de Monforte, que com seu companheiro e o sndico nos vinham 
buscar.
- Frei Domnico - exclamei, abraando-o. - Que alegria em ver-vosl
- Fra Pantaleone  Che piacere 
Era este padre um homem velho a venervel que eu havia conhecido 
como abade de um convento da Toscana, quando com Frei Bonifcio 
juntvamos, pelas provncias de Itlia, a famflia franciscana para Jerusalm. 
Deixou ele o abadiado para seguir connosco para a Terra Santa e, quando em 
Veneza se juntaram os frades para embarcarem na nau dos peregrinos, foi 
feito guardio do nosso convento da observncia de Nicsia, por isso ficando 
meu particular amigo. Da o grande contentamento a respeito com que nos 
receberam, a cortesia com que me trataram a mim, porque no  todos os dias 
que se recebe o companheiro do comissrio apostlico de toda a Terra Santa a 
guardio de monte Sio, o parceiro sem o qual o padre Bonifcio de Aragusa 
no fazia coisa nenhuma. O prprio legado apostlico em Chipre, monsenhor 
Estanga, nos honrava a festejava com particulares mercs, porque  partida de 
Trento lhe escrevera o arcebispo encomendando-nos muito. Vinha visi
tar-nos pessoalmente a nossa casa a dava-nos banquetes na sua. 
Tambm no }s festejaram todos os cnegos a dignidades a os mais senhores 
da cidade. Recebia eu assim honras que no merecia.
Nicsia  a cidade principal do reino de Chipre, urbe grande mas mal 
fortificada a defendida, se considerarmos a proximidade dos Turcos, porque 
nesta altura todo o reino de Chipre  ainda de cristos, mas cobiado. No 
entanto, apesar de grande, a cidade d a impresso de um certo desconcerto, 
de ser desarrumada, dentro dos seus grandes muros. Tem uma majestosa s 
catedral, com seu arcebispo, que faz  latina, e outra, no menos grandiosa, 
que faz  grega. Nas igrejas ortodoxas gregas h a curiosa particularidade de 
as imagens no serem esttuas, pois as no consentem entre si, mas apenas 
representaes dos santos em pintura, tecelagem ou mosaicos, a que chamam 
cones.  isto um actual vestgio e resqucio de uma antiqussima querela que, 
de disputa teolgica nos primeiros tempos da Igreja, passou a problema de 
culto, com implicaes polticas a sociais de monta nos sculos oitavo a nono. 
A Igreja, que empre soube manter um sensato equilbrio, assim como 
condenava a olatria no pde deixar de condenar, no segundo Conclio de 
Niceia, os
:conoclastas. Uma semelhante condenao, agora a desta vez contra os 
r rotestantes que fazem renascer a questo, saiu j do Conclio de Trento.
, porm, um facto que nos primrdios eram mais usuais as imagens 
cturais que as de vulto, a este trao peculiar prevaleceu, atravs dos mpos, na 
Igreja oxiental, que sempre foi mais sensvel ao pxoblema das
gens, por estar em contacto com judeus a maometanos a quem a 
resentao imagstica repugna. Iconoclastas a icondolos, sobretudo izantinos, 
exageraram pelos tempos fora as posies sensatas e o,
oderadas das mais autorizadas vozes da Igreja universal quanto ao valor 
ucativo a at simblico das imagens, indispensvel ao mantenimento de ,uma 
f que a abstraco tornava frgil.
_- Nesta igreja de Nicsia, ornada de muitos cones, h uma pintura de 
Tossa Senhora que faz muito milagres. Em tempo de necessidade de gua u 
sol, levam em solene procisso aquele cone a uma ermida fora da
cidade a no tornam por ele enquanto no alcanarem o que pedem, 
como urn pessoa presenciei acompanhando-o quando o levaram a trouxeram. 
H na cidade trs conventos : um de dominicanos, outro de
rmelitas e o nosso, que  o de So Joo de Monforte. Foi neste nosso 
nvento de franciscanos que eu experimentei uma das maiores alegrias - a 
alguma vez senti em minha vida a uma das mais fundas emoes.
56 ~ 57
Entrar um pobre portugus por aquela capela-mor dentro, em reino to 
distante de sua terra, dar de olhos com um riqussimo tmulo de mrmores, 
jaspes a alabastros, a de sbito sentir-se como que sonhando acordado, no 
querendo acreditar no que seus olhos vem nem conseguindo por instantes 
fixar-se no tempo a no espao, pois ali na sua frente, esculpidas na preciosa 
pedra daquela sepultura, esto as armas a as insignias de Portugall Caio de 
joelhos atnito a confuso. Frei Domnico, atrs de mim, com seus 
companheiros, sorri compreensivo.
- Mas como  isto possvel?  Frei Domnico - pergunto, voltando-me 
para o guardio-, como  possvel que eu venha encontrar em Nicsia as 
armas do meu pas? De quem  este tmulo?
- Este tmulo - responde o frade -  de um infante portugus que foi rei 
de Chipre.
- Como assim?
Meus olhos esbugalhados, minha boca aberta de pasmo davam gosto 
ver  No estivesse de joelhos. Levantasse-me , a estenda-me o brao. Sento-
me no degrau de mrmore. Ia satisfazer-me a grande, a enorme curiosidade... 
Quando o nosso infante D. Pedro morreu nrma batalha de que no sabia o 
nome... (Falava Frei Dornnico de D. Pedro, filho do nosso rei D. Joo I?) 
...Sim. (A bataiha em que morreu fora a de Alfarrobeira.) ...Isso mesmo. 
Quando ele morreu nessa batalha, seus filhos, Jaime, Joo a Beatriz, foram 
acolhidos na corte do duque de Borgonha, em Bruges, pela condessa sua tia, 
Isabel de Portugal. Foi a que o rei de Chipre, Joo II, que procurava o apoio 
dos prncipes cristos  sua luta contra os muulmanos, conheceu o infante 
Joo. Ali estava, pensou ele, um garboso a fino noivo para a herdeira do seu 
trono, a princesa Carlota. Aceite a proposta, Joo  feito principe de Antioquia, 
cidade a que o trono de Chipre se julgava com direito, e o casamento faz-se. A 
tinha minha paternidade como o filho do infante D. Pedro e neto do nosso D. 
Joo I fora rei de Chipre. E sabia? O outro irmo, D. Jaime? Adivinhasse! Bispo 
de Pafol Fora comenda concedida pelo Papa Calisto III... Mas viesse. Mostrar-
me-is ainda as armas de Portugal numa riqussima alfaia que tinham na 
sacristia.
Fomos. Era um formosssimo ornamento de brocado, em tudo muito 
perfeito, com seu pano de plpito, capa a pano de estante, em que se viam 
bordadas a ouro a pedras preciosas as armas portuguesas. Beijei-as com os 
olhos rasos de gua e, pelos vistos, a minha comoo foi contagiante, pois Frei 
Domnico a os outros frades tinham os olhos
 ". brilhantes. Soube depois o fim infeliz daquela histria. Sangue de rei 
que vela pelo seu povo, educado por um pai sbio, prudente a impoluto, o rei 
de Chipre a principe de Antioquia no podia sofrer a corrupo que via  sua 
volta a procurou sanear a corte a que o destino o trouxera. Criou
'z; inimigos poderosos que trabalharam na sombra a no descansaram 
enquanto no foram ao extremo de o matarem por envenenamento. ~, N o
ficava, todavia, por aqui o ouvir falar de coisas portuguesas r neste reino 
de Chipre. Das pessoas gradas que em Nicsia tinham especial 'M prazer em 
nos receber a fazer quotidianas mercs a favores contavam-se o
senhor conde de Trpoli e o senhor D. Jcome a suas mulheres, filhos e 
; filhas. A um dos filhos do conde via eu frequentemente a trato com seus i 
~ivros, muito amigo de os ler a estudar. Um dia, acercando-se de mim, ~disse-
me com ar de grande satisfao:
- Frei Pantaleo, vinde ver o que ando a ler, que em alguma coisa 
~t".vos diz respeito. Recebi-os h pouco de Franquia.
- Ento que andais vs lendo?
Mostrou-me os volumes, que eram vrios a em latim. - Pois sabeis 
latim?
- Estudei-o em Lovaina.
Pus-me a ler os ttulos : Epitome rerumgestarum in India a Lusitanis. Era 
volume publicado, em i 5 3 i, em Lovaina. O seu autor, um eborense tre, Andr 
de Resende. Vinham depois os Commentarii rerum gestarum
(India citra Gangem a Lusitanis anno rI38, de Damio de Gis, tambm 
," dos  luz em Lovaina, em i 5 3 9. Seguia-se o Commentarius de rebus a 
'tanis in India aped Dium gestis anno zJ6, de Diogo de Teive, a editaem 
Coimbra em i 548. Grande era a minha admirao.
- De maneira que - disse eu - gostais de ler os comentrios das isas que 
os nossos portugueses fizeram nas ndias Orientais...
-  verdade, Frei Pantaleo. E confesso-vos uma coisa. Causam-me 0 .s 
admirao que os antigos contos de Alexandre Magno!  tudo to Y aordinrio 
... E dizer que so coisas passadas no nosso tempo  Ora -me: so de facto 
verdadeiras tais faanhas?
- Verdadeiras? Pois duvidais? Conheci alguns desses heris que ram 
parte nessas grandes batalhas navais a campais. Alguns deles vivos ainda, a 
Deus graas, neste ano de i 5 63 ... D. Joo de
scarenhas, capito de Diu a seu defensor! D. lvaro de Castro, que  o 
do grande D. Joo de Castro a est em Roma como embaixador de Ral...
58  '59
- Que maravilha - exclamava o mancebo.
Acudiam o pai a os demais a rodeavam-me, a mim, pobre franciscano, 
como se eu, por ter conhecido, ouvido falar, convivido com os heris a 
respirado o ar que eles respiraram, estivesse nimbado de uma aurola 
miraculosa a mgica, a transmitisse s pessoas a ao ambiente, aqui no seu 
palcio em Nicsia, alguma partcula de herosmo. Festejavam-me aqueles 
senhores por respeito a Frei Bonifcio, ao arcebispo, ao legado, por admirao 
daqueles heris a por eu ser portugus.
- O reino de Chipre - dizia-me, um dia que fui convidado a jantar em sua 
casa, o conde de Trpoli, homem baixo, moreno, enxuto de carnes, cabelo 
negro, lbios bem delineados, praxitlicos, dentes muito brancos - pertence de 
direito ao senhor duque de Sabia, D. Manuel Felisberto...
- _que por sinal - acudia um dos convidados, D. Jcome, calva luzidia a 
pontiaguda, barbela a tremer a cada palavra - era filho de uma portuguesa de 
alta estirpe...
- ...a infanta D. Beatriz - reatava o conde, que no gostava que lhe 
tirassem as palavras da boca -, filha de vosso muito ilustre rei D. Manuel.
- Alis da lhe vem ao duque de Sabia o nome de Manuel.
- Chipre no  destes malditos Venezianos, que indevidamente nos tm 
como seus vassalos a sbditos.
Da cabeceira da mesa, em que presidia ao banquete, inclina-se para 
mim, que estava em lugar de honra  sua direita, trava-me do brao que eu ia 
erguendo no jeito de levar comida  boca, a a fico eu, brao suspenso a boca 
aberta, enquanto ele me segreda ao ouvido
- Ns, os Cipriotas, temos dio mortal a secreto a Veneza -afirmao 
que todos os da mesa apoiavam, com a boca cheia a uma espcie de 
grunhidos, acenando com a cabea.
Eu era o centro das atenes e a conversa girava toda em torno do 
nosso Portugal a das suas relaes com Chipre. Eu no era aqui um pobre 
franciscano que vestia saco apertado por um cordo a calava sandlias de 
pau. Era um portugus, era o Portugus  E l no fundo, todavia, estava-me 
acusando a conscincia de andar a aproveitar-me, em meu prestgio pessoal, 
da autoridade a do valor alheios. Dificilmente me caam bem as roupagens de 
um to grande smbolo...
Havamos chegado a Nicsia junto da Septuagsima, que calhara nesse 
ano a sete de Fevereiro, e, como vnhamos maltratados a enfadados
' do mar a era-nos mister aguardar a chegada de Frei Bonifcio, 
determinmos estar ali at o meio da Quaresma.
- Ficai  - insistia connosco Frei Domnico. -  costume muito antigo, 
todos os anos, no sbado anterior  quarta dominga da Quaresma, _ a que 
chamam da Rosa, lanar-se prego por toda a ilha que quem quiser
it passar a Pscoa a Jerusalm acuda, a semana seguinte, ao porto de ` 
Salinas, no qual achar prestes embarcao. Vereis a romaria que  o porto 
nessa ocasio!... Tal como acontece noutros portos a noutros s.tios
''por aqui perto  As gentes destas paragens em redor da Palestina -- 
Chipre, Egipto, as duas Armnias, monte Lbano a demais terras do Oriente - 
gostam de assistir quelas cerimnias da Semana Santa.
Veio visitar-nos Constantim Polachi. Palmilhou as trinta lguas que so 
de Thimo a Nicsia para nos ver. Traz uma carrada de presentes: coisas de 
comer a uns lenos de holanda muito fina que se tecem na sua ..:. aldeia.
x~; Quando voltssemos de Terra Santa, pedia-nos, passssemos 
por Pafo para nos vermos. Prometia prover-nos de quanto para o mar fosse 
necessrio.
^trApesar de no sabermos se voltaremos por Pafo, dizemos-lhe que J, 
assim faremos, se estiver na nossa mo.
Y; Passavam os dias a ns amos ficando por aqui, com tempo para tudo 
;~ ver pormenorizadamente, desde os muitos a muito finos chamalotes de `": 
vatiadas cores que se vendiam na cidade at aos frteis pomares a hortas
que havia dentro a fora dos muros, os palmares, os canaviais de acar, 
os olivais, as vinhas, os campos semeados de trigo a algodo, as minas de ` -
.cobre a de caparrosa, minrios de uma terra verde cujo cheiro excede o do
v~' almscar, que embora no seja to fartum tem muitas virtudes, enfim 
todas as coisas necessrias  vida humana de que a ilha era prdiga. Numa E 
~.3greja que ficava a uma lgua da cidade visitmos o corpo inteiro e
'S 4 incorrupto de So Mamede, de cuja sepultura manava um leo 
milagroso com que saram muitos enfermos a do qual enchi um vidrinho. J 
~::avamos visto outro corpo santo no nosso mosteiro, em Nicsia: o '`;de So~ 
Joo de Monforte, que foi conde a senhor de um lugar assim '0amado, 
cavaleiro da Ordem dos Templrios a deu o nome ao nosso _xnosteiro a sua 
igreja.
A.percebi-me ento de que Chipre era uma encruzilhada capital entre ia 
mundos diferentes, ponto de passagem a de paragem obrigatrio das tas 
demandadas por todos os Marcos Paulos a Antnios Tenreiros deste i
60  6
l
mundo. No admirava, pois, que ali se encontrassem os que, idos de 
Franquia, se dirigiam para Levante a os que, partidos das terms I' levantinas, 
buscavam as do Ocidente.
Vindo da longnqua Echmiazin, chegou a Nicsia um embaixador do 
catlicon, que  como quem diz do patriarca dos Armnios, Miguel de Sebaste. 
Era o bispo Abegaro Orator, dirigia-se ao conclio tridentino e
~i trazia a Pio IV cartas de obedincia de vinte a quatro bispos a seus 
sufragneos. Confirmava-se assim a impresso que eu j havia tido, com a ida 
a Roma do bispo damasceno Frei Jorge, meu companheiro de viagem, e do 
representante dos cristos da Sria, Abdissu, de que o Concilio de Trento 
desencadeara, nas Igrejas orientais, um movimento de adeso e unidade em 
volta da Igreja romana. No falando da dissidncia dos protestantes, s ficava 
isolada a Igreja grega.
Abegaro trazia consigo dois filhos, o que j me no admirava, pois todos 
os clrigos das naes crists do Oriente - gregos, georgianos, armnios, 
nestorianos, coptos, abexins, sirianos ou caldeus - so casados. Mas foi para 
mim espanto de arregalar os olhos ver um dia o pai !' a dizer a missa, um filho a 
ler o Evangelho e o outro a epstola!...
O serem casados provocava-me funda meditao. Subiam-me dos 
recnditos esquecidos da alma velhos desejos, hesitaes, escrpulos. Em 
horas de solido a melancolia, como eu desejaria poder de novo enlaar 
Margarida ou Elsa l Dava comigo a apreciar a beleza das mulheres, as 
propores do corpo, os olhos, os lbios, os cabelos, os seios... Muito me
perturbou, em especial, a vista de uma grega que connosco se queria 
embarcar para a Terra Santa, havia um ms que estvamos em Nicsia. A 
cidade, com cartas a outros negcios, chegara o escrivo de uma nau
i veneziana que aportara a Limison. Desembarcara a viera por terra, por 
ser mais rpido, a bateu-nos  porta do convento a dar-nos a nova de que a 
sua nau estava a chegar a trazia o padre Bonifcio. Logo nos pusemos a r
caminho para o porto de Salinas o padre guardio a eu, ficando meu 
companheiro cuidando da casa, para consolao dos frades, por ser homem 
muito caritativo a alegre. Estando no porto esperando de hora a hora, vimos 
sobre a tarde vir a nau. Metemo-nos num batel a fomos a ela, na altura em que 
estavam a lanar ncora.
- Frei Pantaleo - acenava de cima, da amurada, com grandes gestos a 
sorrindo, o padre Bonifcio. E quando ns subimos a bordo tomou-me nos 
braos a teve-me um grande intervalo apertado consigo "'i ',, 62
,
(Iizendo. - Que bom ver-vos so a salvo! Tive tantos cuidados por vossa 
causa, ao pensar na viagem que fizestes em tal poca do anol...
Rodeavam-nos uns cinco padres da nossa famlia hierosolimitana, clue 
com ele vieram, a nos faziam muita festa a nos abraavam. Entre estes cstava 
um, muito jovem, que ao abraar-me disse-me no mais fino portugus
- Tanto tenho ouvido falar de vs, Frei Pantaleo, a tantos so os 
encmios que padre Bonifcio de vs faz, que ansiava por conhecer-vos.
- Pois sois portugus? - De Coimbra.
_ - Dai-me c outro abrao - lhe disse eu comovido - que abraar-vos  
abraar um pouco a minha terra ... - e l sentia eu o postio da frase, a 
expresso choramigas, a lagrimita ao canto do olho... Que se
. estava a passar comigo que me estava tornando to sensvel?... Mas 
o t)()Vem frade entendera a palavra  letra:
- Tambm sois de Coimbra? Ento somos conterrneos 
Sem o saber tocava-me um ponto candente. Noutra altura talvez isso '> 
me incomodasse, mas o momento era de euforia a de risos.
r - Digamos - disfarcei eu - que sou Pantaleo de Portugal.
 ~~ - Fra Pantaleone di Portucalo  - aplaudiu Frei Bonifcio o dito. C - 
...di Portucalo! - repetiam alguns outros.
Havia o fradezinho tomado hbito em Jerusalm a tinha ido a Portugal 
visitar os pais, que tanto pode o amor natural deles. De regresso  Terra Santa, 
encontrou em Veneza o padre Bonifcio a tornava-se com ele.
Aquela noite, por ser muito tarde, passmo-la na nau, conversando "~, 
por longo tempo sobre os assuntos que nos tocavam, a no dia seguinte, E ;; "` 
em amanhecendo, comeou a faina de descarregar todas as coisas que r .' 
blviam de ir para Jerusalm. Eram tantas que houve necessidade de se
fretar uma caravela em que as meteram. Alis, como no porto de Jafo as 
naus dos cristos pagam grandes direitos, mas se so navios pequenos ~: 
Pagam uma ninharia, costumam os venezianos deixar a nau grande em Chipre 
a embarcar pessoas a coisas em pequenas caravelas.
- Mandemos chamar Frei Zedilho a Nicsia - dizia-me padre `Bonifcio - 
e partamos sem detena para Jerusalm.
- Meu padre - retorqui eu. - Ento deixais de ir ver o nosso tonvento de 
Nicsia?
63
Que no lhe sofria a pacincia, soubesse Frei Pantaleo, estar mais 
tempo longe da nossa famlia da Terra Santa, que tanto precisava de ns 
- Tambm os padres que moram em Nicsia tm preciso de vs e de 
ns.
- Tm?
- E digo-vos mais. Com as esperanas da vossa vinda se sustm. 
Quando em Veneza se partiram no era seu propsito virem morar em Chipre, 
mas sim nos lugares sagrados da Palestina. Foi isso que se lhes prometeu a os 
aliciou.
- Bem sabeis como de necessidade h-de haver frades da nossa famlia 
franciscana que morem aqui. Outros os revezaro em breve.
- Visit-los, ouvir isso da vossa boca... Era uma caridade que lhes 
fazeis...
Olhou-me Frei Bonifcio sorrindo a disse:
- No sei que seria de mim sem vs, irmo ! Estava a ser um pouco 
impulsivo a vs vindes-me com o conselho certo. Vamos l. Partimos. Somente 
trs : ele, o guardio de Nicsia a eu. Os mais
padres ficaram em Argana provendo-se do que convinha, conforme a 
lista que se lhes entregou. Grande foi a alegria dos frades que nos estavam 
esperando  Por importunao do senhor delegado a dos senhores nobres foi-
nos forado estarmos ali toda a Semana Santa. Aproveitou Frei Bonifcio a sua 
estada para mandar prover os padres que haviam de ficar de vestiaria a das 
mais coisas necessrias a deu-lhes esperanas de que tambm presto iriam. 
Samos para o porto de Salinas na oitava da Pscoa e quando chegmos 
encontrmos tudo a ponto para podermos seguir viagem: o fato a roupa 
metidos numa caravela de um cristo levantino por nome Dimitrio, de muitos 
anos amigo dos frades a que algumas vezes lhes havia servido de turgimo, 
por ser muito entendido no arbico e no turquesco. Estavam no porto cinco 
freiras gregas, a que tambm chamam caloiras. Dirigiam-se a Jerusalm com o 
propsito de assistirem s cerimnias da Semana Santa. J no iam a tempo, 
pois logo que souberam estar aquela caravela tomada  nossa conta no se 
quiseram embarcar com os romeiros a determinaram ir em nossa companhia, 
por mais reputao de suas pessoas. Meteram para tanto muitos rogadores 
latinos a gregos a em especial o nosso procurador a sndico Misser Angelo de 
Ncolo, que, confiado na amizade de muitos anos do padre Bonifcio, lhes tinha 
dito que sim. Juntou-se-lhes uma jovem
viva grega, muito rica a muito bela, que com duas aias a um tanto de 
fausto ia para Jerusalm meter-se num mosteiro de caloiras, pois desejava 
deixar o mundo. Com a palavra do nosso procurador, muito confiadas se foram 
elas meter na caravela, sem ns o sabermos.
Vieram entretanto reunir-se a ns trs caloiros de Santa Catarina de 
monte Sinai, um deles muito velho, conhecido do padre Bonifcio a tido em 
grande reputao de santo por todas aquelas partes. Chega a hora da partida, 
vem-nos chamar Dimtrio para que embarquemos. Metemo-nos em batis 
direitos  caravela. Eu a Frei Bonifcio vamos com os trs caloiros e, 
chegando, sobe  frente o caloiro velho logo seguido de mim. Em sua 
simplicidade a inocncia aguardavam-nos no convs aquelas santas mulheres, 
desejando fazer-nos condigno acatamento a dar seus agradecimentos ao 
padre Bonifcio.
- Mas que  isto? - comeou a vociferar o caloiro velho, ' escandalizado 
a virando as costas, escada a baixo, obrigando a voltar F a trs os que 
comeavam a subir.
Nem a veste desataviada lhe escondia as formas esbeltas, antes lhe .r::: 
cala em pregas como se fosse a tnica leve a transparente de uma deusa ~~ ; 
grega, realando a cintura breve e o volume ondulante do busto. O cabelo
' era uma trana de trigo que se arrepanhava em rosca na nuca muito 
~:., branca. Nariz clssico, como de esttua: Os olhos tinham guas que se `: 
turvavam, escureciam, toldavam em abismos, ~&u se iluminavam em
clareiras de luz a sol. Os lbios sorriam, sfriam-me, que eu era o nico 
que ali estava, especado, paralisado a olhar Para ela. Em sua volta as aias, ` 
as caloiras gregas eram apenas um adorno envolvente, circundante, -- adrede 
preparado para destacar a sua formosura. Chegava at mim, diluda a voz de 
Frei Bonifcio, perguntando
- Que se passa, irmo Calcndilas? f
- No hei-de ir  No hei-de ir  - barafustava o velho quase sem flego. - 
No hei-de item to pestilencial companhia 
- Qual companhia?
- Essa mulher h-de ser no s runa espiritual de alguns da companhia, 
mas tambm perigo corporal de todos ns assim que chegarmos a terra de 
turcos.
~- Frei Bonifcio, que no tnha entrado na caravela nem visto as ' ; 
nlulheres que l estavam, reagiu logo, mal informado, um tanto  pressa e ~x 
aern calma ponderao
- Dei licena para trs ou quatro caloiras a Misser Angelo
64  65
enche-me a caravela de mulheres ... Dimtrio, manda remar para terra!
Vi-me forado a descer, depois de ter embebido o meu olhar no dela, 
tanto que ela corou sem deixar de sorrir. Em terra deixmo-nos estar sem fazer 
qualquer inteno de tornarmos a embarcar aquele dia. As caloiras, sempre 
confiantes, deixaram-se tambm ficar a dormiram a bordo, mas no dia 
seguinte, pelo meio-dia, vendo que no tornvamos, entenderam que as no 
queramos levar em nossa companhia a desembarcaram, silenciosas e 
humildes. Estvamos no cais, sentados em fardos a caixotes de mercadoria. A 
viva grega passou por mim a olhou-me muito sria. Consegui dizer-lhe, sem 
que ningum me ouvisse:
- Desculpai!
No tinha esperana que entendesse o italiano, mas entendia-o 
perfeitamente, pois tinha sido casada em Itlia. Estacou por um instante com 
as suas aias a respondeu-me
- Obrigada, Frei Pantaleo 
Nunca me hei-de esquecer da sua expresso nem do tom de voz com 
que proferiu o meu nome. (Como sabia ela o meu nome?) Na minha mente 
confusa, considerava que de facto havia u.m enorme perigo em viajar com tal 
companhia, mas o perigo era para ~nim mesmo...
Embarcmos ao anoitecer a demos vela caminho de Limison, que  o 
porto onde se toma paragem para o porto de Jope, ou Jafo como comummente 
se chama, com negaas de vento que nos fizeram levar trs dias a cobrir to 
curta distncia e a esperar a outros dois dias. Na tarde do segundo dia fui a 
terra, a pretexto de fazer compra de qualquer coisa que esquecera, mas na 
realidade porque sentia necessidade de estar s, a ver se punha ordem no 
meu estado de esprito to tumultuoso. Meti por uma ma em que havia muita 
gente, pois era mercado, a logo fugi dali a fui dar a um recanto solitrio  beira-
mar. Descalcei as sandlias a ali estive tempo sem conto, sentado num 
rochedo, banbando os ps na gua do mar, um turbilho de pensamentos 
desencontrados a marulhar-me e a espumar-se-me na cabea, como aquelas 
ondas, num vaivm teimoso e sem resoluo.
Que se passa comigo? Perto de chegar  terra a que todos desejam 
chegar, porque se me esfria a alma? No estou suficientemente despido das 
paixes humanas,  o que . E no bastava revolver constantemente no 
esprito a ideia de me encontrar, o mais depressa possvel, com mestre Jacob, 
obsesso que revela bem o meu egosmo... Que importa saber
66
quem sou? Afinal quem somos ns? Quem  cada um? Quem sou eu?... 
Enformei-me ao longo dos anos no aturado a quantas vezes penoso convvio 
de todos os momentos comigo prprio. Moldaram-me os pensamentos a os 
sentimentos ntimos, que tinham por objecto o mundo interior e o mundo 
exterior. Este, por seu lado -as pessoas a as coisas -, tambm me trabalhou a 
modelou como a barro as mos do artifice. Um lavrar de artista, de que tanto 
pode sair um santo como um demniol... O de que eu ando  procura no , 
ento, saber quem sou, mas donde venho. O sangue que corre nas veias, os 
humores que se herdam de avs, o nome, o conhecimento de possivel 
estirpe... Aquele que de mim quiseram fazer, manobrando na sombra sem que 
por muito tempo eu o suspeitasse, no foi precisamente aquele que resultou. 
No contaram comigo prprio. Sangue, cultura, meio, as coordenadas tpicas e 
crnicas - tudo isso faz o eu. Mas o prprio indivduo, no permanente eolquio, 
no continuo debate a embate consigo prprio,  que sobretudo vai formando a 
sua personalidade. O eu vai gerando a elaborando e enriquecendo o eu... A 
orfandade, a solido, o isolamento! No contaram coInigo: isso marcou o meu 
ser para toda a vida. E, se bem que com o dobar dos anos o corpo se v 
modificando, enfraquecendo, e a nossa prpria memria de ns se v 
esfumando a apagando, a ltima coisa que de ns restar at ao fim  a 
conscincia do eu. E:  das primeiras coisas de que se ganha conscincia e a 
ltima de que se a perde no limiar da morte... Levantam-se-me no espirito 
srias suspeitas de que, como queria o velho filsofo grego, tudo  nmero a 
de que a personalidade, a individualidade humana no  mais do que uma feliz 
coincidncia a combinao qunticas como num baco pitagrico. Se o baco 
 destrudo, l se vai a memria e com ela a inteligncia e a experincia 
adquirida, o eu pensante a querente. Ateu , chamo-me a mim mesmo. No 
, respondo-me. Nada disto destri a realidade que  subjazer a sobrejazer por 
detrs a para alm de cada baco que ns somos, o grande baco universal, o 
grande Nmero, `R grande Ideia, a Ordem, a que chamamos Cosmo, a que 
damos o nome de Mundo, a que tu, vai no vai, ests quase a chamar Deus!... 
Quando o baco se desfaz, o eu, poeira csmica, retorna ao grande Todo. s 
pantelsta... So Francisco, a seu modo, era pantesta... E no  verdzde que 
ao envergar o hbito de franciscano me despojei da minha Personalidade do 
mundo?... O endeusamento do eu leva  vaidade, ao f-,rgulho, ao egosmo. 
Coisa certamente prestimosa  o despir-se um frade do seu egoismo a esbater 
o seu individualismo na vida gregria de uma
67
irmandade. Despe as galas do mundo - pelo menos na inteno -, 
abandona as riquezas, larga o nome, a prospia a as roupagens do sculo... 
mas a sua personalidade no se esvai: o nome de religio que adopta encobre 
ainda o seu eu... Deixei de ser esse Joo Qualquer-Coisa! Mas Pantaleo de 
Aveiro nada ter a ver com esse Joo Seja-Quem-For? No ter?... Porque 
consenti eu, to facilmente, em anuir a juntar ao meu nome de franciscano 
aquele de Aveiro? E a prpria escolha de Pantaleo? No esto estes nomes, 
 partida, inquinados dos meus problemas pessoais? No foi um deles 
escolhido por causa da relquia do meu medalho e o outro sugerido como uma 
meia revelao de quem eu seja. No  verdade que, por assim dizer, me 
proibiram de ir a Aveiro?... Porque no arrancar este medalho de outro a 
arremess-lo a estas guas, libertando-me de vez da jaa humana? Teria ele 
uma supultura condigna nestas guas sacrossantas... Porque hesita a minha 
mo e o meu brao?... Vozes que vm do passado  Nunca o deixes de trazer 
contigo ! ... Uma promessa ... No a quebres ! ... Almas nela implicadas cairiam 
nas penas do Inferno ... Porque o afago? Talvez tenha sido uma mulher, 
talvez minha me, que mo tenha posto a pescoo!... E que tem isso?... 
Deixars o teu pai e a tua me... Segue-me ... Mas no foram eles, pai a 
me, que me deixaram? Eu no os tive para os poder deixarl Quando se toma 
hbito deixa-se, com o mundo, pai a me. Eu no tenho ningum para deixar... 
seno a mim prpriol... Segue-me! E quem estou eu seguindo? Os meus 
passos dirigem-se para Jerusalm, mas o meu pensamento tem pressa de 
chegar algures mais a norte, a Damasco, a mestre Jacob. E entretanto, como 
se afinal nada disto tivesse importncia, a formosura de uma grega traz-me 
perturbado  Quantas pessoas trago dentro de mim? Quantos eus sou eu?
De regresso a bordo, disse-me Frei Zedilho - Vieram  vossa procura.
- Quem? No conheo aqui ningum!
- Era um judeu. Disse chamar-se Isac Bensade.
Isac Beiudo  Ento no tinha morrido, graas a Deus ! Deixara 
recado?
- Que, dada a vossa ausncia e a sua pressa, vos procuraria na 
Palestina... E deu-se urgncia em desaparecer quase como se fosse um 
fantasma.
- Um fantasma... vivo - sussurrei, mas Frei Zedilho no me ouviu.
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De madrugada demos vela para a Terra Santa a dois dias depois 
comemos a avistar o perfil levemente ondulado do monte Carmelo, sado 
tanto do mar que se descobre primeiro que toda outra terra, e a seguir,  
medida que nos aproximvamos, a linha dbil de uma plancie que corria para 
sul. A tarde desse dia, estvamos Frei Bonifcio, Frei Zedilho a eu na amurada 
olhando a terra, quando sentimos um adejar de asas que ruflaram ao poisar na 
verga alta do mastro.
- Olhai  - exclamei. - So duas rolas 
Todos nos alegrmos muito com a sua vista a eu particularmente pelo 
grande desejo de me ver em Terra Santa a curar os meus tormentos. Qualquer 
coisa que de l viesse mo acrescentava.
- Da terra da Mansido vm-nos as mansas rolas ! - disse Frei Bonifcio. 
-  bom sinal.
Ao terceiro dia, vinte a sete de Abril, uma tera-feira perfumada e clara, 
pelas nove horas, chegmos ao porto de Jafo. Grande expectativa e 
impacincia na demora de lanar ncora, todos ns apinhados na amurada, no 
bordo virado a terra. Padre Bonifcio dava-nos, pela centsima vez, os seus 
conselhos
Aquela terra, por mal dos nossos pecados, era terra de turcos, terra de 
inimigos, no nos esquecssemos. No nos devamos separar uns dos autros, 
que ladres estradiotos que nos assaltassem a todo o momento eram como 
tortulhos, pareciam nascer do cho a qualquer volta do
caminho.
Pelo sim pelo no, afastei-me um instante ao outro bordo do barco, onde 
no estava ningum e, sem que me vissem, retirei do pescoo o cordo de 
ouro com o medalho a escondi a minha relquia numa bainha d.o meu hbito. 
J em terra acudia um janizaro que ali morava a estava de guarda ao porto. 
Fez-nos sinal de paz, sem o qual no nos era licito desembarcar. Samos logo 
todos os frades da caravela, apressados e acotovelando-nos para encher os 
batis, a mal nossos ps tocaram terra
~~,pusemo-nos de joelhos a beijmos aquele cho sagrado. Corriam 
lgrimas dos olhos dos meus companheiros. Porque estavam secos os meus?
69
IX
Os muros das crenas
... Propter hoc, causa vestra, Sion quasi ager arabitur et Ierusalem 
quasi acervus lapidum erit et mops Templi in excelsa silvarum.
... Por causa disto a por vossa culpa, Sio ser lavrada como um 
campo a Jerusalm reduzida a um como monto de pedras e o monte do 
Templo a uma alta reboleira de arvoredo.
(Miqueias, III, i z)
Conhecendo bem os cantos  casa, como  costume dizer-se, pois j 
c~tivera sete anos na Palestina como guardio de Monte Sio, no dcit,m Frei 
Bonifcio de tomar suas medidas, sabendo que nossos trabalhos a 
atribulaes iriam comear. Mandou, por isso, recado  cidade de Rama, ao 
lami - um turco nobre que o mais do tempo ali reside para os negcios de 
importncia ocorrentes -, para que uos enviasse guardas que nos defendessem 
dos rabes que da montah:i, descem logo que sentem no porto algum navio 
de cristos. Mai)dou tambm recado ao vigrio do Convento de So Salvador, 
em Jerusalm, que logo viesse com o turgimo, guardas a com tudo o mais 
necessrio de camelos a cavalgaduras. No podamos partir dali ,em que 
viessem esses socorros a acompanhamentos, a logo sentimos, P,or todos 
estes indcios, que paradoxalmente, pisando a terra de Cristo,
7
no estvamos em terra de cristos. Frei Zedilho deixava ferver a
raa: - Hay que hacer nueva Cruzada y llevar a estes perros en la punta 
de las espadas!
Frei Bonifcio punha gua na fervura:
Frei Zedilho, Frei Zedilho  Lembrasse-se de que quem com ferro 
matava com ferro morria a naquela terra nem sequer ferro tinha, a no ser sua 
mansido de franciscano. J esquecia as rolas que nos foram dar as boas-
vindas?
Entretanto, o janzaro que havia anos conhecia a nosso guardio a era 
seu amigo, mandava trazerem-nos muito refresco e, a rogo do padre Bonifcio, 
providenciou por nos alcanar algum pescado. Hngaro de nao, era este 
janzaro homem muito bem-criado a cordato, tinha consigo as suas duas 
mulheres e o pai, j muito velho. Sua vivenda era a renda dos direitos que se 
pagavam naquele porto, a sua lavoura a outras achegas. Junto de casa tinha 
um muito extenso e vioso canavial de acar. De muito boa vontade chamou 
um seu filho
- Bocali, vai pescar peixe para os frades ... Bom rapaz aquele Bocali!, 
era a vaidade de pai. Bem disposto a expedito. Em bom pouco espao, amos 
ver, com uma tarrafa tomava tanto peixe que nos causaria espanto ... E de 
facto no demorou muito a trazer-nos tanto peixe que parecia t-lo apanhado 
em viveiro. Eram choupas, tainhas a um valente corvinacho, que o pescado 
naquelas paragens  em muita quantidade a de boa qualidade. Poucas vezes o 
pescam, salvo em ocasies como esta ou quando o guardio de Jerusalm o 
encomenda no Advento, na Quaresma ou sempre que acha necessrio para os 
frades. Para si preferem a carne, que em todo o tempo comem. Peixes so 
bichos do mar , dizia o janzaro, cuspindo, significando nisto o nojo que lhe 
causavam.
Fogueira acesa na praia, comea-se a assar o peixe a eu a dar uma 
saltada a bordo a buscar po a outros condimentos. Sentado na amurada com 
as pernas para fora, um moo da caravela com um prego dobrado  laia de 
anzol pesca quantos pargos quer. Em redor os companheiros em grande bulha 
a alarido festejam a pescaria sempre que a linha sobe trazendo na ponta 
aquela lmina de prata que cintila a se contorce em espadanadas frenticas.
Que delcia na praia aquele peixe to fresco a saboroso  Entretanto vai-
se o janzaro  borda do mar, despe-se completamente e,  frente de todos 
ns, lava-se dos ps  cabea, em especial as partes inferiores, no que mais 
se fundam todos os mouros, a depois pe-se a fazer o seu sal, numa 
lengalenga montona, a de joelhos ora se curva de bruos at ao cho, ora 
levanta as mos a os olhos ao cu, mostrando a seu modo uma aparncia de 
grande devoo.
No dia seguinte de manh chegam cinco mouros com seus arcos e 
setas, sem alguma outra arma. Manda-os o lami para nossa guarda, mas, por 
ironia, a coisa redunda no comeo de nossa inquietao e enfadamento.  o 
caso que, estando quase todos ns em terra ao tempo que eles chegaram, 
comeam a dar brados e a fazer grande alarido
Mas isto que vem a ser? Que desaforo l Desembarcarem sem licena  
Atreverem-se a pr p em terra sem autorizao ! Isso  muito grave 
A gritaria acode o janzaro, colocando-se de permeio: Que era l? Fora 
ele quem nos mandara sair, que para tal tinha autoridade e jurisdio. No lhes 
assistia qualquer razo em nos quererem afrontar daquela maneira... Mas 
nem isto basta para os aquietar, antes voltam  carga com dar maiores gritos a 
brados : No interessava  No podia ser  Tnhamos de tornar a embarcar ... 
S sairamos em terra depois de lhes pagarmos o trabalho do seu caminho!...
Toda esta canalha  avarenta a interesseira, sem verdade nem piedade 
nem temor de Deus. Para alcanarem o que pretendem fundam toda a sua 
justia em brados a gritos, que as mais das vezes no valem uma palha, e a 
estes rudos feitios chamam naquelas partes garrabulhos. A presena, porm, 
do janzaro, que acudia por ns, refreava-lhes a ousadia a tambm o saberem 
que no podiam tardar muito as guardas que nos haviam de vir de Jerusalm. 
Mesmo assim, detivemo-nos com estes mouros espao de meio dia, no 
cedendo em nos embarcarnios, como eles pretendiam para poderem impor de 
terra um resgate elevado. Mas o janzaro de tal maneira se houve com eles 
que, por fim, contentaram-se com uma pequena paga.
Aquela tarde vieram ali aportar trs navios de mouros, carregados de 
mercadorias que levavam de Sidnia para o Egipto. Suspeitando mudana de 
tempo, acolheram-se ao porto, um apertado recolhimento que ali havia, 
cercado de rochedos como ilhotas, no qual 'cabem cinco a seis navios 
pequenos. A nossa caravela, pelo contrrio,
72 ;73
estava fora sobre ncora, pois ao chegarmos fazia tempo claro a ameno 
e no trazamos inteno de detena. De madrugada, com o mar de calmaria, 
sbito comea a soprar um levante grandssimo, a as guas a empolarem, e a 
nossa caravela a perigar a dentro dela dois frades e trs seculares. Ns 
estvamos numas choupanas feitas de tbuas e esteiros sobre dois ilhotes do 
porto. Cresce tanto o vento, assobiando pelas frinchas, abanando 
perigosamente aquela frgil estrutura das paredes, a agita-se tanto o mar que 
tememos perder-se-nos a caravela com todo o fato a roupa que nela vem. No 
meio do rudo do vendaval a das vagas, ouvimos bater no taipal da entrada.  
o janIzaro que vem por ns. Viesse Frei Bonifcio com os companheiros 
acolher-se a sua casa, que dali a nada aquelas cabanas podiam ir pelo ar.
Padre Bonifcio, agradecendo-lhe muito, todavia no aceita, com o 
conhecimento que tem daquelas gentes e a muita experincia de at que ponto 
se lhes pode dar confiana. Quem ali quer viver em paz h-de guardar-se de 
entrar em suas casas a evitar, por mais amigos que se mostrem, a sua estreita 
familiaridade, especialmente nas caws onde h mulheres. Foi-se o janzaro 
embora a as choupanas comeam perigosamente a desconjuntar-se, mas o 
mestre de um daqueles navios mouros, vendo que no havamos aceitado a 
pousada do janzaro a entendendo a causa, vem com seu batel aonde estamos 
a insiste muito connosco para que nos acolhamos ao seu barco, que era maior 
que os outros dois. Aceitamos de boa vontade, forados da necessidade. De 
madrugada o vento comea a abrandar e o mar a aquietar-se, at que, j dia 
claro, os elementos esto de novo bonanosos. Com a ajuda dos mouros, 
comeou-se a despejar a caravela de algumas coisas de mais peso a depois, 
com seus batis, levaram-na  toa e a meteram dentro do porto.
Foi esta gratuita a comovente solidariedade dos mouros, ao prestarem-
nos ajuda naquela hora de provao, que me fez de novo voltar para mim 
prprio. Acudiam  mente antigos pensamentos de compreenso a tolerncia 
para com os homens, que se matam a guerreiam, se odeiam a perseguem, 
pem limites a vedaes s suas terras, s suas riquezas, s suas crenas a 
ideias, acantonando-se cada um em suas verdads, mas na hora do perigo 
comum se entreajudam. Pensamentos herticos estes meus, se os estivesse a 
exprimir para a Inquisio os ler, mas eu estou a fix-los aqui para mim s. 
Dou-me conta, ento, de que outros pensamentos vm rolando como ondas
de encontro queles : a desconfiana de Frei Bonifcio no aceitando o 
convite de hospedagem do janzaro, que parecia sincero; a ganncia dos 
guardas mouros; a ladroagem que nos espreita a todo o momento do alto dos 
montes; aquelas terras de Oriente em que se digladiam imprios a religies; 
aquele nosso mundo cristo que a si prprio se dilacera, como se Deus fosse 
uma boneca de trapos disputada por crianas que a puxam, cada qual, s para 
si a acabam por a no ter, desfeita que cai em farrapos a seus ps... E esta 
minha alma que no se apazigua dentro de si mesma, lutando entre o 
abatimento do eu no hbito de frade e o seu reforo pela busca de uma 
identidade ignorada... E isto quando estamos prestes a chegar a Jerusalm!... 
Gasto aqueles dois dias em deambulaes solitrias, remoendo comigo
': estas coisas, por estas paragens to nomeadas no Velho a no Novo 
Testamento como uma das povoaes mais antigas, nobres a fortes de todo o 
Oriente. Cidade fundada por Jafeth, filho do patriarca No, dela fala o livro dos 
Macabeus, S. Lucas nos Actos dos Apstolos e Flvio Josefo nos seus 
comentrios da Guerra dos judeus. Presentemente - uma terra apagada a 
quase de nenhuma memria a muito menos `: "a se lhe faltasse o porto, to 
necessrio para quem vem  Terra ~nta, pois aqui comummente desembarcam 
os peregrinos. Da sua Wandeza de outrora apenas vestgios a runas. No 
muito desviadas
mar, erguem-se num outeiro duas pequenas a fortes torres, a par .,~ma 
da outra, mostrando no topo dois aguerridos falces de bronze. entre estas 
torres que o janzaro tem a sua casa. To poderosa noutro
tempo, no tem agora resistncia alguma, salvo a cobardia dos cris`os, 
pois qualquer pequena gal a poderia tomar sem haver oposio, nnbora fosse 
necessrio muito poder para a sustentar. A um tiro de
dra, junto  borda do mar, em lugar algum tanto elevado, esto uns co 
ou seis cobertos de abbada, largos, compridos, a modo de taras. Da parte da 
terra, pelo meio da rocha, mostram haverem servido
a a construo de navios a gals. Servem agora somente para a s se 
acolherem as pessoas da calma, chuva ou frio. Em cima destes `bertos ainda 
se vem as paredes de uma igreja que aqui foi edificada
tempo de cristos, em honra do apstolo So Pedro, na casa em que 'o 
Coririo, procurado pelos criados do centurio Comlio, teve -viso do lenol 
cheio de animais peonhentos... Dentro de gua,
rnuito apartados de terra, emergem uns penedos, como ilhotezios, a que 
alguns poetas contam ter estado exposta, atada com cadeias,
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Andrmeda, flha de Cefeu a de Cassope, reis da Etipia. Porque ousou 
ela, que temeridade foi essa a da princesinha? Disputar formosura com as 
nereidas a com a deusa Juno  L vem o monstro marinho, com sua goela 
hiante a lngua de fogol Vem l para a devorarl... Mas eis, no ltimo momento, 
montado no fogoso a alado Pgaso, aparece o jovem Perseul Na mo direita a 
espada, na esquerda a horrenda cabea de Medusa... Talvez aquela espinha 
de rochas que se vem alm aflorando a superfcie do mar seja o dorso do 
monstro petrificado que num instante as guas engoliram ... Meus olhos vem 
estes penedos, minhas mos tocam a base da coluna a que esteve presa a 
linda moa. Lavores de folhagens de obra corntia, j muito gastos do tempo a 
do mar... Mas no  em So Jernimo a na sua referncia a esta histria que 
eu penso. O que meus olhos esto vendo a minhas mos afagando  o corpo 
nu a esbelto - xoc),XtaT-~v, <~ .Usot - da bela grega que vi no porto de Salinas 
...
Chegam as guardas de Jerusalm, que so uns vinte homens de cavalo, 
a com eles o lami, espcie de guarda-mor.  um turco de cinquenta anos, de 
muito formoso aspecto a pessoa de grande autoridade. Vem armado de armas 
brancas, muito ricas, montado num cavalo encobertado a um outro,  sua 
direita, da mesma maneira. Na cabea um turbante avantajado ao modo turco. 
Vem tambm o nosso padre vigrio do Convento de So Salvador, com trs 
padres, e o nosso turgimo Jacob, que nos serve de lngua, a outros trs 
frades da nossa famlia de Belm, a ainda cristos a mouros almocreves, com 
camelos a outros animais para levarem o fato a nossas pessoas.
Apeia-se o lami, com muita presteza a elegncia, a dirige-se ao padre 
Bonifcio
- Frei Bonifcio  Que prazer em ver-vos de volta - diz ele e toca-lhe a 
mo, em sinal de amizade a reverncia, a tocando-lha beija a sua prpria.
A mesma cerimnia faz aos outros frades que vnhamos em companhia, 
costume louvvel em todo o Levante a ainda em Roma e toda a Itlia entre 
gente de primor.
Que era muito amigo de nossos frades, acreditasse Frei Bonifcio, e 
bem lho podia provar, pis nunca lhes faltara com nada, de trigo a dinheiro, 
naqueles dois anos atrs que lhes minguara proviso de Franquia...
- Que quer dizer Franquia? - sussurrou, junto de mim, Frei Zedilho.
- Eles chamam Franquia... - respondi-lhe ao ouvido - ... - = (j<i em Chipre 
o ouvramos, no se lembrava?)... s terras dos cristos da nossa Europa a 
francos aos mesmos cristos.
- Porqu?
- Dos franceses, que nas Cruzadas conquistaram a Terra Santa, ~^`.'_:, 
com a ajuda de outras naes do Ocidente. nome que corre por todo o Oriente. 
Dizem frangi em vez de francos. At chegou  ndia Oriental f=. onde muitas 
vezes aos portugueses chamam frangi.
Entretanto o padre Bonifcio, dados os seus muitos agradeci~`::_ 
mentos ao lami, presenteia-o com um relgio que dava horas, consr_ trudo 
com muito artificioso requinte. Tudo o que da pobreza dos
J; : frades, dizia, o lami se quisesse servir estava  sua disposio e, 
em chegando ns a Jerusalm, mandaria satisfazer-lhe toda a dvida.  - No 
vos apresseis, padre - retorquiu o lami com cortesia, t,' mas bem se lhe via luzir 
o olho com a mira de algum proveito. No entanto...
-  esta decerto coisa muito de agradecer a de louvar -digo a `'" Frei 
Zedilho, enquanto se comeam a carregar os camelos a os outros aanmais, a 
ns fazemos uma breve colao de p-, a que a mim particularmente me 
espanta a sensibiliza.
- De que estais falando?
- Emprestar o lami dinheiro, que passa de duzentos cruzados, `gegundo 
me diz Frei Bonifcio, sem conhecimento ou escritura alguma, teas tudo sobre 
palavra que se guarda  risca l L, entre ns, que pre
.: sumirnos de ter o lume da f a da verdade, muitas vezes nem 
conheci~` nentos nem escrituras bastam para se receber o que se emprestou, -
-':ntes sobre isso  frequente armarem-se demandas...
Postas todas as coisas em ordem, iniciamos a marcha em direco `,' 
Jerusalm. Logo que todos se enfiam no caminho, uns atrs dos ''outros, que 
assim  costume caminhar-se naquelas partes, um dos ~ttLrcos que vo em 
nossa guarda, fazendo caracolear o cavalo, dispara 'Para o ar uma espingarda 
que leva, ferrugenta a mal cevada, no que ` ostram os outros com grande grita 
muita alegria, como se com aquele
o tivesse obrado uma grande maravilha. Estende-se  nossa frente `na 
longa campina, de vegetao rasteira a enfezada, a uma terra 6Llcir~ada a 
triste. A jornada ameaa tornar-se montona, mas os tur
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cos vo folgando uns eom os outros, derrubando-se, escaramuando, 
tudo com paz a por passatempo, com tanta graa que nos recreiam com sua 
reinao.
- Reparai, irmo - diz-me Frei Zedilho -, como so em extremo ligeiros a 
geis ...
- Os turcos?
- No, os cavalos - a apontava-mos.
So delgados, nervosos, de pouco comer. Da a sua leveza a mobilidade 
a suficincia para o trabalho.
- De facto  - respondo. - No so como os de nossas terras, que muitas 
vezes por os terem a engordar nas estrebarias, como porcos, morrendo os 
criados de fome, saem delas mancos a incapazes.
Indo assim nosso caminho, passamos Lida e, pela tarde, chegamos a 
Rama ou, como agora de todos  chamada, Rmula, onde nos fomos 
aposentar a umas grandes casas que esto  conta dos frades. No dia 
seguinte, em anoitecendo, seguimos viagem.
- Porqu de noite? - pergunto a Frei Bonifcio, que assim havia 
determinado.
- Nestas paragens h muitos rabes. Se caminharmos de dia, acodem 
tantos ao caminho, com as mulheres a os filhos, mal sabem serem vindos os 
peregrinos, que  milagre escapar-se das suas mos. - E de noite?
- De noite  mais seguro, levando boa guarda. Tm mais tento, pois no 
sabem a quantidade dos que ho-de acometer.
Vai adiante por guia um rabe velho, de nome Zambelo, torto de um 
olho, capito muito principal de alguns aduares de rabes. H muitos anos que 
com os frades tem particular conhecimento e amizade, e, com seu interesse, 
nos serve sempre nesta jornada a em outras coisas, sendo homem de nossa 
confiana, ao contrrio da opinio dos da sua raa, que o tm por grandssimo 
ladro.  muito dado e bem disposto, sofrido a dissimulado em quantas 
zombarias, por graa, lhe dizem.
- Eh! Zambelo - atira-lhe um dos guardas de cavalo. - No sei porque os 
frades to aceitam por guia, pois sendo torto do olho esquerdo, se to aparece 
uma encruzilhada, em vez de nos guiares para Jerusalm vamos dar a Jeric 
...
Todos se riem s gargalhadas, mas Zambelo no se d por
acliado. Deixa passar a tempestade a quando todos se calam responde:
- Nunca vos falhei Jerusalm, h mais de trinta anos que sou guia. 
Quanto a ser vesgo  uma vantagem que tenho sobre vs. Quando os da 
montanha atacam do meu lado esquerdo, sabendo que sou torto desse lado, 
pensam que no os vejo, mas ainda eles esto atrs dos penedos e o meu 
olho j deu por eles.
Estalam gargalhadas dobradas, que Zambelo com um brado faz 
,subitamente cessarem:
-A esto eles! No vos dizia?
Tnhamos deixado o bom caminho a comeado a entrar por mon4anhas 
a lugares speros.  um passo perigoso, apertado entre peneos, detrs dos 
quais nos saem subitamente uns cinquenta rabes, e do sobre ns com to 
grande grita a brados, a modo de saltea
pores, que nos causam muita perturbao. Mas logo o lami a ZamWo, 
com a boa guarda que levamos, se lhes pem diante.
- Alto a - grita-lhes o lami.
Eles abaixam a clera a param, murmurando que querem o cafarro lhes 
 devido.
- Dois madins por cada um dos peregrinos - corta o lami, uhecedor dos 
usos da terra -, no mais.
-  muito caro? - segredo a Frei Bonifcio. - No. So vinte a quatro ris.
Erguem-se vozes, discutem uns com os outros, descontentes. - E as 
cargas? Tambm tm de nos pagar as cargas que trazem. Zambelo intervm e, 
por amor dele, que lhes roga, ou por temor demais, se foram, deixando-nos 
bem inquietos. No teramos
ado meia lgua, quando nos salteiam outros e, em saindo o nos torna a 
sair um pequeno magote deles. Com todos se teve xnesma cerimnia: debates, 
rogos, porfias. Por nos vermos livres
seu enfadamento a importunao, lhes pagmos o que parece bem 
"lami, que acode por ns. No so obrigados os frades de So Frana pagar 
estes cafarros ou alcavalas, nem quaisquer outros tri
s em Terra Santa, porque, como tm c seus conventos onde vm r - e 
assim na Fencia, em Constantinopla, em Pera a noutras sujeitas ao gro-
turco-, este, em todos os seus reinos a senho
os tem feito livres a isentos. Para evitar, porm, aborrecimentos _ ies 
de perigo, muitas vezes se pagam por falta de justia. Para
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mim no era novidade, pois j o tinha visto a experimentado ao 
atravessar Castela, onde em algumas localidades nos saram ao caminho a 
exigir pedgios, portasgos a tributos que no nosso Portugal se no costumam 
pedir por serem os caminhos livres.
Pelas oito horas do dia chegamos  vila de Anatot, trs milhas de 
Jerusalm, onde nos despedimos do lami a dos seus, visto estarmos j em 
porto seguro. A fazemos alguma detena esperando o nosso carregamento, 
que, naturalmente, seguia mais devagar. Vm ter connosco dois religiosos 
armnios a dois abexins do Preste Joo, que da parte dos seus superiores 
esto incumbidos de dar as boas-vindas ao padre Bonifcio. Recebe-os o 
guardio com muita deferncia e os detm consigo, at que todos nos pomos a 
caminho. Chegamos em breve ao vale de Terebinto, grande, largo, espaoso, 
no fundo do qual, da gua das chuvas de Inverno que desce dos altos outeiros 
laterais, corre de norte a sul uma cascalhante ribeira cheia de pedras e 
calhaus. Comeamos em seguida a subir por uma montanha to ngreme a 
trabalhosa que  foroso seguirmos a p, com as montadas pela arreata, por 
causa da aspereza do rilho. Ao chegarmos ao cimo, surge-nos  vista 
Jerusalm. Estacamos em silncio a logo alguns de ns, olhos brotando em 
rios de gua, rebentando em soluos arrancados do fundo da alma, se 
ajoelham insensveis  rudeza do cho pedregoso. Outros apartam-se, 
escondendo-se pelas oliveiras que descem a encosta, para chorarem mais  
vontade. Tambm eu estou abaladadamente comovido, os olhos humedecidos, 
acudindo-me aos lbios versos soltos de um hino de louvor a Deus que um dia 
um pobre franciscano, despido de toda a roupagem do corpo a da alma, 
cantara ao ar a ao vento, debaixo do cu azul,  beira de um riacho. Queria 
neste momento possuir essa candura a simplicidade para poder erguer um hino 
sentido  Cidade Santa, mas - ai de mim - tinha-se-me estancado a beatitude 
de inspirao.
Ela a est, aconchegada em suas muralhas de pedra tisnada, o recorte 
de suas ameias encimado a rematado pelo perfil das casas, dos templos, torres 
a zimbrios de alta cruz, como se fosse a coroa gigantesca do rei dos reis. E 
aqui estou eu, o pobre franciscano, pria de algo que lhe quitaram a que no 
sabe que coisa , e a quem olhos invisveis seguem os passos...
A minha ida a Terra Santa n.o foi como peregrino, mas comp morador, 
conforme ficou estabelecido entre mim a Frei Bonifcio
de Aragusa, quando me pediu quisesse ser seu companheiro. Os padres 
que vo de famlia so obrigados a ficar trs anos, at serem revezados por 
outra famlia. Mas eu, no sei se por instinto se por algum
' vago pressentimento, julguei necessrio salvaguardar a minha liber~F,, 
dade de movimentos a consegui do nosso padre geral, Frei Francisco ;'Y:. - de 
Zamora, em Roma, antes de partir, uma licena sua muito especial -, a 
favorvel, com que pudesse regressar quando bem me parecesse.
Frei Zedilho, que na ocasio pedira para ir connosco, manifestou-me 4: ' 
tambm o desejo de no estar em Terra Santa o tempo regulamentar j dos trs 
anos a eu obtive para ele igual licena. Levvamos essas carr
~.~> tas secretamente, isto , sem Frei Bonifcio o saber, a ainda hoje 
sinto ;: foer-me a conscincia o bicho do remorso por no ter sido leal para com 
o bom do padre guardio, que, por seu lado, ficou to magoado
` ~ti:connosco que a sua caridade a complacncia no souberam ser 
supekriores  fraqueza de tirar de ns um pequeno desforo...
_ Estive na Terra Santa um ano a cerca de oito meses, se contar s o 
tempo desde a chegada a Jerusalm, a cinco de Maio de 563, da partir, a 
tantos de Fevereiro de 565. Durante esse tempo,
bora no tivesse estado o espao limitado de trs anos, todavia .' m a 
liberdade de que dispunha e o favor que conseguia do padre l nifcio a de 
outros, incluindo turcos, por sua influncia, vi muito r 's do que  maior parte 
dos visitantes a peregrinos  dado ver.
o me escaparam particularidades que, na contingncia de uma terra 
pada por infiis, a muitos no  possvel visitar. Tirava a escrito s notas, 
apostilas a impresses, a princpio despreocupadamente, s com propsito de 
recolher minhas recordaes futuras. Em
co tempo era senhor de uma grande quantidade de cadernos totalto 
preenchidos. Dizia-me Frei Zedilho, que era meu quase infal` ry companheiro 
nestas andanas
- Estais escrevendo itinerrio, para quando chegardes a Poro 
publicardes?
-- No, irmo, no estou. Tomo estas notas para um dia, quando a 
velhice a memria me no acudir, poder relembrar tudo o vi.
Folheava ele aquelas laudas, lentamente, a tornava-me. Grande mo 
por certo seria, da minha parte, querer aquilo s para mim. ruse-me daqueles 
milhares de cristos que no tinham oportua de vir  Terra Santa. A consolao 
que receberiam lendo aque
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las pginas  Seria como se c estivessem em pessoa a visitar tais 
lugares...
Pois achava?
...No falando j naqueles outros que, tendo c estado, tambm 
receberiam com o meu itinerrio refresco para as suas memrias delidas...
- Quase me convenceis.
...Ou ainda os que, sendo peregrinos, trariam na mo, como guia a 
enquirdio seguro, a minha obra, sempre pronta a ser consultada.
- Obrigado, Frei Zedilho. Creio que me estais dando um renovado valor a 
incentivo para continuar minhas notas. Porei nisso mais cuidado.
A ss comigo, considerei o que me tinha dito o meu companheiro a 
recordei alguns itinerrios da Terra Santa de que tinha conhecimento, os de 
Brocardo, de Mandavilla, j muito antigos mas constantemente vindos de novo 
a lume, a mais prximo de mim o de Varlhema, que tanto trato teve com os 
Portugueses nas partes do Oriente, e o de Frei Antnio de Aranda, publicado 
em i 5 3o a j em quinta edio, que eu possua, de i 5 5 o. As razes de meu 
companheiro calavam-me fundo e, porque no confessar?, a minha vaidade a 
amor prprio sentiam-se lisonjeados. No se visitam tais lugares sem muitos 
trabalhos a perigos, sem o contrapeso de muitos enfadamentos, mas  sempre 
um privilgio que os afortunados devem partilhar com os outros. Seria culpa - 
tinha razo Frei Zedilho -- buscar a minha particular consolao a gosto. com 
esta determinao e a partir daqui, eram as minhas visitas meticulosas, 
previamente preparadas com a leitura de uma multido preciosa de autores 
sagrados a profanos que sobre o assunto discorrem. Recordo-os, 
companheiros de tantas horas de recolhida leitura. Seria fastidioso referi-los 
aqui, tantos eles so, f citar apenas alguns seria cometer injustia para com os 
omi.ssos. Fui escrevendo caderno aps caderno a amontoei um acervo de 
material que arrumei consoante os dois centros de que irradiavam as minhas 
incurses : Jerusalm, onde estive mais tempo, a Belm. Acrescentava  
descrio dos lugares, dos templos, das casas, das portas das muralhas, dos 
restos das piscinas, de uma simples pedra - quase tudo em runas -, a nota dos 
hinos, cnticos a salmos que em cada um e parte das cerimnias religiosas, 
bem como das indulgncias que apro
:am aos que a passarem a rezarem. Anotaes tradicionalmente prias 
de um itinerrio ad usum peregrinorum, sem traos pessoais nem nolgicos, 
relato intemporal daquela matria eterna que estes temde vicissitudes 
histricas paradoxalmente vo degradando a fazendo aparecer, so descries 
frias, apenas humanizadas pelas marcas uno religiosa em que as 
enquadrava... Mas a par, sem que nin:m lesse nem o meu companheiro, eu ia 
deixando escapar relato real, da autntica impresso, dos veros sentimentos 
que naqueles ares a naqueles tempos eu passei, farrapos da alma que por l 
ficai para sempre...
No  uma decepcionante frustrao, mas uma profunda a piea tristeza 
a que se experimenta ao verificar que do tempo de Cristo ia resta. A profecia 
de Miqueias tinha-se cumprido a de Sio ficara monto de pedras. Ela que era 
to prspera a ornada, com paos ia a sumptuosos edifcios, vieram os tempos 
em que  maneira de ~po foi lavrada a semeada sem ficar memria do que foi. 
A Jerusa: que temos hoje  uma cidade turca com vestgios de muitas outras 
asalns construdas, destrufdas, reconstrudas pelos tempos fora. ~xaram-se 
aqui a chocaram-se ventos soprados do levante a do sate, do setentrio a do 
meridio. Reivindicam-na os judeus como
cidade sagrada; de todo o Islo, depois de visitarem Meca, vm Grentes 
 Mesquita de Omar, que outrora havia sido o celebrado faplo de Salomo; os 
cristos, divididos entre si, reclamam-na sua. vez alguma destas pedras que 
serviram para edificar um novo tem
uma pequena casa, um novo convento, tenha pertencido  fortade 
Herodes ou  lia Capitolina do imperador Adriano. Restos erusalm de 
Constantino, de Santa Helena, so visveis na casa do
Sepulcro a pelas caladas desertas parecem-me ainda soarem os de 
peregrinos humildes que de longe vieram a contaram o que que no era o que 
 hoje nem o que fora no tempo do doce
como a devota monja Etria na sua Peregrinatio ad coca Sancta! -se a 
cidade com a munificncia de Eudxia, esposa de Teo Protege-a o imperador 
Justiniano. Bizncio f-la uma jia de ~- plendor. Mas logo estrondeia o tropel 
das hordas prsicas que
tare, espalham a morte e a runa no meio do sangue, dos masY~dos 
incndios, das deportaes. Feridas que se procuram cicaaqui a alm, na 
Anstase a no Martyriunr, para de novo se assisin
 vaso a ao avassalamento muulmano. H runas que contam
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terem vindo depois, do Ocidente, os cruzados. Falaro outras que aos 
califas a aos reis cristos se sobrepuseram os sultes do Egipto. Um dia, 
empurrados pelos Mongis, os Turcos invadem a Anatlia, parte da Europa, 
Constantinopla cai a Jerusalm muda mais uma vez de mos. Agora quem 
aqui manda  o gro-turco, Solimo, o Magnfico... Onde esto as pedras que 
Cristo pisou? Talvez alguma destas oliveiras mais vetustas tenha presenciado 
o dobrar dos sculos... Pedras a rvores so testemunhas mudas? Este 
sicmoro  por certo descendente dos sicmoros de Jeric a talvez a sua 
sombra seja igual quela, em fechada espessura a repousante frescor, na qual 
Jesus um dia descansou do suor dos caminhos... A tradio atravs dos 
sculos tem conservado a particular memria dos lugares a sucessos, a as 
pedras, arruinadas, deslocadas, partidas, so relquias vivas dos tempos 
passados. A cada passo nos dizem cronistas antigos, como Flvio Josefo, ou 
historiadores, como Aristopeleu, ou esses livros falantes que so os 
venerandos velhos que aqui vivem a cujas rugas inculcam serem pergaminhos 
que receberam de seus avs a tradio oral: Aqui aconteceu tal coisa, ali 
outra tal... Lembro-me das consideraes melanclicas que sobre Jerusalm 
fez um velho mouro que conheci e de quem, por mero acaso ou porque assim 
o destinou a Providncia Divina, eu vim a saber algo que me dizia respeito.
Tinha eu cado doente de uma no pequena enfermidade e, na 
convalescena, achei-me to maltratado do bao que, para se me desfazer, 
saa sozinho todas as manhs do nosso mosteiro a metia pela Rua da 
Amargura a fazer minha Via Sacra. Saa as muralhas pela Porta do Templo, 
junto da qual est a probtica piscina, para ir subir o glorioso monte Olivete. 
Esta piscina permanece at ao dia de hoje.  uma funda cisterna descoberta, 
ao longo do muro do ptio do Templo, do lado de fora. Nesse muro ainda se v 
o lugar dos prticos, claramente tapados com pedra a cal. A piscina 
presentemente no tem gua, salvo a que recolhe no Inverno, qu  de muito 
pouca dura. Pela extrema humidade, nascem-lhe dentro canas a canios a 
outras plantas a ervas agrestes. Estava eu contemplando estas runas a 
rezando para obter as indulgncias que neste lugar se ganham, um mouro 
velho, cuidando que eu ia ao Templo - o que  vedado a cristos a pode pagar-
se com a vida-, comea a bradar em portugus amouriscado:
- Eh  L  Tu a  Vais fazer-lo mouro ? Ou ests enfadado de viver neste 
mundo?
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Fiquei algum tanto tocado com a pergunta a com ouvir a lingua rtuguesa. 
Olhando para ele, disse-lhe
- E.rborra! Erborra! (que na lngua mourisca daquela terra quer er: 
Espera  Espera ).
Acabando calmamente de rezar a costumada estao, me fui ter n o 
mouro, que  porta da cidade me estava esperando, a saudmos um ao outro 
com paz.
- Que vieste aqui fazer? - pergunta-me. - No sabes que no les entrar 
no Templo?
Apontando as runas da piscina, declaro-lhe a santidade do lugar, 
nistrio que ali havia aconteci.do e o milagre que Cristo havia opeo... Chusma 
misrrima de enfermos, de cegos, de coxos, de paral)s de membros 
ressicados, em chorados lamentos aguardando desse do Cu o anjo do Senhor 
a mover as guas e a torn-las milagroI E aquele homem ali, h trinta anos 
enfermo, deitado em sujo ergo, sem se poder mover!... Queres ficar so?... 
- No tenho :m me meta na gua quando ela se mover! ... - Levanta-lo e 
nha!... E ele levantou-se a caminhou...
0 niouro mostra bom rosto: - Iagora para onde vais? - NTou para o 
monte Olivete.
- Folgarei de ir contigo. Tambm para l camnho. Conio eu lhe falasse 
em portugus claro, pergunta-me: - I`?s portugus?
- Veneziano - minto-lhe eu.
 que, como os Venezianos tm paz com o gro-turco, os frades i em 
Terra Santa moram por venezianos se nomeiam para evitarem kos a 
enfadamentos. No convm ao portugus dizer que o , nem ~os ao 
castelhano que  espanhol, a assim outras naes.
. - Pois porque sendo to veneziano falas portugus?
Inv ento uma histria, para sair do lance. Antes de me fazer frade, 
Lmercador. Correra muitas terras e, para melhor negociar, ia apren0 hnguas. 
Estivera em Portugal, aprendera o portugus. Esti
k em Espanha, aprendera espanhol... Como me falara em portuR; tinha-
lhe respondido em portugus... E ele? Sendo mouro, L falava portugus?... 
Apanho-o na prpria ratoeiral Mas com dade ele responde-me:
4~'- Sou natural de Azamor. Quando era mancebo a minha terra
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foi tomada por D. Jaime, duque de Bragana. Estive cativo sete anos em 
Portugal.
- Onde?
O seu cativeiro fora no Algarve, numa cidade chamada Tavira. 
Conhecia?
Taviral Quantas tristes recordaes vinham de sbito abrir na minha 
alma velhas feridas 
O mouro continuava
- Estava em poder de um fidalgo chamado D. Antnio de Noronha.
Louvei-lhe eu muito Azamor a os seus sveis a fartura, quase dando-lhe 
a entender que havia l estado, mas falava pelo que a portugueses tinha 
ouvido. Que tal tinha sido o seu cativeiro em Portugal?... Estima tanto o 
mouro louvar-lhe eu a sua ptria que, em seu ntimo no acreditando ser eu 
veneziano mas sir portugus, me quer pagar na mesma moeda.
-- Queres que to diga? S sinto saudades desse tempo ... - Aprendeste 
l a ter saudades?
Parecia que sir. Aquilo  que eram terras  Que abundncia ! Prouvera a 
A e a Mafarnede que l tivesse continuado! Fora mais ditoso sendo cativo em 
Portugal do que livre nesta pobre terra...
- Como assim? - pergunto. - Que razo me ds para quereres ser antes 
cativo em Portugal que livre nesta terra? No  verdade que a liberdade  de 
todos to desejada, a em particular dos mouros que so cativos dos cristos, 
bem como dos cristos que so cativos dos mouros?
Isso era verdade. Mas seu senhor, alm de ser muito nobre, como ele 
era cativo de resgate tratava-o muito bem- Nem tinha cor o senhor mails 
trabalho que acompanh-lo quando ia fora de casa... Aqui nesta terra vivia 
miseravelmente, entre gente que nem a Deus nem aos homens tratava 
verdade...
Com estas palavras chegamos a josaf. Metemos pelo vale, comea 
logo o mouro a dirigir-se para o sepulcro da Senhora. Ao chegar  porta da 
igreja, tira os sapatos, beija a terra e, com lgrimas a mostras de grande 
devoo, entra nela descalo a vai beijando todos os degraus at baixo, que 
so quarenta a seis. Na capela onde est a sagrada sepultura, com 
desentranhados soluos a beija muitas vezes. Grande a minha admiraco, 
vendo em um mouro tanto fervor a em rim tanta tibiezs
que nenhuma coisa me moviam as lgrimas por ele derramadas... ;: T< 
mamos a subir as escadas e a sair da igreja. Detenho-me a fazer '` orao e a 
ganhar a estao a indulgncias no lugar em que nosso '" Redentor orou ao 
Pai na noite da sua priso a que est logo ali junto.
Espera o mouro, sem me perguntar que you a este lugar fazer nem 
porque os cristos o visitam, a feita minha orao recomeamos a char e a 
subir o monte Olivete, tratando pelo caminho das coisas
'. desta terra. A medida que trepamos, por entre arvoredo de oliveiras, 
figueiras, amendoeiras, albarquequeiros a pessegueiros, alarga-se a nossos 
olhos o horizonte: a ocidente vem-se as terras que correm at Jafo e o 
Mediterrneo; a oriente abarca-se o ponto onde o rio
: Jordo se mete no Mar Morto, grande parte deste sodomtico mar, o 
monte Naboth, as montanhas de Moab, com a maior parte da Pales.`_ tina que 
est a levante; em baixo, domina-se toda a Cidade Santa e "t:;;,uas 
particularidades dentro das muralhas avermelhadas. Paramos `'~; x contempl-
la...
3 t - Jerusalm a sua comarca - diz ele - so um vaso de ouro J .
~eio de serpentes  - E como eu o olho, esperando explicao, conua: - A 
terra  santssima a digna de ser estimada de toda a 'atura. Mas a gente que 
nela mora...
- Que tem?
- ...  a mais pssima da vida!
- A pior porqu? - pergunto, corrigindo o solecismo.
- Vaso de ouro Jerusalm a todo o seu termo por ser ptria tantos 
profetas, reis, santos a homens santificados..., mas a gente... demnios, 
serpentes infernais!...
Tinha razo o mouro em dizer aquilo? Para ele Jerusalm  e pre foi 
cidade santssima, a assim lhe chamam os mouros CuCu arabeth, que quer 
dizer lugar de bnos. Tirando alguns poucos stos armnios, abexins do 
Preste Joo, uns tantos caloiros gregos evidentemente os frades franciscanos - 
distinguia-nos o mouro -,
a mais gente que nela mora  uma canalha indmita a de con'o perversa 
- contra os seus falava. Os cristos so todos inimis uns dos outros, cismticos; 
os judeus, como lhes faltam tratos, Pam-se de malcias; os turcos vivem como 
gente sem lei a sem porque absolutamente cobiam a querem ser senhores de 
quanto m, sem haver para quem apelar por a corte estar muito longe;
86 j .:87
os mouros, como vivem anexados aos turcos, jamais se acha entre eles 
verdade nem fidelidade...
Com esta conversa chegamos ao monte Olivete a dirigimo-nos ambos 
ao mais alto do monte, ao lugar da ascenso de Cristo. Da sumptuosa basilica, 
mandada edificar por Santa Helena, esposa do imperador Constantino, no h 
quase memria apesar de n.o haver sessenta anos que foi destruda. Alm de 
cimentos aqui a alm, permanece somente uma pequena capela muito formosa 
a curiosa, de forma esfrica de oito faces, que dantes ficava no interior da 
basilica, tal como hoje est a capela do Santo Sepulcro dentro da Casa Santa. 
Por fora  ornada, a toda a volta, com arquetes a colunetas, muito 
lustrosamente coberta de abbada de meia laranja, mas no aberta por cima 
como querem alguns autores. A mo direita de quem entra est no cho uma 
grande pedra, quase cor de cera, a nela impressa uma marca como de p de 
algum que se eleva a que, segundo a piedosa a imaginativa tradio, seria a 
pegada que o Filho de Deus ali deixou quando ao Cu subiu. Beija-a o mouro 
com muita reverncia, sem eu alguma coisa lhe dizer, a ele mesmo se antecipa 
a me contar o mistrio que ali havia acontecido, como se eu o n.o soubesse. 
Coisa muito de notar em Terra Santa, a grande devoo que mouros a turcos 
mostram por todos os lugares onde Cristo esteve, assim como a Virgem 
Maria...
Com a runa da basilica constantiniana ficou este espao desabrigado a 
muito pouco reverenciado. Havia em redor casais de mouros. Os seus camelos 
a cavalgaduras, ces, gatos a galinhas, por ali andavam  vontade 
conspurcando o stio. Brincavam em tumulto os moos mouros, correndo, 
gritando a assobiando. Este desacatamento muito o sentiam os cristos, at 
que uma devota mulher portuguesa, Mcia Pimenta, vinda da ndia por terra a 
Jerusalm com muitas esmolas que havia granjeado a amealhado, comprou 
licena para o mandar cercar, o que lhe custou grande soma de dinheiro. No 
nos permite o gro-turco reedificar obra alguma cada, embora autorize a 
sustentar as que ainda esto de p. Mandou Mcia Pimenta construir um muro 
muito alto a forte, que abrange todo o mbito a rea que antes tinha a antiga 
basilica.  essa a cerca que ainda agora vemos, com suas portas, a resguardar 
a reverncia a acatamento devidos a to santo lugar.
88
Uma vez fora, estvamos para nos despedirmos um do outro, pergunto-
lhe de sbito
- Quando estiveste em Tavira no conheceste l um judeu mdico 
chamado Jacob?
Mestre Jacob? Conhecia muito bem. Teria nessa altura os seus ... dra , 
a sua idade... Um moceto acabado de cursar medicina em vora  Fora vrias 
vezes cham-lo para ir a casa de seu senhor, quando estava atgum doente. A 
mulher andava a criar um filhinho recm-nascido... - Filho  Ele no tinha filhos 
! .. .
Tinha. Lembrava-se como se fora hoje. Pegava nele ao colo, zia-lhe 
festas... Chamava-se Joo a trazia ao pescoo uma rica jia e ouro. Havia 
algum mistrio naquilo tudo, uns zunzuns como a edo, que no chegara a 
perceber, pois fora-se embora do cativeiro
`" cisamente no ano em que mestre Jacob se tinha mudado para Tavira, 
do de vora ou de outra cidade mais ao norte...
Com a cabea num turbilho de pensamentos desencontrados, uanto 
ele fala meto a mo junto ao pescoo, sob a barba, a tiro fora o meu relicrio, 
que em Jerusalm retirara do seu escondeda banha a ali fica brilhando ao sol, 
baloiando-me no peito. olhos do mouro so atraidos pela jia. A princpio no 
percebe, de repente pra de falar, no rosto uma expresso de enorme espanto. 
r All
- Sei - digo-lhe muito calmo - que mestre Jacob saiu de Porfugido  
Inquisio, que  um tribunal...
- Conheo.
'^ - Tens notcia do seu paradeiro ? Consta-me que veio para estas ' 
No, no tinhal Mas dissesse-lhe: eu era Joo, o filho de mesJacob?
';Iiesito em responder, mas o silncio e a expresso da hesitao . o 
mouro por certo v nos meus olhos so mais eloquentes do que .y
er resposta.
-- Escuta - diz. - Tenho de ir a um olival, aqui perto, a n.o arei. Espera 
por mim. Falaremos mais de espao.
Sentia necessidade de estar s, de pensar em sossego. ResponNo 
posso. Desculpa. Outra vez ser. Tenho em casa muito
89
Ao despedirmo-nos pe a sua casa e a sua pessoa  minha disposio, 
o que eu muito lhe agradeo. Vejo-o afastar-se a desaparecer na lomba da 
colina. Sento-me numa pedra,  sombra de uma oliveira, a cismar. Estranhos 
caminhos do destino! Conhecia agora um facto concreto : na minha primeira 
infncia fui criado por Sara a mestre Jacob. Quem eram eles? E eu? Filho 
deles no, certamente, pois todos os indcios colhidos at aqui, embora vagos, 
apontavam noutro sentido. Uma certeza tinha: eu no era judeu. Seno, como 
se compreenderiam as visitas que to grandes senhores me fizeram em Roma 
e as suas despedidas em Veneza? Por outro lado, porqu tanto judeu  minha 
volta? Em Veneza, em Corfu, em Cndia, em Chipre... Como um enxame de 
abelhas esvoaando em volta da minha cabea, descem comigo os meus 
pensamentos por entre as oliveiras do monte Olivete, comigo atravessam o 
vale de Josaf... Encontro com um mouro rstico, todo esfarrapado, que segue 
com dois burros carregados de esterco.  ao comeo da Rua da Amargura. 
Trago a barba comprida por haver mais de um ano que a no fao, pois nestas 
partes  costume os frades no se barbearem, antes cuidam muito dela. Esto 
mais de acordo com os hbitos dos naturais a no sofrem injria, embora 
brilhem as coroas bem abertas, renovadas cada quinze dias. Toma-me o 
mouro pela barba a dando-me dois solavancos, no muito grandes, exclama 
entre dentes
- Ah  Caciz  Caciz - como quem diz : Ah  Padre duma
figa l
Sofro a coisa com pacincia, sem ele entender de mim que o tomav<< 
por afronta, por ser assim necessrio naquelas paragens, onde os cristos 
sempre levam a pior, mormente se os sentem tomar-se do quc lhes fazem. 
Esta foi a maior ofensa que recebi na Terra Santa, tratando com turcos a 
mouros a rabes. Muito poucos so os cristos, dos que vo de Franquia a 
ainda dos da terra, que deixam de se queixar das muitas que recebem de 
gente vil a rstica. Quanto a mim, no tomei aquilo por injria, antes levei muito 
gosto e o tive por particular merc haver-me acontecido em tal rua.
Seguindo meu caminho considerando os dois encontros dest; manh 
com dois mouros to diferentes, os meus problemas pessoail quase se 
dissiparam e o meu esprito acalmou. Era do que eu estava precisando, 
penso com os meus botes, destes solavancos a empuxes nas barbas da 
alma  Quase sorrio comigo mesmo  medida
90
clue avano. Chego  fonte de Silo nesta quietao de alma. Duas 
mulheres, uma velha a uma moa, aqui esto da parte de fora. No fazendo 
caso delas, you para entrar na casa da gua a ver o que l vai, por nunca ter 
visto o lugar, comea-me a bradar a velha e a outra a secund-la, dizendo que 
no entre. Falam em arbico, mas os gestos e a vivacidade das vozes a dos 
semblantes so eloquentes. Fico algum unto interdito, mas caindo na conta do 
que poder ser, que  estarem l mulheres despreocupadas de olhares 
indiscretos, volto atrs Ronde esto a dona velha e a moa. Ainda aquela 
resmunga, diz-me esta, sentindo a minha turbao, em palavras meias 
castelhanas, meias
= No debes entrar, fratello 
- s judia, j se v. No s? - pergunto-lhe em castelhano. Alegra-se 
muito a moa, bonita, muito fresca a esbelta de corpo, wsto oval, moreno, olhos 
fundos, cheios de longes. Que sim, era judia,
cera em Roxeta, no Egipto, junto de Damiata. Judeus fugitivos, bia? De 
Castela, de Portugal... Seus pais, de Toledo... Vendo que domino o castelhano, 
a lngua que melhor que todas ela falava, r se haver nela criado, comea de me 
dizer que me faa judeu, acres~entando mil blasfmias contra a Lei Nova...
- Ests-me a pregar a mim que sou padre? - pergunto-lhe
Vem ento com palavras meigas, lisonjeiras, agarra-me o brao, Lga-me 
a barba, beija-me: Fizesse-me judeu. Casar-me-iam com 3a judia muito 
formosa, rica, honrada a de primor... (Como !", ria eu)..., estimar-me-iam 
muito a dar-me-iam dos seus bens...
-Para que me vens com essas mil filactrias judaicas? Olha para Moa 
to bem disposta a parecida, neste tanque, meia despida, scala, lavando 
roupa como se fosses escrava!... Se estivesses em panha a fosses crist, 
andarias como uma princesa, como em Espaa andam as crists-novas a todas 
as da sua laia...
Desata a chorar. Seu pai a sua me bem lhe diziam muitas vezes klas 
a outras semelhantes coisas, arrependidos de haverem dei sua ptria a 
natureza!
-- Que  l? - interrompe a velha, vendo a conversa estene que a moa, 
antes das lgrimas, n.o mostrava gostar pouco Cimes? Suspeita de outra 
coisa, vendo-a chorar?... No conmais que fale com ela, antes comea a dar 
brados, a gesticular,
9
para que me afaste. Retiro-me a enquanto caminho pelo vale, em 
direco ao lugar em que o profeta Isaas foi pelo meio serrado, dentxo de mim 
uma inefvel emoo comea a transfigurar a realidade e da minha boca, como 
dantes, vo-se-me escoando versos, um hino, uma balada pag...
Bah! Bahf Bah! Longe daqui, loiro frade!~inho, no entres na casa da 
gua
que esto lavando suas alvas camisas
as mogas de Israel, as noivas do Islo, as don.Zelas crists... No ouves 
como tagarelam
enquanto batem suas roupas de linho no esconso dos tanques 2
Pensei ser a fonte a gorgol jar, ressumando a gemendo da gruta cavada 
na lapa do monte !
No  esta a gua que d vista aos cegos e limpa a lepra do pecado
da piscina de Silo?
Sus! Sus! Sus! Fora daqui, frade,,Yinbo a~ado, no oases entrar na 
me-d'gua
que esto banhando seus corpos de ncar as filhas de Sio.
Soltaram as trangas de a!~eviche
e caem-lhe os cabelos pelos ombros de jaspe orvalhados de lu.Z a sol...
No ouves as alegres risadas das ilhas de jerusalm Z
Julguei ser a corrente a gargalhar
nos canais que vo enchendo de gua fria a gostosa a natatria de Silo
Bah ! Bah ! Bah ! Vai-lo daqui, lindo frade.,,-,inho, no queiras entrar na 
casa da gua
que esto refrescando seus brafos de alabastro,
92
suss pernas de afafro, as noivas do Crescente.
Got jam-hes prolas e a jfar das ancas torneadas...
No ouves como estalam os dedos bamboleando nsornamente os 
corpos as ilhas de Constantinopla ?
Cuidei serem rosrios de gotas polifnicos pingando das bicas nos 
tanques de Silo!
Sus! Sus! Sus! Arreda daqui, frade!~inho amado, no tentes entrar na 
me-d'gua
que esto purificando seus seios de ouro, seus ventres de prata,
as crists de Franquia.
 de leite a luar a cor da sua pele
os cabelos parecem espigas a ondular ao vento... No ouves como 
cantam alegremente
as ilhas de Roma Z
 o cristal da gua que desfere seus hinos
na toalha brilhante de Silo!
Bah! Sus! Velha tia!~inhal
Vai-lo embora daqui com teas cimes. Deixa que se olhem, se toquem a 
se amem os nossos corpos jovens...
Vem comigo, loiro frade!~inho, toma a minha mo...
No tenhas pressa. Porque me desatas a cintura ? Despir-me-ei para ti
mostrar-te-ei o meu corpo... Despirei o tea hbito
cobrir-te-ei de unguentos a blsamos raros
93
antes de bear os teus lbios de rom o teu corpo de efebo...
Bebers gua no meu umbigo rosado sobre o meu venue de mrmore a 
violeta quando eu me banhar
na fonte de Silo... Desposar-me-s a eu maridar-te-ei. Um rebanho de 
ovelhas
dar-te-o meus parentes
e cumular-te-o de bens a de rique.Zas e far-te-o rabi,
Trade.Zinho amado...
Pudesse eu, linda judia
de olhos negros como a noite, contar as excelncias do teu corpo como 
o rei Salomo ...
Mas eu procuro a gua que d vista aos cegos e limpa a lepra do 
pecado
da fonte de Silo . . .
X
A caloira grega
...'Aw~ v-r),owa xaXv 8c~pave 7spawnov, -rr,rwa N, T T 
aeuxv lap XsL~Lwvo vv-ro5, Ue xai  Xpuaa 'EXkva 8Laqpaive-r' v 
g.zv.
...Aurora ao despertar bela apresenta a face,  Noite soberana, e a 
branca Primavera findo o Inverno: assim tambm a dourada Helena 
resplandece entre ns.
(Tecrito, Epitaldmio de Helena)
- Mas porqu, Frei Bonifcio? Porqu essa to violenta expul~o dos 
frades do Santo Cenculo?...
A vida na nossa comunidade franciscana caa na rotina. Frei BoniAcio de 
Aragusa, muito empreendedor a previdente como sempre, g~ vez que a nossa 
famlia, na sua ausncia em Roma, havia sido
pulsa do Santo Cenculo pelo turco, estava dilatando a melhorando :a 
instalaes no Mosteiro de So Salvador. Todos ajudvamos a durante qtaase 
um ano andmos a acarretar cal, gua, saibro, pedra, para as  s... Palavras 
serenas as suas, apesar do assunto candente:
Era pendncia que vinha de longe, de r S ig, quando a Selim ede o 
imperador otomano Solimo. Custdio dos Lugares Santos, . Angelo de 
Ferrara. O gro-turco ordenava a sada dos francisos do Convento do Santo 
Cenculo ... A. origem do transe parece ra ido a intriga movida por alguns 
judeus de Jerusalm. Com inveja s
94
95
i de nos verem possuir este santssimo lugar, sopram s orelhas de um 
muito principal caciz dos do Templo de Salomo que o houvessem para si, pois 
nele se encontrava a sepultura do grande profeta a rei
l ~,' David, que pertencia mais a eles que aos cristos. Sabendo a 
venerao que mouros a turcos tm aos patriarcas a profetas do Velho 
Testamento, como homens que se prezam de descenderem de Abrao,
'` com palavras falsas a enganosas lhe acrescentam os judeus que, 
demais, deviam alertar o gro-turco para o perigo que o Convento do Santo 
Cenculo representava. Os Francos nunca tiraram da ideia tomar a Terra 
Santa, a aquele convento, com suas paredes to fortes, bem lhes podia servir 
de fortalezal... Folga o caciz de ouvir os judeus e, guardando tudo secreto em 
seu peito, comea a ser importuno aos frades, pedindo-lhes hoje uma coisa, 
amanh outra, at que o guardio, n.o figurando a maranha a traio que lhe 
est sendo urdida, sobremaneira se enfada. Vendo o caciz no serem 
atendidas as suas contnuas exigncias, descobrindo o jogo junta a si outros 
cacizes seus amigos a alguns turcos importantes. Este malfadado coro, de 
cores feias a acinte carregadas, chega aos ouvidos do gro-turco: de como os 
frades francos tm em seu poder aquela to santa sepul
 tura a por convento uma casa que  uma fortaleza, um bastio, um 
castelo ... Ordena logo Solimo que entreguem os frades aos cacizes a capela 
onde est a sepultura de David. Uma violncia  Toda a cristandade se di. O 
Papa Leo X exorta Francisco I de Frana a interpor
i sua autoridade. Escreve este ao gro-turco, que no cede mas promete 
no molestar os frades. Que qualquer lugar feito mesquita era contra sua f 
desfaz-la... Consegue-se ao menos que os frades no sejam de todo expulsos 
: com a capela onde est a sepultura do rei David, tm de ceder alguns 
aposentos nos baixos do mosteiro para habitao dos cacizes, suas mulheres 
a filhos, de modo que possam cuidar das
~ . lmpadas a do mais tocante  limpeza a ornato dela. O pior contudo 
estava para vir ...
- Como? - pergunto.
Estvamos sentados numas pedras das obras, empapados em suor, 
baldes de argamassa  nossa volta, pequeno intervalo para meter  boca a 
bucha de po a empurr-la com o gole de gua do cantil.
, Fora em quinhentos  trinta a seis que as coisas se agravararn. Era 
superior Frei Toms de Nrsia, eleito no Captulo Geral de trinta a cinco, em 
Ncia. O duque Andr Dria, que j em trinta a dois
obtivera em Patras grande vitria naval sobre os Turcos, continuava a 
no lhes dar trguas. Isto exacerba Solimo a uma das muitas consequncias 
 retirar qualquer sombra de benignidade para com os nossos frades do Santo 
Cenculo, que so presos com o seu guardio e levados primeiro para o 
Castelo dos Pisanos a depois para Damasco, onde grande parte deles, 
incluindo Frei Toms, morre na mais extrert^ misria a doena... Interferncia 
do rei "cristianssimo". Manda Sc ;, mo libertar os frades... Mas, enquanto 
estiveram presos, pilham ca rabes o convento, um armnio rouba uma relquia 
do santo lenho e leva-a para a cidade de Sebaste, na Armnia, junto da 
Trebizonda, no longnquo Ponto..., a Frei Bonifcio parava, por momentos, de 
falar a de levar  boca a magra cdea de po, os olhos vagos como a recordar 
outros tempos... Recuperara-a ele prprio, mais tarde... Mas as outras naes 
de cristos tambm se aproveitavam da ausncia dos frades: introduzem-se 
abusivamente nas cerimnias, chamam a si prerrogativas que eram dos 
cristos latinos... Os armnios no descansam enquanto se no metem na 
procisso do Domingo de Ramos ...
- Grande desaforo - desabaa Frei Zedilho.
Sem superior, elegeram os frades por presidente a Frei Donato de 
Cilento para que governasse at  chegada do novo guardio com a nova 
famlia de religiosos. Chega este em quarenta a um.  Frei Dionsio de 
Sarconhano. Activo, mexido  Comea a arrumar a casa, a pr as coisas nos 
stios. Chama de novo aos frades o seu costume <la procisso de Ramos, de 
to longa tradio, do tempo de Godofredo de Bulho... A reparao numa 
parede do Cenculo  interpretada Como se de fortaleza se tratasse. Novos 
embaraos  Vai o guardio a Constantinopla para falar com o gro-turco... a 
dele mais nada se fabe, se l morreu, se regressou... nada ... Segue-se um 
perodo de que se ignora quase tudo. Na longa ausncia do custdio da Terra 
Santa sucedem-se uns a outros alguns superiores ou presidentes, 4mples 
vigrios do convento, que dos factos no deixam memria: *n Frei Cesreo, um 
Frei Pedro, um tal Frei Benito, que moue em erusalm, em quarenta a cinco...
-- Nomes, datas... - intervenho. - Sabeis muito em pormenor histria 
desses tempos l
Andava a coligir matria a documentos para um livro sobre a stdia de 
Terra Santa. No seria de admirar!... De novo se levanta
96 97
o problema do Santo Cenculo, at que em quarenta a sete  eleito, no 
Capitulo Geral de Santa Maria da Porcincula, Frei Boaventura Corseto, da 
provncia da Dalmcia. Chega o novo guardio a Jerusalm no ano seguinte... 
Uma das primeiras coisas que faz  levar para o Cenculo uma preciosa 
relquia: uma pedra que estava numa igreja arruinada na Rua da Amargura, em 
que esteve sentada Nossa Senhora quando viu passar o Filho a arrastar 
penosamente a cruz, a caminho do Calvrio...
- Sei de que pedra falais - interrompo. - Dizem-me que a levou um turco 
para sua casa, depois que perdemos aquele convento... Fui v-la.
Sim. Levaram-na na mira de fazerem negcio deixando-a ser visitada a 
venerada pelos cristos ...
- A troco de dinheiro, como comigo aconteceu...
No tardaram a levantar-se mais implicaes com o sepulcro de David 
e, por Outubro de quarenta a nove, vem despachada da corte do gro-turco 
uma rigorosa proviso contra os frades. Mas por essa altura chega a Jerusalm 
o embaixador do rei de Frana, agora Henrique II, Monsiur Gabriel Arnon, que 
momentaneamente retarda a pendncia, enquanto corre  corte otomana a 
tentar interpor recurso junto de Solimo. No contava com a interposio a 
empenhamento dos santes de Jerusalm  A balana pende para o lado 
destes e a sentena definitiva chega  Cidade Santa da expulso dos 
franciscanos do Convento do Santo Cenculo. Morreu Frei Boaventura antes 
de presenciar o triste espectculo, a abominao da sada dos frades? Voltara 
 sua provncia, cumpridos alguns meses antes do seu trinio na guardiania? 
No se sabia. Em cinquenta ainda preside quela solene procisso de Betfag, 
talvez a ltima que se tenha realizado no convento de monte Sio. No Vero de 
cinquenta a um executava-se irremediavelmente a injusta sentena do gro-
turco. Era presidente dos Lugares Santos um venerando padre chamado Frei 
Paulo Manino. Acolhem-se os religiosos, imaginssemos em que lastimoso 
estado de suas almas, com que dor a sentimento, a uma casa, terreira a 
grande, que tinham vizinha do mosteiro a lhes servia de forno a de despejos...
- A Casa do Forno! Como aconteceu ser possvel estarem os frades a 
at um ano antes de chegarmos  Palestina, de cinquenta e um a sessenta a 
um?
98
Dez anos  Dez longos anos a penosos ! Fora nesse ano de cinquenta a 
um que ele, Frei Bonifcio, havia sido eleito pela primeira vez guardio da 
Terra Santa!... Vinha a caminho, j se moviam todas as chancelarias a 
embaixadas da Europa crist. Trabalhou-se o possvel por via dos prncipes da 
cristandade!... Interveno do Papa Jlio III exortando o rei "cristianssimo" a 
promover a recuperao de to grande santurio. Henrique II envia ao gro-
turco solenes embaixadores a ricos presentes. Resposta de Solimo, 
semelhante  anterior, mas mais burilada a dir-se-is que desfrutando o 
imperador anuiria se lhe permitisse construir uma mesquita em Paris, para que 
os da sua Lei tivessem onde louvar a Deus a Mafoma!... Interveno da 
Repblica de Veneza, por carta do prncipe Francisco Venrio, dirigida ao seu 
bailo ou embaixador na corte otomana, o cnsul em Sria, Alosio Manipetro, 
significando-lhe, confiado na vizinhana e particular amizade, a grande 
satisfao que lhe daria em atender com toda a pontualidade ao proveito a 
cmodo dos franciscanos de Terra Santa, em especial  restituio do 
convento... Interveno do prncipe Maurcio de Saxe, da Alemanha, 
igualmente sem resposta favorvel de Constantinopla... E sabia Frei 
Pantaleo? Adivinhasse!
- No ser difcil. O rei portugus n.o deixaria de trazer ao pleito o peso 
da sua influncia...
Sim. D. Joo III envia carta a Solimo. Que lhe pesava muito, 
reshonde este, no poder conceder coisa to pequena a um to grande 
Senhor a Rei to poderoso, por estar j o mosteiro do monte ~: Sio dedicado 
ao culto a ao rito da sua Lei, mas que por amor dele o nlandaria cercar de muro 
alto a forte, cobri-lo por cima de abbada, "aepultando-o de tal jeito que se no 
pudessem dele servir nem os frades francos nem os cacizes mouros!...
- Estranha a cnica resposta! - comento.
No quiseram nisso consentir os frades. Mais valia ficarem as cosas 
como estavam. Sempre teriam a vista daquele lugar santo e, `hora ou outra, 
como o tempo d de si, por amizade com alguns cacizes mais seus familiares 
ou por interesse monetrio, l consegui?nam visit-lo. At algum peregrino de 
mais autoridade, se ali vai, m mo pendente a s escondidas o deixam 
entrar.
- De modo que valia, rogos, nada demove o gro-turco 
Que os frades se retirassem para Belm, era a ordem!... De novo 
embaixador Alosio Manipetro representa a Solimo o grande agravo
99
que fazia aos religiosos latinos, pospondo-os s outras naes crists 
que tinham em Jerusalm os seus conventos. Reconhece o turco a injustia a 
manda que se d aos franciscanos uma igreja dentro dos muros da Cidade..., 
a olhava a levava nossos olhos olharem ali em frente So Salvador a as obras 
que andvamos levando a cabo ... Passava-se aquilo, segundo a datao 
turca, em meados do ms ltimo de Giomadi, no ano de 96o, na nossa era de i 
5 5 3, ano em que chega a Jerusalm...
- ... o novo guardio... - adianta Frei Zedilho...
- ... que se chama - atalho com satisfao - Frei Bonifcio Estvo de 
Estanho, ou de Ragusa, ou de Aragusa ...
Pobre dele, que chegava  Cidade Santa pouco depois de os frades 
terem desocupado o convento do sacro monte Sio  E acbando-os na Casa do 
Forno, em lugar to estreito a desacomodado, tivera grande aperto de alma a 
fizera as diligncias possveis para recuperar o Santo Cenculo ... Mas que 
podia um simples franciscano onde prncipes, reis, imperadores haviam sido 
impotentes?... Sim. Fora nesse ano de cinquenta a trs que chegara a 
Jerusalm. No podendo restituir aos frades o Santo Cenculo, procurara 
minorizar-lhes os sofrimentos e curar-lhes as feridas, que ainda sangravam, de 
tanta morte ocorrida e do martrio de alguns deles. Recordava com mgoa o de 
Frei Joo de Zuazo, em cinquenta a uml O de Frei Junpero de Sicilia e o de 
Frei Joo de Mntua, em cinquenta a setel...
- Estavam no Cu, podiam interceder pelos frades - acudia Frei Zedilho.
... que bem precisavaml Demoravam os turcos a dar cumprimento  
ordem de Solimo, a arranjar-nos casa em Jerusalm. Os frades continuavam 
no Forno. Entretanto, alguns dos templos mostravam graves sinais de 
deteriorao, como a cpula do Santo Sepulcro, que ameaava ruir. O Papa 
Jlio III ordena a Frei Bonifcio atenda sem demora ao seu reparo. Estava-se 
no ano de cinquenta a quatro. O guardio, tirando-se de cuidados, vai  cidade 
de mesa, onde se encontrava Hamed Bax, gro-vizir a privado de Solimo, 
de cujo, akbtrio pendia a conservao do templo. Saca-lhe,  fora de dinheiro, 
despacho favorvel, que no regresso a Jerusalm apresenta ao cadi da cidade. 
Este autentica o documento a as obras fazem-se; assim como muitos outros 
benefcios na Casa Santa... Deste modo se haviarn escoado os dois primeiros 
trinios da sua guardiania, trinios bem
200
compridos, pois tendo sido eleito em cinquenta a nove guardio da Terra 
Santa Frei Antnio de Brgamo, no Captulo Geral de quila, no chega a 
ocupar o lugar a Frei Bonifcio assegura o cargo, como guaxdio actual ou 
efectivo. Em quinhentos a sessenta, pela Quaresma, fora pregar a Alepo e, no 
regresso a Jerusalm, tem a alegria de mudar com os frades...
- Finahnente 
... fnalmente, da Casa do Forno para a que havia de ser este Convento 
de So Salvador... E quando se prepara, cheio de entusiasmo, para encetar 
obras de acomodao a beneficiao da nova casa, chega de Roma o novo 
guardio, Frei Aurlio Griano. Bonifcio de Aragusa regressa a Itlia. O resto j 
ns sabamos, no era verdade? Que Frei Aurlio governou os Lugares Santos 
pouco mais de dois anos e em sessenta a dois j havia partido de Palestina, a 
assistir  Congregao Geral presidida por Frei Francisco Zamora...
- A administrao da Terra Santa a cargo de Frei Jeremias de
... a Frei Bonifcio a ser de novo eleito guardio para um rceiro trinio, e 
a percorrer terras de Itlia com este seu humilde xvo Pantaleo, para reunir 
nova famlia franciscana...
... a s agora a efectivar as obras que deviam ter sido feitas L trs anos  
Louvado seja Deus ! - rematou o bom do guardio ... E l fomos todos outra 
vez suar as estopinhas, carregando baldes
pedra a cal, com a alegria de trabalharmos em obra santa. Erguaos a 
nossa casa para servio de Deus  E a obra crescia a olhos vistos, xe era um 
gosto. Uma parte de ns, todavia, no morava em So Saltdor, mas no 
mosteirinho que tnhamos no lado norte do templo a Santo Sepulcro. Subimos 
para ele por uma escada larga, de sete  oito degraus, que fica dentro da Casa 
Santa. A porta  rasgada no
prprio muro e, entrando por ela, damos logo na igreja, pequena, ~nte 
quarenta ps de comprido a vinte a oito de largo, com seu ko a cadeiral muito 
bem acabados, onde os frades dizem sempre cfcio divino s mesmas horas a 
tempos, de noite a de dia, tanto cantado ~tno rezado, com as mesmas 
cerimnias a liberdade com que o cosWarnos fazer nas nossas partes 
ocidentais da cristandade. A capela Nt. igreja, tomada em separado, ocupa 
quase toda a rea da igreja
muito curiosa com seu retbulo muito grande a formoso, ainda ahtigo.  
dedicada em honra a louvor da Virgem Maria a em mem
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ria do aparecimento de Cristo no dia da ressurreio. A mo direita de 
quem entra est um altar pequeno a na parede dele, como sacrrio, um vo 
com sua grade de ferro. Dentro dele um bom pedao da coluna a que Cristo foi 
atado na casa de Pilatos, quando foi aoitado. A mo esquerda, fora da capela-
mor, est outro altar a na sua parede uma pequena relquia da Santa Cruz. A 
norte da igreja h uma porta que d para o interior do mosteirinho. Este, se 
bem que muito pequeno, tem todas as oficinas como cumpre aos conventos 
grandes, de tal maneira que, quando os peregrinos vm de Franquia, os 
agasalhamos a todos comodamente, posto que sejam numerosos. No se 
cozinha a, porque do Convento de So Salvador nos mandam todos os dias a 
proviso necessria.
*s altos deste mosteirinho so ocupados pelos turcos a cacizes do 
Templo de Salomo, aos quais nestas partes chamam santes. Moram a com 
suas mulheres a filhos a de tal maneira ensenhoreiam tudo que no  possvel 
sarem os frades ao descoberto, sem deixarem de ser vistos. No obstante, 
temos uma pequena parte a cu aberto, a modo de ptio, onde est uma pia 
para lavar as lmpadas a outras coisas necessrias. Em nenhum outro sitio d 
sol seno ali a no Inverno nunca dura duas horas inteiras, por causa da muita 
altura dos edifcios. Para se ir para o dormitrio ou para a varanda alta a 
interior da cpula da igreja do Santo Sepulcro, donde costumamos assistir s 
cerimnias do culto, no se pode passar seno por esse ptio. Da parte de 
orient, norte a sul tm os turcos os altos; da parte de poente est uma escada 
que vai para a varanda do templo a junto a esta escada fica uma cmara de um 
desses cacizes: d sobre o refeitrio dos frades e tem o sobrado de tbuas de 
tal jeito que, se derramam gua, nos cai sobre as cabeas e, se se fala, ouve-
se tudo o que se diz. Por isso nos convm falar sempre submi.rsa voce a andar 
armados de pacincia. A cmara tem uma grande janela que cai sobre o ptio, 
com grades de ferro bem largas a meias quebradas, que facilmente pode caber 
uma pessoa por elas.
Poucas ocasies se passam que no estejam  janela duas turcas 
formosssimas, mulheres do caciz. Este, ainda que particularmente no 
comunica com os frades, tnhamos entendido ser-lhes muito afeioado a 
devoto, tanto que pensvamos ser secretamente cristo, porque, oferecendo-
se ocasio, nos favorecia em tudo o possvel.
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- Que pena  - diz-me Frei Zedilho, muito estomagado. - No termos 
liberdade para sair todo o tempo a este lugarl
- No sei porqu - replico. - Se ns insistirmos erii passar ou estar por 
aqui, talvez elas tenham algum pejo a no apaream.
- No creio, pelo que tenho visto. Esto sempre a, dir-se-is que acinte. E 
isto  mau, pelo que toca  honestidade dos frades, como pelo perigo que nos 
pode empecer...
- Que perigo ?
- Podem dizer que olhamos para a sua janela. - E da?
- Da, como so inimigos, convm viver com eles muito cautelosamente, 
porque de coisas que no tm ser nos podem arguir muitos enfadamentos.
Tem aquele santo, ou caciz, dois meninos muito azadinhos. O m.or, 
que ser de oito anos, chama-se Mustaf, o outro, de cinco kt seis, Ismael. 
Amostra-lhes o pai, sobretudo ao mais novo, grande amor. Tem tambm em 
casa um sobrinho, de alguns catorze anos,
que chamam Abcader. Como no sou tmido, como Frei Zedilho, tem 
reservado, costumo ir muitas vezes para aquele ptio rezar ao iol rneu 
brevirio. Os meninos pem-se  janela a verem-me andar de l para c a de 
c para l. A princpio comeo por ouvir uma alga~%via, em palavras arbicas 
ou turquescas que no entendo a no ser
ue se dirigem a mim. Sinto que por trs deles as turcas os instigam no 
tardo a ouvir,  mistura, algumas palavras italianas, de maneira ue em alguma 
coisa nos podemos compreender. Vem ao de cima o meu itio amistoso, de 
modo que tomam estes moos muita amizade comigo.
*~ngraa o pai com esta situao a manda-lhes fazerem-me muitas 
cariades de coisas de comer, como fruta a verdura, de que os frades care*mos 
por no termos hortas nem pomares. Metem tudo num cesto ;-com um cordel 
mo lanam abaixo. Sobretudo  noite, quando est
;u casa, gosta o pai de se pr  janela, da parte de dentro para no r 
visto, a ensina os meninos a tirar palha comigo, de que toma tanto sto que lhe 
ouo dar risadas.
No estou com meias medidas a digo-lhes
-- O vosso Mafamede  magino, marfu:~, can .Zil a Zarbul.
Quer isto dizer louco, mau, porco a co, mas nem por isso o caci7 d por 
achado a mostra muito gosto quando eu digo:
- Isac, Abrao a outros patriarcas so melia (que quer dizer bons).
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De dia o pai no est em casa. As turcas suas mulheres vm ento pr-
se  janela, para serem vistas, a tambm se querem entremeter e ensinar os 
rapazinhos, incitando-os a que me chamem a travem comigo. Vai assim por 
diante a conversao a no ficam atrs as caridades. Para de alguma maneira 
retribuir as ddivas, dou aos meninos, para entregarem a suas mes, uns 
brincos a um abano de papel. So objectos sem grande valor, que eu trouxe de 
Veneza para acudir a favores, mas como os turcos a mouros so naturalmente 
pouco engenhosos a muito grosseiros, aquilo foi para elas um presente to 
valioso e delas to estimado que o andaram mostrando de casa em casa por 
toda a cidade, como coisa de espanto, a os parentes do caciz vm-me visitar  
fresta da Casa Santa por onde nos metem o necessrio. Todos os Lugares 
Santos a muito especialmente o Santo Sepulcro esto a cargo das diversas 
naes crists, que ao longo dos sculos se ocupam, cada uma, do seu sector: 
gregos ortodoxos, armnios, abexins, catlicos latinos a outros. Mas os turcos 
guardam ciosamente a chave do templo do Sepulcro, controlando as entradas 
a cobrando dos peregrinos gorda maquia. Da que, morando ns dentro, nos  
foroso ter aquela fresta, por onde somos servidos sem incomodarmos os 
guardas turcos.
Com estas ocasies a amizade cresce a as obras no faltam, nem 
boleimas os mais dos dias. A altura da janela no  muita a pela parte do 
templo, subindo sobre uma parede que d pela cabea de um homem, feita 
para impedir a vista da janela quando passamos para a varanda da cpula, se 
pode muito bem dar qualquer coisa a tom-la de mo a mo. Tambm no 
ser difcil a algum agarrar-se s grades e, alando-se, penetrar pela janela.  
a santidade do lugar, a honestidade do sentimento religioso que no permitem 
chegar a comunicao a tanto, posto que a singeleza das turcas e a devoo 
que me mostram do ocasio de se fazer? Chego a estar junto da janela, 
beijando-lhes as mos, acariciando-as, enquanto me afagam a barba, o rosto, 
o cabelo, um dia que os moos foram para casa de uns parentes.  minha 
conscincia que se me pe a badalar que aquilo no  certo, pois est a 
colocar em perigo toda a comunidade?... Resolvo pedir ao padre Bonifcio que 
me deixe ir para o Convento de So Salvador e, por meias palavras, dou-lhe 
conta do que se passa acerca da familiaridade das turcas, advertindo-o do que 
o tempo ao diante pode fazer, embora a coisa somente seja comigo. Considera 
ele muito bem o caso e o perigo
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grande que as coisas daquela qualidade trazem, a mais com gente infiel, 
e como homem que tem experincia dos costumes da terra determina com 
bom zelo atalhar o inconveniente. Um dia, estando eu presente, tomando de 
parte o caciz, como amigo a zelador da sua honra lhe fala desta maneira:
- A experincia que tenho de tantos anos do muito amor que dedicas aos 
meus frades me d atrevimento para to pedir uma merc. - Oh  Guardio  Por 
quem s  Alguma vez to neguei um favor? - diz o caciz sorridente.
- A mim me vai muito no favor que to peo e a ti em mo fazeres. - 
Homem, fala 
- Bem sabes, senhor, que tuas mulheres... - Minhas mulheres? - 
pergunta atnito.
Faz Frei Bonifcio, com a mo, um gesto de que aguarde o resto da fala:
- Tuas mulheres so moas a formosas... a to s velho...
O turco, que tinha feito com a cabea um aceno risonho de assentimento 
 primeira parte da frase, muda o semblante para preocupado e quase 
carrancudo ao ouvir a parte final. Frei Bonifcio finge que no nota a 
prossegue:
- Os meus frades so de diversas naes a filhos de muitos pais. Aquela 
janela da tua cmara  muito devassa e, como o demnio  Bubtil, n.o queria 
eu que em algum tempo nos vssemos inquietos e enfadados. Portanto, pois 
sempre to mostraste a to mostras to nosso amigo, folgaria com teu favor 
prevenir todo o possvel inconveniente. Rogo-te, por isso, pelo amor do Senhor 
Deus a pela amizade que nos ",inostras ter, que mandes tapar essa janela. Em 
qualquer outra parte da tua casa que melhor to parecer manda  minha conta 
abrir outra tom grades a vidraas da maneira que quiseres. Alm disto, dar-te-
ei hem saquins de ouro para tapares a boca s tuas mulheres, se mostrahIem 
tomar nisso pena.
Ouviu o turco com muita ateno ao padre guardio e, pondo ~le os 
olhos encarniados, cheio de clera lhe responde:
- Guardio  Guardio  Tuas palavras so muito boas, mas o ~Gcu 
corao  mau a pssimo.
- Que dizes, caciz?
- No posso negar que sou velho, pois a idade o est mostrando, minhas 
mulheres moas a formosas, como to dizes...
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- Escuta 
- ... mas tenho-as eu por muito virtuosas a honestas. Os teus frades, 
ainda que, como dizes, so de diversas naes a muitos deles mancebos, a 
todos tenho por mais virtuosos a honestos do que to s. - Valha-me Deus 
- Passa de quarenta anos que moro nestas casas a conheo muito bem 
os frades a sua virtude a honestidade. Nunca vi nesta cidade guardio to 
malicioso como tu. Mas, j que cuidaste uma coisa to esquecida a penso que 
s por tua malcia inventada, aquelas grades que vs quebradas eu as 
mandarei de todo arrancar, para que a janela fique desembaraada.
Frei Bonifcio caa em si, estupefacto, no sabendo que lhe tornar. Ele 
continua:
- Mais quero eu o gosto que tenho de ver os frades, ainda que os no 
posso comunicar como desejo, por mo defender minha lei, e mais estimo eu o 
contentamento que minhas mulheres a meus filhos tm em se porem quela 
janela que os teus cem saquins a quanto dinheiro h em Franquia.
Cala-se por um momento o turco. O seu olhar endurece e o seu 
semblante contrai-se num ricto severo
- E se, andando o tempo, como dizes algum fizer o que no deve, o 
que Deus no permita, pag-lo-.
No soube mais Frei Bonifcio que replicar ou que fazer seno lanar-se 
aos ps do turco a pedir-lhe com toda a humildade perdo. Nesse mesmo dia 
fui morar para o nosso Convento de So Salvador,
mas a imagem que de mim faziam os turcos de frade amvel a bem 
disposto com seus filhos a mulheres levava a que at a me visitassem e me 
trouxessem presentes, lamentando-se de eu ter vindo embora. No podia 
deixar de aceitar aquelas ddivas a as mostras de amizade, para os no 
magoar, mas a minha conscincia estava-me ensinando que a malcia residia 
em mim a no neles, que sempre mostraram singeleza a limpidez de alma. Dei-
me conta de que acontecia comigo uma estranha duplicao: o meu corao 
apaixonava-se, prendia-se, mas o meu esprito pairava por cima, como 
espectador imparcial e frio, observando o que se passava a emitindo at juzos 
de valor. Dir-se-is que era espectador de mim mesmo. Muitas vezes chegava a 
ser fatigante o contnuo dilogo interior que se travava entre mim a eu. 
Fundirem-se os dois, de modo a poder eu concluir que no era um
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hipcrita ou um fingidor incapaz de qualquer sentimento ou pe~:samento 
veramente sincero, era coisa muito rara. Ainda quando estava sozinho comigo 
era difcil. Tinha a acompanhar-me, como se fosse urna sombra, o meu 
espectador, nem sempre discordante mas sempre crtico a exigente. As vezes 
interrogava-me sobre qual de ns os dois seria o franciscano. No era fcil a 
resposta, porque umas vezes me parecia que o franciscano era o eu do 
sentimento, outras vezes o da razo. Acabava por chegar  concluso de que 
franciscano que se preze, franciscano como So Francisco, tem o seu mim e o 
seu eu... O arrazoado em que me embrulho! Mas, apesar de todas as minhas 
limitaes, dvidas a certezas, hesitaes a determinaes, desejos a 
renncias, considero-me um franciscano de lei... Deveria ter chorado ao
`. calcar esta terra bendita, ao olhar esta cidade, ao percorrer estas 
ruas? Deveria ter ingido chorar?
No sou digno de estar aqui!, diz-me o eu do sentimento. Mas logo 
acode o eu da razo a repor as coisas noutros termos e a v-las ` por outro 
prisma: Olha! Escuta! O fantasma de Cristo de novo res
suscitado do tmulo, as sornbras dos discipulos a das santas mulheres 
vagam por estas paragens, ouvem-se-lhes as vozes a os passos, a multido 
que O acolhe,  porta da cidade, com ramos de palmas a de oliveiras, O 
aplaude, para logo a seguir, rostos demudados em `.esgares, punhos cerrados, 
vociferar a ulular:
- Hossana ao filho de David  - Crucifige eum  (Crucifica-o ) - Grande 
profeta est entre ns  - Hossana! Hossana 
- Barrabrsl Barrabrsl _ - Que  a verdade?
Aqui dizem que foi a casa de Caifs. Ouo o galo a cantar. Uma Y`~ez... 
duas vezes... trs vezes... Como Pedro atraioei a Cristo. Sinto ;ao longe, no 
tempo a no espao, a ira da multido:
--Crucifige euml Crucifige eum!
Porque me escolheu a mim Frei Bonifcio quando recebeu da oira grega 
recado lhe enviasse um confessor? Que se encontrava oente ... Logo a mim, 
que to abalado a perturbado ficara pela beleza la l Devia eu ter-me furtado, 
recusado, tanto mais que aquela prieira impresso, em Salinas, comeava a 
esbater-se, com a iluso da nte de Silo, com a histria das duas turcas... Mas 
no  Houve qual
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quer coisa em mim que surdamente me impeliu a ir, me levou a sentir 
em ir grande satisfao, a ficar ansioso por tornar a v-la...
Estava de cama. A febre afogueava-lhe as faces a punha-lhe nos olhos 
estranhas luminescncias a nos lbios uma viveza mais penetrante, tornava 
ainda mais esplendorosa a sua beleza. Mal a olhei senti vontade de a beijar.
- Ah  Sois vs, Frei Pantaleo - exclamou sorrindo levemente a 
estendendo o brao, meio nu, solicitando a minha mo, a pedir a bno.
E eu, que sempre repugnei me beijassem a mo, por achar que o no 
merecia, como me escaldou a alma o contacto dos seus lbios quentes a duros  
Sustinha-ma, mal a aflorando, com os seus dedos finos a esguios, muito 
brancos. No gesto de lhe recusar o sculo, um gesto calmo, paternal, quase 
uma bno, afaguei-lhe por instante os cabelos loiros, cetinosos.
- Irm  - murmurei.
- Helena - disse ela, nomeando-se, levantando a cabea, erguendo os 
olhos para mim, que me conservava de p junto do leito. Fui muito incisivo a 
directo:
- Irm Helena  Pedistes confessor. Aqui estou. Mandou-me Frei 
Bonifcio. Devera ter mandado outro que no a mim. Se souvesse que se 
tratava de vs, teria recusado vir.
Mentia-lhe, evidentemente, pois eu sabia de antemo de quem se 
tratava. Esbugalhou para mim os olhos que se escureceram como poo sem 
fundo, se encheram de gua a com a voz embargada disse muito lenta a 
magoada
- Tambm vs, Frei Pantaleo! Que mal fiz eu para ser assim castigada? 
Tambm vs fugis de mim como os vossos frades em Salinas, como se eu 
fosse o demnio a concorresse para perdio de vossas almas  Tambm vs 
me odiais  - e escondia a cabea no travesseiro, em aflitivos soluos a 
arranques dos abismos do peito.
Muito angustiado com a sua aflio, sentei-me na borda da cama, pus-
lhe a mo no ombro que encobria a cabea a disse-lhe:
- Acalmai, irm. A razo no  essa. No  essa.
Soerguendo-se um pouco a olhando-me de travs com aqueles olhos 
grandes, chorosos, perguntou:
- Qual  ento? No me odiais?
- Pois  esse o grande mal - disse eu a custo, imprudentemente.
Transformaram-se-lhe os soluos em pranto desfeito e, ocultando de 
novo o rosto, dizia com a voz enrouquecida a entrecortada, aba~~ fada nas 
fronhas:
- Ide-vos embora... Tm razo os frades... Eu sou o demnio... Ide-vos, 
ide-vos, que at a vs eu transtornei.
Batia com os punhos no travesseiro, fora de si. Depois virou-se 
subitamente a agarrando-me os ombros com as duas mos gritou-me como 
louca: Queria saber porque mandara pedir confessor? Sabia qual era o 
pecado, o grande pecado que queria confessar?, a muda
`va-se-lhe a voz num cicio: Ia ver-me  igreja, quando dizia missa... ^,. 
Escondia-se, toda embiocada em seu vu, entre as caloiras... Deus! Tambm 
ela me no odiava!... E esse era o grande mal!...
Os seus dedos acariciavam-me a barba anelada, tinha o rosto lavado em 
lgrimas - to belo! - junto do meu, as nossas respiraes arfavam prximas, : 
mbebiam-se-nos os olhos a as nossas bocas uniram-se...
r - Que mago escopro to esculpiu, mulher? O teu corpo  como y 
mrmore de Paros, finamente lavrado ... Foi Fdias? Mron?...
- So os teus olhos que me esto afeioando o rosto, o jeito dos teus 
dedos a tornear-me os ombros, a cinzelar-me e a amaciar-me a E
andulao das ancas, as tuas mos em concha a amoldar-me os seios, 
a desejo da tua boca a delinear-me os lbios ...
Cantava o galo trs vezes em frente  casa de Caifs. Na mornura da 
tarde que caa uma figueira morta recortava na luz do crepsculo, _ : xtraas 
da janela, seus ramos estiolados, despidos, retorcidos. Judas ...
z.Crucifige euml Crucifige cuml, ouvia-se clamarem as vozes 
fants'.tcas do passado, l para as bandas das runas que diziam ser do 
litostroto em que Pilatos julgara Cristo...
Que  a verdade?...
Rebelaram-se as nossas conscincias, aps um perodo excitado ante o 
qual, a pretexto da confisso  doente, eu tinha entrada em casa a acesso ao 
seu quarto. Era uma casinha trrea, pegada com o
nvento das caloiras em que ela desejava ingressar. A vivia com as aias 
antes de tomar votos. O quarto era muito asseado mas modesto, r mo convinha 
a quem pretendia abandonar a riqueza e o mundo.
nico atavio era, numa mesinha, em frente de uma janela, aquela
208 209
jarrinha com flores. Era confisso, sim, eram inflamadas confisses as 
que fazamos um ao outro. Em nossa loucura pensmos por momentos em 
deixar a religio, em fugir, em reconstruir num qualquer lugarejo azulado a 
branco, algures no Mediterrneo, as nossas vidas comuns. Mas se os corpos a 
as vontades se rendiam, as almas estavam em carne viva, doloridas, 
magoadas, que no se quebram votos ou intenes de votos impunemente, 
votos que significavam tambm posies tomadas pela vontade em ocasies 
diferentes desta.
Um dia Helena disse-me:
- Tu s confessor. Ests habituado a ver as paisagens das almas. 
Estranhas a temveis paisagens devem de serl... Queres ver a minha? Olha 
que negra est, no meio de tanta felicidade !
- No h pico ensoalhado de montanha que no tenha a seu lado o mais 
negro, sombrio a profundo abismo...
- Porqu, meu Deus? Porque h-de ser pecado?
- No me fales nisso. Os laos dos meus votos so muito mais cerrados 
que o teu desejo de os tomar...
Eu falava quase como se fosse s comigo:
Mas ser verdade que quebrei os meus votos? Amar-lo no ser cantar 
um hino de louvor a Deus que tal obra criou?... Isso me redimir. Quem  que 
pde chamar  tua beleza obra do diabo?...
Do alto dos minaretes vinha-nos o bradar estridulo dos cacizes 
convidando os crentes a rezarem seu sal. Pela janela entreaberta viam-se 
campanrios de igrejas com seus nichos dos sinos vazios a calados, que os 
no consente o turco.
- Em terras de cristos tocam os sinos, a estas horas, as ave-manias... 
No os ouves?...
Acenou-me que sim. Senti renascer em mim aquela fora interior que me 
invadia outrora, quando era novio, a me levava a cantar e a versejar. Helena 
tinha a cabea encostada ao meu peito, a ouvir-me o pulsar do corao.
- Ouo os sinos no bater do teu corao ...
Muito lentamente, quase cantarolando, deixando cair as slabas como a 
arremedar o badalar dos sinos, disse-lhe:
O relgio no deu horas
na torre de So Salvador...
- Mas est a dar ... - respondeu sorrindo, encostando mais o ouvido ao 
meu peito a erguendo para mim um olhar enternecido. I'_u prosseguia do 
mesmo jeito:
...porque no h horas
nem tome de So Salvador...
- Que  que to deu, meu querido? Que estranha linguagem  essa? No 
sejas tonto...
...no h tempo nem espafo... S h eu que penso
e talve!~ amo...
- Talvez? - interrogou.
Em silncio tomei-lhe as mos que longamente acariciei. Beijava-lhe as 
palmas a fechava-as logo no gesto de que no deixasse fugir o beijo. 
Mergulhava depois o meu olhar no seu.
- Meu querido - murmurava ela, cheia de ternura, com os olhos rasos de 
gua, comovida.
Tu no s as tuas mos finas nem os teus olhos sem fundo nem a tua 
fala insinuante...
s tonto 
Tu no tens forma no pisas a terra
com teus pe!~itos leves...
- Sou um fantasma  - dizia, num breve gargalhar que lembrava gorjeio de 
ave ou cristal de gua gorgolejando na fonte, sem compreender ainda aonde 
aquilo levava.
No perfumaste o dia de ontem
no enches da tua presenja o dia de hoje nem hs-de ser a saudade de 
amanh...
20 ;2
- Perfumas to a minha existncia  - dizia beijando-me a boca.
Tu no s perfume nem sorriso
nem saudade...
- Que sou ento? Diz. Que sou eu para ti?
Tu no s presenfa nem ausncia to no s to
s a minha nsia...
Abracei-a perdidadamente, beijava-lhe os lbios quentes, beijava-lhe o 
sorriso na comissura dos lbios, beijava-lhe os olhos a as lgrimas, e, ao passo 
que o fazia, ia-lhe dizendo:
Poema do Absoluto !
No h lbios nem sorrisos no h olhos nem lgrimas nem mos nem 
gestos
nem palavras nem ideias...
Ia ela a falar, mas eu pus-lhe um dedo na boca para que no dissesse 
nada.
Pe-me todos os dias flores naquela jarra, Helena,
de modo que nunca iquem murchas... As flores so belas
e o teu vulto encantador... Mas quando as olho
e quando em ti reparo j no h jarra
com fiores frescas em cima da mesinha nem j teu vulto
22
corta suave a meigo o ambiente esttico deste quarto...
Ela comeava a compreender e a compreenso sbita da ideia que 
surgia mudou-lhe o semblante. Tornou-se sria, os olhos toldaram-se-lhe de 
um negrume como de lago que nuvem ensombreasse.
J no h este quarto nem estes mveis nem a paisagem
que se descortina da janela nem a janela
no h vida nem cenrio...
Afastei-a de mim para a contemplar melhor,  distancia dos meus os, 
como se fosse de uma distncia infinita a intemporal, tocandoos ombros de 
leve.
Poema do Absoluto!
E ela repetiu, apenas com o movimento dos lbios : Poema do luto 
No h a matria que to s:
a lama das tuas mos delicadas
e o barro dos teus olhos cristalinos... No h a anatomia
do teu sorriso doce e do teu gesto suave nem a geometria divina do teu 
corpo
nem o segundo da tua bele!~a eterna... Ouve...
- No  Isso  terrvel  Comeo a ter medo...
No h tambm o barro a lama
23
anatomia a geometria e ndice de tempo que sou eu...
- Meu Deus ! Cala-lo !
H apenas
a regio divina
a regio sem cenro de que s sombra
e vaga ressonncia...
Afastou-se de mim a foi aninhar-se num canto a soluar baixinho.
...onde Deus no vive porque no morre no pensa
porque  pensamento sem palavra no se move
porque no se circunscreve em espafo...
Fui busc-la, abracei-a, afaguei-lhe a face, procurava-lhe com os dedos, 
com os lbios, a expresso do rosto em que passavam rpidos e se 
transmudavam sentimentos fugidios.
Eu caminho para alm do teu sorriso mergulho mais fundo
na fundura dos teus olhos ouFo mail longe a mais subtil na harmonia da 
tua vo.Z...
Corriam-lhe em fio as lgrimas pelas faces a baixo, mas os seus olhos 
muito abertos no deixavam de fitar-me.
Poema do Absoluto l
O relgio no deu horas nos sinos de So Salvador porque no h horas
nem sinos de So Salvador.
24
Abraada a mim, com os olhos cheios de lgrimas, beijou-me e disse, 
depois de um longo silncio em que os nossos pensamentos se nos revolviam 
inquietos no esprito
- s um homem de Deus, ainda quando amas uma pobre mulher como 
eu. Dizes que sou obra divina. Consola-me a ideia de ser uma ponte entre ti a 
Deus. A Ele pertences, de verdade. Ele me d foras para fazer o que tenho a 
fazer.
- E que  que tens to a fazer?
Apertou-me muito nos braos, escondeu a cara no meu ombro e 
murmurou-me ao ouvido
- No mo perguntes...
No dia seguinte, quando a procurei, encontrei a casinha fechada. 
Embora doente, tinha abalado com as aias para no se sabia onde. Nunca 
mais a vi. Ao contrrio do que diziam os versos, ainda hoje trago na alma a 
suave mgoa de uma saudade que veio fazer compa-nhia a outras duas que j 
a moravam.
` Emoo a abalo longo tempo sentidos foram eles que ditaram  minha 
deciso de sair, tambm eu, de Jerusalm. Nas contradies ,due se 
chocavam na minha alma, no sei bem se fugia de Helena a de ''tudo o que ma 
recordava, ou se, pelo contrrio, me movia a esperana
e a reencontrar. Ao mesmo tempo, outro facto concorreu para eu '; rr 
ssar a minha partida: Isac Bensade, ou Beiudo como eu gosva de dizer, 
apareceu finalmente. E apareceu como costumava desae
ecer: como por magia.
25
XI
Isac Beiudo, espio de Portugal
...IU Yevg-~v; 7rfl~sv eigi; T(vo xpw ~Xaov; 7rek$eZv; 7rw 
~vacgaci rL gaDew, i-~8v 7rsargevo;
... Como vim? Donde sou? Por mor de qu cheguei, se you partir? 
Como posso algo entender, se nada sei?
(Antologia Palatina. De um desconhecido)
Eram trs os mouros e, pelo porte a vesturio, pareciam ser wens de 
autoridade. Rodearam-me e, com grandes salamaleques,
_ iam-me, batendo no peito a falando todos ao mesmo tempo: r
- Goa, Portuga 
- Cochim, Portuga  - Frangi  Frangi 
' Que quereria isto dizer? atnito pergunto ao nosso turgimo cob. Fala o 
lngua com eles algaravia que no entendo. Depois trans-me: Tratava-se de 
mouros que moravam em terras do rei de
rtugal. Vieram da fndia Oriental, em companhia de outros, a trazer das 
ao Templo de Salomo...
-De to longe? -pergunto admirado.
Faziam sua romaria  casa de Meca, mas tanto os peregrinos mou" 
como os turcos no consideram boa sua peregrinao se a no pletarem com 
visitar o Templo de Omar a alguns outros santu
' da Terra Santa, como o sepulcro da Virgem, a sepultura dplice
27
dos patriarcas Abrao, Isac a Jacob, que est no Hbron, a outras... 
Quanto  minha pessoa, esses mouros que me procuravam, tendo 
conhecimento no sei por que bulas de que sou portugus, no quiseram 
perder a oportunidade de se louvarem, perante mum, de serem naturais 
daquelas partes da ndia sujeitas ao rei de Portugal.
- Como tm para si - continua o turgimo - que todos os cristos de 
Franquia so portugueses, tambm quiseram dar a entender que o eram. Ao 
dizerem Frangi! Frangi! esto a afirmar serem portugueses.
Abrao-os com orgulho a natural comoo e, batendo no peito, por 
munha vez lhes digo
- Eu... portuga! Eu... portuga!
Como me surgiam saudades da ptria, do meu Portugal distante, se 
estava ali bem perto do umbigo do mundo, na Jerusalm terrestre, smbolo 
dessa ptria de todo o cristo que  a Jerusalm celeste? Continuavam os 
meus sentimentos apegados  terra. Nunca dela me acabaria de libertar, 
purificando-me?... Tambm o pensamento de Helena era uma -ferida abertal O 
melhor era talvez mudar de lugar, partur... Voltar a Belm? Frei Zedilho estava 
l de guardio, que lhe calhara sua vez. Talvez fosse bom para espairecer o 
meu esprito to atormentado com os ltimos acontecimentos ...
Uma cerimnia a que no desejava deixar de assistir antes de partir era 
a celebrao da Pscoa na igreja do Santo Sepulcro. A Pscoa de sessenta a 
trs tinha-a passado em Nicsia. Agora, entrava Abril de sessenta a quatro a 
com ele aquela festividade, que caa de dois a nove do ms. Pediria depois 
licena a Frei Bonifcio para ir a Belm por uns tempos.
Viera de Jafo recado ao padre Bonifcio de que tinham chegado os 
peregrinos daquele ano. Logo acudiu o guarduo de Jerusalm e mandou 
quele porto a guarda necessria de gente de cavalo a de p, que os havia de 
acompanhar, assim como cavalgaduras a proviso corporal.
Aduvinhasse Frei Pantaleo quem vinha com os peregrinos. Era 
pessoa muito grada a famosa a que de perto me tocava...
- Como assim? Eu no tenho ningum que de perto me toque... Ento, 
se era portugusl?... E, quanto sabia, meu amigo, que o vira despedir-se de 
mum em Veneza...
- Quem?
28
- D. Frei Joo Soaxes !
Era verdade. O bispo de Coimbra veio esse ano em peregrinao  
Terra Santa a esteve connosco nas cerimnias da Pscoa. A sua presena 
teve em mim o efeito de avivar os meus problemas. Ali estava .- no podia 
deixar de pensar - algum que devia conhecer alguma coisa a meu respeito a 
cujos lbios estavam cerrados por um misterioso sigilo ... As celebraes da 
Semana Santa iam decorrendo luzidamente a eu presenciava-as ou nelas 
tomava parte quase sem as sen"tir, ausente a alheado, ou derivando-me o 
pensamento para heterodo.~ias que me acudiam ao esprito, intrometidas a 
atrevidas, a me queinavam os lbios se as transformava em palavras. Multido 
de gente ale todo o mundo, da Itlia, da Grcia, da Frana, da Espanha, de Por
, de Cndia, de Chipre, do Egipto, das Armnias, da Sria, acorj igreja 
do Santo Sepulcro, homens a mulheres de diversas naes, 'versos trajes, 
diversos nas linguagens, diversos nos ritos, mas conrmes a unidos todos na 
celebrao dos mistrios da paixo de Cristo l ...
no seria superficial a aparente esta conforndade a unidade? o havia 
surdas dissensses, quezlias, invejas, dios at, entre os 'stos das diferentes 
naes a ritos? No existia muita falsa crena? ,perstio? Invenes? 
Manipulaes adrede sustentadas para ali
tar uma f precria?... Essa cerimnia, para mim indita, forpelos 
Gregos no sbado santo  Alm de vir confirmar as munhas ' s, teve o condo 
de me distrair o esprito a espevitar a minha rat curiosidade.
l\ntigamente - rezava um livro vetustssimo que trata de 
alguparticularudades da Terra Santa a com muita guarda se tem na 'stia entre 
as coisas mais preciosas do tesouro - no sbado santo ia fogo do Cu sobre a 
capela do Santo Sepulcro a acendia todas
,lamparinas, velas a crios da igreja. Depois, andando o tempo, como 
nossos pecados os infiis se assenhorearam da Palestina, no mais ceu o fogo 
celestial a milagroso. Cr-se que deste milagre tomou reja catlica o benzer do 
crio pascoal. Os cristos gregos, porm, "stem em fazer crer que, por seu 
intermdio, continua Deus a
r o milagre. Os turcos, que tm  sua guarda a Casa Santa, fecham 
triarca dos gregos a um bispo dos armnios, de nome Andreas, o nosso amigo, 
na capela do Santo Sepulcro a pem-se de atapara que ningum mais entre. 
Da a pouco eles saem de l com
acesas, o fogo santo!... Ansiosos por lhes descobrirmos a careca,
29
eu a meus irmos franciscanos fomos, pela passagem do nosso 
Mosteirinho, colocarmo-nos na varanda alta da cpula, que cai sobre a capela 
do Santo Sepulcro a donde sem incmodo da multido se pode ver quanto se 
passa. A coisa deu-se um pouco diferentemente. Os turcos que esto de 
guarda, em vez de chamarem os costumados religiosos, metem dentro da 
capela dois abexins do Preste Joo, o que muito sentem os gregos, a cerram 
muito bem as portas. Junto delas, do lado exterior, aguardam o patriarca grego 
e o bispo armnio. Dentro, detm-se os abexins um bom espao, quase de 
meia hora, como que em orao pedindo a Deus lhes envie o fogo milagroso. 
Fora, impaciente, suspenso, com velas a candeias apagadas, todo aquele 
imenso povo,  espera de receber cada um o fogo sagrado. E, no profundo 
silncio que faz, ouvimos petiscar o fuzil e a pederneira a sentimos penetrar-
nos as narinas o cheiro a enxofre. Feito um pequeno intervalo, assomam os 
abexins  porta com grande alegria a velas acesas nas mos, antes que 
acendam as lamparinas da capela, o que foi um grande descuido seu para 
autorizarem o fingido milagre. Do as velas ao grego a ao armnio, que com 
grande festa a alvoroo comeam a acender as velas a as candeias do povo.  
tanta a alegria que mostram e a algazarra que fazem, que no h quem se 
possa ouvir, apesar de os turcos os tentarem calar, menos com brados do que 
com as pancadas dos seus bastes. Acha-se presente, junto do patriarca 
grego, ao tempo que os abexins lhe metem as velas nas mos, o nosso amigo 
Frei Jorge, arcebispo maronita de Damasco, que tinha feito viagem connosco 
at Chipre. Vira-se para ele o patriarca grego e, passando a mo levemente 
pela chama, diz
- Olha, por tua vida, irmo Jorge, este fogo santo que no queima!
Com o dio mortal que aos Gregos tem, toma subitamente o maronita a 
mo do patriarca com a vela a lha leva s barbas, muito comPridas a formosas, 
quase todas brancas, a lhas queima:
- Agora vers tu, patriarca, se queima o fogo santo !
Fica sobremaneira afrontado o patriarca grego a todos os da sua 
obedincia que se encontram presentes, no s por terem comp agudssima 
ofensa tocarem lhes na barba, a mais na do seu patriarca, mas ainda por a 
zombaria ter sido feita tanto na praa a em menosprezo do fogo que eles dizem 
santo. Pelo contrrio, a graa deu que rir aos turcos a s naes que tm o 
milagre na conta em que deve
ser tido, a se no fossem os turcos, que defenderam o maronita, haveria 
de suceder algum grande trabalho a enfadamento aos gregos. Tratando eu um 
dia sobre isto com um caloiro velho muito meu amigo, afeando-lhe to falso 
milagre, no mo negou, mas tentou dar-me uma explicao a escusa para o 
facto:
- Sabeis, Frei Pantaleo? A nossa gente vem de muitas, diversas a 
remotas partes  Semana Santa a Jerusalm, porque acredita que ainda agora 
vem o fogo do Cu, como antes vinha. Se no tivessem isso como certo, em 
nenhuma maneira viriam. A inteno do nosso patriarca , portanto, uma 
inteno piedosa, a de conservar a devoo da nossa nao. No h nela 
culpa.
Soaram de novo em mim, vindas dos tempos, as palavras que pm dia ali 
perto foram pronunciadas:
Que  a verdade?
z Felizes aqueles milhares de gregos que acreditavam no milagre fogo 
santo a infelizes aqueles poucos que conheciam o fuzil e a ederneira ... 
Quantos fuzis a pederneiras haver escondidos por Ls das nossas crenas?... 
Ferido de amor, ferido de dvidas religioscomo se no bastassem j os velhos 
problemas que comigo viviam sde criana, resolvo partir para Belm, 
aproveitando a ida dos pere
.os. Nunca tinha assistido  festa de So Joo Baptista em Belm, rque 
em junho de sessenta a trs estava eu doente em Jerusalm. esse para mim 
um ano de doenas. Em Outubro l estou de cama tra vez a por pouco no 
pude ir a Belm  festa do Natal. Mas insisto uto com Frei Bonifcio para que 
me levem l que ele prprio tudo
videncia nesse sentido. Agora que estou corporalmente de sade rbem a 
altura de me dirigir a Belm a fazer da centro das minhas tas...
Caminhos nvios a pedragulhentos, cheios de mato a espinhas _ levam  
montanha de Judeia, speros a montuosos, entremeados breve trecho de 
sendas suaves entre vinhedos a olivais, quintas,
e herdades  Alcantis temerosos a que se chega com no pouco ho, 
rodeados de grandes matas de alcaparras, onde a rocha se a em precipcio, 
quase a prumo, a por entre rudes serranias se faz
valada escura a espantosa, de meter medo! Terebintos, sicmoros, 
,peros da beira dos caminhos, a cuja sombra muitas vezes descomo outrora a 
Senhora indo ou tornando de Jerusalm a Belm 
l so lugar de Nehelescol, aprazvel ribeiro do Cacho, terra pingue
220 22
do melhor vinho da Palestina, dos figos de mel, dos formosos marmelos 
a romsl Vale de Rafaim! Vales beres a amenos de lavradores e vinhateiros  
Fonte onde So Filipe baptizou o eunuco da rainha de Candcia, de to 
abundante gua que podem com ela moer muitas moendas, em redor da qual 
mouros a cristos tm suas fazendas, hortas vinhas a olivais I Outeirinho do 
profeta Abacuch, donde se abarca uma vista de desencontrados sentimentos : 
olhando a norte, v-se Jerusalm a sente-se na alma uma compassiva tristeza, 
um no sei qu de melancolia que aflige a cobre o corao; virando os olhos a 
sul, avista-se Belm a logo se  inundado de uma espiritual alegria, uma 
brandura de amor que causa espanto  A morte e o nascimento  O nascimento e 
a mortel Porque morreu?... Era assim necessrio! No teria ressuscitado... e a 
ressurreio  a base da fl... Ser, deixar de ser, voltar a ser!... E eu? Alguma 
vez fui?... Se morresse, quem morria comigo?... Se me encontrasse, quem de 
mim ressuscitava, daquele que mataram?... Quanta pequena grande coisa me 
perpassa nos olhos da memria ...
Logo a seguir vem Belm, pequena a desolada povoao, de duzentos 
vizinhos. Casais de mouros a cristos, gente pobre e miservel, em especial os 
mouros. Os cristos so sujeitos ao patriarca dos Gregos e, alm das muitas 
supersties que os Gregos tm em todo o lado, ajuntam os que vivem aqui 
outras muito piores tomadas dos mouros. Com eles se criam a convivem todo o 
tempo a no h entre uns a outros diferena no trajar, tanto dos homens como 
das mulheres, salvo que os mouros trazem na cabea uma pequena faixa 
branca e os cristos listrada, os que a trazem, que so muito poucos. A gente 
pobre, na sua maioria, no pe mais na cabea que um pedao de sombreiro 
velho, a modo de capacete. As mulheres todas andam de igual, ao use da 
terra. Nos comeres a modo de mesas, nos enterramentos, no prantear os 
mortos, solenizar bodas, contratos a casamentos, todos so muito conformes. 
Isto todavia no acontece s aqui, mas em toda a parte onde vivem de mistura. 
Em Belm os crIstos tm melhor o necessrio  vida. Do-se  lavoura, 
semeiam muito trigo, possuem largas a boas vinhas. Comummente os mouros 
os servem em lhas amanharem, em lhes guardarem o gado, lavrarem a terra a 
todo o mais servio. As vinhas junto de Belm a toda aquela comarca so 
muito frutferas, a maior parte de assrio, de que fazem primoroso vinho, com 
licena do cabdi da terra, embora em toda a
222
alestina se no venda em pblico nem atavernado. Nestas cercaas, 
alm do vio das vinhas, a cinza dos olivais a as sombras largas, zase a roar 
o cho, dos figueiredos melfluos.
Fora da povoao, a um tiro de pedra de bom brao, fica o ptio z adro, 
cercado de altos muros, do templo de Santa Maria de Belm do nosso 
mosteiro. Da pane de sul, grandes edifcios de casas onde n tempo de cristos 
morava o bispo de Belm. Junto deles runas
uma igreja. A julgar por seis colunas ainda de p, deve ter sido ;m 
formosa. No ptio, uma grande cisterna que o toma todo, com s bocais de 
cantaria lindamente lavrada. Da sua gua se servem Lra. tudo os moradores. 
No h ali derredor outra seno a de David, xe tem pouca gua, s para beber, 
a no dura mais que quatro meses D ano. No extremo do adro, a oriente, est 
uma portazinha muito treita, da altura de cinco palmos, pela qual se entra a 
custo a se d u um recebimento diante do prtico principal da igreja, enorme, 
to, lavrado  antiga.
D. Frei Joo Soares, por ser anafado, acabava de trabalhosaehte 
desembocar da apertada passagem a erguia-se, apoiado  mo w eu lhe 
estendia, olhando para cima o prtico monumental. Seguiam,-lhe os outros 
peregrinos.
No percebia  Porqu aquela entrada to estreita para afinal vir a dar 
com um prtico to vasto?>>, perguntava-me, ainda arriwdo ao meu brao, o 
bispo de Coimbra. Sabia dizer-lho Frei Panleo ?
- Este ptio a este edifcio - respondo-lhe - salvaram-se como ar niilagre 
das vicissitudes dos tempos. A primitiva traa era do Q de 540, do tempo do 
imperador Constantino. Quando os persas ui chegaram, em 64, este templo 
escapou apenas porque na sua ,rtada estavam representados os reis magos... 
com trajos persasl - Mirabile visu 
- Deteriorado com o tempo, reconstituiu-o Justiniano. O ptio r onde 
passmos  da sua poca. Esta entrada era ainda mais monutal. Tinha trs 
portas, encimadas por um tmpano. Foi restringida tempo dos cruzados a mais 
taxde na poca turca...
'r - Mas porqu um tal estrangulamento?
. - As comunidades crists apertaram mais a entrada a reduzio acesso 
para impedir que os turcos entrassem com os cavalos baslica dentro.
223
D. Frei Joo Soares olhava ainda, ao alto, o enorme prtico, 
endireitando os rins, e, num sorriso plido, fixando os olhos na portazinha, 
disse:
- No era preciso tanto 
No interior o templo, que est  conta da nao grega,  uma obra 
espantosa. Entrando,  mo direita v-se um rico baptistrio, mas so as cinco 
naves da igreia que nos atraem a ateno, separadas por quatro fieiras de dez 
grossas, formosas a altas colunas de jaspe e, em cada uma delas, pintado, um 
apstolo, profeta ou patriarca. Como elas so quarenta, deram a cada uma o 
que melhor lhe quadrava, mas a antiguidade vai delindo a tirando muito lustre a 
esses cones. Na nave do meio, dos capitis corntios at ao tecto corre 
parede, armada sobre possantes vigas de cedro do Lbano a lavrada de 
riqussimo mosaico que representa histrias do Antigo a Novo Testamento e as 
quatro igrejas patriarcais da primitiva cristandade. Antioquia, Constantinopla, 
Alexandria a Jerusalm.
Sobre a porta principal, um outro painel de mosaico mostra a vara de 
Jess, de figuras muito grandes, de causar admirao. O coberto de cima  de 
fortssimas vigas de cedro, trabalhadas de curiosos ornamentos a lavores, tudo 
revestido de ouro a azul, e o telhado todo alastrado de chumbo. As paredes do 
templo, de um a outro lado, foram totalmente ornadas de jaspes verdes a 
vermelhos a de outras muitas pedras ricas a finas, ordenadas em graciosas 
combinaes, a entre elas guarnies de madreprola, de muitas invenes. 
Mas o melhor disto tm os turcos tirado para as suas mesquitas.
Trs tribunas ou capelas : a capela-mor a duas colaterais. Todas de 
abbada, cobertas de precioso mosaico a as paredes ornadas das mesmas 
pedras finas a madreprola, como as do corpo da igreja. A mo esquerda de 
quem entra o templo fica a portaria do mosteiro fundado por So Jernimo 
quando se recolheu a estudar e a trasladar do hebraico, caldeu a grego para 
latim os textos sagrados. Moram a agora os nossos frades de So Francisco.
Em profundo silncio, seguem os peregrinos olhando o niaravilhoso 
edifcio. Soam os nossos passos no lajedo do cho a reboam l no alto. 
Percebe-se uma como que expectativa a ansiedade por chegar  Gruta da 
Natividade, para a qual se entra pela Igreja de Santa Catarina que est dentro 
do nosso convento. J todos se encaminham para l. Talvez por ser mais 
curioso a mais meticuloso em ver as coi
224
sas a anotar os pormenores, por mor do meu Itinerrio, indo ao ponto de 
tirar medidas, registar quantidades, anotar miudezas - estava eu a acabar de o 
fazer  capela-mor, que tem de comprido noventa a dois ps -, vejo-me de 
repente s. Vou descendo a nave central, ladeando as colunas  minha direita, 
reparando no pav imento da igreja, todo de pedras to finas a luzidias que 
enganam com seu resplandor aos que pela primeira vez as olham: vem-se 
nelas as pinturas das pare.des como em espelhos cristalinos. Paro a apreciar o 
efeito. Tambm ai se reflecte a minha imagem, tendo a seu lado, um pouco 
atrs, uma das colunas do templo com a sua figura pintada de um profeta, 
calvo na topo da cabea e a barba a cair-lhe pelas faces at se fechar, em 
longo bico, a um palmo abaixo do queixo. E parece-me, de sbito, ~que essa 
figura se destaca da coluna, d dois passos a vem colocar-se a meu lado. Eu 
no tinha ouvido qualquer rudo, mas algum est qui a me diz num portugus 
correcto:
- Finalmente vos encontro, Frei Pantaleo !
Havia tanto tempo que trazia comigo a ideia de o ver aparecer todo o 
momento, surgir de no sei onde, que no me assustei a logo, em nunca o ter 
visto antes, o reconheci
tr - Isac Beiudo !
'` - Bensade - corrige ele com um sorriso. - As vossas ordens ! ~,N~,as 
peo-vos que faleis baixo, para que ningum escute... - e olhava 'todos os 
lados, a certificar-se de que estvamos ss.
- Porqu tanto segredo? - pergunto em voz baixa.
Por trs motivos. Primeiro, porque era preciso que ningum nos ~isse 
juntos. Segundo, porque o que tinha para me dizer s eu devia ber, mais 
nenhuma pessoa. Terceiro..., a torna a olhar, receoso, r entre as colunas. No 
h viva alma na baslica, os peregrinos
Maham todos desaparecido pela portaria do mosteiro franciscano. 
bntudo, Isac puxa-me do brao a leva-me para um recanto som
- Quereis explicar-vos?
Que ia falar muito breve, dizia-me ao ouvido, e em frases Lenas. 
Tinha eu de ler nos silncios a nas reticncias a nos seus s e no seu rosto... a 
fixar tudo muito bem na memria. No cone nada ao papel. Se nos vissem 
juntos...
Os seus olhos brilham estranhamente. Leva a mo ao peito e ,is coloca-
a no meu corao. Grande perigo!, continua, no
225
mesmo cicio. Que estava ao servio de Portugal. Carteava-se com o 
nosso embaixador em Roma, D. lvaro de Castro...-Era espio?, 
perguntava eu. Que andava por todo o lado, India, Prsia, Etipia, Turquia, 
Egipto, Itlia... Dava recado de mil pormenores... Muito importav am ao nosso 
reino... Se o gro-turco soubesse, martdava-o degolar...
i~ - Sois um espia de Portugal?
Mudava de conversa. Grandes inimigos tinha eu, sem o cuidar. No me 
fiasse de ningum...
- Como posso ento fiar-me de vs? Quem vos envia?
E ele? No estava ele a confiar em mini, dizendo-me o que me estava 
a dizer, o que no confessava a ningum? Era risco que eu tinha de correr fiar-
me dele... Conhecia eu Sara a Jacob?
- Sim. So meus amigos... mais que amigos, presumo. - Sero eles as 
minhas credenciais.
- Levais-me at eles?
- Para isso aqui estou. Escutai-me com a mxima ateno. - Sim.
Dentro de cerca de um ms, aps cumprir importante nsso, viria por 
mini a levar-me-is para o norte... Mestre Jacob sentia-se velho a tinha medo de 
morrer antes de me falar...
- Como soube ele que eu vinha  Terra Santa? Como soube que eu 
estava aqui?
H muito que meus passos eram seguidos... - Porqu, meu Deus? 
Porqu?
Tivesse tudo preparado para a partida. Dar-me-is sinal em 
Jerusalm...
I - Porque me no dizeis vs, j, o que quero saber?
Se nem ele o sabial Nem Sara sabia tudo!... Grande mistrio devia de 
ser!... S Jacob... a s a mini o diria...
Uma porta rangeu ao fundo do templo deserto.
- Adeus ! - disse Isac apressadamente. - Tenho de ir. Estai atento.
Desvaneceu-se na sombra. Dir-se-is que se tinha transformado de novo 
naquela figura de profeta pintada na coluna de jaspe: uma calva lustrosa a uma 
barba que pingava em bico. Teria eu sonhado?
Ao fundo da nave, vindos de dentro, do nosso convento, D. Frei Joo 
Soares aparecia acompanhado de Frei Zedilho. Os peregrinos
- inham tambm entrando. Aproximei-me e, conversa andada, no tardei 
a comunicar ao meu companheiro que a minha estada em Terra Santa ia 
cessar a que, dentro de cerca de um ms, subiria para norte a tomar barco em 
Trpoli, de regresso para Chipre, dado que nesta coca no  possvel faz-lo 
em Jafo.
- Tanta pressa? -- perguntou, estranhando, o bispo de Coimbra. - Mas 
no me dissestes que era vossa inteno visitar ainda o jordo e o Mar Morto? 
- inquiriu por sua vez Frei Zedilho.
- Sim. Tenciono faz-lo. Quereis vir? Chegarei de um pulo k Jerusalm 
solicitar consentimento a Frei Bonifcio.
w, - - Estou aqui de guardio. Vai ser difcil.
- No  por dois ou trs dias de ausncia que a guardiania ser
Isso  verdade. Irei convosco.
No concerto que os peregrinos fazem em Veneza com o patro L nau, 
ou com quem tern isso a seu cargo, inclui-se o compromisso t que tambm os 
ho-de levar a Belm, a Hbron, ao rio Jordo a outras partes. Mas agora, por 
culpa de quem traz os peregrinos, case nunca fazem romagem seno a Belm. 
Como so necessrias xalgaduras a outros gastos, vo deixando cair no 
esquecimento a u a Hbron, como tambm se vai esfriando a visita ao Jordo. 
Buscam mpre achaques a impedimentos, com dizerem que anda a terra pejada 
t, rabes, grandes calmas, born tempo para tornarem a outras semeaates 
escusas. Defraudam os peregrinos de sua devoo a levam~es mal levado seu 
dinheiro. E, como eles se vem entre infiis, candos do caminho, enfadados do 
mar, qualquer piedosa razo que es apresentem para no irem os faz calar. 
Mas eu a Frei Zedilho, unao tnhamos liberdade favorecida de tempo a bons 
desejos, quando ~zos oferecia alguma boa ocasio para andar a visitar 
aqueles santos Bares no se nos enxergava preguia.
Para se ir de Jerusalm ao rio Jordo, convm uma pessoa preOar-se 
para muita canseira a no pouco risco, no tanto por o camiser comprido, pois 
no passa de nove lguas, quanto por ser ro a perigoso. Est infestado de 
rabes de cujas mos poucos pam, se em companhia no vo muitos. Se os 
peregrinos que vm
~` Franquia resolvem ir ao Jordo, convm-lhes levar boa guarda, 
menos quarenta ou cinquenta pessoas, de p a de cavalo, com s arcos a 
armas,  conta de lhes pagarem a satisfazerem  sua von tade.
226 227         
Ainda assim se informam que tal est a terra e, se no est segura, 
deixam a jornada. Os frades, pelo mesmo perigo, nunca l vo, salvo na 
companhia dos peregrinos, porque  conta destes se pagam as guardas.
D. Frei Joo Soares tinha feito todos os esforos por que se organizasse 
uma romaria ao rio sagrado, mas, apesar de todo o seu prestgio a todo o peso 
do seu ouro, no alcanou demover o patro da nau.
- No consegui nada dele  - dizia-nos desolado. - Hoje mesmo estarei 
em Jerusalm, que tenho l compromissos com o guardio. -Era o que eu 
pensava. No h esperana nenhuma por esse
lado! - disse eu a Frei Zedilho. - Os peregrinos desistiram e o patro da 
nau estorvou-os quanto pde.
- J os dois anos atrs aconteceu o mesmo, segndo ouvi dizer. Que 
havemos de fazer?
- Temos de buscar outro qualquer remdio para pormos em efeito o 
nosso propsito.
- Mas qual? - perguntava impaciente o meu companheiro. - Disse-me um 
dia o nosso sndico que, aqui h uns anos, um guardio da Terra Santa fora ao 
J ordo com quatro ou cinco frades, seus particulares amigos, por intermdio 
de uns caloiros do Mosteiro de So Sabas, que fica para aquela parte do Mar 
Morto. Se ns consegussemos saber se pela mesma via podamos l ir...
- Esperai  - exclamou Frei Zedilho com os olhos a luzirem-lhe de 
esperana. - Chegaram precisamente hoje aqui a Belm uns caloiros desse 
mosteiro. Vm abastecer-se, como costumam.
- Deo gratiaa! Vamos falar com eles.
Os peregrinos iam saindo do templo para o recebimento do prtico. D. 
Frei Joo Soares afastara-se a descia a nave, falando baixo com um seu 
secretrio ou aclito. Procurmos os caloiros de So Sabas. Demos-lhes conta 
dos nossos desejos, pedindo-lhes humildemente nos quisessem ajudar a 
favorecer. Com os nossos rogos a com os recebermos no convento com muita 
deferncia, ofereceram-se a nos auxiliarem em tudo com pronta vontade. 
Quando surgisse a oportunidade, nos mandariam seus hbitos para que, 
disfarados neles, pudssemos r ao seu. mosteiro com menos perigo. A 
concertariam, diziam, nossa ida ao Jordo, de maneira que os nossos 
desejos fossem inteiramente cumpridos. Despedi-me deles a de meu 
companheiro, pois queria aproveitar a companhia dos peregrinos no regresso a 
Jerusa
228
lm. Quando tornei a passar da portaria do nosso convento ao interior da 
Igreja de Santa Maria, as naves estavam desertas, mas, a um canto sombrio, 
senti um ciciar de vozes : o aclito do bispo de Coimbra falava  puridade com 
um cristo da terra que eu vrias vezes tinha visto por ali. Sorri comigo mesmo, 
pensando que D. Frei Joo Soares no era homem para desistir facilmente da 
sua peregrinao as rio Jordo.
Fui para Jerusalm. Frei Zedilho ficou em Belm, com sua guardiania. 
Passaram-se quinze dias a dos caloiros no vinha recado. $screvi a meu 
companheiro que nos convinha buscar outro remdio, se nos faltavam os 
caloiros, a mais estando j no ms de Outubro e, ae nos detnhamos, entraria o 
nosso Advento, que comea por Todos-os-Santos com jejum obrigatrio, a com 
ele a invernia que nos estorvaria o que tanto desejvamos. Conclumos ambos 
que seria bom irmos  ventura ter com os caloiros, sem mais esperar recado 
seu.
No podamos fazer essa jornada sem darmos conta ao padre Bonircio, 
nosso superior a prelado. Temamos que no-la negasse, sor ser to perigosa. 
Pedi-lhe eu licena para tornar a Belm, posto lue havia poucos dias de l tinha 
vindo, mas s color de melan`colia que sempre me atormentava. Concedeu-ma 
alegremente, porque a sua longa experincia lhe havia ensinado que naquelas 
partes conrm levar as coisas ao amor da gua a favorecer os religiosos 
naquilo
!'que no  contra a sua regra. Vendo que eu me ficava parado, 
hesi'tante junto de si, perguntou:
- Sinto que tendes mais alguma coisa para me dizer. Que ? - Meu 
padre... - comecei eu a dei-lhe conta dos desejos que fnhamos de efectuar 
aquela jornada... (To perigosal, opunha ele... *I\las to santa!, resistia 
eu)... temendo tornarmos a Franquia kacm a fazermos, o que nos seria em 
afronta a grande desconsolao ~fossa. Tnhamos pensado, Frei Zedilho a eu, 
agora que ele estava t acabar sua guardiania em Belm, em irmos ter com os 
caloiros a ~So Sabas a da, com sua ajuda, metermo-nos a caminho. 
Pedamos a sua paternidade tivesse por bem favorecer-nos naquele gosto...
Sorriu graciosamente Frei Bonifcio e, pousando o brao no u ombro, 
disse:
- Nenhuma coisa tanto desejo como vossa consolao a vs, rei 
Pantaleo, j deveis ter h muito entendido isso, pois sempre em do tenho 
trabalhado para vos mostrar a amizade que vos dedico.
229
Por isso mesmo, quanto  ida ao Jordo, no vos aconselho tal risco.
- Ohl, padre Bonifcio! - exclamei desoladamente.
O trabalho e o perigo eram maiores do que cuidvamos... - Mas ns 
iramos disfarados de caloiros ! . . .
Ainda assim. O risco era muito grande... - No nos dais licena 
No nos aconselhava, que era diferente. - Ento deixais? -perguntei 
esperanado.
No queria ser ele a estorvar-nos nosso gosto, para que no 
julgssemos fingida a amizade que nos tinha mostrado at ento. Se porm de 
todo nos determinvamos ir, seguindo nosso parecer a no o seu...
`' - No ficais zangado connosco?
No, mas ficaria preocupado todo o tempo, dia a noite, at vol
tarmos... - No nos h-de acontecer nada, estai certo. Dai-me a vossa
bno. Irei a Belm juntar-me a Frei Zedilho.
Esperasse! Queria pedir-me uma merc: que a nossa ida no fosse 
sentida nem dos frades de Jerusalm nem dos de Belm.
- Assim ser.
E, vindo a descobrir-se por alguma via, ao menos no soubessem que 
foi com seu consentimento. De contrrio teriam muita razo de se queixarem 
dele. Alguns moravam ali h tantos anos a nunca puderam alcanar ir ao santo 
Jordol Que diriam eles? Que a ns, por sermos um portugus, o outro 
espanhol, grandes senhores do mundo, nos favorecia, e a eles por italianos 
menosprezava...
Sua paternidade podia estar descansado, garanti. Da nossa parte 
tudo se faria como mandava. Quanto ao trabalho ou perigo que dizia, 
consultado tnhamos tudo a mais seria o gosto depois de o termos passado.
- Deus vos abenoe a vos acompanhe 
Essa mesma tarde me parti para Belm em companhia de um nosso 
turgimo, por nome An, que viera trazer-me recado de meu companheiro. Ftei 
Zedilho recebeu-nos com muita alegria, se bem que, como  costume dizer-se, 
eu era hspede de cada dia. Nessa noite tratmos do que seria melhor para se 
efectuar a nossa jornada. Agora
230
que as coisas chegavam ao ponto de se tomarem realidade, Frei Zedilho 
comeava a estar temeroso:
- E se adissemos para a semana que vem?
- Adiar? No me parece bem tanta dilao. Pode suceder algum 
inconveniente que nos venha impedir a ida...
No dia seguinte, em amanhecendo, fui a Belm a ajuntei algumas 
pessoas para irem em nossa guarda at ao Mosteiro de So Sabas, entre elas 
um mouro chamado Lupo, o maior ladro da terra nos actos, ma.s muito amigo 
dos frades. Estes nenhuma coisa se fiavam dele, mas davam-lhe cada ano um 
tanto de cafarro, havendo muitos que o tinham por cafarreiro. Os cristos do 
grupo eram todos amigos da casa. O mais velho, meio cristo meio mouro, de 
nome Mua; os outros Jos, An, seu filho a nosso turgmo, Almanor, Bocali 
e um dicono muito honrado, grego a homem casado. Tornei-me para casa 
muito contente por haver bem negociado a ficou combinada a nossa ida para a 
primeira noite.
Esse mesmo dia,  tarde, andando eu com meu companheiro sobre o 
terrado da Igreja de So Jernimo, atirou ele acinte com uma pedra a um galo 
a matou-o. Ordenou que mo assassem para a ceia. Chegaram os cristos que 
nos haviam de acompanhar, deram-lhes de cear a eu mandei servir-lhes o galo 
que para mim estava cozinhado. Com fazimento de graas, comeram em hora 
que no deveram, como ao diante se viu.
23
XII
A cidade fantasma
... vidit omnem circa regionem Jordanis, quae uriiversa irrigabatur, 
antequam subverteret Dominus Sodomam et Gomorrham, sicut paradisus ...
... contemplou toda a regio do Jordo em redor, a qual era toda 
regada, antes que o Senhor destrusse Sodoma a Gomorra, como o paraso...
(Gn., I j.Io)
Cerrara a noite haveria uma hora, samos de casa com um outro padre, 
italiano, chamado Benedeto, nosso particular amigo, natural de Santa gueda, 
cidade junto de Milo. Tommos algum pouco manu_nento a coisinhas de que 
estvamos providos para lev ar aos caloiros. Av passarmos a portaria, disse 
Frei Zedilho, em voz baixa, ao ostirio:
- Irmo Vincenzo, em maneira nenhuma digais aonde vamos. Se < <>s 
perguntarem, respondei que suspeitais sermos idos a Tecua a matar pombas, 
como algumas vezes costumamos.
- Assim farei, meu padre, como me encomendais - disse o porteiro com 
uma vnia.
Samos com tode o silncio, porque junto ao povo  frequente !ntecer 
haver rabes que como lobos vm buscar sua guarida aonde H
~ que a acham melhor preparada. Caminhamos toda uma lgua  m 
haver quem fale uma palavra. Como os nossos guardas conhe
muito bem o caminho a todas as veredas a atalhos dele, andamo-lo
233
com mais brevidade do que cuidvamos.  um caminhar sem caminho, 
porque nos levam por matos a lugai:es to speros de serras e precipcios que 
nos causam irmos atnitos, pois a noite os faz parecer mais temerosos. Os 
guardas vo sempre adiante, os braos esquerdos nus, no mais profundo 
silncio. Mas quando o camitiho  descoberto e descampado, tratam na sua 
arbica lngua do triste do galo que  ceia comeram. Trazem pesados 
escrpulos na conscincia, se o galo foi afogado, se degolado.  que todas 
estas naes tm por culpa muito notvel comer coisa afogada, imitando nisso 
os judeus a os mouros. Tanta  a porfia a altercao sobre o galo, sabendo 
que os no entendemos, que mais parece pelejarem que discutirem.
-- Que  que eles querem? -- pergunto a An, que secretamente fazia 
connosco  latina.
-  por causa do galo ! - responde ele, descobrindo-nos toda a contenda.
-- Meu Deus ! - exclama Frei Zedilho desolado. -- Sempre que mato um 
animal para se comer ho-de surgir complicaes. Da outra vez, em Cndia, 
foram os leites, em ocasio de jejum. Agora o galo! Que hei-de eu fazer?
Resultou a coisa que,  vinda, quando tornassem a casa, se iriam a 
Jerusalm dar conta ao seu patriarca de como tudo sucedera, mostrando sua 
inocncia, confessando sua culpa a oferecendo-se a toda a penitncia.
- Ora vede - comento - no que se funda a com que se preocupa o 
cristianismo destes gregos a quais os escrpulos da sua conscincia ! . . .
Voltam a calar-se quando surgem passagens perigosas, sempre com a 
orelha fita a prontos para a peleja. Seguimos com toda a pressa e, a meio da 
noite pouco mais ou menos, segundo mostra a posio das guardas no cu, 
entrando por uma valada muito espantosa, damos connosco na abadia dos 
caloiros. Os i.osss companheiros, certos de aqui acharem rabes, por ser o 
lugar mais que todos a isso acomodado a por haver perto aduares onde moram 
com as mulheres a filhos, pem-se a ponto de peleja, se for necessrio. Mas 
graas a Deus tal no aconteceu.
Em ns chegando  abadia, adianta-se o dicono Benedeto. Ten, com 
os caloiros mais conhecimento que os outros.
- Caloiros ! Caloiros - chama com grandes brados. Temor de arrepiar a 
espinha esta voz a retumbar na noite pela deserta valada nietida entre duas 
speras montanhas !
- Caloiros! Caloiros! -- brada a intervalos.
Acodem aos brados, de uma alta torre que est um pedao apartada do 
mosteiro, na qual, por causa dos rabes, de dia a de noite se faz guarda a vela, 
a tm nela armas.
- Quem vem l? -- gritam de cima.
- Cristos, por Deus! Do Convento de So Jernimo de Belm! Da torre 
fazem sinal aos do mosteiro a com grande pressa acorre  porta o abade com 
cinco ou seis caloiros velhos. Em nos vendo, lanam-se-nos aos ps pedindo-
nos a bno. Vendo ns coisa to nor .a a desacostumada, prostradas a 
nossos ps umas cs to venerandas, em especial as do abade, que tinha uma 
barba branca como a .,neve, que lhe dava pela cinta, edificados nos lanamos 
aos seus da ntesma maneira, pedindo-lhes tambm que nos dem a sua.
-- Vs  que sois sacerdotes ! - alegam eles. - A vs  que cum,pre dar-
nos a bno. Ns somos caloiros leigos.
, nsistimos e, depois de nisto haver de parte a parte tanta por,fia, 
assim como estamos, de joelhos, nos abraamos uns aos outros re nos 
levantamos. Manda logo o abade, que se chama Cali, em uma ~ospedaria fora 
de casa fazer grande fogo a nela agasalham a Lupo p aos outros dois mouros 
seus companheiros, dando-lhes todo o neces#rio. E, fechada a porta, de 
dentro, vem toda a comunidade rece
No havia passado um quarto de hora, j trazem gua quente its) 
cheirosa, para nos lavarem os ps. Tentamos resistir: que o ninho fora to 
pequeno a alm disso...
- ... amanh havemos de voltar a caminhar!
 to porfiosa sua humildade que nos fora a aceitar sua carie e, posta 
uma bacia diante de um de ns, o abade Cal com sua iervel presena se pe 
de joelhos para nos lavar os ps a um di,o, com uma estola ao ombro a um 
grande gomil cheio de gua mo, muito mansamente a vai lanando, como se 
faz para lavar as os. Em redor, de joelhos, com muita devoo, cantam salmos 
em go os outros caloiros. Estava-se-me a alma traspassando ! Via-me re os 
antigos padres cenobitas dos ermos da Ctia a da Tebaida,
234 235
tal como tinha lido nas Vitae Patrum, que dizem haver composto So 
Jernimo, em So Joo Clmaco a nas Colafes de Cassiano...
Daqui nos levam ao refeitrio, fazendo-nos comer por fora. Resistimos. 
To a desorasl... Temos  preciso de dormir!... Qual qu? Assentam-se 
connosco  mesa o abade a outros dois caloiros dos mais antigos da casa. 
Comeam primeiro, para que no tenhamos escusa. Peixe seco, cozido a cuido 
que requentado, azeitonas, passas a figos mirrados ao sol, a gua da cisterna. 
Coisa certamente indita a estranha  para estes benditos caloiros sentarem-
se a tal hora a comer connosco  Para ns  de grande edificao, por 
sabermos muito bem que vivem aqui no deserto guardando uma continua a 
dura abstinncia. A sua caridade os leva a fazerem estes extremos a hspedes 
estrangeiros, lavarem com tanta humildade os ps aos que com eles se vm 
agasalhar, porem-se  mesa a comer com eles para mais os animarem... Que 
longe esto deste esprito cristo tantos religiosos da nossa Igreja latina! Em 
vendo enttar pela porta, inesperado, o hspede, parece que lhes entra no 
Jesus Cristo, como havia dz ser, mas grande turvao .. .
Os leitos aonde nos levam a dorn-ir a repousar so pedaos de alcatifa 
velha estendida no cho, cobertores a lenis os seus hbitos e tnicas. Outras 
delicadezas no as permite deserto de tanta aspereza. No deixamos por isso 
de dormir, cansados como estamcs de uma caminhada, alm de desumana, 
apressada a feita quase meio a correr... No tnhamos bem tomado o sono, 
quando vm ter connosco os cristos nossos companheiros, pedindo-nos 
licena para se tornarem antes que amanhea.
- Podeis ir embora - lhes digo. - Quando voltarmos vos saberemos dar 
os nossos agradecimentos.
- No digais a ningum onde ficamos ! - era Frei Zedilho levantando de 
entre as mantas a cabea ensonada e a voz lenta.
- At regressardes no iremos ao mosteiro. Adeus !
Ao amanhecer, vamos  igreja rezar nossas horas a as mais obrigaes 
a devoes. Vem ter connosco o abade Cali.
- Vinde - diz-nos tomando-nos pela mo, com muito amor e deferncia. - 
Levar-vos-ei a uma capelinha, no alto da casa, onde h um altar em que 
podereis rezar missa, se quiserdes.
 uma capela pequenssima, cavada na rocha viva. O altar a as paredes 
embutidos de pedrinhas de mrmore branco, preto, vermelho,
rosado, amarelo, em ornamentaes geomtricas  maneira bizantina. 
P no cho e, sobre o altar, uns pobres castiais sem tocos, ulna !mpada sem 
pavio nem azeite, tudo indicando que no se pratica ali culto h muito tempo. 
Sabamos que em nenhuma maneira consentem os gregos que sacerdote 
latino celebre missa em seus altares e entendemos a piedosa inteno do 
abade.
- Tenho hstias das vossas - diz-nos ele - ainda que de muito tempo.
Frei Zedilho, pouco hbil em embaixadas a diplomacias, vai para abrir a 
boca a eu vejo-lhe nos olhos que, se no acudo, pode disparatar. - Bom abade 
Cali - intervenho -, muito gratos vos ficamos
pela vossa extrema boa vontade a desejo de que no nos falte com que 
cumprirmos nossas obrigaes rituais. Mas, alm de virmos muito cansados, o 
que causa estaxmos pouco devotos, no nos leveis a mal por no dizermos 
missa num lugax que no est to limpo e wenerado como convm a to alto 
sacramento.
Calou o abade, vendo ser de ns entendido o motivo por que no pe  
nossa disposio uma capela condigna, e, dissimulando  melhor que pode, 
leva-nos junto de dois caloiros, os nicos que, alm do abade, sabem falar 
algum pouco italiano, para que nos acompanhem a nos mostrem a casa.
w O mosteiro  muito grande a forte, de tal maneira edificado na rocha 
viva que parece quase uma inexpugnvel fortaleza, com muitas RJpspcies de 
estncias a nichos, altos, baixos, subterrneos, alguns meti~os na rocha, mas 
tudo confusamente a sem ordem. Apartada da
badia um bom tiro de arco est a tal torre elevada, em que tm 
arcauzes, fundas, arcos a muita pedra para arremessar. Atravessam de
;tasa a esta torre por uma mina escavada na pedra viva, com alguns 
;trech0s maus de passar a piores de acertar. Por ela nos levam, com o pouco 
trabalho nosso, a quantos segredos tem a abadia a meanos de passagens nos 
vo mostrando. Derredor do mosteiro, por
p da aquela extensa valada, uma grande lgua de ponta a ponta, nas 
costas das duas altas montanhas que a formam, esto muitas celas, que 
antigamente viviam santos monges, abertas na dura rocha,
modo de ninhos de passarinhos, outras ajudadas de arte humana outras 
de fbrica, das mais variadas maneiras.
--- Por aqui viveram So Jernimo a So Gregrio Nazianzeno, ,` grande 
Epifnio que foi o primeiro bispo de Chipre, os gloriosos
236 237
abades Arsnio, Daniel a Pafncio, o santo velho Zsimo, ao qual da 
outra parte do Jordo se revelou Santa Maria Egipcaca... E ali, diante da 
igreja, est a cela do nosso bem-aventurado patrono so Sabas - indica-nos, 
inflamado, um dos caloiros, moo plido a mstico, cuja transparncia de cera 
bem revela a persistncia de jejuns e a dureza da disciplina.
Entramos na igreja, vasta a alta, pintada de cima a baixo de pintura fina 
a curiosa, ao modo grego, de imagens dos santos vares que aqui moraram.
- Porque tiraram os olhos s imagens? - pergunto.
- No tempo das guerras do gro-turco com o soldo do Egipto esteve 
esta abadia alguns anos despovoada. Aqui se recolhiam rabes. No tocaram 
em mais nada, seno que arrancaram os olhos aos santos!...
Em volta, o deserto ! Extenso de umas cinco ou seis lguas, de tanta 
aspereza a desolao que causa espanto!... Ausncia maninha de rvore, 
pequeno arbusto ou coisa verde ... Como conseguiram medrar, num alegrete 
do mosteiro, estes tristes a enfezados ps de salsa?...
- No vale h uma erva de que os rabes se aproveitam. - E gua?
- gua nativa no h em todo este circuito, que seja para beber. Temos 
duas grandes cisternas que copiosamente nos bastam a ainda damos dela aos 
rabes nossos amigos.
Depois de nos haverem mostrado todas as particularidades da casa a 
torre, levam-nos  rouparia, menos provida do que muitas outras que tenho 
visto de religiosos.
- Para efectuardes a ida ao Jordo,  necessrio - nos dizem que tireis 
os vossos hbitos a vistais os nossos. De outro modo  impossvel cumprir o 
que tanto desejais.
Como j vnhamos preparados para isso, por no-lo terem dito os caloiros 
em Belm, fazemo-lo de boa mente. Mas, enquanto o padre Benedeto a eu 
vestimos o hbito dos caloiros sobre as nossas tnica.s, Frei Zedilho veste-se 
todo de caloiro: uma tnica de pano, sobre ela um bentinho de sarja preto, com 
duas cruzes, uma detrs, outra diante, feito ao modo do que trazem as pessoas 
devotas de Nossa Senhora do Carmo, tomado das quatro pontas com um 
cordo de sedas, e em cima do bentinho urna cruz de pau com outro cordo de 
sedas, e sobre isto o hbito, que tanto na cor como na feio  como o que,
238
at aos nossos tempos, trouxeram os frades da serra de Ossa, o que o 
vulgo chama beguinos. Da mesma cor uma carapua grande, feita  moda 
marinheiresca.
Assim vestidos, mostramos grande contentamento vendo-nos 
transformados em caloiros, a uns aos outros damos os bons-dias e as boas-
tardes em grego vulgar:
- Kay" gpa! (Call mera!) - Kaa~ anpal (Call spera!)
Fingindo-nos caloiros, nos vamos por passatempo dissimuladamente 
lanar aos ps do abade, tomando-lhe a bno:
- Kaa~ gpa, ~pv-rrg narpa  (Call mera, afntis pateras! Bom dia, 
senhor padre!)
 primeira vista no d conta, mas caindo logo em quem somos 
snriLarnente se alegra, nos faz grande festa a diz risonho
- Fazei-vos prestes para o caminho, porque vo sendo horas. Nesse 
mesmo dia, ao amanhecer, mandara o abade chamar um be muito seu familiar, 
de nome Amir, que era cabea de um aduar ~0' ficava ali perto a disse-lhe:
- Meu bom Amir! Vieram de Cndia trs caloiros meus conhe`dos a 
amigos. Eu teria muito gosto em lev-los ao Jordo. Como outras vezes em 
que nos tendes acompanhado nesta jornada, tamagora venho pedir a vossa 
ajuda.
Amir, que em anteriores ocasies no se havia achado mal com -'liar os 
caloiros, respondeu que de boa mente iria. Estando ns pon.to de partir, 
somente esperando pelo rabe, que se tinha ido
arar, traz a fortuna ao mosteiro um cristo natural de Belm que logo 
reconheo como sendo o que recentemente tinha visto a falar m o aclito de D. 
Frei Joo Soares.
- Ou eu me engano muito - digo a Frei Zedilho - ou este ' to anda 
preparando a vinda ao Jordo de D. Frei Joo Soares. em  ele?
O meu companheiro torce o nariz
- M rs. Por sua m vida a perversos costumes anda lanado s
os rabes. Serve-lhes de ir ao povoado buscar o que lhe mandam. cos a 
rabes no se do bem, so como inimgos pblicos uns dos os. Se os rabes 
vo ao povoado a os tomam os turcos, na mesma a os prendem a os fazem 
justiar. Por sua vez os rabes no per
239
doam em nenhuma maneira a turco se o acham em stio em que a seu 
salvo o possam matar.
Entretanto, vendo-nos aquele cristo andar negociados, diz ao abade 
Cali que, se queramos ir a alguma parte, de boa vontade nos acompanharia. O 
abade agradece-lhe a com agrado aceita a proposta. Chega o rabe Amir todo 
vestido de festa, um grande camiso branco de grosso algodo, feito a modo 
de opa, comprido at o cho, com mangas muito largas a os bocais delas 
lavrados. Grande festa lhe fazemos a ele ri-se envaidecido. Manda logo o 
abade fazer sinal e, juntos os caloiros, nos vamos todos  igreja orar por 
aquela santa a perigosa jornada. Tomando de casa o que  necessrio, que 
est j prestes com po, gua a uma pouca de farinha, repartida a carga entre 
ns, samos a caminho o venervel Cali, dois caloiros seus companheiros, ns 
trs, o cristo de Belm a Amir. Teramos caminhado uma milha, chegamos ao 
aduar do nosso guia, de uns sessenta casais. A vista deste esto outros 
aduares maiores. Saem-nos a receber e a fazer festa muitos rabes, porque o 
abade Cali, como h mais de trinta anos mora neste deserto,  muito 
conhecido a amado de todos a tido por eles na conta de santo. Assim vm com 
extrema cortesia a lhe tomar a bno como a pai. O velho, sabendo j seu 
modo, leva-lhes as mangas cheias de figos secos a pedacinhos de po. 
Rodeiam-no, beijando-lhe a mo e o hbito, moos a meninas, a ele lana-lhes, 
como a pintos, o que nas mangas traz, a um a outro lado.  coisa que costuma 
fazer sempre que aqui vem. Assim os torna domsticos e  deles amado. Para 
a mulher a filhos do nosso rabe reserva o abade seu quinho apartado.
Detivemo-nos aqui at se pr o Sol. Caminharamos de noite mais 
seguros. Amir despiu a opa das honras a envergou as roupas comuns, de bem 
vil preo como so todas as que os rabes usam. Toma de casa um couro de 
bezerro, grande a bem curtido, que com umas correias se fecha a abre como 
bolsa de cerralhas, de maneira que aberto serve de mesa a fechado de levar 
gua. D um arco ao cristo, com algumas setas, armando-se com outro, e, 
despedindo-nos dos rabes e Amir de sua mulher, nos pomos a caminho... 
Jornada inesquecvel esta, o rabe sempre adiante descobrindo terra com 
muita diligncia, trepando aos outeirinhos, de orelha fita, atentssimo, a escutar 
se bole alguma coisa. Caminhvamos em silncio a seriam trs horas 
passadas desde que anoitecera quando o rabe sente que pela senda vem
240
gente. Torna a trs a dar-nos aviso, tira-nos da trilha que levamos, 
desvia-nos derredor de um outeiro grande a alto, faz-nos meter entre as moitas 
do mato, encomendando-nos com um gesto da mo que estejamos quietos a 
em silncio. Com seu companheiro vai-se pr  beira do caminho, metido cada 
em seu arbusto ou saral, perscrutando o que l vem, arcos prestes a acudirem 
sendo necessrio. Estando ns assim calados esperando o fim do sucesso, 
chega-se-me  orelha Frei Benedeto:
- Padre Frei Pantaleo! - diz-me em voz muito baixa a compassiva. - 
Quanto agora ordene o Senhor Deus de mim o que mais for sua vontade! J 
ganhei indulgncia plenria pela minha conta benta!
- Folgo de vos ver to devoto - digo-lhe eu sorrindo. - Calai-vos a no 
temais. No ser vontade de Deus que morrais desta. Passaram os rabes 
sem nos sentirem, por irem fazendo uma
ruidosa gralhada a pelo tropel de mais de quarenta cabeas de gado e 
qwitro ou cinco de camelos que tinham furtado. Toda esta gente e sustenta de 
rapina e, tirando os aduares que entre si esto ligados com amizade, todos os 
mais no que podem empecem uns aos outros. Prosseguimos caminho e o 
abade Cali, apesar da noite, vai-nos apon'tando os lugares santos por que 
passamos: o Herdio, alto castelo edifcado, segundo conta Flvio Josefo, por 
Herodes Ascalonita, que mandou matar os meninos inocentes; as runas de 
uma sepultura antiga que, erradamente, diziam ser de Moiss; o stio onde, 
neste deserto, alga cn tempo morou So jernimo e, finalmente, seria meia-
noite, o sops do monte da Santa Quarentena. Estamos to cansados que nos 
uo podemos bulir, mortos de sede por se nos haver acabado a gua :_que da 
abadia trouxemos, sem acharmos outra no caminho seno ;uma de mau cheiro 
a amargosa, numa cisterna velha. Manda o abade Cali ao rabe que com seu 
companheiro cristo de Belm v  fonte do profeta Eliseu, que fica a menos 
de uma milha, a encham as vasi~lhas de gua a nos esperem neste lugar at 
que tornemos. Eles paritidos, escondemos o mantimento num silvado a moitas, 
a comeamos ~.a trepar ao monte. Aonde fomos buscar alento para to spera 
a ngreme aubida que ningum esmoreceu? Em alguns passos  preciso ir de 
ps > mos, por ser  maneira de rocha marina. O abade vai  frente, ~orno 
bom piloto.
- J por aqui subi mais de trinta vezes ! - nos diz ele, o que os inspira 
confiana.
24
Caminhamos to pegados uns aos outros que em alguns trechos um 
pe a mo onde o outro tem o p. A meio do monte, na pedra viva, uma capela 
muito bem lavrada! Sentarno-nos. Fuzil a pederneira, ferir do fogo, eis a luz e o 
nosso contentamento! Molhozinho de cavaquinhos tirados da manga pelo 
abade, acesos, feitos em brasas, e o incenso que nelas se deita a derreter-se e 
a perfumar, como  costume dos cristos orientais, estas estncias cavadas na 
rocha dura que rememoram o stio a que Cristo se retirou para jejuar a meditar 
por quarenta dias  O valor do silncio para impor o esprito  carne, a 
concentrao a ordem interiores  desordem a bulcio do mundo, o mediato ao 
imediato, o absoluto ao contingente, o divino ao humano!... Sentados no cho, 
em roda da candeia, enquanto o abade vai incensando, danam as nossas 
sombras pelas paredes como duendes a fantasmas do passado. Ergo-me e a 
minha sombra avantaja-se quando me aproximo para escrever na rocha o meu 
nome : Hic adfuit frater Pantaleon Lusitanus  J l esto inscritos outros de 
peregrinos hngaros a polnios... Por falarmos  vontade ao vermo-nos 
seguros dos rabes, a com a claridade da luz, saem a adejar algumas pombas 
que aqui criam a do de encontro a ns como atordoadas. Uma vem meter-se-
me nas mos. Agarro-a. Como tremes, coisa macia a viva! Irs connosco at 
Belm...
Pesadelo a vertigem da descida, em que se vai o lume dos olhos e o 
perigo  maior que na subida! Quando atingimos o sop, j a aurora desponta 
a nossos companheiros nos esto esperando com muita gua fresca. Regalo 
de nos saciarmos  vontade, pelo seu bom gosto a pela esponjosa sede a 
necessidade que dela temos!... Com muita pressa e silncio recomeamos a 
caminhada. Fonte do profeta Eliseu. Lana de si tanta gua que moem com ela 
muitas azenhas. Pouca detena aqui: beber, lavar as mos e o rosto, a logo 
partir... Passamos Jeric, umas vinte casas, que melhor chamaramos cabanas 
ou choupanas, posto que grandes a compridas a modo de estalagens, mal 
concertadas, pobres, habitadas de mouros! Runas, vestgios do que 
antigamente foi! Hortas, pomares, extensos canaviais de acar, que a gua 
no falta... Clareia o dia e o sol comea a derramar seu resplandor, 
caminhamos sob arvored espesso de rvores altas, de grosseira a asquerosa 
vista, com um fruto pequeno a vermelho, agreste, a modo de ma de anfega. 
No me sabe o abade Cali dizer o nome, nem as propriedades, nem fora deste 
lugar vi outras sernelhantes. Campina de Glgala, rasa
242
e espaosa, em que Josu, por mandado de Deus, circuncida o seu 
povo com cutelos de pedra! Pequeno vale onde Aco  apedrejado pelos filhos 
de Israel! Capela de Joo Baptista, em parte arruinada por um terremoto, mas 
onde ainda se vem belas imagens de muito bom pincel a finas tintas, to 
inteiras a claras que parecem mais modernas que ;intigas! Com estar neste 
remoto deserto onde de contnuo andam rabes, nenhum mal lhes fizeram, tal 
a devoo que turcos a mouros tcm a este santo. No aconteceu aqui como 
em So Sabas, em que ceganun todas as imagens... Plancie de Moab a terra 
de Cetim! E de repente esta espessa a mimosa vegetao a revelar que 
adiante vai correndo a gua que fertiliza as terras a as almas : o Jordo ! 
Alegria, pressa, impacincia em romper pela mata a chegar junto dele! 
Enquanto uns de ns se arrojam de borco, na margem, a beber da corrente, 
outros desatam a cantar:
Lavacra purl gurgitis caelestis agnus attigit...
 gostosa de si a gua a ns temos a sede dos caminhos, mas por ser 
aquela a achamos muito mais saborosa a no nos fartamos de a beber, como a 
querermos matar uma outra sede mais sequiosa...  um sbado, dia vinte a 
nove de Outubro, depois das nove horas do dia.
- Parece-me bem - diz-nos o abade Cali - estarmos aqui o dia todo. 
Descansamos da jornada a gozamos mais  nossa vontade do ~que tanto 
desejamos.
Todos ns concordamos.
. - Sinto-me velho -continua com voz triste - e no sei se ;terei outra 
ocasio de tornar a este santo rio...
Frei Zedilho, arrebatado, ajoelha em frente do velho a exclama: - 
Domine, bonum est nos hic esse 
Riem os gregos da postura a ar do meu companheiro, sem enten4erem 
o latim, a ns rimos, alm disso, pelo ajustamento do texto quelas 
circunstncias. Animado com a jovialidade de todos ns, o bade prope:
- E se tambm dormssemos aqui a noite? Passaramos o rio nanh... 
Ainda nos h-de ficar tempo para tornar com dia ao mos
' No h voz discordante a logo nos damos a cortar muitos ramos ie 
rvores a cada um a fazer para si choupana, o melhor que pode e
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sabe, ajudando os mais lestos aos menos hbeis. Elas acabadas, nos 
metemos dentro a repousamos. Teramos descansado duas ou trs horas, 
levanto-me eu a you espertar os companheiros, batendo as palmas, abanando-
os pelos ombros, fazendo-lhes ccegas nos ps, armando escarcu. Que 
deixassem o dormir para quando tornssemos a casa! Acordassem! 
Acordasseml...
Despertos, vamos para o rio. Roupas fora, banho geral, lavando-nos  
vontade. Ponho-me a cantar, recordado de coisas antigas, no meu doce 
portugus
Nascentes do Hermon guas de Tiberades
louvai ao Senhor!
No entendendo o que eu canto a julgando ser cantocho, padre 
Benedeto comea a salmodiar em latim a os caloiros, que tambm tinham 
acorrido  margem do rio, em grego, cada um para seu lado, enquanto 
esfregamos braos a pernas, a tudo  um louvar a Deus!... O abade Cali d 
ordens a Amir a ao cristo de Belm que cortem muita rama das tamargueiras 
secas que por aqui h, fere lume a fazem uma grande fogueira. Os dois 
caloiros tomam o couro do rabe, que nos serve de gua, e, aberto, lanam 
nele mais de uma quarta da farinha que de So Sabas trouxeram. Com gua 
do Jordo a amassam e do-lhe a forma de duas grandes tortas. Arredado o 
brasido, as colocam nele, cobrem-nas a enquanto cozem voltam para o rio a 
lavar-se e a folgar como ns. Depois que a Terra Santa est em poder dos 
infiis duvido de que algum possa ter tanta liberdade como ns temos neste 
momento a em tal lugar.
O cu, de uma particular claridade a limpeza, espelha-se no rio, muito 
fundo a estreito neste trecho, sem areia mas um lamaal quase como greda.
- Tomai um pouco dessa lama, Frei Pantaleo - diz o abade Cali da 
margem onde est sentado. - Secai-a ao sol a levai-a convosco para Franquia. 
 terra maravilhosa a muito medicinal para febres.
Fao o que me diz. Trouxe-a depois comigo para o reino e, com 
particular experincia, pude verificar a verdade do que dissera, dando-a a 
beber desfeita em gua a alguns doentes de febres, que sararam.
244
Bom a gostoso peixe tem o rio, que acima um bom tiro de arco vai mais 
largo a espraiado a faz uns medos grandes de areia. Da outra pane corre a riba 
mais alta a tem algum rochedo, mas ambas as margens cobertas de arvoredo, 
o mais dele tamargueiras altssimas, carrios muito grandes a mostardeiras.
- Vinde, vinde comer - chama-nos o abade. - As tortas esto
Sentamo-nos no cho, em roda do brasido. O abade reparte a da um o 
seu quinho, que comemos alegremente, vendo ter sido lassado com esta 
gua bendita.
- Este po amassado com esta gua santa tem virtude para curar vitas 
enfermidades - diz o abade, deliciando-se vagarosamente ,m o seu bocado.
Depois de comermos, todo o mais tempo gastamos no rio, porEe aqui as 
tardes a noites de Outubro no so frias como nas nossas rras de Franquia. A 
maior parte da noite passamo-la metidos nas ioupanas repousando, dando ao 
corpo o que a noite atrs lhe havaos tirado, para que se no queixasse a 
contra o esprito grunhisse. ropel de rabes, com mulheres a moos, sobre a 
manh! Grande rvao a nossa! Amir muito depressa se levanta a vai espreitar. 
So sais rabes que passam o rio, mudando-se para outras paragens. )m a 
cerrada espessura do arvoredo no nos vem nem sentem.
Amanhece. Horas cannicas a devoes particulares. Por ser )mingo 
detemo-nos mais um espao no rio. Breve colao de po gua. Pomo-nos em 
ordem de passar o Jordo para a outra margem. mir e o cristo betelemita vo 
primeiro para ver o vau que tal  e, -bando-o fundo, tornam-se a ns:
- No se pode atravessar seno a nado.
Determinamo-nos nisso, mas Frei Zedilho, receoso, pe-se de elhos, em 
breve orao, que todos ns secundamos. Depois cantnos o salmo In exitu 
Israel de Aegypto, domus Iacob de populo barLro... Os trs padres romanos 
dizemos um versculo em latim a os aoiros seguem-nos em grego. Em seguida, 
despimos os hbitos e micas, com eles fazemos umas trouxas o mais 
pequenas possivel Lie entregamos a Amir a ao cristo para as passarem  
outra margem, 3rque sabem muito bem nadar. De duas vegadas as passaram 
com mais que trouxemos a ns tambm transpomos o rio, ajudando-me dos 
por no ser bom nadador.
245
Em breve estamos outra vez de longada, pela terra de Moab, tendo  
nossa frente o monte Nebo.  meio-dia quando chegatnos ao alto do monte. A 
est ela, essa terra que Moiss contemplou e que para si em vez de terra da 
promisso foi a terra da proibio: desde Galaad at Dan a Neftalin, Efrain a 
Manasss; parte do Mediterrneo, para os lados de Tiro a Sidnia, o mar 
novssimo da Escritura, que se remata naquela parte da Palestina que est 
junto do monte Lbano a Antioquia; a cidade das palmeiras, Jeric, a toda a 
campina de Glgala, Betel, Belm, Jerusalm, a Santa Quarentena, a terra de 
Madio, que est para a parte oriental de Damasco, Basan e a terra dos 
Amorreus; grande trecho da Arbia Deserta e o monte Seir, e outras muitas 
regies a lugares cujos nomes no sei.
Descemos ao vale, por trilhos pobres de p a cascalho. Aqui est uma 
igreja antiga, mas inteira, em comemorao do verdadeiro lugar em que se 
encontra sepultado Moiss... Se quisermos tomar um pouco de trabalho...  
o abade. H ainda muita parte do dia por passar, porque nenhuma detena 
fazemos mais que ver a andar com a brevidade possvel, por ser assim 
necessrio, a entende que somos curiosos a desejosos de ver coisas novas. 
...levar-nos- a ver uma coisa que, depois de vista, no nos pesar de a 
termos visto nem nunca mais nos esquecer...
- Que coisa ? - pergunto.
S me sabia dizer que mostra ser um espantoso a terrvel juzo e castigo 
de Deus. A Escritura no tocava nela...
- Muito vos agradecemos, abade Cali. Levai-nos l. Caminhamos mais 
de meia lgua para oriente a vamos ter a um lugar todo cercado de alta 
muralha, mas por muitas partes derribada, inado de mato a coberto de agreste 
arvoredo. Entra o abade adiante e ns aps ele. O que os meus olhos vem 
ainda o trago na retina! No so formas definidas, delineadas a animadas com 
a nitidez do que  vivo, mas vagos, desgastados, corrodos a esbatidos 
vestgios do que foram. Fantasmagrica viso  So homens a mulheres, 
velhos, moos a meninos, gatos, ces a outros animais, todos de pedra viva! 
Casas, umas inteiras, outras em runas, a nelas, como tambm pelas ruas a 
praas, aquela gente conserva a postura em que a morte a surpreendeu. Aqui 
parecem estar uns conversando com outros, alm um velho sentado  soleira 
da porta, a apanhar sol. Sobre o balco, em que se vem os pezinhos que 
estava a vender, a padeira caiu de
246
~uos. Alguns, deitados, levam a mo encrispada ao peito,  garlnta, a 
assim se ficaram... To grande  o nosso espanto a consterio, a to 
tumultuosos os nossos pensamentos, que samos da cidade orta sem dizer 
palavra. Por fim, j c fora, pergunto ao abade Cali: - Que dizem ser isto ?
No havia quem soubesse a certeza. Uns tinham para si que, :los muitos 
pecados desta gente, Deus a converteu a s suas coisas n pedra, como 
noutros tempos castigara os Sodomitas a convertera mulher de Lot em esttua 
de sal. Outros falavam, timidamente, de ae este lugar foi teatro de uma grande 
tragdia, acontecida h muito mpo. Depois da queda de Jerusalm, um grupo 
de mil zelotas refuou-se aqui. Sitiados pelos Romanos, aguentaram o cerco 
durante ia trs anos, ao fim dos quais, vendo iminente a tomada da cidade, seu 
cabea, juntando o povo, props uma morte colectiva, prefevel a um cativeiro 
desonroso. Deus ou os sculos, ajudados da grande linidade dos ares 
emanados do Mar Morto, que tudo mata, os ter
Partimos deste lugar maldito com a alma cheia de temor a no 3,ferimos 
mais palavra, pelo caminho, at de novo atravessado o rio s metermos em 
nossas choupanas a repousar. No dia seguinte, ao ianliecer, depois de 
enchermos as vasilhas de gua do Jordo, encenos a jornada para o Mar 
Morto. Terra de desolao, de castigo, pesadelo ! Quanto mais nos vamos 
chegando a este mar tanto acha)s lugares pssimos, fedorentos, de poas a 
pequenas lagoas cauias das suas crescentes, em que se forma o sal usado 
nesta terra e e salga muito mais que o da nossa. At os nomes por que  
designado
nomes de morte  Mar Morto, porque no cria nem consente em coisa 
viva; Mar de Sodoma, por estar junto da cidade sobre que :us cho veu fogo a 
enxofre, pois os seus moradores cometiam uns m os outros o nefando a 
pssimo pecado; Mar Salso ou Salgado, r ser sua gua salgadssima, mais que 
a de todos os outros mares; go de Asfalto pela quantidade de betume ou pez 
arbico que de lana. Mar do Inferno deveria ser chamado : a gua  clara 
como stal a muito fria, mas da natureza do fogo vivo.
- Amir, no querers meter-lo dentro da gua a atirar-nos ;unias dessas 
pedras que esto no fundo a dizem que ardem como
--Muito caro me haveria de custar. Metei-vos vs a j vereis.
247
Frei Benedeto resolve fazer a experincia, para saber se  como dizem.
- Pater Pantaleone, a despecto mio, voglio satisfare il mio desiderio.
E, tomando uma mo-cheia de gua, a leva  boca a no mesmo instante 
lha abrasa toda, como se fora fogo. Entretanto tambm eu tomo na mo uma 
pouca, para ver se  salgada como referern, a subitamente me faz os beios 
empolas. Passam dois dias sem da mo poder tirar o mau cheiro.  como se a 
tivesse metido em borras de azeite ruim, embora a esfregasse com ervas a 
areia...
Vapores contnuos, grossos a fedorentos, se exalarn desta boca do 
inferno a em todo o redor, por duas lguas, no medra rvore ou arbusto ou 
qualquer verdura que aproveite. Em algumas partes, umas rvores agrestes a 
ascorosas  vista, que do um fruto a modo de marmelos grandes a formosos. 
Tomados na mo, desfazem-se em cinza! Terra de cinza na verdade  esta, 
que at se me estomaga a natureza com a memria de to horrendo a 
abominvel stio l... No nos detemos mais a breve partimos para So Sabas, 
caminhando por umas montanhas muito speras de subir, bem diferente 
canunho do due tnharnos andado. Aperta-nos a sede, intolervell No h 
pinga de gua nas vasilhas. Tnhamo-la bebido sem o sentirmos, porque o ar 
d,ste pestfero lago que deixamos para trs nos abrasa as entranhas a quanto 
mais bebemos mais sede padecemos, como se a gua fosse azeite lanado no 
fogo. Sol posto, damos com uma fonte jorrando gua por trs ou quatro bocas 
a correndo como ribeiro  Grande alegria a nossa, logo convertida em desiluso 
a tristeza: a gua, ainda que clara a limpa,  malcheirosa a amarga... 
Caminhamos por este duro trilho at depois da meia-noite que samos fora das 
montanhas, a vendo-nos cansados e com fome a sede, pois no temos coisa 
alguma de mantirnento, resolvemos repousar. Fazemo-lo na terra dura, em um 
desumano pedregal, sem haver rvore ou moita a que nos possamos arrimar. 
Fatigados em extremo a cheios de suor, de tal maneira nos trespassa o ar que 
depois todos estivemos  morte...
Antemanh tenho necessidade de me levantar a dirijo-me para umas 
rochas que h perto. Ouo um bichanar de vozes a espreito: o cristo de Belm 
fala baixo com o rabe Amir. No consigo perceber o que dizem, mas no 
agoiro nada bem deste concilibulo. Em amanhecendo retomamos a 
caminhada e, entre as sete a oito do dia, che
gamos a um campo grande a raso, uma lgua pequena distante do 
aduar de Amir. Uns cinquenta rabes ordenados em dois grupos, com seus 
arcos, em postura de quem quer pelejar, fazem entre si uma grande gralha a 
palratrio. No meio est uma mulher. Uns vinte a cinco anos. Sentada sobre 
um camelo. A seu modo muito bem ataviada a galante... Aproximamo-nos.
- No temais - diz-nos Amir. -  negcio de casamento. Abade Cali, 
quereis dar aos vossos amigos uma pequena de recreao com a vista deste 
acto?
- Muito contente serei, se no houver perigo.
- Vamos todos juntos a toquemos a mo da noiva, encomendando-nos 
em sua graa, a assim estaremos seguros sem temer coisa Qlguma.
Vai o abade adiante e, chegando junto da jovem, toca-lhe a mo c diz:
- Somos caloiros do Mosteiro de So Sabas e v imos do Jordo. 'Uma 
vez que tivemos a dita de chegar em tal ocasio, rogo-vos tenhais `por bem 
dar-nos seguro a licena para vermos em que pra esta contenda.
Com a boca cheia de riso no-la concede a assim lhe vamos tocar mo. A 
todos nos mostra muito bom acolhimento a ns pomo-nos Junto dela para ver 
melhor o que se passa.
Os rabes, depois de entre si tratarem o que lhes convm, apar'tados 
uns dos outros, comeam a atirar at um certo nmero de setas. So dois os 
pretendentes, mais assinalados com seus camises a dar-lhes pelos ps, a 
roar pelo cho, algodo grosseiro, as mangas muito compridas a largas, nos 
bocais a cabeo toscos lavores. Combatem t enquanto combatem, 
competindo na destreza do manejo do arco e na pontaria, imagino-me na doce 
taca a revejo a fiel Penpole a os yseus pretendentes e o terrvel arco de 
Ulisses... Depois de haverem `Combatido a seu modo, o que levou a pior a no 
atirar no foi to certo
noiva, alm de a perder d-lhe dois grandes coiros de camelo, um r nele 
comerem os noivos e o outro para dormirem, e ao noivo formoso arco e uma 
dzia de setas. Todos se abraam com muita e, sem mais contenda, se aparta 
uma quadrilha da outra e se vo Isuas tendas.
-- Todos se casam desta maneira? - pergunto a Amir. - No  Somente 
aqueles que so cabeas dos aduares. TOrnamOS a tocar a mo  noiva, em 
despedida.
248 x;249
- Quereis guarda para o caminho? - pergunta o noivo.
- Muito obrigado ! - responde o abade Cali. - No ser preciso. Temos 
perto a pousada.
Partimos. Todo o resto do caminho o rabe Amir vai cantando, ele l 
sabe porqu. Surpreendo mais que uma vez o cristo de Belm sorrindo a 
olhando-nos de soslaio. Comeo a estar intrigado a temeroso. No tarda que 
as minhas apreenses se justifiquem. Chegados ao aduar dos rabes somos 
deles muito bem recebidos e a mulher de Amir logo acode com gua fria, que  
a melhor iguaria que em tal ocasio nos pode ser dada. Que bem que me sabe, 
embora a esteja bebendo numa tigela de pau em que ela ordenha as ovelhas, 
com um sarro de dois dedos ! Depois de repousarmos um pouco, o nosso 
rabe toma ao abade Cali pela mo a leva-o a outra estncia, apartada da sua 
um tiro de pedra, onde j tinha juntos alguns rabes dos mais velhos do aduar, 
a a, diante deles, lhe fala assim:
- Abade Cali, h muitos anos que to conheces os rabes a os tratas, a 
eles a ti, sem nunca entre ns se encontrar falsidade nem engano. ..
-  verdade - diz o abade, sem atinar aonde ele quer chegar. - Ns, os 
rabes, temos opinio a trazemos em prtica sermos leais nas amizades a 
guardarmos com verdade a fidelidade a quem no-la guarda.
-  esse tambm o nosso timbre.
- Tu, no sei com que nimo, me quiseste enganar... - Eu?!...
... sem to eu merecer, querendo  minha conta zombar a escarnecer de 
todos os rabes...
- Que ests to para a a dizer?
- ... tendo para ti que, assim como somos grosseiros no modo da vida, 
tambm o somos de entendimento.
- Que bicho to mordeu? Desembucha depressa, v!
- Mandaste-me chamar dizendo eram vindos uns caloiros de Cndia, 
grandes amigos teus, muito devotos, a que os querias levar ao Jordo e a 
outros lugares aonde os cristos costumais fazer vossas romarias...
- Assim foi. E depois? - diz o abade, aparentando uma segurana que na 
realidade lhe comea a fugir.
250
- Pediste-me que vos acompanhasse e, por amor de ti a deles, a todo o 
perigo me expusesse. Como to tenho por amigo a sempre to fui afeioado, no 
fui preguioso em acudir a teu chamado. E to que  que fizeste?
- Que  que eu fiz ?
- Sim. Que  que fizeste? Em pago desta vontade a em satisfao 
destes desejos, em lugar de caloiros levaste-me por guarda de cristos 
francos.
-  falso!
- Pelo engano que me foi feito...
- falso!  falso!-diz o abade afoitamente, tomando nimo. - ... ficam 
todos trs meus cativos.
-Meu Deus! J nos rabes no h lealdade a lhes falta a ver'ade! Tu 
cometes uma traio to grande contra quem est inocente! - Deixa-lo de 
brados a clamores, abade ! Muita sorte tens to
xtn eu no querer usar do meu direito nem seguir o estilo que se coster 
em semelhantes negcios. Fao livres dois deles a ao outro, ei muito bem ser o 
guardio de Belm, ou h-de ficar meu escravo
9-u se h-de resgatar por muito bom dinheiro, ainda que por amor de eu 
seja moderado no preo - diz Amir, muito zangado. E saindo m pressa da 
estncia onde esto vem direito a ns, que j estvamos ra ouvindo a 
discusso, toma Frei Zedilho pela mo, leva-o diante ~' abade a dos rabes, 
exclamando irado: -- Cali! Cali! Este que aqui r no  caloiro, por mais que to 
porfies a brades. Eu o vi muitas
zes na casa dos francos a em outros lugares, com diferentes trajos. para 
que eu fique com a verdade a to com a mentira, despe-lo to lele a faamos a 
comparao.
O abade, ouvindo isto, cobra nimo e, sem o exteriorizar, diz tuito srio:
- Seja como queres.
Despidos ambos, v-se estarem vestidos de uma mesmssima neira. 
Frei Zedilho tinha sido o nico de ns trs que quisera vesse totalmente  
caloiro, louvado seja Deus! Fica o rabe embatuo, envergonhado, por no sair 
com a sua. O abade e o meu comeiro tornam a vestir-se.
u- Olha c, abade Cali! - torna Amir, procurando um ltimo ento, mas j 
quebrado do primeiro fervor. - Facilmente pode homem mudar as roupas, 
vestindo outras. Mas de que vem este
25
e os seus companheiros trazerem coroa aberta na cabea, como tra-
        Festeja a resposta com muita risada a os meninos acompanham-na,
zem os francos, a no cabelo comprido como os caloiros?        ' sem bem 
saberem o que se passa. Nisto entra Amir. Vem por uma
No se desconcerta o abade:        corda.
-  para atar o vosso companheiro - diz, saindo de rompante
- Olha, Amir! Eu a os outros caloiros de So Sabas andamos com        ,
faanhudo
afastando-me com brusquido
quando brandamente o
os cabelos compridos como gente simples a idiota a como tais vive-
        ,
,
F
mos neste deserto. bias estes caloiros de Cndia, que so letrados a
        tento impedir. C fora o cristo de Belm trava do brao ao rabe,

pessoas de muito respeito, andam desta maneira, com as coroas aber-
        : procurando impacientemente chegar com ele  fala:
tas em toda a Grcia.        - Escuta  H aqui um engano muito grande 
Os rabes velhos comeam a murmurar entre si, mss Amir no        - 
Deixa-me  - grits ele, sacudindo-lhe o brao. - Sei muito
        bem o que fao. Aquele  que fica preso a no o outro que 
queres.
se deixava convencer:        
D mais dinheiro
.
- A concluso de todo este negcio - diz - seja que tu, abade        ' - Mas 
isso  uma traio!
Cali, com os mais vos vades embora, ficando este aqui, comigo, meu
        3
- Quem fala em traio aqui? - diz Amir iroso, crescendo
cativo. Por mais razes que rne ds, o que  meu no mo hs-de tirar.
        para o cristo. - Queres que to corte as goelas?
Disso sei muito bem a verdade. Este s quero que fique, at que os
        Quando Amir chega junto dos outros, j todos os rabes do
seus francos me dem por ele bom resgate. E mais to juro, abade        ~` 
aduar esto presentes, em grupos, falando alto a ao mesmo tempo,
Cali, que o no ho-de levar da minha mo sem primeiro me meterem
        a os mais deles se pem a defender a nossa causa. O abade Cali, 
vendo
nela duzentos saquins de ouro.        _
o caso mal parado, pe-se de novo a bradar:
Havia muito que nos tnhamos aproximado daquela tenda a pre-        
J os rabes perderam a f e a lealdade! Que h-de ser de ns?
-
sencivamos a cena. Quais ns todos estvamos, sabe-o Deus! Mas,
        J no existem verdade a amizadel Daqui por diante os caloiros ho-de
L
por dissimulao, no mostrvamos tristeza nem torvao.        
': ter aos rabes por mortais inimigos!...
- Ide-vos embora  - diz o rabe dirigindo-se a ns. Mas eu        Sem fazer 
caso, Amir pe-se a atar os ps a as mos a Frei Zedi-
abrao-o, dirijo-lhe palavras mansas das poucas que sei. Faz orelhas
        ' lho, que treme como varas verdes, deitado no cho, todo embrulhado,
de mercador, aporfiando que nos ponhamos a andar.        fazendo um 
grande esforo por no chorar, cerrando os dentes.
- Nol - digo-lhe eu muito srio. - Ficaremos aqui todos como        - Que 
 l isso? - troveja o vozeiro de um rabe alentado
escravos, ou levaremos nosso companheiro livre.        " que se recortava 
na claridade da entrada com um grande a rico tur-
Os outros rabes rodeiam o abade Cali, procurando a paz a con-        bante 
na cabea a um alfange  ilharga, denotando em tudo ser um
certo, diminuindo o preo de duzentos saquins para cem a depois        chefe 
importante. Avana dois passos, arremete a Amir, dando-lhe
para cinquenta a menos.        quatro ou cinco punhadas, toms-lhe a corda, 
desata meu companheiro
- No! - exclama firme o abade. - No dou mais do que        ';e, eom ela 
volteando na mo a modo de chicote, olha em roda todos

com Amir concertei quando samos de casa.        :_
quantos aqui esto a fala muito agastado:
Enquanto eles nisto andam, para me mostrar ao rabe mais doms-
        - Esta  a verdade dos rabes?-a na pausa que faz tal  o siln-
tico, you at sua tends a ponho-me a brincar com os seus dois meninos.
        .,cio de todos que se ouvem os dentes de Frei Zedilho a castanhola-
A me mostra folgar muito com isso, mss ainda me chama trs ou        ' .era 
uns contra os outros. - Esta  a f que guardam a quem se fia
.
quatro vezes frangi!, frangi!...        .eles? - continua e, dando um passo 
em frente, agarra Amir pela
Respondo-lhe (Deus me perdoe!):        la, quase o erguendo no ar. Vai-
se junto dos velhos e, de olhos espe-
- No. Os frangues so maus. Os rabes a os caloiros  que        os nos 
deles prossegue : - Isto permitis vs outros que se faa
so bops.        
to dos vossos olhos a um caloiro de So Sabas?
252 253
A confuso e a vergonha apoderam-se deles, que no encontram 
palavra que responder. O abade Cali, vendo isto, torna s boas a d a Amir uns 
seis madins mais do que lhe prometera, num gesto que  incoerente com a sua 
to firmemente gritada inocncia. Feitos todos amigos, nos pedem perdo.
- O cristo de Belm  que teve a culpa toda! - diz-nos Amr, 
humildemente, tentando desculpar-se.
Olham todos em volta, mas o cristo tinha-se sumido. Eu quase no 
ouo o que em minha volta se passa. H j uns bons momentos que, um pouco 
afastado, a um canto, estou tentando dentro de mim identificar aquela voz a 
aquele olhar do rabe que nos veio salvar de to incmodo transe. Vendo-me 
olh-lo fixamente, numa ocasio em que todos rodeiam o abade Cali a Amir, 
que so agora o centro das atenes, chega-se-me  beira, como por acaso, a 
diz-me, em perfeito portugus, nessa voz ciciada que eu ouvi uma vez na Igreja 
de Santa Maria de Belm:
- Bom dia, Frei Pantaleo 
XIII
A virtude do vinho
Quicumque vult esse frater bibat semel, bis, ter, quater, bibat semel et 
secundo, donec nihil sit in fundo.x
Quem ser irmo desejar
beba uma vez, duas, trs, quatro, beba primeiro a segundo
at nada haver no fundo.
(Ann., sc. XII, Carmina Burana)
Um alto monte separado de outros derredor.  o lugar onde 
antigamente, nos tempos dos reis de Isarael, esteve a cidade de Sama-ria, 
cabea de toda a provincia do mesmo nome, agora de todo arruinada, sem que 
haja dela mais memria que alguns destroos de anti"gos edifcios, algumas 
colunas inteiras levantadas ao cu na sua deso-lda, solido, outras em 
pedaos ladeira a baixo, de mistura com ervas ~`e tojo a pedraria lavrada, 
restos de fustes, capitis, arcos, grgulas, `que foram jias a cnticos de 
pedra... Passamos uma igreja de caloi''tos e o sepulcro do profeta Eliseu, muito 
limpos a reverenciados por ~aqueles religiosos gregos, a em seguida uns 
casais pobres onde moram scristos a mouros, mesclados, que se do  
lavoura e a criar gado,
ue a terra para uma a outra coisa  grossssima a no lhe falta seno 
rA~ a
"m se queira aproveitar dela. A caravana segue muito devagar e  
espao, espalhada em longa fila, por muito numerosa. Diante, em
254
255
burros a mulas, vai toda a bagagem a gente de servio, e, a rematar 
este grupo, duas azmolas carregadas de gua a um mouro, em cima de um 
quartau, que a distribui a d a quem a pede. A seguir, num belo cavalo branco 
ricamente ajaezado, um garboso turco vestido de gala, turbante branco na 
cabea, arco a flechas pendentes do ombro, atrs das costas, alfange brilhante 
 ilharga, mo esquerda segurando as rdeas a na direita uma temerosa maa 
de armas. Encabea uma guarda de seis homens, dispostos em duas filas de 
trs, a cada lado da estrada, montados em formosos a bem arreados cavalos 
castanhos e primorosamente vestidos a armados, como o seu chefe. Vm 
depois, suficientemente afastadas a fim de terem espao para zimbrarem o ar 
com os seus azorragues, outras duas guardas de cavalo, com um simples 
bluso branco aberto no peito a de mangas cortadas pelos ombros, nus os 
poderosos msculos de bronze, que no consentem chegar-se perto pessoa 
alguma. Como num conto oriental de fadas, dois luxuosos corcis, um atrs, 
outro adiante, suspendem dos varais as preciosas andas em que segue, 
vagarosa a madornenta, a jovem mulher do bax de Damasco, viso-rei de toda 
a Sria a Palestina. Desejosos de ver de perto o modo e o fausto da caminhada 
de to nobre senhora turca, eu a meu companheiro apeamo-nos das nossas 
montadas a paramos na berma para v-la passar. No  to ligeiro Frei Zedilho 
que deixem de o alcanar os azorragues dos guardas, e com a pressa de se 
desviar cai entre as pedras de uma igreja arruinada que a est junto ao 
caminho. Mas vemos a turca muito  vontade: segue com grande ambio a 
pompa, metida em suas andas, douradas por dentro a por fora, feitas de toda a 
parte em gelosia com suas corredias interiores, muito ricas, a traz a portinhola 
aberta... ou porventura, em nos vendo, a abriu com alguma feminina 
curiosidade, para que a vejamos, porque ela  de muito rara formosura. Vai 
falando com um mouro pobre, roto a esfarrapado, que segue descalo ao lado 
das andas, sem coisa alguma na cabea, mas uma grande grenha e cabeleira. 
F-lo para se mostrar espiritual a religiosa - e mais vindo de uma romagem to 
santa como a da Jerusalm, onde eu a vi visitar o sepulcro de Nossa Senhora 
no vale de Josaf -, porque aos tais pobres tm os turcos a mouros em grande 
venerao a por muito santos a desprezadores das coisas da Terra a lhes 
chamam mensageiros de Deus que andam em peregrinao pelo mundo.
Detrs da turca vm cinco andas tambm muito ricas, com suas aias a 
criadas, a em seguida, em bons cavalos de gineta, outras cinco mulheres, 
novas a galantes, vestidas de seda negra a os rostos cobertos com vus 
pretos, que parecem fantasmas, apenas se lhes vendo os olhos escuros a 
brilhantes. Um ltimo corpo de guardas a cavalo fecha o cortejo. Segue-se a 
multido daqueles que, como ns, conseguiram superior licena para viajar  
sombra a proteco de to poderosa a luzida companhia.
 o dia dois de Maro de 565 a caminhamos para norte, em direco a 
Damasco a eu em direco ao meu destino... Quanta pequena coisa se havia 
passado desde que, naquele fim de Outubro pretrito, eu cara de cama com 
grandes febres, mal chegara a Belm! Isac Bei~udo, disfarado de rabe, 
tinha-nos escoltado, sobre a tarde, do aduar dos rabes at ao Mosteiro de 
So Sabas, j eu ento comeava a sentir tonturas a as pernas a vergarem-se-
me. Seguiram-nos alguns rabes ~eom cinco ou seis arabescas, na esperana 
de que, por causa da paz que havamos recentemente ajustado com Amir, lhes 
faramos alguma caridade da pobreza que tinham, em especial da gua das 
cisternas, que era excelente. Isac, com seus dois guardas, sempre foi junto -
connosco, os outros com as mulheres seguiam atrs, afastados um -tiro de 
pedra. Um tanto trabalhosa a nossa entrada na abadia! Os caloitos; j avisados 
do embarao a perigo em que o cristo betlemita nos tinha posto - porque o 
abade Cali, logo que entendeu o enfadamento,
avia mandado aviso a casa-, j estavam esperando por ns do alto *a 
torre que cai sobre o caminho. Vendo-nos ir chegando, fizeram-nos inal que 
fssemos ter ao p dela e, para que os rabes se afastassem nos deixassem a 
passagem livre, comearam a atirar l do alto mui.s pedradas. Isac a os outros 
dois, atrs dos quais propositadamente e colocara a fechar o grupo, levou-os o 
abade consigo ao longo
Wa parede do mosteiro. Com suas fundas defendiam os da torre muito 
em o passo. Depois foi a penosa escalada, a pique, pela longa escada e corda 
que de cima nos lanaram. E na alegria de chegarmos a porto
kgur, >, do saciar da fome a da sede, da leda conversao com os 
caloi0os, acabou toda aquela perigosa aventura.
Repousvamos, quando o abade Cali, de madrugada, nos veio isar de 
que um caloiro muito prtico naquela terra partia para Belm. qui.sssemos ir 
com ele, nos levantssemos. Assim fizemos e, tomada bneo do abade, nos 
despedimos. Isac a seus guardas quiseram
256 257
acompanhar-nos. O caloiro que levvamos por guia no sabia falar 
palavra que pudesse ser de ns entendida a ele muito menos a ns nos 
compreendia. Isto agradava-me, pois desejava aproveitar a primeira 
oportunidade que se oferecesse para falar com Isac Beiudo.  evidente que 
com a companhia deste no precisvamos de guia para nada, mas eu 
compreendi que o silncio de Isac significava que desejava manter-se na 
sombra o mais possvel. Para calar curiosidades acerca da sua interveno 
inesperada a benfica, fiz vagamente saber ao abade Cali que se tratava de 
um grande amigo a aquele vesturio era um disfarce. Ningum fez perguntas 
indiscretas... Anda que anda, a oportunidade de falar com ele  vontade no 
surgiu ainda desta vez. O caminho era pssimo e o mais spero que em minha 
vida andei: tudo matos a pedregulho, sem aberta alguma que se pudesse 
atinar. Alm disso, andava-se to depressa que eu a custo podia acompanhar 
o ritmo da caminhada. Saiu-nos o Sol perto de Belm, j fora de todo o perigo a 
em lugar onde vimos tantas raposas juntas que nos causaram espanto. J 
nessa altura sentia terrveis dores no peito, os dentes chocalhavam-me uns 
contra os outros, como castanholas, e todo eu escorria suores frios.  porta do 
nosso mosteiro desmaiei...
Estive doente at princpios de Dezembro. Tambm Frei Zedilho a Frei 
Benedeto tinham cado de cama com os mesmos sinais de grande 
resfriamento. Fora daquela vez que dormramos ao relento, suados do 
caminho, cheios de fome a sede, num desabrigado pedregal. J 
convalescentes, o mdico, que nos vinha ver todos os dias e administrar as 
mezinhas, ria-se das nossas conjecturas. Todo o nosso mal... - e punha um ar 
doutoral ao dizer estas coisas... chamava-se Barbosa, tinha sido lente em 
vora a gabava-se de em Portugal ter ganho muito dinheiro ao baro de Alvito 
- ... procedia do ar pssimo desse mar pestilento que tnhamos visitado. No 
devamos ter ido em tempo de outonada que era o mais malino.
No tardou que, depois de nos vermos curados, regressssemos de 
novo, meu companheiro a eu, a Jerusalm, com grande alegria de padre 
Bonifcio, que estava preocupado com o nosso estado de sade.
- Que saudades tinha de vs ! - exclamava, abraando-nos, quando 
chegmos. - No devia ter-vos deixado ir a essa visita infernal...
- Infernal? - ripostava Frei Zedilho. - Visitar o Jordo  ?
258
- Infernal - corrigia Frei Bonifcio paternalmente - visitar terras de 
Sodoma! Foi o hlito do Inferno que vos fez adoecer.
Eu andava apoquentado, sem saber que fazer. Isac Beiudo, nos 
hrimeiros dias da mnha doena, vendo que eu delirava, deixou-se estar por 
uns dias em Belm e, com licena do guardio, passava h(-)ras  minha 
cabeceira. Depois, um dia, quando eu pude dar acordo de mim a falar, disse-
me:
- Tenho de vos deixar por uns tempos. Chamam-me afazeres 
importantes. Quando estiverdes bom, ireis para Jerusalm, suponho... - Sim, 
julgo que  melhor.  preciso partir para o norte.
-  urgente. Darei notcias minhas quando l estiverdes. Adeus Curai-
vos depressa.
Estendi-lhe a mo, esbranquiada a magra, que ele apertou nas
- Obrigado, amigo! - disse eu.
No limiar da pbrta hesitou, a olhar para trs como quem tem algo que 
dizer. Aproveitei a ocasio. Como tinha ele sabido que ns corramos perigo no 
aduar dos rabes?
-- Como soube eu que Frei Pantaleo de Portugal corria perigo, que para 
ele s se dirigia a traio do cristo?
-Para mim s?
Lembrava-me de ele me ter falado, na nave da Igreja de Santa Maria? 
Ainda no tinha ido embora, conservava-se escondido na so >mbra, quando 
ouviu a encomenda que o aclito do bispo de Coimbra fazia ao renegado 
betlemita. Ficara alertado a arranjara as eoisas de maneira a poder intervir a 
tempo. O rabe Amir, todavia, na mira de ganhar mais dinheiro, roera a corda 
ao cristo trocando-me pelo guardio de Belm...
- Frei Joo Soares ! Porqu?
A mando de quem, perguntasse antes, que aquilo vinha tocado nuais 
de cima. Mas palavra de Isac se o no havia de saber!... Adeus!, fez-me sinal 
com a mo a despedir-se.
: ali estava eu em Jerusalm, de espao, revisitando de contuu0 os 
lugares da Paixo, da Ressurreio, da Ascenso a todos os mais stios em 
redor. Padre Bonifcio dava-nos toda a liberdade de ~2'ovjmento, libertando-
nos dos laos da vida em comunidade a ele
rprio incitando-nos a que gastssemos o nosso tempo em coligir, s 
nossas visitas, relquias para fazermos agnus dei, cruzes a benti
259
nhos. Viria o tempo - advertia - em que, nas nossas terras, nos pesaria 
de o no termos feito assim!...
Visitei Silo, lugar onde em tempo de Josu foi colocada a arca do Velho 
Testamento, a Ramataim, ptria do profeta Samuel, no mais que grandes 
runas de edifcios antigos e, em redor, muito speras a medonhas montanhas. 
Aqui, o gro-turco tinha dado liberdade de morar a toda a pessoa que o 
quisesse, oferecendo favor da sua parte. Mas, como  stio apartado de outras 
povoaes, no h quem da merc queira lanar mo, embora a terra seja 
bonssima a muito abundante de gua. No tempo da nossa partida, andavam 
bastantes judeus portugueses a castelhanos muito negociados a abelhudos 
para irem l morar, mas no sei em que parou a sua determinao. Estive 
tambm no lugar em que fora a vila a castelo de Emas, bem como na cidade 
de Nicpolis, de que ao dia de hoje h muito pouca memria, somente posta 
por terra a meia arruinada a capela que foi construda no stio em que Cristo, 
aps a ressurreio, apareceu aos dois discpulos.
Assim ia eu passando o tempo a era tal o meu estado de esprito, entre 
a melancolia monstica, a nsia de partir para Damasco ao encontro de mestre 
Jacob, a impacincia por no ver chegarem sinais de Isac Beiudo e, l bem no 
fundo de mim, a chaga aberta das saudades de Helena, que j considerava 
ociosidades todas essas visitas e o coligir de relquias. Tambm no fazia a 
mais pequena ideia sobre o modo que havia de ter para me tornar a terra de 
cristos. Olhando aqueles destroos a descalabros comparava-os comigo 
mesmo e pensava ser assim de runas a minha paisagem interior: derribadas e 
partidas as altivas colunas jnicas, de capitis com acantos rendilhados, dos 
meus elevados ideais; desfeitos em pedaos os vitrais msticos do meu 
franciscanismo; os boqueires das grgulas das minhas hesitaes, das 
minhas reservas a pequenas hipocrisias, dos meus pecados, desdentados a 
cobertos de musgo, com lagartixas a sardes coloridos refastelados ao sol; a 
cruz do meu voto cada aos bocados por terra, entre as ervas daninhas; 
paredes a desmoronarem-se na desolao do descampado em que so 
senhores os uivos dos lobos a dos ventos do deserto!.
Chegaram um dia  Santa Cidade cinco fidalgos italianos : urn romano, 
sacerdote muito virtuoso a honesto, por nome Misser Antnio, um bolonhs, 
um florentino, um brexano a outro veneziano,
260
chamado Misser Carlo. Sem saberem uns dos outros se encontraram 
em Veneza por causa da embarcao para a Terra Santa. Como na altura no 
houvesse prestes nau para Chipre a tivessem boas bolsas, que  a coisa mais 
importante para remediar inconvenientes, meteram-se num barco que ia para 
Alexandria, com inteno de visitarem primeiro o monte Sinai que Jerusalm. 
Em Alexandria contactaram com muitos mercadores venezianos, que ali nunca 
faltam, a foram de seguida pelo Nilo at o Cairo. A encontraram um mancebo 
francs que de pequeno estivera nas gals do gro-turco a sabia falar muito 
bem as lnguas turquesca a arbica. Havia fugido a andava escondido entre os 
mercadores cristos que naquelas partes tratam. Todo o seu desejo era tornar 
 sua terra a no via modo disso, at que se encontrou com aqucles italianos, 
que se concertaram com ele. Obrigavam-se a dar-lhe todo o necessrio a 
traz-lo a sua ptria, se lhes quisesse servir de lngua naquela jornada. Ficou o 
jovem muito contente a vestiram-iio logo  italiana. Compradas tendas de 
caminho a tudo o mais que era preciso para to longa viagem, se puseram de 
longada, metidos em uma cfila, pelos desertos dos areais, a foram ter a Gaza, 
junto do lbron. Desmanchada a a caravana, seguiram caminho a vietam ter a 
Jerusalm, onde o padre guardio a todos os franciscanos os recebemos com 
muita caridade a alegria. No vinham como peregrinos que caminham por 
terras de infiis, mas com cargas de fato, tendas de viagem, bugios a 
papagaios que haviam comprado no Cairo. Esti\-eram connosco um ms 
inteiro. Durante esse tempo entendemos deles que tencionavam seguir mais 
acima, por Samaria a Galileia, a buscar embarcao a Tiro ou a Sidnia.  ai 
que mais vezes St encontra a muito pouco no porto de Jafo, salvo quando vm 
os peregrinos de Franquia ou da Grcia.
- Eis aqui - dizia-me Frei Zedilho - uma ptima ocasio para vermos mais 
terras. No teremos outra igual a em to nobre tompanhia.
Eu hesitava, por ainda no ter recebido sinal de Isac Beiudo. Mas o 
meu companheiro insistia. Podamos ir quando melhor nos arecesse. Tnhamos 
para isso a particular licena do nosso padre eral, que no-la dera em Roma. 
Tomaramos barco a tempo de poderos assistir ao nosso Captulo Geral... Eu 
opunha-me. E o padre
4onifcio? Como ia ele ficar, que no sabia de nada?... Frei Zedito era 
frio. Nunca lhe vi uma ternura de alma. As vezes que o vi como
26
ver-se, chorar, ter medo, era de si prprio, um medo fsico e instintivo, 
quando corria perigo no mar, entre os rabes ou diante da lanceta do mdico. 
Respondeu-me:
- Nenhum inferior ao nosso padre geral pode ir contra as clusulas, 
muito minuciosas a favorveis, que as nossas licenas contm. Nem mesmo o 
guardio de Jerusalm.
Pensei que no perdia nada em pr-me a caminho para o norte. Tinha 
nos ouvidos a voz de lsac:  urgente!, a outra voz mais remota, de uma 
mulher, em Corfu: Ele vos encontrar, no tenhais dvidas!, e outra ainda: 
Mestre Jacob sente-se velhol... Est a morrer!...
- Est bem! - disse a meu companheiro. - Vamos ter com Frei Bonifcio.
- Confio na vossa tradicional diplomacia - respondeu Frei Zedilho.
Demos conta ao padre Bonifcio, com muita humildade, das nossas 
intenes, pedindo-lhe que houvesse por bem a no tomasse a mal nossa 
tornada. Fora o sermos de terras to longnquas que nos levara a diligenciar 
por obtermos estas nossas licenas do padre geral...
Tomou padre Bonifcio muito mal nosso propsito. Estava muito sentido 
connosco  Sentia-se enganado ! Escondemos-lhe desde o incio nossas 
licenas. Se tivesse sabido disso, t-lo-is impedido, pois achava-se presente na 
feitura de tais cartas...
- Oh ! Frei Bonifcio ! - exclamava eu compungido, enquanto o meu 
companheiro, de mos metidas nos bocais das mangas, o beio superior 
encavalitado no inferior, parecia uma esttua.
O que mais lhe custava, prosseguia o guardio, era querermos 
deix-lo, sendo to nosso amigo a tendo de ns tanta necessidade para sua 
consolao a ajuda da fanlial
Eu calava-me, remordido, envergonhado...
- Mas seja  - suspirou o bom do padre Bonifcio. E logo se abriu num 
ensoalhado sorriso, abraando-nos afvel a continuando: - Vou imediatamente 
mandar fazer vossas obedincias em pergaminho, nas quaffs testemunharei 
em como estivestes em Terra Santa e dos lugares que nela haveis visitado. E 
cuidarei tambm da proviso para jornada to comprida...
No soubemos mais que balbuciar uns sumidos a tmidos 
agradecimentos.
Foi por esta altura que veio a Jerusalm em romaria a mulher do bax 
de Damasco, viso-rei de toda a Sria a Palestina, com aquela grande a luzida 
companhia de gente de cavalo a de p, a muitas a lindas mulheres em ricas 
andas a em formosos cavalos de gineta. Acudiram logo a receb-la os 
sanjacos de Hbron a de Gaza a outros muitos senhores turcos, que a vieram 
visitar com sumptuosos presentes e ddivas. Foi aposentada nas casas do 
sanjaco governador de Jerusalm, que so as melhores da cidade, a vinha 
com ela por principal guarda um sobrinho do bax, homem de muito respeito a 
particular amigo do sanjaco. A este foi visitar o padre Bonifcio, levando-me 
consigo. No lhe era lcito visitar a turca, por no ser use tal coisa. <)s prprios 
turcos muito poucos a viam. Na ocasio da nossa visita, aconteceu achar-se o 
governador com o sobrinho do bax e, como se dava por parente do padre 
Bonifcio, por serem ambos da mesma ptria Esclavnia, regio vizinha da 
Macednia, a como tais se tratavam, recebeu-o como tinha por costume a 
ambos lhe fizeram muita festa. Levmos-lhe um presente para a turca a outro 
para si a companhia, como tambm o tinham feito os outros superiores das 
naes de cristos e o prncipe ou rabi-mor da sinagoga dos judeus. Antes de 
entrarmos, pusemos em ordem, para lhe dar mais lustre, nossa embaiiada com 
o presente: cinco cvados de pano roxo, muito fino, uma dzia de pes no 
muito mimosos a outra de frngos assados, uma cabaa de vinagre a um 
cesto com salada de algumas ervas que os turcns muito apreciam e a ns nos 
custam pouco. Envia-nos o sanjaco a acolher-nos  porta alguns dos seus 
privados. Entrmos com uma certa pompa, deixando adiantar-se o nosso 
janzaro com o po, a se,,uir outro dos nossos com os frangos, a logo a cabaa 
do vinagre e depois a salada, a por fim o nosso turgimo Jacob, que se postou 
ao lado do padre guardio. Estavam o governador e o sobrinho do ba~~ 
sentados ao centro do aposento numas alcatifas de veludo, caladas umas 
ceroulas de seda, descalos a junto de si os sapatos. Rodeavam-nos como 
corte, de um lado a outro, os principais da casa com os cacizes embaixadores 
tambm sentados em alcatifas. Adiantou-se Frei Bonifcio e, por intermdio do 
turcimo, disse ao que vinha e comp os cvados de pano eram presente para a 
senhora turca e o xesto uma lembrana da nossa pobreza para o prprio 
sanjaco. Em fiesposta, no falou o governador em lngua esclavnica como 
cosfumava fazer com o guardio, mas toda a conversa foi em turquesco
262 263
por ser necessrio naquele acto pblico manter a aparncia da sua 
autoridade a gravidade, perante o sobrinho do bax a dos cacizes. Apresentou 
o guardio ao ilustre visitante a logo ordenou que o presente fosse levado  
turca. Entretanto, risonhamente, visivelmente satisfeito com os presentes, o 
sanjaco, para mostrar na presena dos seus hspedes a diligncia a zelo, a 
probidade e a justia de que usava em bem governar, no deixou de dirigir um 
remoque a reparo que acabou por ser tiro sado pela culatra:
- J que aqui ests, guardio a cabea dos Francos, sempre to quero 
dizer que me vieram fazer queixa de ti uns subassis desta terra. Em 
menosprezo da nossa lei, fazes no teu mosteiro uns edifcios sumptuosos que 
parecem castelos para to defenderes a fortaleza para nos atacares. Bem 
sabes, guardio, que o gro senhor Solimo no vos consente construir edifcio 
de raiz nem fortalecer os j existentes, sem especial licena. E como eu to 
quero muito, ainda que o no devia declarar to em pblico, quero saber de ti a 
verdade a ouvir ambas as partes com justia a equidade.
Que era notcia menos verdadeira, respondeu cautelosamente Frei 
Bonifcio. Mandasse o sanjaco ver a obra a verificaria que nenhum edifcio 
sumptuoso, castelo ou fortaleza haviam sido construdos, mas apenas se 
levantaram umas paredes do mosteiro, com sua particular licena - no se 
lembrava? -, para recolhimento a quietao dos frades...
Falava o guardio na sua lngua natal a fazia seu teatro fingindo-se 
agastado. Que estava rodeado de falsas a mentirosas calnias, que se no 
atrevia mais a morar em Terra Santa a determinava tornar-se com os seus 
frades para Franquia! E mais. Que tinha para si que o gro senhor Solimo, 
amigo como todos os presentes bem sabiam de a todos guardar justia, no 
mandava que com os Francos se usasse de tanta tirania...
Conhecendo na perfeio o esclavnio, deu o sanjaco conta de que a 
zanga do guardio provinha de que o turgimo, de sua natureza maligno a 
perverso, no traduzia algumas coisas correctamente e a outras omitia-as.
- Jacob! = disse o sanjaco muito agastado a irado. - Perro e falso s tu! 
No traduzes o que eu digo. Esqueces-lo de que conheo a lngua do guardio 
a entendo as suas respostas? J que to tommos como intrprete, trata entre 
ns verdade. Em negcio como
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este no se admite falsidade. Seno, falarei com ele na prpria lngua da 
nossa ptria a mandarei fazer justia de ti mais da tua velhacaria.
Ficou to fora de si o turgimo com as palavras do governador que no 
mais atinou coisa com coisa. Foi necessrio substitu-lo. Serviu-nos ento de 
lngua o nosso janzaro, que tambm era natural de Esclavnia a dominava os 
dois idiomas.
- No to agastes, padre guardio ! - dizia agora o sanjaco com muita 
brandura a amimar Frei Bonifcio. - Sou muito teu amigo. Sempre to favoreci a 
favorecerei quando se oferecer ocasio, como muito bem vers. No to lembra 
j de como destitu de seu cargo a um subassi por se dar rnal com os Francos 
a ter um dio cego aos cristos? A presente calnia foi tambm um subassi 
que a urdiu. Sendo necessrio, igualmente o destituirei. O gro senhor Solimo 
confiou em mim a mandou-me para Jerusalm para a grandes a pequenos, a 
mouros a cristos guardar inteira justia...
Estvamos nisto quando de dentro veio recado da turca que nos suviava 
seus cordiais agradecimentos. Sorria abertamente o sanjaco, gorria o sobrinho 
do bax, sorriam os cacizes em redor. Vendo o
adre Bonifcio to boa conjuno, deu conta ao sarijaco, uma vez jue o 
desejava favorecer, de como eu a Frei Zedilho nos queramos 'tornar a 
Franquia em companhia de uns italianos que em nossa casa stavam, pedindo-
lhe que para a nossa viagem at Damasco nos obtivesse o favor daquele turco, 
pois ramos estrangeiros. Ouvindo isto, disse-nos o sobrinho do bax:
-Por Mafamede a por A! No s por amor do sanjaco aqui `presente, a 
quem tenho por irmo h muitos anos, mas tambm por mor de vs, guardio, 
a quem sou contente de aceitar por parente, ~rometo-vos sobre minha cabea 
que levo os vossos amigos at Pamasco! - e levava a mo ao turbante, como 
tm por costume fazer Fits Turcos em tais prometimentos.
Deu-lhe o padre guardio muitas graas e, em nos despedindo eles, 
encontrando-nos fora, chegou-se-me  orelha:
-Levai vinho, para o convidardes durante a jornada.
s, A nossa partida havia de ser dali a trs dias ou quatro. Escrevi go 
secretamente ao nosso guardio de Belm, meu particular amigo,
enviasse dois almudes de vinho, que juntei com o que me deram 
convento. Uma manhzinha cedo a caravana da turca partiu de Pctusalm. 
Todos os grandes senhores da cidade a acompanharam a
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cavalo at dela se despedirem, uma boa milha fora de portas. Muito me 
pesou no termos ido na dianteira, para evitar enfadamentos, que nunca 
nestas partes faltam a quem no anda alerta a de sobreaviso, mas a nossa 
companhia houve-se to remissamente em almoar devagar a no concertar 
as cargas depressa, que quando nos partimos eram nove horas do dia. Foi 
tambm causa deste desconcerto dizerem-nos que a turca ia muito de espao 
a que no havia de passar aquele dia de um lugar chamado Biro, dez milhas de 
Jerusalm. Despedimo-nos dos frades. Choro a abraos!... Tommos a bno 
ao padre guardio, que tambm tinha os olhos humedecidos e a voz 
embargada. Pusemo-nos em marcha saindo da cidade pela porta de Damasco. 
No alto de uma colina parmos a olhar Jerusalm pela ltima vez. Que me 
aconteceu? Fundiu-se-me num instante toda a tibieza de alma e os gelos do 
corao se me derreteram em lgrimas. Um soluo medonho, como ronco seco 
que h muito forav a por sair dos arcanos do meu ser, assustou meus 
companheiros, que, sem dizerem palavra, de semblantes melancolizados, me 
olharam por momentos a volveram depois os olhos tristes para a Cidade Santa. 
Lentamente deram volta e comearam a descer a encosta at desaparecerem. 
A minha montada no esperou a minha deciso a seguiu-os.
No caminho a maior parte da gente de cavalo, que havia ido despedir-se 
da turca e a acompanhara durante uma pequena milha, vinha de regresso  
cidade a com ela toda a justia. Apemo-nos logo todos e desvimo-nos um 
tiro de pedra do caminho, para lhes fazermos cortesia, por ser assim o costume 
da terra que de outra maneira no teramos vida. O subassi, que  como o 
meirinho entre ns, deteve-se. Correu os olhos por todos a mandou lanar mo 
de um macho no qual, em cima de todo o fato, ia uma gaiola com dois bugios.
- Carga ao cho! - ordenou aos seus subordinados, que logo executaram 
a ordem.
Espalhada por terra, remexiam-na a acabaram por encontrar entre ela 
uns grandes pedaos de pez arbico, do que sai do Mar Morto, mercadoria 
entre eles muito defesa. Levava-o, sem disso sabermos, um almocreve, para 
vender em Damasco.
- De quem  o macho? - perguntaram os do subassi.
Os outros almocreves que levvamos, cheios de medo, denunciaram o 
companheiro, que logo foi preso e o macho apreendido, been
266
como as cargas. Foraram-nos a tornar  cidade, com grande tristeza
nossa.
- No quisestes ter conta com a pressa que eu vos dava - dizia eu aos 
italianos - e a tendes o resultado. Se tivssemos ido com a turca, isto no 
sucederia.
- Almocreves de Belm a de Botigela - acrescentava Frei Zedilho, 
mostrando a sua experincia -, pssima canalha! Acusam-se e mordem-se uns 
aos outros como ces. O subassi estava avisado do pez, de quem o levava a 
em que macho ia. No vistes o delator chegar-se a ns, fazer com os olhos 
sinal ao subassi mostrando-lhe a carga em que o pez ia?
Tornando-nos todos como presos para a cidade, um irmo do culpado 
ps-se de joelhos diante do subassi:
- Perdoai, Senhor, a tende misericrdia! No nos impeais a jornada a 
deixai para a volta a demanda.
O subassi, para mostrar a sua clemncia, atirou-lhe do cavalo com uma 
maa de ferro que levava na mo como arma a lhe deu no meio dos peitos, 
que cuidei o matasse. Mas o pobre cristo levantou-se logo e, tomando a maa 
do cho a beijando-a, lha tornou a meter na mo. E o cruel do turco lha tornou 
a atirar e o cristo repetiu seu hun-ilhado gesto a assim continuou mais duas 
ou trs vezes. Levaram-nos a casa do cabdi, que  justia-mor, e  sua porta 
descarregaram os animais a tomaram-nos tudo o que levvamos. O nosso 
vinho sofreu o mesmo naufrgio a apanharam mais de metade dele. O resto 
deixaram porque eu pus-me a dizer em voz bem alta de modo que toda a gente 
ouvisse:
- Solimo xarave! Solimo xarave! (que quer dizer: Solimo bebe vinho 
).
Ainda hoje me espanto! Como tive a ousadia de fazer aquilo? ,Mas o 
caso  que surtiu efeito. Eles por sua seita lhes  defeso beber '$Iinli, >. O 
gro-turco ps pena de morte a quem o beba. Por isso senram muito ver-me 
queixar do vinho publicamente. Afagaram-me que me calasse a me tornaram 
parte dele. Se eu soubesse melhor falar a sua lngua, sem dvida mo tornariam 
todo a no ficariam sem cas'tigo se o cabdi o soubesse.
O padre Bonifcio, assim que lhe deram recado do que se pas4ava, foi-
se logo com o nosso janzaro por lngua a casa do sanjaco. ;,~)ue nos 
acudisse, pois ramos sem culpa. Mandou o sanjaco ime
267
diatamente recado ao cabdi, que logo nos deu por livres, contra a 
vontade do subassi. Pretendia este serem suas as bestas com as cargas, 
pedindo-as por perdidas. Respeitando o cabdi nossa inocncia a os rogos do 
padre Bonifcio a do sanjaco, deu por sentena que nos deixassem seguir 
caminho, ficando o culpado preso para dele se fazer justia. Ao tempo que nos 
libertaram eram mais de duas horas depois do meio-dia a em tornarmos a 
carregar passou outra.
- J  to tarde! - exclamou Misser Antnio. - O melhor  deixarmos a 
partida para amanh!
- Para amanh? - insurgia-se Frei Zedilho. - Podamos madrugar...
- Madrugar como hoje! - atirei eu irnico.
- No  bem que percamos a companhia que vai adiante.  to boa a 
segura! - sugeria Misser Carlo.
- Caminhar tantas jornadas sem guarda?...  expormo-nos a muito 
perigo! - tornava Misser Antnio.
- O que h a fazer  buscar guarda que nos acompanhe at nos 
juntarmos  caravana da turca - disse eu, em tom to resoluto que todos 
calaram, parecendo acatar.
Contrataram-se logo dois turcos a cavalo, que, por seu interesse, feito o 
preo  sua vontade, muito cortesmente nos acompanharam at Biro. Aqui nos 
afirmaram que havamos de achar a turca, mulher do bax de Damasco, mas 
quando chegmos ao lugar, depois de sol-posto, caminhando apressados, 
quase a correr, no achmos a companhia que cuidvamos a ficmos todos 
muito tristes a desconsolados. Os turcos tornaram-se para Jerusalm, dando-
lhes pouco do nosso enfadamento a decepo. Ao partirem ainda se 
ofereceram para ir mais adiante connosco. Queriam muito dinheiro, a paga 
havia de ser a seu modo, uma extorquio a exorbitncia. No quiseram os da 
nossa companhia aceitar a proposta. Tratou-se ento de buscar outras 
guardas, porque fora das cidades a povoaes grandes, onde nos tm 
respeito, no somente os rabes mas qualquer mourinho ganham ousadia para 
nos afrontar, se no se lhes d o que pedem. Frei Zedilho, deixando ao de 
cima um certo alardear valentia que s vezes o assaltava, era de opinio 
contrria. Para qu guarda? Todos ns com os almocreves no amos ali 
quinze ou dezasseis pessoas? No tinham nossos companheiros italianos boas 
armas, que traziam com licena dos governadores das terras? No havia a 
grossos vara
268
paus? Tnhamos medo de vir s porradas? Ainda que fossem vinte 
rabes? E depois?...
- Deixai-vos de fanfrrias ! - atalhei eu. - Se os agravarmos haveremos 
sempre de ficar na m de baixo, de levar a pior. Acodem logo todos uns pelos 
outros, at sem razo nem justia. Sofrem muito mal em suas terras o menor 
agravo da vida...
- Sempre acho rnais barato - acudia Misser Antnio - levarmos guardas, 
com preo honesto, que chegarmos a complicaes a enfados. Eram uns 
mancebos mouros, com seus arcos a setas. Feito com
eles o preo para nos acompanharem no dia seguinte, estivemos at k 
de madrugada num casrio muito grande que fora uma antiga igreja. g Este 
lugar  no presente uma espalhada a desconcertada aldeia, com : muitas 
fontes a tanques de gua. De outras particularidades no apurei n porque 
chegmos tarde a madrugmos. Nesta falta cairei daqui em
diante muitas vezes, por causa de caminharmos sem aquela liberdade . 
que tnhamos em Jerusalm, embora os nossos almocreves sejam cristos 
naturais da terra. Juntou-se a ns, nesta jornada, um cristo italiano, de nome 
Nicolau, havia muitos anos morador em Terra Santa
e, quando acontecia os frades fazerem este percurso, sempre os 
acomPanhava. Uma hora antes que amanhecesse comemos a caminhar. 
No teramos andado uma lgua quando os mouros entraram de pedir_~-nos 
que lhes pagssemos. Levantou-se entre eles a os nossos almo-:reves um 
no pequeno arrudo a vozearia. De palavras vieram s
nos, com grandes troncos de paus que traziam, que so as armas 
'Aulgarmente usadas nestas partes pela gente do povo a ainda por todo crsto 
a mouro. As ofensivas, a menos que haja licena especial,
'~s os turcos as podem trazer. Acudiu com um alfange um caciz velho 
due da aldeia com os mouros havia sado a os apartou. Segundo o ue 
entendemos, fora ele prprio que os tinha incitado a pedirem a
a antes do tempo. Todavia, por amor da paz, os nossos amigos anos 
comearam logo a pagar-lhes. Nem por isso deixaram os ouros de fazer o 
mesmo vrias vezes pelo caminho.
atro lguas andadas, num lugar chamado Cingil soubemos e a turca j 
por ali havia passado a nos levava outras tantas lguas dianteira. Depois de 
uma pequena refeio de po a gua, seguis com muita pressa nosso 
caminho, pela sombra azulada a fresca s olivais. A margem da senda, a um 
lado a outro, por muita parte,
. de quantidade de mandrgoras. So umas plantas com a altura
269
algum tanto menos de um cvado, as folhas como as das acelgas 
bravas, um pouco mais largas a compridas, algumas delas apartadas no cho, 
coin um verde melancolizado. Do uns pomos semelhantes a mas, amarelos 
por fora, aafroados, a por dentro vazios.
- Os mouros servem-se delas para muitas mezinhas - dizia-me um dos 
almocreves, vendo-me caminhar mais devagar para melhor as observar. - 
Quando as querem arrancar, escarvam primeiro a erra derredor do p, sem 
tocar na planta. Depois laam-na coin uma corda a atam a outra ponta a um 
co. Acenam coin po ao animal. Ele corre para o abocar. Arranca a 
mandrgora... Mas quase sempre morre do vapor pestfero que sai da raiz.
Bem desejei trazer comigo uma destas plantas, por curiosidade. Como 
no havia modo, no ficou meu desejo satisfeito. Prossegui caminho, no 
entanto, remoendo no esprito que o meu interesse pelas mandrgoras no 
provinha tanto de que no livro do Gnesis se faz delas memria, como 
principalmente porque no me esquecera de que Nicolau de Chanterene um 
dia em vora foi incomodado pela Inquisio por possuir uma mandrgora, 
acusado de bruxedo.
Todo nosso caminhar, este dia,  coin extrema ligeireza a duas ou trs 
vezes fingem os nossos virem rabes no encalo, para mais nos apressarmos. 
A horas de vspera, descobrimos a cidade de Sicar ou Siqum  distncia de 
uma grande lgua. Daqui por diante  tudo campina descoberta a vemos a 
gente andar nas suas herdades, na faina do campo. Comeamos a alcanar 
algumas pessoas da companhia da turca, porque no madrugaram nem 
caminhavam coin a nossa pressa. Os mouros que nos acompanham, j 
satisfeitos do que lhes havamos pago, assim que se viram no descampado 
tomaram outro caminho sem se despedirem de ns, temendo vir-lhes algum 
mal por nos terem enfadado a ofendido tantas vezes. Chegamos  cidade 
quase coin duas horas de sol a vamos tomar lugar num co ou cambalo que 
est fora de portas, onde havemos de passar a noite. Co, cambalo ou 
cambelo, assim se chama na lngua arbica ou turquesca a uma casa muito 
grande, comum a toda a pessoa que nela se quer hospedar.
- H duas espcies -explicava-me o cristo Nicolau-, os que esto nas 
cidades a povoaes grandes, que so como mosteiros coin muitas casas a 
aposentos, a os que esto pelos caminhos a fora dos lugares, como este de 
Sicar: no mais que uma casa vasta, quadrada, de paredes muito altas a 
fortes...
270
Assim o verifiquei quando nos aposentmos. Por dentro, de todos os 
lados, partem arcos altssimos a abobadados. Entre arco e arco se recolhe a 
gente que aqui vein pousar e o vo fica descoberto. Tem suas portas, 
possantes a seguras, que sempre  noite se fecham Quase por toda a Turquia, 
cada meia jornada, se encontra um destes cambeles, para coin segurana se 
poderem os caminhantes agasalhar de noite. Pode recolher-se em cada co 
um cento de pessoas. No espao entre os arcos cabero dez a doze, que, se 
quiserem, acendem suas fogueiras para se aquecerem a cozinharem. Cristos, 
judeus, mouros e gentios que aqui se recolham nada tm de pagar. Estas 
casas mandam-nas fazer mouros ricos, dizem que por suas almas para que na 
outra vida achem quem lhes d pousada a faa bem.
Tomado um pouco de alento do caminho,  tarde Frei Zedilho e eu 
vamos visitar o turco sobrinho do bax de Damasco, a quem vnhamos 
encomendados. Levamos-lhe uma barrileta coin duas canadas de vinho, que  
o bastante para nos fazer uma grande festa.
- Que pesaroso estou - exclama abraando-nos - por no termos sado 
todos juntos de Jerusalml
- No foi totalmente culpa nossa -lhe digo eu -, mas tivemos um 
imprevisto contratempo logo que partimos - a conto-lhe o que aconteceu, 
dando enftico relevo ao naufrgio que passara o vinho que para o servir 
trazamos, visse sua senhoria l...
A todo oferecimentos, tanto de sua pessoa como da terra, e a resoluo 
de tudo  que, se entrmos em sua casa coin as mos cheias, samos agora 
coin elas vazias, porque esta gente -  Paulo de Tarso   mais inclinada a 
receber que a dar.
- Daqui por diante - diz ele - havemos de caminhar sempre Juntos at 
Damasco. A senhora turca h-de ir de seu vagar. Por isso tereis tempo, saindo-
vos do caminho, de verdes muitos lugares que vs, os cristos, costumais 
visitar.
Agradecemos-lhe muito a retiramo-nos. Este dia, por ser j tarde, 
',torn:amos ao co a damos conta aos companheiros do bom rosto que o turco 
nos mostrou.
- Amanh - anuncio-lhes - temos tempo de descansar a de xer a cidade. 
A turca determinou no se partir seno depois de amanh. ~ Coin isto 
repousamos esta noite no co, mal acomodados, ver
de se diga, por via da muita gente que a ele se acolheu, da que vai 
companhia da turca.
27
Samaria! Terra montuosa, de guas a gemer e a brotar, frescura de 
sombra amiga  Gente de melhor condio que a de Judeia. Ainda em 
companhia da turca - dizem-nos -, bem poderemos caminhar por toda a regio 
sem trazer guarda, pagando os cafarros nos lugares onde se devem. A cidade 
de Sicar est edificada em um teso a outeirinho, dentro de um pequeno vale 
deleitoso a ameno como gostam de dizer os poetas de agora, tudo povoado 
de muito gracioso arvoredo, junto a dois altos montes, o Ebal e o Garizim. Toda 
cercada de muros antigos, pode ter ao presente dois mil a quinhentos vizinhos, 
con boas casas a curiosas mesquitas que foram igrejas de cristos, con suas 
torres a campanrios sem sinos. O seu none actual  Nablos, outros chamam-
lhe Nabulosa. J de si abastada a abundante de todas as coisas, con a vinda 
da turca tm-na muito bem provida a abastecida de toda a novidade da terra e, 
con ser o ms de Maro quando aqui vimos ter, est a praa cheia de uvas 
frescas, toda a sorte de mas a peros, fruta de espinho por todo o lado, to 
barato tudo como se fosse em Setembro. A dois grandes tiros de besta fica o 
poo de Jacob, presentemente todo entupido, somente o bocal descoberto, 
lavrado de cantaria, a junto dele uma igreja derrubada. Est no caminho da 
estrada real que vai, muito larga e espaosa, de Jerusalm a Sicar, um pouco 
desviado  mo direita. Mas que estou eu con estas miudezas? No tempo que 
aqui chegmos j no curava de fazer Itinerrio. No queria tornar-me 
suspeitoso  companhia dos turcos. Somente encomendava  memria o que 
ela podia reter, que era muito pouco do muito que vamos...
No dia seguinte, em amanhecendo, tocam rijamente uma trombeta e, 
como todos j esto prestes, comeamos a caminhar. Assim c vamos ns, 
integrados na lenta cfila da senhora turca!... Quando samos muito dela, para 
visitar algum lugar da nossa devoo, temos de nos dar pressa para a apanhar, 
como uma vez que os nossos almocreves nos disseram que havamos de 
passar por um lugar onde se pagava cafarro. Pressa em juntarmo-nos  
caravana! Contraste! Ela segue de espao... tanto que os turcos de cavalo, 
para darem recreao a sua senhora, matam umas trs perdizes, correndo-as 
a cansando-as. Caminhando juntos, chegamos a uns grandes casais, algum 
tanto desviados das bermas,  direita e  esquerda, a entre eles um cambelo 
enorme feito a modo de castelo ou fortaleza. Saiu-me o none da memria, 
sendo lugar notvel a nomeado naquelas paragens. Sbito,
dos casais da direita saem-nos ao caminho cinco homens armados e 
con eles um turco muito apessoado, munido de armas brancas. Pedem-nos 
cafarro. Acode o nosso lngua: que por irmos em companhia daquela senhora 
turca a dos mais, alm de encomendados ao sobrinho do bax de Damasco, 
no tnhamos de pagar cafarro! Sobre isso entram de altercar. Como vimos de 
mistura con os mouros, uns atrs, outros adiante, passam trs dos nossos a eu 
con eles. Frei Zedilho, querendo mostrar-se mais privilegiado que todos a 
procurador dos companheiros, con as porfias de pagar a no pagar lhe d o 
turco con uma maa de ferro nos peitos, que logo o lanou em terra, onde sem 
acordo de si fica estatelado um bon pedao. Da mesma maneira so 
aporreados os outros que se acham presentes na briga. No pior dela, acorrem 
uns criados do sobrinho do bax e, juntamente con outros seus amigos, 
levando dos alfanges, ferem muito mal o turco a seus companheiros, acudindo 
logo a gente da caravana pelos seus a por ns.
Passado este to spero encontro, de que saram os cafarreiros dos a 
sem cafarro, daqui por diante sempre os criados do sobriho do bax nos levam 
junto de si, mostrando-nos muita familiari
- Bem vos vingmos de vossos inimigos ! - diz um deles, satisto a 
risonho.
Chegamos a Ianin, onde os turcos a os mouros j tinham os seus dares 
tomados e a gente principal suas tendas armadas, porque os xs sempre iam 
adiante meia jornada para terem tudo pronto quando egasse a turca. Para esta 
tinham em extremo bem concertado o mbalo do lugar, muito grande a 
murado. Ns, como estrangeiros, mo-nos recolher entre as runas de uma 
igreja algum tanto desLda do lugar.
- H a uma fonte de gua muito boa a miraculosa  - dizem-nos 
almocreves e o cristo Nicolau, para nos tirarem de nossa indeciso. Nfanda o 
turco avisarem-nos que saiamos dali, por ser lugar iso
lo a de noite nos poderem assaltar. Faz que nos recolhamos nuns 
rdiciros meios derrubados, junto da sua tenda. Estando ns aqui ;tidos quase 
uns sobre os outros por sermos muitos e o lugar pequeno, ando os almocreves 
de fora con as cavalgaduras, vm ter connosco, coni uma hora de noite, dois 
turcos velhos, graves a bem tratados, pane do sobrinho do bax. Seu amo a 
senhor manda-os dizer que ava agastadssimo do contratempo que tivramos 
no caminho.
272 273
Tomava-o  sua conta, pois fora seu descuido, se bem que os seus 
criados lhe tivessem contado o castigo que sofreram os que nos ofenderam. 
Pede-lhes tambm que nos comunicassem ter dado ordens aos seus para 
daqui em diante nos levarem entre si e a toda a companhia que ns amos sob 
sua particular proteco. Igualmente nos rogam queiramos dizer se temos 
necessidade de alguma coisa.
- Dizei a vosso amo - adianto eu em nome de todos - que muito 
humildemente lhe enviamos os agradecimentos da visita a que mais sentimos o 
seu. desgosto que o nosso enfadamento, a pois nossa baixeza e o sermos 
estrangeiros nos impede de poder prestar-lhe algum pequeno servio, 
pediremos a Deus lhe pague por ns.
Todos estes cumprimentos do turco eram comigo a com o meu 
companheiro, que aos outros nem somente lhes queria ver o rosto. Despedidos 
os dois velhos, enchemos a barrileta de vinho e, sendo mais de duas horas de 
noite andada, vamos visit-lo. Mal entramos na sua tenda, abraa-nos com 
muita festa a convida-nos que ceemos com ele que j estava sentado  mesa. 
Aceita o vinho com rasgada alegria a no espera que outrem lhe tome a salva: 
leva uma aps outra, estalando a lngua satisfeito.
- Tomai, caciz - diz ele, oferecendo do vinho a um caciz que tem consigo 
 mesa e  secretrio da turca.
Feita uma breve pausa, torna  barrileta a convida outra vez o caciz.
- Desculpai-me se o no fao - responde o caciz, escusando-se. - Logo 
h-de escrever a senhora turca a seu marido o bax, ditando-me a carta, a 
temo cheirar-lhe a vinho...
Somos sobremaneira festejados do nosso anfitrio, do caciz e dos mais 
convidados quela ceia, que nos fazem grandes cumprimentos de palavras, do 
que damos muitas graas ao Senhor Deus que teve por bem pr tanta virtude 
ao vinho!...
XIV
O jovem candioto
... Ab Lherosolimorum finibus et urbe Constantinopolitana relatio gravis 
emersit et saepissime iam ad aures nostras pervenit, quod videlicet gees... 
extranea, gens prorsus a Deo aliena... terras... Christianorum invaserit, ferro, 
rapinis, incendio depopulaverit, ipsosque captivos... in terram suam 
abduxerit...
... Das terras de Jerusalm a da cidade de Constantinopla grave notcia 
surgiu a muitssimas vezes j aos nossos ouvidos chegou de que uma gente 
estranha a completamente alheia a Deus invadiu terras de cristos, as 
despovoou com ferro, rapinas, incnio a aos prprios cativos levou para a sua 
terra...
(Robert Lhe Monk, Historia Hierorolimitana, sc. XI)
A terra corre at  linha do horizonte desabafada a plana e, como 
trabalho do caminho nos causa irmos frios a indevotos, contentai)-nos com a 
vista de longe, j que na de perto pouco mais h que notar, r estarem 
arruinados todos os lugares a postos por terra. Aqui e 'm uma torre ou um 
campanrio sem sinos, solitrio no meio de stroos, nos diz havia a estado um 
dia erguida uma igreja de cris)s. Preferimos, por isso, caminhar na companhia 
da caravana, aper de o sobrinho do bax nos reiterar seu prometimento de que 
nos
274
275
mandar acompanhar sempre que quisermos sair do caminho a visitar 
lugares santos. A senhora turca -- sabamos, no era assim? - iria muito de seu 
vagar!... H pelo caminho lamaais a poas de gua da invernada passada, ou 
porventura haver ponco que choveu, porque isto  no ms de Maro. Em cimo 
de um burro sardenho vai um negrinho de uns nove ou dez anos, que, ao 
tempo de se passar onde h lama, sempre me toma a dianteira a se me 
atravessa  frente, chapinando a esparrinhando em sua volta. Faz isto algumas 
vezes a de acinte. Agasto-me, insofrido:
- Oh  Dou ao demo o perro
Bem fora estava eu de cuidar que podia ir na companhia quem me 
pudesse entender, por mea companheiro neste momento seguir muito 
afastado.
- A quien llamais vos perro? - acode logo com muita clera o negrinho. - 
Pensais que estais en vuestra tierra? Mirad por vos, que esta no es Espana.
Fico eu to atnito de tal fala que no sei que responder. - Pero ho 
llamado perro a mi macho! - digo ao acaso.
- No llamaste sino a mi! - tornou com mais agastamento. - Y callad, sino 
sera otra cosa  Frade mingola 
Dissimulo o melhor que posso - Frade mingola! Frade mingola!, 
continua ele - e, daqui por diante, me guardo todo o possvel, caminhando 
sempre desviado dele a considerando com os meus botes como aquele 
menino tem de sua colheita ser to agudo a de sua natureza to sem respeito. 
Fora talvez de algum judeu espanhol, dos que contnuo vo de Espanha 
fugindo a estas partes. Caindo em poder de turco ou mouro, o tero feito de 
sua opinio a seita... Bem diferente  a conversa que tenho com um moo que 
segue montado em formoso cavalo, vestido como turco, seu turbante na 
cabea, alfange, lana a adaga, to pequeno que eu me espanto como pode 
com tantas armas. Vendo-me ir um pouco apartado, deixa-se ficar para trs e, 
colocando-se a par da minha montada, vem  fala
- Padre, aqui onde me vedes vestido de turco sou to cristo como vs: 
Sou candioto.
Fala muito bem o veneziano, como o fala toda a gente nobre de Cndia, 
ainda que so gregos.
- Muito me admiro ! - digo-lhe.
276
Ele continua
- Haver trs anos que me cativaram a me quiseram fazer mouro, i que 
me ps.
- Como resististe?
Cuidavam que o era... Mas no o circuncidaram nem retalharam, e ele 
achara artes de ir dilatando a retardando a fanadura, de dia ra dia, por causa 
da festa que lhe haviam de fazer... de modo que xa esquecendo...
- E no podes sair daqui?
Que seu pai procurava resgat-lo a j dava por ele uns tantos luins de 
ouro a quatro cavalos muito formosos... mas eles no que
- E fugir?
Ora  Isso  Praticamente impossvel  Era constantemente vigiado. 
4quele preciso momento tinha olhos postos em si.
- Correis perigo por falar comigo?
Se corresse no se aproximava de mim. Eu era o nico a quem podia 
chegar, sem desconfiarem. Sabia que eu estava nas boas graas sobrinho do 
bax. Por isso se atrevera a vir falar-me. Outro qualier que fosse, at meu 
companheiro Frei Zedilho...
- Sabeis-lhe o nome l
No dera eu conta, mas ele tinha estado presente nas nossas sitas ao 
turco, como ajudante do servio...
Houve um silncio. Com o andamento ou por acinte, aproxima,m-se 
cavaleiros turcos.
Bem  Adeus  Tinha de se afastar. At comigo havia que no agerar a 
ter resguardo...
Guinou o cavalo para a direita, em jeito de poder avanar mais ,pressa, 
a disse:
- Encomendai-me a Nosso Senhor 
Caminhamos pelo grande campo de sdrelon, em terra de Galileia, mais 
abundante em po de todas as terras de Palestina. Trago na bea um 
sombreiro de largas abas, como costumamos usar os frades anciscanos, com o 
qual os turcos tm grande festa. Tomam-mo da bea, pondo-o nas suas, ora 
uns, ora outros, a porfiam comigo que uiha na minha os seus turbantes ou 
seixas. Risota pegada, mas eu Go cedo, por me ter avisado o cristo Nicolau: 
Tivesse cuidado :ei Pantaleo. Essa gente era falsa ... Eles, porm, no 
despegam
277
da reinao, fingindo mostrar muita pena por eu no entrar no seu jogo e 
por no saber falar turquesco nem arbico.
- Nem ao menos falas romeco ? - perguntam.
- S veneziano - respondo eu, porque assim convm a porque de facto 
no sei falar o grego comum.
A campina espraia-se. Haver duas horas de sol, eis a est, correndo 
de norte a sul, ao p da estrada, uma graciosa elevao, no demasiadamente 
grande mas feita a modo de ovado isento a apartado de toda a outra colina, 
muito bem proporcionada, toda sue altura coberta de uma vegetao mida a 
baixa.
- Que monte  este? - inquiro de Nicolau. - O Tabor - responde.
Frei Zedilho pra, por instantes, a contempl-lo.
- Ainda que o no dissesses, ele mesmo o est revelando - murmura.
No alto enxergam-se trs capelas, separadas cada uma por si, meio 
cadas. Rememoram os trs apstolos, Pedro, Tiago a Joo, e o dito do 
primeiro: Domine bonum est nos hic esse: si vis, faciamus hic tria tabemacula 

No sop h runas de grandes edifcios que haviam sido de um 
magnfico mosteiro de cnegos regrantes de Santo Agostinho. Um arvoredo 
muito alto a basto cinge, em redor, a base do monte. Queremos subir ao cume. 
A altura no  tanta nem to spera que tenhamos de gastar muito tempo nele 
: com menos de meia hora ficvamos satisfeitos. Mas os nossos almocreves 
no consentem. Era muito perigoso  No bosque de baixo andavam muitos 
animais bravos que nos poderiam fazer mal. Contentssemo-nos com v-lo 
dali.
Desistimos de ir ao alto, mas como pela parte onde estamos h um 
espao desafogado a descoberto antes de comear a mata espessa, e, por ser 
junto  estrada, menos perigoso, subimos por ele um pedao. Olhamos ao 
largo. L est a florida Nazar em um alto posta  Mais distante, para ocidente, 
o monte Carmelo  Ao outro lado, ao longe, o recorte anilado do monte Libanol... 
Vista deleitosa no s aos olhos do corpo mas tambm aos da alma   um 
blsamo que, por momentos, mitiga as mitthas chagas ntimas... Com este 
contentamento, em se pondo o Sol chegamos a Can de Galileia. Armamos 
tendas algum tanto separadas da companhia dos turcos, por ser j terra segura 
de rabes a ns mais bem tratados a protegidos dos da caravana. Leva-nos,
278
antes que seja noite, o cristo Nicolau a ver a igreja onde, quase todo 
subterrneo, se encontra o cenculo ou triclnio em que, numas bodas, Cristo 
converteu a gua em vinho. Regressados, passamos esta noite quietamente, 
sem termos cumprido com o sobrinho do bax nem ele connosco, porque nos 
escasseia o vinho. Junto de mim, deitado no cho, Frei Zedilho, antes de 
adormecer, ainda segreda:
- Era fcil Enchamos a barrileta de gua... Vinum non habentl... E pronto 
- Tendes cada ideia  Vinho benzido a baptizado dessa maneira bebi eu 
em Espanha, quando por l passei a caminho de Roma  Que zurrapa 
A menos de uma lgua fica Nazar. No podemos deixar de a visitar. 
Como aqui moram muitos cristos, pela santidade do lugar, 'recebem-nos com 
muita alegria, tanto mais conhecendo a Nicolau, que aqui vem muitas vezes. 
Levam-nos  Igreja da Anunciao. Tristeza nossa, que so s runas, apenas 
da parte do norte uma parede inteira que se sustenta com outros edifcios 
antigos a derrubados que aqui esto  Debaigo do altar-mor descemos por uma 
escada de sete $egraus a uma capela subterrnea, onde vimos duas colunas 
de mr;more, muito altas, separadas uma da outra quatro palmos.
- Assinalam - diz-nos Nicolau - os lugares onde estavam a Virgem e o 
anjo Gabriel, no momento da Anunciao.
Junto de cada coluna v-se arder uma lmpada de azeite, que, *m de 
simbolizarem a devoo devida a to santo lugar, servem de iluminar uma 
cmara to apertada que no d azo a que, nas nossas ~ostas, possam 
danar seu costumado bailado as nossas sombras.
- Aqui s vemos os alicerces - continua Nicolau - que a ~apela toda 
inteira levaram-na os anjos para Itlia poucas milhas de Ancona, onde agora 
chamam Nossa Senhora do Loreto.
,; Eu a Frei Zedilho trocamos olbares incrdulos e, em silncio, 
~seguimos os outros escada a cima. Uma vez fora, depois de brevemente 
rVisitarmos outros lugares sagrados, despedimo-nos dos caloiros que rtm  
sue conta estas santas ruinas. A povoao de Nazar pode ter
presente alguns sessenta vizinhos, todos cristos sujeitos  Igreja
. Pequena, aconchegada na meia encosta de uma arborizada i~A
line, estende-se a seus ps, sobre a linha setentrional, a remansosa cie 
de sdreion e, derredor, em forma circular, levantam-se as
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montanhas. Deste jeito a cidadezinha parece uma flor, que  o que em 
lingua hebraica quer dizer o seu nome.
Com Nicolau a !im dos almocreves mais familiarizado comigo, you a 
casa de um lavrador onde fao proviso de algum vinho. Sentimos 
necessidade de cumprir com a obrigao do turco que trazemos  nossa conta, 
vindo ns  sua. Regressamos em seguida a Can, onde descansamos das 
fadigas da jornada. No dia seguinte, em amanhecendo, feito o sinal com a 
trombeta, comeamos a caminhar, baixando de Can para o mar da Galileia. 
Tirar de farnis, po, queijo, passas, alhos a cebolas, de que turcos a mouros 
tanto gostam... Nem sabem, entre esta gente, que coisa  acar rosado, 
porque nenhum turco se preza de mimoso. Todos vo almoando a muitos nos 
convidam e alguns me foram a tomar o que me oferecem. Teramos andado 
meia lgua, eis damos de sbito sobre o mar  O verde vioso da encosta por 
onde descemos vai perder-se, l em baixo, no recorte de suaves reentrncias 
da longa mancha azulada do lago, aqui a ali pelas ribas a pincelada escura de 
arvoredo e, ao longe, na margem fronteira, uma tnue sombra, anilada a roxa, 
de leves colinas. Abaixo, para sul, quase meia lgua, a cidade de Tibria, forte 
a bem murada, correndo at  beira da gua que lhe bate a maruja nos muros. 
Chega at ns a fragrncia dos seus laranjais floridos, que ela  muito copiosa 
de toda a sorte de rvores de espinho, a avistam-se as suas palmeiras, que 
todos os anos se carregam de tmaras muito grossas a melhores que as da 
nossa frica.  ms de Maro, mas esta terra  muito mais tempor que a 
nossa.
Querendo eu, por desenfado, reinar com nuestro irmano Frei Zedilho, 
digo-lhe
- Vede, irmo, como so empreendedeiras as mulheres portuguesas, 
que esta cidade de Tibria pertence a uma delas.
- Como assim? - reage ele. - No acredito 
-  verdade - acode Nicolau. - Pertence a uma judia portuguesa, Branca 
de Luna. Aquilo  que  riqueza 
Eu soubera a histria de uns judeus portugueses, no tempo que nos 
partimos de Jerusalm. Branca de Luna era natural do Porto, onde vivia com 
urna irin viva a uma sobrinha. Ambas muito ricas a judias, a Inquisio, com 
sua especial vocao para os judeus abastados, comeou a rondar-lhes a 
porta. Atiladas, no esperaram pela demora e fugiram de Portugal com todas 
as riquezas que puderam, que eram
ensas. Vieram ter a Veneza, onde se fixaram alguns anos. A irm, n 
queda para administrar os bens, entregou-os  Senhoria de Veneza ra. que 
lhos gerisse e, desconfiada da vinda do Messias, por lhe pare- demasiada a 
sua tardana, deixou de ser judia a deu em gentia. nha ela uma filha muito 
formosa, herdeira de todos os seus bens, e, ainda em Portugal, se enamorou 
de um cristo-novo, de nome cs, criado do marqus de Vila Real. Uma noite 
Mics raptou-a e ~uxe-a, numa gal que estava prestes,  Itlia, onde se ps 
em cobro m o favor do embaixador portugus, que era o nosso comendadoror. 
Passou depois  Turquia com a esposa, aonde por su.a vez fora Branca de 
Luna, sua tia. Em Constantinopla, Branca de Luna, por ermdio de feitores 
seus, se meteu a tratos por todas aquelas partes xltimas, com mandar fazer 
uma grande frota de naus, a acrescentou ito as suas riquezas que se tornou 
muito poderosa a comprou ao o-turco, por uma grande soma de dinheiro a 
perptuo tributo de  cxuzados cada ano, a cidade de Tibria, para nela viver 
com toda ua casa a famlia a povo-la de todos os judeus que a queiram 
seguir.
- Muito alegres andam os judeus de Palestina com a novidade diz 
Nicolau. - Tm tanto respeito  sua protectora que a no rneiam pelo nome 
prprio, mas todos lhe chamam a Senhora. Cuin que, vindo aqui morar, h-de 
chegar finalmente o seu Messias...
- Corre que Branca de Luna - concluo eu - no tarda a a :gar, a realizar 
a sua determinao, a que no Vero que se aproxima r c, vinda de 
Constantinopla.
- Estou varado ! - exclama Frei Zedilho.
- E julgais - acrescento - que ela tem medo de ir a Portugal? al qu? 
Contou-me um judeu de Lisboa, meu conhecido de Jerucxn, que ela ainda h 
bem pouco tempo l foi, muito de seu vagar >ssego, visitar seus parentes a 
amigos. Andou por onde quis a quando s, nas barbas da Inquisio, Lisboa, 
Porto a outros lugares do reino, epois se tornou seu caminho a dar novas do 
que por l se passava.
-- Qu? Espia do gro-turco Solimo ? - pergunta meu com
- Sei l! - respondo encolhendo os ombros, na minha igno
Caminhamos ao longo da praia at ao meio-dia. Grandes runas 
edifcios, pedaos de enormes muralhas que entram pelo mar dentro  0 clue 
resta da antiga Magdlon, de que fala Flvio Josefo. Descal
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o-me, que no me satisfao com ir pela ribeira da praia, a quase meia 
lgua caminho com os ps na gua, isolando-me, desligado de tudo e de mim 
mesmo, colhendo conchas a buziozinhos que encontro na areia, no espraiar 
dal ondas, a nos quail you admirando a louvando as estranhas a insondveis 
maravilhas da natureza que Deus, o maior dos poetas, criou no comeo dos 
tempos. A nica coisa que me prende ao mundo - a companhia j vai to 
distante, l adiante! - so as rdeas da minha montada, que seguro 
insensivelmente, como por hbito, na mo esquerda. O silncio, o meu muar, 
que tem a sbia discrio de nada dizer, as guas calmas que me afagam os 
ps chapinando com um leve ritmo na areia, em cima o cu azul onde se no 
enxerga nuvem, a terra em volta como que adormecida num letargo bblico... a 
eu... eu... eu... sozinho na vida!... Ahl Se me pudesse transformar nesta 
pequenina campnula de flor agreste que aqui a meu lado, entre seixo a torro, 
consegue na sua simplicidade dar o seu efmero a estremecido aceno de 
louvor ao Criador, antes de murcharl Que cansado estou  Cada dia que passa 
dou-me conta de que se me vai alquebrando a alma! Teria sido a minha 
doena? No tenho dvidas de que foi depois dela. Mas o meu cansao no  
fsico,  moral. Envelheo, prematuramente, moralmente. Envelhece-se por 
abulia, por abandono, por desistncia, por se deixar de perseguir um ideal, por 
se deixar de ter capacidade de admirao, xtase... de uma pessoa se 
apaixonar!... Mas ainda agora os buziozinhos?... E toda esta comoo que 
trago na alma por ver esta paisagem a mergulhar os meus ps indignos nestas 
guas sagradas?... E Helena?...
- Pantaleone - chama l de longe Nicolau.
Acordo. Junto-me aos meus. Passam ruinas de Cafarnam... por terra 
grandes pedaos de argamassa dos seus muros, colunas truncadas, capitis 
corntios derribados entre erva, mato a arbustos rasteiros, onde fazem lura 
coelhos bravos a tm seus ninhos as perdizes. Estamos chegando quele 
ponto em que o Jordo entra no mar de Tiberades, de um lado Corozaim e,  
vista, na outra margem, Betsaida. Corozaim no  mais que algumas 
choupanas cobertas de palhio a de ramos de palmas, onde se recolhem os 
pescadores que por aqui tm sua faina; que este mar, alm de ser por todo o 
lado debruado de palmeiras a rvores de espinho a de outras de muita fruta a 
frescura, tem bom a abundante pescado, embora os pescadores sejam poucos. 
Trago recado de judeus meus conterrneos, que em Jerusalm me falarani,
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de que aqui mora um judeu portugus chamado Efraim. Perguntasse 
por ele quando adregasse por a passar. Chego-me a um pescador que est 
ao sol remendando as redes.
- Efraim? - pergunto propositadamente lacnico.
Sem a mais pequena alterao nas feies a nos movimentos 
mecnicos dal mos que consertam a rede, em silncio indica-me com um 
gesto a alguma distncia um homenzinho amanhando peixe  borda de gua. 
Aproximo-me.
- s to Efraim, judeu portugus?
Longe de ouvir aqui, neste momento, a um estranho a sua lngua natal, a 
princpio fica uns instantes a olhar para mim sem compreender. - Chamo-me 
Pantaleo de Portugal - digo eu, aproveitando a
pausa. - Uns teus amigos de Jerusalm falaram-me de ti a pediram-me 
que, ao passar por aqui, to viesse visitar.
- Frei Pantaleo? Porzugus? Amigo - explodiu finalmente Efraim, a foi 
uma festa de abraos, de convite para que me sentasse pco p de si, de 
chamar a mulher a os filhos, vinde c vinde c!,
essem ver, a que fosse servido da sua mesa que era s acabar de 
amanhar aquele peixe...
-Mas eu venho com amigos, Efraim!...
Que importava? Os amigos do seu amigo seus amigos eram... 
Maravilha - so os meus botes a pensar. Um pouco de Portugal st aqui nas 
margens deste mar sagrado!...
Fogueira a crepitar  porta da choupana, a mulher vem ajudar cozinhar, 
os filhos pequenos em redor das saias ou inquietos a lanar avetos secos no 
lume.
- No brinques com o fogo, Lia ! - diz a mulher para uma Olha pequenina 
que pegara num pau a arder a contemplava admirada ia cores da chama. - 
Olha que depois mijas na cama.
Faz-se um grande guisado de muito a bom peixe, de que todos, "'cluindo 
os meus companheiros, comemos com gosto,  beira de respirando este ar 
perfumado, maresia a flor de laranjeira, que
I os abre o apetite. Longamente eu e Efraini falamos de Portugal diste, 
matando cada um as suas saudades da ptria comum.
De novo a caminho, passamos Safto e vamos dar  Ponte de cob, onde 
vimos estarem armadas junto do rio jordo as tendas ,queles senhores turcos e 
muito bem concertado o co para a turca, X~
lher do bax de Damasco. Segundo soubemos, a senhora tinha
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resolvido estar aqui dois ou trs dias. Apeamo-nos com muito gosto, por 
vermos que podemos estar outra vez  beira deste santo rio. Quem no gosta 
nada so os nossos almocreves, que comeam a protestar de tantas paragens 
a to de dia, pela perda que disso lhes vem porque comem  sua conta, 
conforme ns com eles havamos combinado em Jerusalm  nossa partida. A 
turca cada dia despacha correio para o marido a vai-se detendo  espera da 
resposta, o que faz por estado. Ns aposentamo-nos numa casa mnuito grande 
que aqui est, meia em runas mas coberta. Em anoitecendo nos vem buscar o 
sobrinho do bax, com quatro companheiros, a nos leva a mim e a Frei Zedilho 
at ao campo, para estarmos  vontade. Levamos-lhe, bem entendido, as 
relquias do nosso vinho a umas poucas avels da Armnia, partidas e muito 
grandes, que um armnio me tinha dado. Aprecia o turco sobremaneira uma a 
outra coisa, manifestando-o nos abraos que nos dava a nas boas palavras 
que nos dirigia. Passamos aqui um bom pedao da noite a conversar at serem 
horas de nos recolhermos.
No dia seguinte, muito antemanh, levanto-me a you passear pelas 
margens do Jordo. Meto pela ponte, a nica que vi em toda a Palestina a que 
a tradio diz ter sido mandada fazer pelo patriarca Jacob depois que tornou da 
Mesopotmia com as mulheres, filhos a riquezas. Estou eu no meio da ponte a 
admirar a limpidez da corrente, que se v muito ntido o fundo do rio, os 
cardumes de peixes, as pedrinhas e seixos brilhantes, a usufruir desta paz no 
seio da natureza, acentuada pelos trinos a gorjeios das aves, quando um judeu 
que andava num piso abaixo da ponte me olha a diz em born portugus:
- Frei Pantaleo, tende cuidado ! Reconheo-o
-Efraim Que fazes aqui?
- Vim pescar para aqui, na esperana de vos encontrar.  preciso que 
vos avise do que acabo de saber. Correis muito perigo, vs a vossos 
companheiros, em caminhardes por estas partes.
- Porqu?
- Soa que o gro-turco Solimo quebrou as pazes com os Venezianos 
ou eles com ele...
- Mas ns caminhamos em companhia de senhores turcos muito 
poderosos...
- Se  verdade que as pazes esto quebradas, s vos podem ser bons 
em vos arranjar trabalhos. Tendes de vos pr a cobro com tempo, cnquanto a 
coisa anda calada.
- Ora - dissimulo eu com Efraim. - J em Jerusalm tivemos essa notcia 
a provou-se com o tempo ser falsa...
Quisesse Deus! No podia deixar de me avisar. - Obrigado, amigo 
Deus me acompanhasse.
Quando fiquei s pus-me a pensar naquela notcia, que a ser verdadeira 
era muito preocupante. Resolvo, no entanto, no dar conta dcla; por ento, aos 
meus companheiros, para se no inquietarem. Pelo taminho, em direco  
ponte, vem da outra margem do rio uma grande inultido de armnios, uns 
duzentos, homens a mulheres, que se dirigem a Jerusalm a passar a Pscoa, 
que este ano ser a meio do ms de Abril. Tem com eles, regressado de Alepo 
aonde o padre Bonifcio o havia pandado a um negcio de importncia, por ser 
velho a de muito acado, um frade da nossa famlia hierosolimitana, chamado 
Frei Nico
macednico de nao. Em me vendo, caminha para mim de braos rtos, 
pois somos grandes amigos:
- Fra Pantaleone 
- Frei Nicolau amigo 
Quis logo saber novas da nossa famlia de Jerusalm a de Belm, 
kzendo-me muitas perguntas, e, depois de satisfeita essa sua curiosiOede, 
olha-me admirado a pergunta:
-Mas vs? Que fazeis neste lugar a sozinho?
Conto-lhe que estou de regresso a que, depois de ver Damasco, cerei a 
Trpoli ou a Sidnia a tomar barco para Chipre, para Itlia, a casa... Toma-me 
de parte e, baixando a voz, diz-me
- Deveis acolher-vos com tempo. Esto quebradas as pazes e 
Venezianos e o gro-turco. Muitos mercadores de Alepo a de as partes 
puseram j as suas fazendas a salvo. Alguns at fugiram a Chipre...
- Creio que neste momento no temos outro remdio, depois de _ us, 
seno ir nesta companhia at Damasco. Obrigado por me avie
 s. No digais nada aos meus companheiros para os no inquie
-- Cumprirei  risca o que me pedis - promete Frei Nicolau no falou com 
nenhum dos meus companheiros. Alis, ainda
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que o quisesse fazer no teve ensejo porque a sua companhia, se bem 
que caminhando devagar por todos irem a p a apesar de na ponte terem sido 
detidos ao pagar do cafarro, j se ia alongando. Tambm com esta segunda 
m nova me calei a nem a meu companheiro Frei Zedilho a quis revelar, que se 
o fizesse sem falta esmoreceria.
Manh de desusado movimento a novidade  esta  No refeito ainda da 
notcia preocupante duas vezes em to pouco espao de tempo recebida, eis 
que ouo muito perto tropel de cavalos. So seis turcos. O da frente, que tem 
todo o ar de ser o chefe, traz a destro, liados ao seu, dois cavalos ricamente 
ataviados.
- Quem so? - pergunto eu, que entretanto havia chegado junto dos 
mais, a um turco da caravana.
-  um chaus da corte do gro-turco, dignidade de grande estima  - 
responde respeitosamente.
Saa j, com grandes manifestaes de regozijo a amizade, a receber a 
importante personagem, o sobrinho do bax de Damasco. Convida o chaus 
para a sua mesa, tomando-nos a melhor tenda que trazemos, a armam-lha  
borda do Jordo, bem junto de gua, separada dois tiros de pedra da outra 
companhia.
- Vamos  festa? - desafio Frei Zedilho.
- Estais doido? Sem sermos convidados? - replica.
- Quem vos disse que no fomos convidados? - fazendo-me de novas.
- Fomos? - inquire admirado, pois no tinha havido tempo para qualquer 
contacto connosco, to rpidas as coisas sucederam. - Fomos - respondo-lhe, 
com o ar mais srio a circunspecto que
pude arranjar para a ocasio. -Eis aqui o nosso convite -a mostro-lhe o 
barrilete de vinho que j tinha escondido numa dobra do hbito. Embora 
tivessem na mesa muito bom peixe fresco, daquela hora
no Jordo tomado, o nosso barrilete de vinho tornou-se a melhor iguaria 
que lhes foi servida. O chaus mostrou-nos muita amizade e nos abraou com 
grandes gestos, dizendo em latim:
- Pater noster... Pater noster... Pater noster... - e dava grandes risadas 
pelo meio. Depois, virando-se para mim ora para o meu companheiro, 
exclamava, fingindo-se muito srio: - Caciz Cristo melia, melia  Caciz 
Mafamede marfus, marfus ! (que quer dizer: O Santo Cristo  bom, o Santo 
Mafamede  ruim!), a desabava sobre ns a trovoada das suas gargalhadas.
286
Riam-se os outros turcos em sua volta, gostassem ou no, a ns ramo-
nos tambm, que assim convinha. Estvamos neste passatempo, ouvem-se l 
fora charamelas dobradas que comeam de tanger. Assomamos  boca da 
tench a ver o que . Passava o governador de Jerusalm com toda sua casa a 
famlia, a caminho da come do gro-turco, com tanto fausto que levava seis 
andas de mulheres, alguns vinte homens de cavalo a muita gente de p. As 
charamelas tangeram desde antes que  ponte chegassem at que de todo 
passaram um bom pedao donde estvamos. Seguiram sem darem mostra de 
si nem falarem com zlguma pessoa da companhia. Assim  o fausto a polcia 
com que se tratam os Turcos na sua terra 
Aquela tarde os nossos almocreves, desesperados com tanta tardana, 
vm importunar-nos. Em amanhecendo era bem que partssernos. No havia 
perigo algum no caminho. Deixssemos a companhia dos turcos onde estava. 
Juravam a obrigavam-se a levar-nos a Damasco ,rm segurana. Se no 
quisssemos, lhes dssemos o necessrio para comerem, porque com tantas 
demoras tinham os alugueres gastos...
Pareceu-nos que tinham razo a assentamos em lhes dar mais um tanto 
o dia que no fizermos jornada inteira. O cristo Nicolau 4 que no quer 
esperar a parte logo a caminho de Damasco, ao passo qu.e ns passamos 
aqui a noite.
No dia seguinte, ao romper da alva, atravessamos o rio a comeamos a 
caminhar, mas, andada uma lgua, numa campina junto a Cedar, memos 
estarem j armadas as tendas para a senhora turca a os seus. Os criados do 
sobrinho do bax comeam a acenar-nos que fssemos ~onde estavam. 
Ficamos confusos, sem nos sabermos determinar no que havemos de fazer. 
Os nossos almocreves aporfiam a todos se
atam que nos abalemos de tal companhia. No parssemos alil No : 
emos Seguissemos Segussemos nosso caminhol... Estamos :0,8 chega a 
ns o turco, chaus da corte. Era a sempre fora muito nigo dos Francos. Ia 
para Damasco. Se quisssemos ir em sua comuhia, prometia sobre sua 
cabea, a punha a mo no turbante em  do que prometia, levar-nos at l.
Os ahnocreves, ouvindo isto, aplaudem a ideia a com mais afinco 
~orfiarn com os nossos companheiros italianos, que ainda esto inde
-- Na companhia desta turca - continua o chaus - no sero oito dias que 
ela entra em Damasco.
287
,onnosco da tjto perto de
S e as outras cow umas L~45
i~mente a G lhos inteniaoz do chaur
a era para a dvamos
fry perigo, td justioso
quanto ostrava isar os
seus
cara
num
almo~m as Ehar a
bax
- Fazei o que vos digo. Deixai-os comigo. Vou tratar de os
distrair. Tomei da minha sacola o barrilete do vinho a dirigi-me ao grupo 
de criados a guardas do turco.
- No podemos determo-nos no caminho tanto como vs disse-lhes. - 
Mas no queremos partir sem deixar, com as nossas despedidas, os melhores 
agradecimentos. Sei que vosso senhor est recolhido. No o desejo 
incomodar. Fareis o favor de lhe entregar da nossa parte este modesto 
presente, que lhe deixamos de boa vontade. Fizeram-me muita festa, falando 
todos ao mesmo tempo.
- Tambm vos quero agradecer, a vs todos, a proteco que nos 
destes e a boa amizade que nos mostrastes - continuava eu, procurando 
arrastar a minha fala com muitas palavras de circunstncia.
Desmontei a vim abra-los em gesto de despedida, olhando em volta 
por cima dos ombros de quem estava abraando: do jovem ';candioto no se 
enxergava sinal.
Parti, acicatando a montada para a estugar a poder recobrar o cannho 
atrasado. Ia pensando que, na hora mais prxima, no _ ge daxiam conta da 
fuga do candioto. Quando muito comeariam a n estranhar a demora, 
pensariam que talvez ele se tivesse retardado
beira-rio a pescar e, como estavam ali acampados de espao, o seria 
de admirar... Quando se desse o alarme, depois da detena naturalmente 
levaria o irem procux-lo ao Jordo - talvez pen
ssem at num desastre no rio : o rapaz que se deixa tentar pela gua, ' 
mar banho, a se afoga... -, outra hora, se no mais, se escoaria. oma deciso, 
no toma deciso, se foi para sul, se foi para norte, ' deitou a Can., em 
direco ao Mediterrneo, ou se preferiu contor
o mar de Tiberades a fugir para levante, a juntar-se s caravanas 
mercadores... - quando se enviam esculcas a esquadrinhar as ondezas, onde 
ele j r... Desconfiarem de ns? Como ser ssvel, se somos estrangeiros em 
terra alheia a perigosa? Se o caso de uma tal aco seria nada menos que a 
morte? Se ns -loda gente viu - partimos sozinhos, na companhia do turco 
chaus da
e, a caminho de Damasco? Passar pela mente do moo juntar-se ns  
Loucura, com um turco a mais cinco cavaleiros seus por comeirosl... Mas um 
jovem  ingnuo a haveria de pensar que os cris
s o ajudariam... Ora estes tambm tm amor  pele a seriam os eiros a 
repudiar tal proteco... a a o chaur exerceria natural
289
mente a sua autoridade a reteria o rapaz... Talvez nem valesse a pena 
incomodarem-se, pois mais tarde, em Damasco, quando chegassem, l lhes 
seria entregue... Seria isto o que os turcos da caravana iriam pensar?... E 
eu?... A todo o momento o jovem candioto me poderia aparecer no caminho... 
Que fazer? Urgia excogitar a urdir uma sada segura para uma tal emergncia l 
.. .
No tardei a juntar-me aos companheiros de jornada, que festejaram 
muito o meu aparecimento, a uma boa lgua andada atravessmos Subta.
Caminhmos com muita alegria, sentindo que amos chegando a 
Damasco, mas eu levava um grande alvoroo na minha alma. Horas de 
almoo, tirmos do que trazamos a convidmos o chaos com a metade de um 
po a um pedao de cebola, o que ele com muita satisfao aceitou, como se 
lhe tivssemos dado alguma coisa de comer muito estimada. Foi comendo 
connosco pelo caminho, at que chegmos a um ribeiro. Pediu que lhe desse 
da gua a um criado, que se apressou a apresentar-lha numa bolsa de couro 
que os turcos costumam trazer, em jornada, a lhes serve de jarro.
Puseram-se os nossos companheiros seculares com todas as delongas 
a day de beber s bestas e a almoar. Mas Frei Zedilho, o clrigo romano 
Misser Antnio a eu seguimos sempre, embora com muito trabalho, o chaos, 
que, como de costume, em seu bom cavalo caminhava muito depressa. 
Passvamos por entre campos onde se viam mouros trabalhando a eu no 
deixei de pensar que os meus companheiros, atrasados, sem companhia, 
haviam de ter com aquela gente alguma importunao, por causa do cafarro. E 
de que maneira, soube-o depois ... Por duas ou trs vezes j, me havia 
parecido ouvir tropel de cavalos atrs de ns. Seriam os nossos companheiros 
retardatrios? Do alto de uma colina olhei o trilho da estrada, l em baixo, a vi 
dois cavaleiros que corriam a bom correr, com suas roupas rabes a esvoaar 
ao vento. Apertou-se-me a alma, pensando fossem os da companhia do 
sobrinho do bax de Damasco que viriam no nosso encalo, mas logo 
sosseguei ao considerar que ali vnhamos ns, os trs religiosos, sozinhos, 
protegidos por um importante a forte chaos da corte turca. Que viesseml De 
ns nada colheriam, porque eu, o nico que sabia do caso, no falaria uma 
palavra... A vista dos muros da cidade deixei-me ficar para trs e, quando senti 
mais perto os dois cavaleiros que aps ns vinham, parei como a descansar  
sombra
290
de uma rvore. Imediatamente estacaram e, saindo do caminho, 
meteram por entre um arvoredo a desapareceram. Intrigado, recomecei a 
caminhar rijo a logo atrs de mim senti virem cavalgando. Que quereria aquilo 
dizer? As portas da cidade despediu-se o chaur de ns com muita cortesia
- Vinde comigo! Terei muito gosto em vos albergar em minha pousada.
Haveria de nos escusarl, dei-me pressa em dizer-lhe. Tnhamos de 
nos juntar a nossos companheiros, alm de que no queramos causar-lhe 
maior maada do que a por ele tomada, por mor de ns. Faltavam-nos palavras 
com que lhe agradecer o servio que nos prestara, mas cresse, quando 
estivssemos l longe nas nossas terras, sempre nos lembraramos dele com 
gratido.
Acenando-nos com a mo em sinal de adeus, mete o turco pela prta da 
cidade a desaparece, de roldo, seguido dos seus cavaleiros. Uma vez ss, 
prepay-amo-nos para tambm entrar os muros de Damasco, quando 
vagarosamente, vindos de detrs do arvoredo que neste stio  denso a 
espesso, se dirigem para ns os dois cavaleiros que nos perseguiam. Ficamos 
parados,  espera. Sinto o corao bater-me aodado.
- Mas ...  aquele mouro ... Em So Sabas - exclama Frei Zedilho, de 
olhos arregalados. - O vosso amigo 
Sim. Era Isac Beiudo que caminhava sorridente para ns. A seu lado, 
tambm sorridente, os dentes muito brancos a luzirem no preto tictinto da cara, 
um jovem abexim de uns catorze anos, montando uma ^< pileca malhada. 
Vendo eu que Isac se apeava, fiz o mesmo a abramo`s' -nos alegremente. 
Cumprimentou Isac a Frei Zedilho, que lhe correspondeu com muita festa, e a 
Misser Antnio, que olhava a cena estugefacto. Quando tornmos a montar 
para entrar na cidade, seguimos ~ '~'dcvagar, indo  frente Frei Zedilho e 
Misser Antnio. Eu coloquei-me I.
a par de Isac Beiudo, conversando com ele
r' - Temi a vossa demora. Vindes de longe? Da Etipia? - perguntei, 
indicando o abexim, que vinha atrs de ns.
No fazendo conta da minha pergunta, respondeu:
- Esse a  Gaspar. Pelo menos por enquanto... Logo se
- Por enquanto? - estranhei.
29
Mas ele, ignorando mais uma vez as minhas palavras, virou-se para o 
abexim:
- Gaspar, este que aqui est  que  o teu Frei Pantaleo.
- Eu sei! - respondeu Gaspar num sorriso aberto. E veio colocar a sua 
montada a par da minha. Seriam horas de meio-dia.
XV
Damasco, encruzilhada do mundo
-'0 -rxvov, ~ (3P-~xev -~'g,Zv  ~vo; - BP-~xev, <~a-re 7rv iv 
~aXcp, 7rIrep,
~~ea,ri qpwve"Zv, &S go gvou 7rXoc.
... -  filho, afastou-se de ns o estranho? - Sim, afastou-se. Com toda 
a segurana,
pai, podes falar: ests a ss comigo. (Sfocles, Edipo em Colona, 8z-
84, adaptao.)
-  esta a rua - disse Isac Beiudo. - L ao fundo  a casa de mestre 
Jacob.
Seguamos os dois, sozinhos e a p, por uma rua estreita, de casas 
trreas, com terraos a aoteias, de um branco que dardejava ao sol violento a 
feria os olhos. Isac era agora o judeu de pontiagudas bar-bas pretas a calva 
luzidia que eu conheci primeiro. No passava ningum, porque a cidade tem as 
ruas pblicas para se poder andar por
s de dia a de noite, situando as casas a habitaes em outras ruas 
4eparadas a secretas, a modo de bairros ou ilhas, com portas que do para 
as vias pblicas a se fecham a bom recado de noite. Viera buscar-me, como 
tnhamos combinado, ao cambelo onde na vs
ra nos havamos alojado. A entrada na cidade no tinha suscitado 
tIualquer complica.o. Cingem-na trs cercas, formadas de jasmins Mgxito 
grossos a antigos, liados a entretecidos uns com os outros em
etno artifcio a curiosos efeitos. Robustos como so, servem de rtaleza: 
no haver exrcito ou artilharia que as rompa, seno com
292
293
muito trabalho a tempo. Mas que ornamento a frescura, de permeio 
jardins bem cuidados a mimosos a copado arvoredo ... S depois aparecem os 
altos a fortes muros que cercam os arrabaldes. Entrados na cidade por uma 
porta sob uma alta a forte torre que ostenta o escudo com as armas de Frana, 
vestgios da poca dos cruzados, ainda espermos algum tempo que 
aparecessem os nossos atrasados companheiros, mas, como demoravam, 
Isac, experiente, disse-nos:
-  escusado esperardes por eles, Frei Pantaleo. A cidade tern muitas 
entradas e a estas horas os almocreves, que as conhecem, os levaram pelo 
caminho mais directo a j esto descansados na pousada.
Samos ento dos arrabaldes a chegmos a uma porta por onde se 
entra ao melhor a mais povoado da cidade. A encontrmos os nossos 
companheiros. Estavam acabando de pagar o cafarro a de ser vistoriados nas 
coisas que traziam. Assim  costume, para se saber se tinham consigo 
mercadoria defesa, o que se podia presumir de homens que caminhavam por 
terras estranhas, com cargas a caixas encoiradas, com bugios a papagaios...
- L esto eles - exclamou Gaspar com a natural vivacidade de quem  
moo.
Todos nos alegrmos com a vista deles e, enquanto nos apevamos 
pare pagar tambm nosso cafarro, dizia-me muito agastado Misser Carlo, o 
veneziano
- Estou farto de cafarros! A atrs, nuns campos por onde passmos, 
assaltaram-nos uns camponeses a pedirem que lho pagssemos. Era o que 
faltaval Ns a os nossos almocreves viemos s porradas com eles, que 
levaram poucas...
-Era terdes seguido connosco... J tal no teria acontecido! - disse-lhe 
eu.
Aqui, porm,  diferente. Trata-se de um posto de entrada na cidade e o 
madim por pessoa que pagamos arrecada-o um turco todo branco de velhice a 
uma barba muito comprida, mas a mais formosa a venervel pessoa de homem 
que tenho visto, de que lhe vem ser sobremaneira amoroso a bem-criado. 
Apartando-nos dele, metemos pela cidade, de todas as que tenho visto postas 
em serto a mais nobre a populosa. Gente comummente bem-educada a 
acondicionada, gentil para com os estrangeiros. Aconteceu-nos que, indo 
nosso caminho, uns moos mouros desataram a meter-se connosco, a chamar-
nos nomes, a dizer
294
-nos vilanias a maus ensinos, como em Portugal tambm fez a gente 
rnalcriada, quando passam religiosos. Logo um turco, que os ouviu, corre para 
eles a lhes d muita bofetada. Choram os moos, acodem os pais, que, 
sabendo o que se passara, os tornam a castigar. Assim, zndamos pela cidade 
to seguros como os naturais da terra. Aqui est ulna linda mesquita, o ptio e 
o adro de fora todo coberto de ouro a esmaltes, bem como as paredes at ao 
cho. Dizem-me que se encontra edificada no mesmo stio em que 
antigamente, no tempo dos reis de Israel a no de Rasin Benabab Asael, rei da 
Siria, esteve o templo do dolo Rmon. Aqui se entra sem que ningum o 
impea. Tambm ningum molesta os muitos cristos que vivem na cidade, 
consentindo-lhes terem publicamente as suas igrejas, com seus bispos, os 
maronitas com seu arcebispo. Permanece at ao die de hoje a casa de 
Ananias, aquele santo homem que, avisado por uma viso, acudiu a baptizar a 
Saulo, o ciliciano de Tarso. Tambm nos mostram o lugar por onde o divino 
Doutor das Gentes, com a ajuda dos irmos cristos que aqui moravam, 
conseguiu fugir da priso baixando da muralha pendurado da ponta de uma 
corda, numa fedorenta esporta das que aerviam de levar  praa legumes a 
peixe. Manda o gro-turco Solimo matar seu filho mais velho, por suspeitas de 
que se lhe queria eom o Imprio levantar, mas logo pela alma dele fez construir 
um hospital que no duvido ser um dos mais nobres a magnficos edifcios do 
mundo. No meio do ptio, muito vasto, uma enorme fonte toda moldada a 
cozida em ouro, com inmeros a finos canos de prata. Apoacntos grandes, 
espaosos, forrados riquissimamente com requintados brincos a ornamentos 
esplendorosos, cada um deles por si de meialaranja, por cima cobertos de 
chumbo com sues grimpas douradas. 4s vares das cases principais, altos a 
esguios, com sues bolas a meias-loes de ouro. Todo o cristo, mouro ou gentio 
que est de passagem
- de uma terra a outra, aqui se lhe d de comer abundosamente trs dias 
'~`po, carne quanta querem a muito arroz de diversas cores, que o fazem 
i>>reto, vermelho, verde a amarelo. Aqui se cura todo o enfermo neces!~hado 
e, dos sobejos da muita renda de que o gro-turco dotou o !~pital, se fazem 
gordas a grandes esmolas aos indigentes. Embora ~d maior de Damasco, no 
 no entanto este o nico hospital ou hos
'o. Muaitos outros h a um deles  de gatos. Fundamente atreito a bras 
pies, o gro-turco sustenta por todas as suas terras hospitais ,homens a 
mulheres, mas tambm para gatos. A gente comum
295
dos mouros, pela maior parte, vive pobre a miseravelmente e  de pouco 
comer a mal vestir, em especial onde moram turcos. Todavia
 nenhum deles anda pelas portas pedindo, como na nossa Europa. 3 
Todos trabalham em qualquer servio a os que de todo so impedidos por 
causa da cegueira ou outro aleijo, enfermidade, velhice ou fraqueza, os 
hospitais os sustentam. Para gatos vi-os em Jerusalm e noutras cidades. 
Tem-nos a seu cuidado o gateiro, um mouro com seu prmio que todas as 
manhs se vai pr  porta do aougue, com uma bacia na mo, a pedir esmola 
para os seus bichanos, pelo amor de Deus.
Meu companheiro, Frei Zedilho, muito se admirava a no podia 
compreender como tal pudesse acontecer: que houvesse hospitais para gatos 
a gateiros encarregados deles.
- Coisa mais inverosmil! - remordia ele. - Pr-se o gateiro a pedir comida 
para os gatos por amor de Deus 
- Se o gro-turco - atirou Isac Beiudo - vivesse na vossa terra, irmo 
Zedilho, por certo seria franciscano. E se o vosso padre So Francisco fosse o 
gro-turco...
- Ohl...
- ... mandaria sem dvida fazer hospitais para lobos ...
Todos nos rimos da sada do nosso judeu, at Frei Zedilho, que se 
calou, sem resposta. Aproveitei o silncio para lembrar:
- No h que admirar. Nas histrias escocesas l-se que Dornadilha, rei 
da Esccia, promulgou uma lei em que se ordenava a todos os vassalos 
obrigassem cada vizinho de suas terras a ter trs ces de caa, um galgo a 
dois ou trs de guarda a pastores. Toda a cidade
r e vila teria um hospital em que,  custa do fisco real, sustentassem os 
ces velhos que haviam servido ou que tivessem mancado, cegado ou 
enfermado na caa...
- No param as coisas de turcos a mouros nisto de gatos acrescentou 
Isac. - Alguns deixam terras a campos,  hora de sua morte, ao errio comum, 
para que as suas bestas tenham ervagem de de que se sustentem. E h 
aqueles que deixam em seus testamentos que, por suas almas, se dem cada 
ano tantos cntaros de mel s moscas.
Quem tinha muito de seize, era o comentrio de Misser Antnio, fazia 
o que lhe apetecia ao dinheiro.
II -  assim - concordou Isac. - Os mouros ricos costumam casar muitas 
vezes. Repudiam umas a tomam outras. Sua prtica comum  gastar suas 
fazendas em bodas.
296
- E vs, os judeus, em pscoas - disse, pouco diplomtico, Frei Zedilho - 
pelas muitas que fazeis cada ano.
- E os cristos, que fazeis vs? - comeava a responder o judeu, mas eu 
apressei-me a atalhar, para evitar o encontro a discusso que se esboava:
- Os cristos, por seus pecados, passam o tempo em demandas, que 
no pode ser maior misria! Paz, amor, caridade uns com os outros, justia, 
compreenso, tolerncia, magnanimidade, perdo - eis a mensagern de Cristo. 
Andam-nos todos os dias as palavras  flor dos lbios, adoa-se-nos a 
expresso do olhar e a candura das faces, enternece-se a voz... E por dentro? 
Desde o imperador ao servo, so demandas, pornas a contendas, misturadas 
com o visco dos dios, a babugem das invejas, a borra das cobias... Que tem 
posto o cristianismo em guerras contnuas, como cada dia vemos? So 
nascidas de os grandes quererem oprimir os pequenos, usurpando para si o 
alheio, que, em que lhes pese, ho-de deixar  hora da morte, levando 
somente consigo, para serem julgados, suas soberbas a pecados... Fosse toda 
a penso dos homens, depois de fazerem justia a todo o bem a si prprios, 
cuidar de hospitais para gatos!...
Isac olhava-me com um leve sorriso compreensivo. Os outros seguiam 
calados o curso do pensamento. Frei Zedilho, cordato, andava a preparar 
sermo?, perguntava-me.
Seguimos caminho olhando em volta. Grandes so os tratos, negcios a 
trfego de Damasco, de muitas riquezas a mercadorias que aqui vm ter em 
cfilas, da ndia Oriental, por Baor, como de outras partes do Levante.
- S de teares so para a uns cinco ou seis mil. Coisa grande! - dizia-
nos Isac Beiudo. - Todo o gnero de sedas, riqussimos brocados, telas de 
ouro a de prata...
Entramos em algumas casas onde h teares. Que curiosos! Toda  
madeira pintada a dourada, os lios a cordas de seda de cores diversas, os 
pesos, feitos de vidro, tambm policromos e o vo de dentro 'cheio de areia. 
Fabricam-se aqui chamalotes de todas as cores, muito Pmcurados, finas 
holandas a panos de algodo, que se vendem em 'kbundncia nas lojas que 
ladeiam as ruas ou em bem abastecidas tendas I~''bazares, a daqui vo  
Europa, bem como as mais preciosas alcatifas Sk todo o Levante. Chama-nos 
tambm a ateno a cutelaria: todo o ~nero de ferramenta, as facas 
damasquinas por todo o Oriente to
297
nomeadas, terados a alfanges de toda a forma a feitio, com lindssimos 
a bem lavrados punhos de prata. Isac leva-me a ver uma ourivesaria, oficina 
enormssima a que se entra por uma s porta, que outra entrada ou sada no 
tem por mor da segurana. Trabalham aqui como quinhentos homens, com 
seus moos obreiros, entre os quais encontrmos alguns judeus portugueses, 
que folgaram muito em que os vissemos encontrar a nos disseram haverem 
aprendido o ofcio em Lisboa. Com muita familiaridade nos andaram mostrando 
quanta maravilha a riqueza h aqui em ouro, prata a pedraria preciosa que 
jamais cuidei ver.
Ao longo de uma rua muito comprida, de uma parte a outra, casas 
cheias de dornas com produtos de leite de toda a espcie : natas, manteigas, 
queijos frescos ou secos. A porta de uma destas casas um comerciante mouro, 
que, vendo-me parar junto de si a apreciar a variedade dos queijos, me 
pergunta:
- Sois portugus?
- Veneziano - respondo-lhe.
-Ora, oral No me venhais com essa, que sobejo a conheo! Mato um 
portugus  lgua!... Mas no tenhais receio. Gosto muito dos portugueses, 
porque toda a minha vida tratei com eles em Ceuta e os achei bons amigos... - 
e insistia comigo para que levasse de sua casa quanto quisesse.
- Agradeo-vos muito - digo eu recusando, mas ele teima tanto que ser 
indelicadeza no aceitar. - Fico-vos ento - proponho - com um destes 
queijinhos, mas em troca haveis de tomar um punhado de figos secos do 
Algarve, que de algum modo recordaro a vossa terra. No vos dou mais 
porque so os ltimos que me ficaram dos que de l trouxe.
No teve mais o mouro seno aceitar, o que fez com muita satisfao, a 
assim nos tornmos amigos.
As praas da cidade, apesar de ser Quaresma, esto a abarrotar de toda 
a qualidade de fruta, muito barata : o rtulo das uvas, que so quatro arrteis, 
por um madim, que vale doze ris. Tm um tal jeito* d podar as vinhas que 
acodem as novidades trs vezes no ano e, por isso, o mais do tempo tm uvas 
frescas. Muitas a grossas carnes, cpia de mantimentos, infinito pescado 
colhido nos rios da cidade, sobretudo tencas muito gostosas como tive vrias 
ocasies de apreciar... gua muito limpa a fresca, de grande bondade, 
proveniente dos rios
298
Abana a Frfar, que descem do Lbano a se espraiam na vasta plancie 
onde est assente Damasco: um rompe pela cidade dentro, forma um lago 
fundo a largo, em que afogam as mulheres adlteras, a daqui, por canos 
secretos, vai por toda a povoao brotar em fontes rica e lustrosamente 
lavradas em cantaria a mosaicos de variadas cores; o outro segue por fora, de 
tal maneira repartido que rega todos os jardi,ns, hortas a pomares; depois o 
sobejo dos dois rios torna-se a juntar fora da cidade, prximo de uma igreja 
dedicada ao profeta Elias e por isso frequentada de cristos a judeus, a correm 
juntos, a par, um bom pedao, com irrequieto mpeto a fragor, para logo se 
tornarem  apartar a seguir seu curso natural, cada um ao seu destino.
Praas a ruas desbordam de gente de vrias naes a raas, o que  
visvel na multiformidade a policromia dos vesturios, na tez da pele das 
pessoas, no seu tipo humano a na algaravia das falas. Desde o arabesco, o 
turquesco, o grego, o armnio, at ao veneziano, ao portugus, ao espanhol, 
ao francs, poder-se- dizer que aqui se ouvem todas as lnguas a tm 
encontro todos os povos do mundo. A este linguajar mltiplo a cosmopolita vem 
juntar-se o atordoamento confuso a amorfo dos rudos mesclados. Preges 
gargarejados, guturais, de vendedores... Vozearia de mulheres, de vu que 
lhes tapa o rosto mas no esconde as chispas que lhes fuzilam os olhos 
negros, regateando preos com os mercadores... A griteira a grulhada dos 
putos que brincam, correm, esvoaam, deslizam por entre as pernas dos 
transeuntes... O tilintar de guizos a tintinbulos pendentes da goleira de um 
burro carregado de gaiolas de todos os tamanhos a formas, vitas de bambu... 
Puxa-o pela arreata um passarinheiro de cantilena montona envolta na 
gralheada de chilreios, gorjeios, trinos a pipilos de mil avezinhas a milhentas 
cores que saltitam inquietas de poleiro tra poleiro... A flauta de melopeia 
ondulante de um velho encantador dt serpentes, sentado no cho com as 
pernas cruzadas, diante de um lh%leigo de corda. De dentro emerge em 
movimentos sinuosos a haste de unza spide, cortante fenda vertical nos olhos 
de ao, da boca pro
etando-se, de momento a momento, um fino a bfido raio de luz... tfar de 
atambores num largo da cidade  Cmicos, malabaristas, engodores de fogo a 
de facas afiadas, faquires, estticos em suas atitudes ilttanhas, sentados em 
tapetes de pregos pontiagudos, amestradores
monos a bugios, contorcionistas que com os ps tocam atabales quanto 
as mos fazem estalar crtalos de bano a de sndalo - toda
299
uma chusma que invade o recinto a vem mostrar suas farsas, jogos e 
habilidades para recreao da gente, como tambm em mais que uma ocasio 
presenciei em Veneza... Ante um dos bugios, que volteava sem parana preso 
por uma corrente  coleira, muito corpulento e feio, disse Misser Antnio
- Parece o demnio! Vede como arreganha a range a dentua!... -  o 
demnio - afirmou, dogmtico, o nosso doutor em Teologia, Frei Zedilho. - Os 
olhos dele so amarelos do fogo do Inferno ...
Parece entend-lo o bugio, que logo de unhas a dentes arremete ao 
meu companheiro, a certamente o teria muito maltratado se no acode o que o 
trazia preso.
Mas que acontece agora? Como o cu lmpido se pode subitamente 
ensombrear a carregar de nuvens que logo rompem em borrasca e desabam 
na fria desordenada dos elementos, tambm esta alegre praa num momento 
se transformou no palco das mais cruentas a brbaras cenas que os meus 
olhos, quase j esquecidos do auto-de-f de vora, alguma vez -pobres deles!- 
foram forados a ver. Cavaleiros da justia do gro-turco entraram de tropel no 
largo e, num instante, o desampararam dispersando a multido a os 
comediantes para junto das paredes das casas. Uma comprida carreta, com 
vinte e cinco homens vestidos em suas alvas de estopa crua, as mos 
amarradas atrs das costas a grilhetas nos tornozelos, vinha entrando tirada 
por muares a ladeada de quatro cavaleiros que empunhavam temveis 
alfanges. A frente, a cavalo, bradava um pregoeiro seu prego
Justia que manda fazer o gro-senhor: manda degolar estes homens, 
por ladres a por no deixarem passar os viandantes pelos caminhos. Rogai a 
Deus que lhe d muita vida, para que vos governe com justial
E logo a, na prpria carreta, que parara no meio da praa e para tal 
vinha preparada, os algozes, sem demora nem hesitaes na alma 
empedernida, procederam  execuo. Transido silncio da multido, de que 
por vezes saa um gemido de agonia ou o baque dos que caam desmaiados! 
Mas j os algozes enfiam numa corda, como contas de um rosrio macabro, as 
cabeas dos executados a as vo pendurar, pingando sangue, em derredor da 
alta torre de um castelo que a est... Saiu de imediato a carreta com o monto 
de corpos decapitados, gotejando a manchando de vermelho,  medida que 
avanava, o terreiro do largo. Preparvamo-nos para sair daqui, amparando
300
Frei Zedilho muito plido a meio desfalecido a ns todos muito 
agoniados, eis que entra na praa um outro cavaleiro, que, desapiedado, vem 
puxando cambaleante a por vezes arrastado pelo cho um infeliz de punhos 
atados por uma corda que se ia prender  cilha do cavalo. io  minha volta 
que  um famoso ladro a salteador. Acorrem algozes. Flagelam o desgraado, 
que solta horrorosos gritos, at o porem em carne viva. Crucificam-no num 
madeiro em forma de xis, encravando-lhe ps a mos com grandes a grossos 
pregos. So ulos enrouquecidos os que saem daquele peito, mas logo se 
transformam em medonhos urros que por um momento atroam toda a praa e 
sbito so afogados por golfadas de sangue quando em cada uma das 
espduas, com uma enx, lhe abrem uns grandssimos buracos e em cada 
buraco metem um novelo de alcatro misturado com enxofre; lhe chegam fogo, 
com o que vivo vai ardendo. Pem-no depois em cima de um camelo, com um 
engenho propositadamente aparelhado, de maneira que a cruz vai levantada a 
direita. E assim, flagelado, crucificado a ardendo, o levam pelas ruas da cidade.
Apressamo-nos a sair deste maldito lugar, dolorosamente feridos na 
alma, em nossos sentimentos cristos, em nossa humanidade, a cabea 
atordoada, o estmago enjoado, as pernas a tremerem. Frei Zedilho baqueara 
no cho.  necessrio acudir-lhe com salpicos de gua fresca na cara a 
algumas bofetadas. Entramos por uma rua toda fech.ida: uma porta no 
princpio a outra no fim; por cima telhado de duas guas com suas lucernas 
para entrar a claridade; a um a outro lado, lojas de ricos panos, sedas, telas de 
ouro a prata; a meio, o co onde havemos de pousar, que  de judeus 
mercadores, a aonde rapidamente os meus companheiros, que vo  frente, 
levam Frei Zedilho. Quanto a mim, fico para trs porque no teramos passado 
vinte caws quando de uma delas vm ao meu encontro uns seis judeus 
portugueses.
- Padre Frei Pantaleo - dizia um deles com grande alvoroo. - Quem 
vos trouxe a esta terra?
Lembrava-me das feies dele, mas no me acudia prestes  
lembrana, na confuso que me ia na cabea a no corao, onde a quando o 
conheci em Portugal nem que nome era o seu.
- Quem havia de cuidar que um dia vos encontraria aqui? &no de 
Deus! Estar na minha loja descuidado a abrir uns fardos de mercadoria 
acabados de receber da Prsia... levanto os olhos para s, rua a quem vai a 
passar? Julguei estar sonhandol...
30
Foram-se connosco  pousada, que ali perto estava, onde todos me 
rodeavam a festejavam com palavras de muita amizade, enternecidos, 
abraando a abafando em mim as saudades da ptria. J acudiam outros de 
suas lojas, com muita alegria, acotovelavam-se em minha volta, perguntavam-
me por suas terras, falando todos ao mesmo tempo.
- Amigos - repetia eu elevando a voz. - Tenho neste momento mais 
necessidade de repousar que de altercar. Peo-vos que vos retireis. Amanh...
Como eles subitamente cassem em si a acalmassem, ... poderamos 
falar mais de espao, prometi, Deus os acompanhasse , a segui com eles, 
a despedir-me, at  porta do cambelo.
Fiquei s. Os meus companheiros j se estavam a acomodar. Os 
almocreves  mesma hora que chegaram se despediram a foram buscar 
pousada entre cristos da terra seus conhecidos. Isac Beiudo achou prudente 
que Gaspar - como seria o verdadeiro nome do jovem candioto? - no ficasse 
connosco num lugar pblico, sujeito a todo o momento a ser alvo de busca, a 
levou-o consigo para onde s ele sabia. No tivemos ainda tempo de falar  
vontade e, alm de muitas outras coisas que me dxziam respeito, eu no ouvira 
ainda dele em que circunstncias encontrara o moo e o fizera abexim. Ao 
afastar-se, vendo-me rodeado de tantos judeus portugueses, que ele bem 
conhecia a eram seus amigos, s teve azo de dizer:
- Amanh de manh virei buscar-vos. Levar-vos-ei a mestre Jacob. 
Mestre Jacob  A est ele algures, to perto de mim no espao e no tempo  A 
um tiro de pedra... Amanh ... Amanh ... Amanh conhecerei a verdade ... 
Segredos que devem de ser. terrveis, a julgar pelos sinais que de h muito se 
manifestam a surgem  minha voltal... Mas neste momento, cansado da 
jornada, nauseado das cenas sangrentas da praa, aturdido com a gralhada 
dos bons dos judeus, sinto-me esvado, impossibilitado de pensar, de sentir, de 
me comover, sequer de ter medo da revelao que me espera. Recolho-me.
Este co ou cambalo  como uns paos reais, com numerosssimas 
casas a cmaxas, todas muito bem forradas a fechadas com suas chaves 
mouriscas.  a estes aposentos que nos acolhemos, mas fornecem-no-lo sem 
camas em que durmamos a repousemos. A ltima claridade do dia est a 
sumir-se. Frei Zedilho, todo encolhido a enrodilhado a um canto em sua manta, 
junto dos outros companheiros, ainda no dorme.
- Conseguistes enfim livrar-vos deles? - pergunta.
- Coitados - respondo, acomodando-me a seu lado. - Pedem-me novas 
de suas terras, porque a boa natureza nunca pode esquecer. - Sei que h aqui 
muitos judeus espanhis, mas at agora, graas z Deus, no fui apoquentado.
- No perdeis pela demora - retorqui bocejando. - Agora  dormir neste 
co ... a neste cho ...
No baixo havia uma claustra grande, no meio da qual se via um lindo c 
rendilhado fontanrio de boa a fresca gua que eu antemanh j estava a 
saborear. Depois de passado o sono do cansao, sobrevieram-me insnias 
com o revolver no pensamento, mais que as cenas do dia anterior, a 
especulao do que me traria o dia que despontava. Passeio pela claustra 
extremamente asseada. Alis, todo o albergue  em eztremo limpo. Tm dele 
cuidado certos mouros, com renda e prmio de que se sustenta o cambelo. 
No entanto, sempre convm dar alguma coisa aos que nos entregam a 
pousada, para que nos mostrem bom rosto. Mas tomam-no s escondxdas, 
porque pesada  a pena que sofrem por receberem seja o que for. So muito 
esmerados em terem os aposentos sem mcula e, no Vero, regam-nos 
frequentemente para recreao dos caminheiros. Se assim no fazem, h 
quem ;fls vigie a sentem-no na paga. No  pequena humanidade achar-se 
tntre infiis pousada certa a segura, a mais numa cidade to populosa, 'gym se 
pagar por ela mais que um seja por amor de Deus  Que diferena da nossa 
Europa, onde se entra em estalagens que nos levam coiro a cabelo sem nos 
satisfazerem da comida, sen.o com nos esgo.:parem as algibeiras  E, se 
temos de passar a noite nelas, altas horas acordamos, somos forados a travar 
picas batalhas com chinches, ~pulgas a piolhos, a pela manh, num lenol 
juncado dos vestgios ~guinolentos da terrvel carnificina, acordamos todos 
comidos, s
ezes com as bolsas cortadas a as carnes para muito tempo enfermas la 
sujidade das camas. Aqui no h nenhuma coisa destas. Quanto *0 comer, 
sem qualquer enfadamento se manda buscar  praa, que o tern de todo o 
gnero a muito fresco a barato.
Ainda no era sado o Sol, vm ter comigo ao ptio alguns judeus 
ortugueses, uns por me mostrarem corts acolhimento, outros por berem 
novas, como na vspera. Frei Zedilho a os meus companhei
~,)s italianos vinham chegando. Roguei aos judeus que nos deixassem 
eiro cumprir com as nossas obrigaes do ofcio divino a que
302 303
nos fizessem merc de, entretanto, nos descobrirem algum mercador 
italiano, se o houvesse na terra, por ser muito necessrio aos companheiros. 
Depois no faltaria tempo de falarmos a porfiarmos quanto quisessem.
Com gosto acederam ao meu pedido a no tnhamos os trs padres bem 
acabado de dizer nossas horas quando nos entra pela porta uni honrado 
mercador veneziano, chamado kisser Galeceo.
- Misser Galeceo - eaclamou Misser Carlo.
- Misser Carlo - disse Galeceo, abraando o nosso companheiro. - Por 
aqui? - e, relanceando os olhos por ns, fez-nos uma vnia a cumprimentar-
nos, a que ns correspondemos. - Donde vindes?
- Oh  De longada  Egipto, monte Sinai, Belm, Jerusalm... - E 
caminhais para onde?
- Iremos a Tripoli buscar embarcao para Chipre.
Fazamos beml - e Galeceo chamava-nos a si com um sinal de mo a 
ar de caso. Reunidos em sua volta a um canto do ptio, segredou-nos. Fora 
secretamente avisado serem quebradas as pazes entre Turcos a Venezianos. 
J muitos mercadores de Alepo a doutros stios tinham fugido. Tambm ele 
andava de dia em dia para fazer o mesmo. Detinha-se apenas impedido de 
negcios que desejava ultimar. Se quisssemos ficar aqui dois pares de dias 
vendo a cidade, que tinha tanta coisa digna de ser vista, dar-se-is pressa em ir 
em nossa companhia. No nos havia de pesar, pois conhecia bem a terra e o 
modo que havamos de ter para nos passarmos a Chipre, deigando a Sria.
- Eu j sabia desses rumores - disse eu aos meus companheiros. - J 
sabeis ? - estranhou Frei Zedilho. - E no dissestes nada?
- Correndo ns tanto risco - ajudou Misser Antnio. - Como soubestes?
- Disse-mo o padre Frei Nicolau, vindo de Alepo,  Ponte de Jacob, a 
tambm j mo tinha comunicado Efraim, quando andava num piso, no rio 
Jordo.
- E no nos avisastes  Francamente - lamentou-se muito estomagado 
Misser Antnio, apoiado pelas vozes a sinais de descontentamento dos 
companheiros.
- No vos avisei por dois motivos : para vos no dar pena e 
inquieta.o...
304
- Ora 
- No est certo 
- ... a porque eram rumores no confirmados. - No confirmados? ...
- Dizem-vos no mesmo dia, com um pequeno intervalo de tempo, duas 
pessoas diferentes a mesma noticia a achais que isso no  bastatite 
confirmao?...
- No , no  - teimava eu.
-E agora? No est mais que confirmada por Misser Galeceo? - Misser 
Galeceo - opus eu firmemente - mais no faz do que ser eco dos mesmos 
rumores que ouviu Frei Nicolau e o judeu Efraim. A notcia no tem ainda 
confirmao certa.
- Isso  verdade! - disse Misser Galeceo.
- E vamos ficar aqui parados  espera da confirmao, que ser sem 
dvida nenhuma em forma de perseguies, maus tratos, confisca~7es, qui 
a priso e a morte?...
. - O melhor  pormo-nos a salvo sem detena ! - acudia timorato Frei 
Zedilho.
- No h fumo sem fogo... - lembra Misser Carlo.
- Ora, amigos  Essas coisas no se desencadeiam assim do p ara a 
mo - acalmou Misser Galeceo - e, de Constantinopla at Itqui, as ordens do 
gro-turco, se vierem a caminho, ainda demoram snuito ~dias. Ficai aqui em 
Damasco, como vos pedi, a daqui a dois iu tr~s dias pr-nos-emos todos a 
caminho de Tiro.
A pequena borrasca entre mim a os meus companheiros sossegava e, 
caindo na conta da minha boa teno, ficmos amigos como dantes. Como o 
grupo se desfazia, rodearam-me os judeus. Preparai~am-se para comigo se 
deterem longamente, a eu desta vez no me " furtar por lho ter prometido 
repetidamente, quando se interpe fit- calva luzidia e a barba a escorrer das 
faces e a pingar em bico no eigo de quem eu muito bem conhecia:
- Amigos, Frei Pantaleo ter muito gosto, noutra ocasio, to vos 
atender, mas neste momento ficou de me acompanhar a casa e um seu 
particular amigo, que bem conheceis a estimais a que est portas da morte.
-- Mestre Jacob - murmuraram alguns.
Depois de uma breve despedida, sa sem detena atrs de Isac ` .ado a 
em breve estvamos a caminhar pelas ruas da cidade. Segua
305
mos em silncio a Isac, sentindo a minha torvao a angstia, ps-se a 
falar. Tinha muito que me contar. No queria saber como encontrara Gaspar?
- Onde o deixastes? Est seguro?
No tivesse eu cuidado. Ningum daria com ele. - Como o 
encontrastes?
Chegara a Jerusalm a soubera da minha partida. Viera na peugada, 
mas, como lhe no convinha acercar-se da companhia dos turcos, pelos 
motivos que eu sabia, nunca se adiantara. Do alto de um teso vira os turcos 
armarem uma manh suas tendas na margem do jordo, mal tinham andado 
uma lgua. Compreendera logo que estavam a caminhar com muito vagar a 
ficara curioso de saber qual a nossa reaco, habituado como estava a coisas 
do gnero. Espiara-nos por longo tempo, com aquela sofrida pacincia que s 
um espio possui, e finalmente vira partir os meus companheiros atrs de uns 
cavaleiros turcos. Intrigado por no me ver t Mas fora por pouco tempo, que da 
a nada topara-me a conversar com um jovem cavaleiro a depois a separarmo-
nos cada um para seu lado. Resolvera atravessar o rio mais acima, para no 
passar perto do acompamento dos turcos, o que fizera a uma pequena lgua 
do lugar. Chega-se  margem, avista o jovem cavaleiro que estivera a falar 
comigo dando de beber  montada. Apeia-se em silncio, ata o cavalo ao 
tronco de um tamargueiro a aproxima-se p ante p. Ao v-lo - ia vestido de 
rabe, lembrava-me? - fica o moo assustado, julgando-se apanhado. Recua, 
cheio de medo, at uma rvore: No me faais mall... Eu s vinha dar... dar 
um passeio pelo rio... Ia j regressar... Alto l Que significava aquilo? Aquelas 
palavras?... Fingira-se ento muito assomadio, para tirar nabos da pcara. 
Deixasse-se de lrias  Ia a fugir, no ia? Vamos  Confessasse, seno dava-lhe 
cabo dos comos ... O rapaz tremia como varas verdes. Fora aquele frade que 
lhe metera aquilo na cabea? Vl Falasse!... No  No  Frei Pantaleo no 
tem nada a ver com isto. No lhe faais mall... Ahl Era amigo dele, desse Frei 
Pantaleo? Muito lhe contaval No era turco, pois no? Donde era ento?... O 
rapazinho nessa altura j choramingava sem saber que fazer. Sou de Cndia, 
meu senhorl E ia ter com o frade, hem? Ia. Assim vestido? No tardaria a 
ser apanhado ... pelo caminho ou em Damasco... Soluos e lgrimas desfeitas. 
Dirigira-se Isac  sua montada, tirara do alforge roupas, uns chapins a um 
frasco de tinta, a voltara para junto do jovem.
306
Que se despisse, rpido  Pensando que o ia chicotear, desata o moo 
aum choro convulso, aninhado sobre si nas reentrncias boleadas das xaizes 
da rvore... Deixara ento de fazer de mau, chegara-se ao jovem, pusera-lhe a 
mo no ombro. Tinha muita sorte - sabia? - em o ter eneontrado a ele, que era 
amigo de Frei Pantaleo. E o rapaz a erguer os olhos espantados a molhados. 
Sois? Sim a ia proteg-lo a lev-lo at ao frade amigo... Depois era o que eu 
j sabia. As roupas a as botas do turcozinho a irem parar dentro do tronco oco 
de uma cente~ria oliveira carcomida, e a surgir como que por encanto um 
airoso oesim, j meio sorridente por entre as nuvens dos solues. Fizera-o 
~pnontar a sua gua, montara por sua vez o cavalo dele e, por momenos 
parados, perguntara-lhe como se chamava. Cristforo  Tinha 0e mudar de 
nome, enquanto no estivessem em segurana. Deixasse rcr... Como era que 
se chamava aquele rei mago da religio dele, que a preto? Gaspar, senhorl 
Pois dali em diante ele era Gaspar. No
~,e esquecessel... E. saram dali  desfilada para nos alcanarem a 
che~arem  nossa vista.
- A est uma histria edificante ! - digo eu a Isac Beiudo. --- Creio que 
vos tenho de agradecer...
- Ora, amigo  Deixai-vos de cerimnias c com o Isac que j ~ai sendo 
tempo. Tenho coisas mais srias para vos contar, que vos dizem mais de perto 
respeito.
~:: - Que sabeis?
- Lembrais-vos do bispo de Coimbra, D. Joo Soares, em ~elm?
-- No me faleis nele! - respondo-lhe com enfado. - Falo. Precisamente 
por isso, falo.
Guardo silncio. Ele prossegue
- Vs, sem o saberdes, fostes injusto. Fomos ambos injustos ~ara com 
ele.
n - Como assim?
No fora ele  No fora ele que me quisera mall Pelo contrrio. kra um 
dos que, numa trama complicada que ele, Isac, sabia existir  Rnha volta a de 
que no conhecia os meandros, era meu amigo a me ~tegia.
Paxo, surpreendido por aquelas palavras, a olh-lo nos olhos. anbrava-
me do que me prometera quando em Belm se despedira mim, que estava 
doente de febres?... Que, palavra de Isac, havia
307
de descobrir o que estava por detrs daquela conversa do aclito do 
bispo de Coimbra com o cristo betlemita.
- E que descobristes?
Quando me deixara convalescente em Belm, dera-se pressa em chegar 
a Jerusalm, a tempo de ainda a encontrar o bispo de Coimbra. Pedira para 
falar com o guardio, Frei Bonifcio, numa altura em que sabia estar ele com 
D. Frei Joo Soares, dizendo ao ostirio do nosso Convento de So Salvador 
que trazia notcias urgentes de mim a do meu companheiro. Recebera-o logo e, 
na presena do bispo, ordenara que falasse. Contara.-lhe como eu tinha estado 
muito doente, depois da vinda de So Sabas, a referira-Lhe, em pormenores de 
tintas propositadamente carregadas, a traio de que ia sendo vtima se no 
fosse a interveno providencial de um rabe que misteriosamente havia 
aparecido a salvar-nos a misteriosamente tinha desaparecido como se se 
desvanecesse no ar...
- E quem cometeu to infame traio? - perguntou o bispo de Coimbra, 
indignado.
Que tinha sido um cristo de Belm, aliciado, segundo por l se dizia  
boca pequena, por ...
- Por quem? - insistia o bispo, secundado por Frei Bonifcio. 
Perdoasse-lhe sua reverendssima, respondera fingindo embarao, mas 
diziam por l...
- Que  que dizem? - tornava impaciente. Diziam por l .. corria ... no 
sabia se era verdade ... que fora um padre cnego e doutor telogo, aclito de 
sua reverendssima...
- Como? O cnego fez uma coisa dessas? - exclamava cheio de ira ... 
Corria tambm ... no sabia se havia de dizer ...
- Que mais  que dizem? - perguntava Frei Bonifcio, interdito, olhando 
o bispo que dava, furibundo, grandes passadas de um a outro lado da cmara 
... Diziam ...
- Dizem... ?
... que fora a mando de sua reverendssima ...
Trovejou o bispo de Coimbra, fora de si a descomposto, esquecido da 
sua dignidade, um chorrilho de improprios, apoplctico. Frei Bonifcio 
procurava sosseg-lo e, assim que conseguiu fazer-se ouvir - que se 
acalmasse  -, f-lo sentar-se, serviu-lhe um refresco de gua a vinho com 
acar. Tendo abrandado, disse o bispo com tristeza
308
- Porque  que nem aqui respeitam a santidade do lugar a no deixam o 
pobre do frade em paz? Ruim doena da alma  o dio! Frei Bonifcio, sabei 
que protejo a Frei Pantaleo... Mas quem me havia de dizer que o meu cnego 
...
Frei Bonifcio, vendo a fala descair em intimidade, despedira-o. Sara 
Isac, mas tinha ficado a saber da inocncia do bispo de Coimbra. 'No 
conhecia o que se passara depois, a no ser que da a dias D. Frei joo Soares 
partia de regresso, mas no levava na comitiva o seu ac]ito... A tinha Frei 
Pantaleo o que Isac Beiudo conseguira saber
e apurar...
Na cidade plana, por cima dos terraos das casas, via-se ao longe s 
massa verde-escura do monte Lbano. Caminhava descuidado, alheado, eem 
reparar no que ia  minha volta, embora estivssemos a passar
las movimentadas ruas do centro. Estava virado para dentro, para meus 
pensamentos a preocupaes.
- H uma pergunta que h muito ando para vos fazer ... - Dizei - 
respondeu Isac.
- Qual o vosso papel em tudo isto? Donde vem, qual a origem ado 
estranho pedido que recebi em Veneza para vos procurar em Corfu? uem 
preparou aquele embrulho, com um tal livro, aquela senha? Que sabeis de 
mim? Quem est por trs de vs, Isac?
- Frei Pantaleo - respondeu muito srio o judeu -, receio que ihais de 
fazer essas perguntas a mestre Jacob ... se fordes a tempo... ~o  s na 
vossa profisso do sacerdcio que h sigilo que nunca se
eve britar. Tambm na minha de espio  necessrio calar... E qualuer 
resposta que vos d ... no deveis confiar nela ...
- Nem nessa afirmao que acabais de fazer, presumo. `' - Nem nesta ! - 
respondeu sorrindo.
Samos das ruas principais a metemos por uma daquelas que s to 
destinadas  habitao. Andados alguns passos em silncio, a.c estacou por 
segundos a olhar para trs. Depois, recomeou a tninhax a disse-me:
-- Tambm trago h muito comigo uma pergunta que vos quero
- Fazei.
- Um dia, na vossa doena, ;u-vos o delrio...
- Falei?
velava eu  vossa cabeceira, aco
309
- Sim.
- Que dizia?
- Falastes numa Helena. Pelo que entendi, na confuso das meias 
palavras entrecortadas, ter-vos- deixado a ido para parte desconhecida... 
Fiquei calado, cismando. Isac perguntou:
- Quem  essa Helena?
Contei-lhe em breves palavras o caso. Pediu-me desculpa por ter 
devassado o meu ntimo.
- J que o conheceis - disse-lhe -, guardai-o s para vs... - e 
recomemos a caminhar em silncio por largo tempo. De sbito Isac disse-me 
em voz baixa:
- No olheis para trs. Creio que somos seguidos. J havia tido essa 
impresso h mais tempo.
Ia eu a estugar o passo, mas uma presso da sua mo no meu brao 
fez-me sossegar.
- Caminhemos devagar a com naturalidade. - Quem ser?
- No sei. Tanto pode ser por causa de vs... - Meu Deus  Outra vez?
- ... como por causa de ... - ... de Gaspar?
- Sim... Estamos a chegar...
Ao fundo da rua parmos diante de uma casa pequena a modesta. Isac 
batia com os ns dos dedos, relanceando como por acaso os olhos atrs. Uma 
vaga a fugidia ponta de tnica branca escondia-se na dobra de uma esquina.
- Vistes? - perguntou. - Sim.
A porta abriu-se. Veio-me  lembrana uma cena idntica, passada 
havia muitos anos diante de uma outra casinha simples como esta, que um 
tremor de terra havia destrudo, sepultando, ao que ento se julgou, os seus 
moradores: um mdico chamado Jacob a sua mulher Sara. Mas aqui est 
Sara, agora muito branca a cheia de rugas, a espreitar da porta a logo 
reconhecendo o judeu meu companheiro. No me v de pronto, encoberto 
como estou por Isac, mas assim que d com o meu burel de franciscano cai-
me nos braos a chorar:
- Meu menino  Meu menino  Que julguei que nunca mais to via  Meu 
Joozinhol-a beija-me a afaga-me as barbas aneladas a louras.
30
De dentro, de uma alcova, vem a voz dbil de mestre Jacob que
uve rumor:
- Sara, quem ?
Sara ia a falar, mas Isac, prudente, ps-lhe a mo na boca, forando-a a 
calar-se, a segredou:
- No convm que o veja de chofre - disse. - Ide l dentro dizei-lhe que 
estou aqui eu ... com um amigo.
Sara saiu, esteve algum tempo falando com o marido a regressou: - 
Entrail - disse.
- Ambos? - perguntou Isac.
- Sim. Ele j sabia. Adivinhou!... Est  vossa espera. Entrmos ... eu 
atrs de Isac, o pensamento um vulco a as veias as fontes a latejarem-me 
doidas ao ritmo acelerado do corao. Mestre acob estava deitado na cama, o 
linho da cabea no linho da almoida, uma mancha de branco sobre branco, no 
peito as mos descaradas, esquelticas, o roxo das veias saliente sob a cera 
da pele. Em 'lnco estendeu-me a mo direita a acolher-me para que me 
seniLsse na borda da cama. Isac fez o mesmo do outro lado. Sara, aos s do 
leito, era uma esttua que no desviava de mim os olhos. knhum de ns dizia 
palavra, nem sequer a saudao, o perguntar ela sade ou outras coisas de 
circunstncia. Se quem tinha perguntas fazer ou respostas a dar se conservava 
calado l... Era do essencial ue se estava  espera e o essencial tem poucas 
palavras... Por mim, ue de sbito fiquei como adormentado a aptico, no me 
saa da oa coisa que dizer. Sentia-me um joguete indefeso nas mos de ~xem 
tinha o meu destino, uma massa amorfa a ablica  espera de que nmoldem a 
bel-prazer, barco  deriva a aguardar bssola ou estrela Plar que lhe indique 
rumo, timoneiro que o guie ou toa que o leve pnsigo... O gelo daquela mo 
pousa na minha, num afago. TomoIha com as duas mos a levo-a aos lbios, 
como a pedir a bno.
- Custa-me falar - disse ele com voz sumida, mas voluntariosa j no 
terei muito tempo de vida. O que guardo para to dizer, meu dho,  to srio a 
grave que desencadeou grande tragdia a que nem  Cu foi indiferente. Jurei 
segredo eterno, a que no devo nem quero altar. Muito me tem pesado o trazer 
tal carga sobre mim a vida inteira. has encontrei uma maneira de to transmitir, a 
ti que s o mais directo
~ ~eressado, a me aliviar a mim de tal fardo. Tu s padre. Quero-me 
essar... No podes negar isso a um moribundo...
3
Gotas de suor a luzir na fronte enrugada... Silncio s levemente 
quebrado pelo arfar da respirao do bom do velho a por um dbil fio de choro 
da pobre Sara. Olhei para esta a para Isac e o meu olhar era como um pedido, 
uma ordem. Saram sem rudo a fecharam a porta. Fiquei s com mestre 
Jacob...
XVI
O janzaro hngaro
...Et assument super to carmen lugubre, et plangent te: quae est ut 
Tyrus, quae obmutuit in medio maris?
...E sobre ti faro lgubre cntico, a chorar-te-o dizendo: 'Que cidade 
h como Tiro, que emudeceu no corao do mar?'
(Ezequiel, XXVII, 32)
Uma grande serenidade inundou a minha alma. Sei agora quem . Sei o 
essencial. Desconheo pormenores. S agora me ocorrem guntas que deveria 
ter feito, se no tivesse estado obrigado pelo rccio de confessor a se mestre 
Jacob no se encontrasse to comdo. Ignoro quem  o meu inimigo ou quem 
so os meus inimigos. !eria partir do que sei para investigar o resto? Poderia 
desencadear irocesso de obrigar a fazer-se justia a meu pai a descobrir  luz 
dia as prepotncias de que foi vtima minha me? Ela, pobrezinha, em vida 
impedida de gritar a sua verdade! Agora que h muito i morta dever-se-is 
regenerar a sua memria... Porque o no fez
Como poderei eu faz-lo, se ele, tambm ele, foi impedido de r?... E 
como posso eu falar se estou completamente fechado sobre a mesmo, preso 
nas grades que eu prprio constru? Sou como Lgarta da amoreira, que a si 
mesma se encerrou no casulo por si ,laboriosamente tecido. No posso falar, 
no posso a no devo kro de mim alimentar a elaborar o que me confiaram, 
no posso
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33
nem devo formular a mais pequena apreciao, o mais elementar juzo. 
Proceder ou agir exteriormente em conformidade com o que sei seria j de si 
quebra de sigilo. Nem a mim prprio o devo confidenciar ... e muito menos 
escrev-lo... Certos nomes de pessoas a de terras, certas datas, tenho 
prementes a instantes desejos de tomar deles breve apostila, para que a 
memria me no traia... Resisto s tentaes... Vou muitas vezes a pegar na 
pena, a fazer o gesto de a levar ao tinteiro, diante da brancura do papel... Mas 
ouo a voz do meu companheiro, muito severo a peremptrio, quando, a ttulo 
de lhe pr um problema de interpretao cannica, puramente terico a 
acadmico, lhe pergunto se ser quebra de sigilo sacramental um sacerdote 
tomar nota escrita de um facto ou pormenor recebido em confisso : Claro 
que era quebra de sigilo ! Nunca, mas nunca, devia o sacerdote fazer coisa to 
hedionda! E acrescentava inflamado: Habent .rua fata libellil Sabia, no era 
verdade? Quem nos garantia que um tal escrito no iria parar a mos 
inconvenientes? Enquanto ns, de um momento para o outro, podamos ser 
assaltados, roubados, podamos desaparecer, morrer ... seripta manebant ...
Tem razo Frei Zedilho? No sero demasiado severas as suas 
palavras, por demais rigorosos os meus escrpulos?... Ah, Se, por qualquer 
circunstncia externa  revelao de mestre Jacob, eu viesse a conhecer uma 
ponta da meadal... No ficaria liberto do sigilo? Ou melhor: no estaria o sigilo 
fora de questo, pois a fonte do conhecimento era bem outra?... Aps me 
terem confiado o seu segredo, os lbios de mestre Jacob no mais se abriram 
a nessa mesma madrugada ele rendia a alma ao Criador. E Sara? Que sabe 
ela?... Aqui vai a pobre mulher, arrimada ao meu ombro, chorando baixinho. 
No quis ficar em casa. Quis vir tambm, comigo a Isac, acompanhar o marido 
at ao ltimo momento. Toda a comunidade judaica est presente. Em duas 
longas filas seguem os judeus com velas nas mos, cantando versculos do 
Velho Testamento. O esquife vai a meio, conduzido a modo de andas aos 
ombros de quatro homens. Sobre ele o defunt todo enfaixado de brancas tiras 
de linho impregnadas de essncias e resinas romticas. Seguem-se 
mulheres, rezando a carpindo, gesticulando dramaticamente, dolorosamente, 
dando-se muitas bofetadas e saltinhos, arrepelando-se os cabelos, rasgando-
se em seu desespero as roupas.
34
Gia  Gia , lastimam-se elas, num guaiar gemebundo a choroso. E 
estes guais, como o vento que varre num arrepio sibilante as tspigas da seara, 
perpassam pela longa fileira dos acompanhantes e vo morrer l adiante...
Na hora da partida quero que Sara me acompanhe.
-Sara  Mezinha - digo-lhe. - Vem comigo para Portugal. Tratarei de ti 
como um filho. Tu no tens mais ningum no mundo seno a mim. Eu tambm 
s to tenho a ti.
 um impulso emocional o meu, totalmente alheio  realidade. A prpria 
Sara mostra-se mais clarividente:
- No, Joozinho ! - responde. - Eu ainda o tenho a ele... Levarei todos 
os dias das flores frescas ao seu tmulo ... a no demorar muito que v ter 
com ele...  a que quero ser sepultada. Tu tens o teu convento, o teu Cristo ... 
se  que no hs-de vir a ter ainda tnuita coisa boa da vida...
Isac, que at a assistiu calado, diz-me:
- Porque no ficais vs com Sara? Porque no ficais connosco? 
Apanhado de surpresa por uma tal proposta, no querendo dar pbita resposta 
negativa que poderia magoar Sara a poria em demajada evidncia o meu 
egosmo, fico sem saber que responder. Isac
- Quereis que procure Helena? Serieis felizes os dois aqui, com
Como agora  a minha felicidade que Isac prope, j posso sem 
crpulos responder pela renncia
- Esqueceis-vos de que sou padre ... de que sou um frade franscano?...
Isac Beiudo, um tanto rudemente, pergunta-me - E vs no vos 
esquecestes j um dia?
- Por mal dos meus pecados, sim! Mas foi ela prpria quem, )m sua 
nobreza de alma, me obrigou a reentrar no caminho do dever do cumprimento 
do voto...
Sara apercebe-se do que se passou entre mim a essa Helena de ae est 
ouvindo falar, mas delicadamente nada pergunta. Isac porm [o desiste a volta 
a remexe o meu ponto fraco:
- Partis ento? E deixais Sara sozinha? . Sara vem em meu auxlio
- Deixa o meu menino, Isac. Ele tem de partir, que l longe
35
 o seu destino. Quanto a mim, eu tambm tenho de partir em breve e, 
bem vs, ele ficaria aqui sozinho, num pas que no  o seu.
Abraamo-nos com os olhos em lgrimas. Beijo-a. Beija-me. Diz: - 
Espera. Tenho uma coisa para ti.
Vai a um escrnio, que abre, a volta com um pequeno papel na mo.
- Muitas vezes fui dar com Jacob a cismar diante deste papel. Uma 
ocasio, sem que me sentisse, surpreendi-o a murmurar: Preciso de ir a 
Roma! Preciso de ir a Romal... Um dia perguntei-lhe que era que tanto o 
preocupava. Respondeu-me: Olha, mulher! Talvez esteja aqui, neste 
pedacinho de papel, a resposta a muita coisa que diz respeito ao nosso joo 
... Toma. Oxal to possas aproveitar-lo dele... Vais certamente passar por 
essa Roma...
Pego na folhinha, que  um canto rasgado de papel damasceno. De um 
lado est uma fieira de cifras de preos, com sua soma, do outro apenas uma 
letra a um nmero : V I 3 9 I . Numa ponta, em caracteres quase sumidos dos 
dedos a do suor, a noutra tinta, l-se a custo: Bor. Estar aqui, you eu 
pensando, a ponta do novelo, o desenvencilhar da meada?...
No demormos a partir de Damasco, j que Misser Galeceo no se 
havia descuidado em negociar suas coisas, arrecadar o que lhe deviam a 
vender a bom preo o que no podia levar consigo. Dei conta de que tinha 
grande trato em peles de lees, tigres a onas, porque lhe vi um armazm 
cheio delas. Tambm nossos companheiros com muita diligncia haviam posto 
em ordem tudo o que nos convinha para o caminho, no esquecendo os 
almocreves, que aqui se chamam mucaros. Isac Beiudo, est visto, 
transforma-se num destes mucaros, com seu turbante enrodilhado em pirmide 
na cabea, uma tnica branca de mangas largas a umas bragas tufadas que 
descem a se afunilam para os tornozelos, os ps calados nuns chapins de 
ponta arrebitada. Gaspar, o cabelo mais carapinhado que nunca, faz de 
aguadeiro, montado em sua gua a puxando pelo cabresto uma pobre mula 
carregada de odres de couro cheios de gua. Como no podia deixar de ser, 
os nossos companheiros italianos foram esclarecidos acerca do que se 
passava e, no podendo opor-se, pois tambm eles escondem o seu fugitivo 
francs, todos ficamos coniventes a cnscios do perigo que conjuntamente 
corremos.
Chegou mais cedo do que espervamos esse perigo...
36
Comeava ligeiramente a subir o caminho, anunciando a proxilade do 
Lbano. Sicmoros, carvalhos, pinheiros, ciprestes... Do > de um teso 
avistamos Damasco, na contraluz do nascente o recorte
minaretes rendilhados a das cpulas em meia-lua a destacarem-se 
aoteias rasas, dispostas em escadaria caprichosa a irregular. Passas um stio 
em que, segundo nos informam, Caim matou Abel. ui tm os mouros uma 
pequena mesquita, oitavada, sobremaneira brincada de ornatos, que mais 
parece um rico farol. Paramos um Ico a apreci-la.
- Que lugar desta terra -atirei eu de sbito -, que lugar do ndo no viu j, 
ao longo dos sculos, Caim matar Abel a Abel tar Caim?
- Blasfemais? - perguntou Frei Zedilho.
- Chamai-lhe o que quiserdes - respondi. - Mas penso que a ria da 
humanidade no tem passado da histria do irmo que to seu irmo...
Prosseguimos nosso caminho alegremente at  noite, sempre longo do 
sop do monte Lbano. Os nossos mucaros vo muito n tratados, vestidos a 
calados, a no, como os nossos almocreves Europa, rotos a esfarrapados. 
Frei Zedilho tambm havia reparado erguntava-me porque seria.
- Cuido que ser - expliquei-lhe - porque no gastam os alus em vinho, 
pois o no bebem.
So extremamente bem-criados a corteses, que assim nos tm ado 
durante a jornada, seguindo sempre junto de ns, acudindo ualquer obstculo 
do caminho. Aqui est um inocente a inofensivo atinho de gua. Logo acorrem 
a pegar-nos as cavalgaduras pelo resto para no-lo ajudar a transpor como se 
fosse um rio sem poldras. - Tratais-nos como a damas - desabafei.
Riram-se todos, a conversa generalizou-se a os meus 
companheiitalianos tomaram conta dela, discorrendo do passado a lanando 
~as ao porvir. Antes que anoitecesse tommos pousada em um arejo onde nos 
pensaram muito bem e, no dia seguinte, saindo o
recomemos a caminhar. Seriam umas oito horas quando pas'os junto 
 cidade de Cesareia, presentemente chamada pelos natuda terra Panoo. 
Povoao pequena, metida entre um arvoredo
ito espesso a copado, de erguidas a formosas rvores, soutos de 
valhais, o verde mimoso de miosporos, azereiros a ervideiros lan
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ceolado pelo verde-negro dardo, esguio a alto dos ciprestes. Desta 
vegetao  coberta toda esta falda da montanha, aqui mais baixa que noutros 
lados. A meus rogos salmos do caminho um breve trecho, a visitar as duas to 
nomeadas fontes, Ior a Do, de que procede o rio Jordo. Mana delas grande 
cpia de gua e, segundo dizem os da terra, a sua origem  um profundo mas 
pequeno lago, a que chamam Fiala a est da outra parte do Lbano, cuja gua 
se no v correr: est queda, sem bulir, mas, deitando-se-lhe umas palhas ou 
umas gotas de azeite, depois se vem sair, como afirmam, nas duas fontes do 
rio sagrado.
Meia lgua adiante, tornando-nos ao caminho, num lugar raso e 
espraiado, j o Jordo traz gua a nome. Espalha-se pela campina em 
regatinhos cintilantes, buliosos, impacientes, que lembram crias acabadas de 
nascer. Num destes regatos, j mais crescido a alentado de gua, encontrmos 
uns oito turcos, que, tendo atado os cavalos pelas rdeas a uns ramos de 
rvores, se estavam de ccoras lavando mos, rostos, colheira a traseiro, 
como costumam. Saudmo-los e eles a ns sem qualquer torvao. Seguimos 
caminho e a um quarto de lgua adiantei-me um pedao dos companheiros. 
Desejava ficar s, a pretegto de rezar minhas horas a devoes particulares. 
Gaspar estuga a montada, segue-me, pe-se a meu lado, atemorizado, a diz-
me a meia voz:
- Ai, padre Pantaleone  Morro de medo I Aqueles turcos que vimos no rio 
vm no nosso encalo!...
Olhei atrs a vi o grupo dos cavaleiros turcos seguirem a distncia os 
nossos companheiros.
- Tem calma  - disse a Gaspar. - Continua aqui a meu lado, que no h-
de ser nada ... a reza, se sabes.
Que me passou pela cabea que me pus, sbito, a canrarolar trechos 
daqueles versos que um dia, de papo para cima, havia entoado ao ar a ao 
vento em direco ao cu azul?
Musgo a mbar da Arbia mirto a clamo
louvai ao Senbor
Kesinas de Sidon a Tiro incenso a esmima
louvai ao Senhor l
38
Sinto que me seguem. Em seu cavalo muito garboso a muito ,bem 
ataviado, um daqueles turcos vem colocar-se a meu lado, depois de ter 
afastado, com um gesto autoritrio, ao pobre do Gaspar, que tegressou, 
corrido,  companhia do grupo. Gibo de tela de ouro, cales de escarlata 
compridos at o peito do p a nele tomados, um grande turbante de seda 
branca na cabea;  cinta dois pistoletes com 6na arte lavrados a marchetados; 
um arco grande dourado a tiracolo, om sua aljava pejada de setas;  ilharga, 
cintilando, um muito rico lfange e, pendente do punho, uma maa de ferro, 
como costumam, e outra arma de mo a modo de alabarda, comprida a fina. 
Homem de seus trinta anos, bem proporcionado, louro a em extremo formoso. 
Saudou-me, ressaudei-o da mesma maneira:
- Salam 
- Salam 'alaik 
Torna-me a falar arbico, digo-lhe que no o entendo. Pergun
- Scis loquere latine? (Sabes falar latim?)
- Scio loqui latine (Sei falar latim) - respondo-lhe, corrigindo o solecismo.
Mostra-se alegre a fala agora em latim mal composto a meio 
macarrnico. Tocasse a minha montada, para irmos mais apartados da 
companhia. Com os calcanhares estugo o muar, enquanto lano was mirada  
retaguarda. Os companheiros vm todos juntos, Gaspar com eles, mas dos 
outros cavaleiros turcos no se viam sinais. Os nossos mucaros, que 
reconheceram muito bem quem aquele turco era, fazem-me gestos para que 
me detenha e, por duas ou trs vezes, Ine bradam que espere pela companhia. 
Os meus companheiros, sabendo quue eu no falo o arbico, nem o romeco a 
muito menos o turquesco, ~o espantados vendo-nos ir ambos desta maneira 
conversando um !Com o outro. O turco, ouvindo-os bradar, faz rosto atrs, a 
logo se talam receosos, de modo que nos deigam seguir assim a ambos, no 
~do a causa.
Pergunta-me muitas coisas : como est a Cristandade a se eu sou de 
uma ordem de um santo que tem chagas nos ps a nas mos. Vai por diante a 
nossa conversa, inquire:
- Unde venis? (Donde vens?)
- Ab Hierusalem. (De Jerusalm.)
- Fuisti quoque in Bethlem? (Estiveste tambm em Belm?)
39
Respondi-lhe que sim a ele desatou a cantar a altas vozes
- Puer natus in Bethlem, mortuus in Hierusalem... (O menino nascido em 
Belm morreu em Jerusalm...).
Frei Zedilho, depois de assim caminharmos quase duas lguas, 
aproxima-se para dar f, mas logo o turco o faz tornar a trs.
- Martinus Lulher est vivus? (Martini Lutero est vivo?) - pergunta-me.
- Abhinc multos annos mortuus est corpore et anima. (H muitos anos 
que morreu de corpo a alma.)
Diz-me que, sendo moo, o conheceu e, virando-se para mini, quase 
com admirao acrescentou:
- Pater mi, Lulher ille negabat Sanctissimum Sacramentum propter 
mulieres ! (Meu padre, aquele Lutero por amor das mulheres negava o 
Santssimo Sacramento ) - e comea logo a cantar em voz alta, que retumbava 
pelo descampado : - Tantum ergo Sacramentum veneremur cernui... - at ao 
cabo. Depois, com uma voz muito bem entoada, canta o Credo maior da missa, 
como  costume nas igrejas aos domingos a festas principais...
Vendo eu nele tantas mostras de cristo e a familiaridade que comigo 
tinha, tomei ousadia a disse-lhe:
- Teus trajes, senhor, so de turco, mas nas palavras mostras ser 
cristo. Rogo-lo tenhas por bem dizer-me quem s.
- Ai - a suspirou do fundo da alma, ficando um pequeno intervalo em 
silncio. Que era cristo a cria verdadeiramente em seu Senhor Jesus Cristo. 
A sua ptria era a Hungria e o pai fora um senhor muito importante, secretrio 
do imperador Maximiliano. Como o gro-turco sempre tivera guerra com os 
Hngaros, em uma cidade que lhes tomara o cativaram, tinha ele doze anos. 
Sabendo ser filho de homem nobre a ainda seu pai conhecido de outros 
senhores turcos, por causa da vizinhana das terras a do comrcio que em 
tempo de paz tinham uns com os outros, resolveram dar-lhe estado condigno 
fazendo-o abandonar a f paterna a tomar a seita do seu maldito Mafamede. 
Como era moo, no apertaram muito com ele nas suas cerimnias nem to-
pouco o circuncidaram. Puseram-no ao modo turco e comearam a trat-lo 
como filho de quem era. Chegara assim a ter uma grossa comedoria, de que 
lhe fizera merc o senhor solimo, e era subassi-mor de toda a Sria a 
Palestina, ofcio de muita honra e
320
no pequeno proveito. Nas coisas de justia o que ele ordenava era 
cumprido... Quantos dias estivera eu em Damasco?
- Uns oito dias.
No vira fazer as justias na praa da cidade? - No me fales nisso. 
Que barbaridade 
Sim. Os Turcos eram brbaros... mas ele, como chefe, no tivera outro 
remdio seno mandar proceder quelas execues...
-Tu? Sim, ele  Ainda agora tinha duas especiais tarefas a cumprir. - 
Posso saber?
la com aqueles cavaleiros turcos que eu vira... - Que  feito deles que 
os no vejo agora?
Mandara-os ir por outro caminho, para ter lugar de falar comigo al sua 
vontade. Dirigia-se com eles a Baruti, pois nessa comarca andavam trs 
famosos ladres que era preciso apanhar. Trazia mandamento do bax para o 
governador. Ou este dava ordem de levar presos os ;ladres a Damasco, ou 
levava ele preso o governador  presena do bax..., a tirava do turbante um 
escrito do bax, assinado com seu final, com pouco mais de trs dedos de 
papel de largo a mostrava-mo: Naquela nica de papel estava a vida do 
governador de Barutil...
Evitei fazer comentrio, mas estava-me parecendo que nas palavras do 
turco transparecia uma como satisfao pelo exerccio do mando e certos 
laivos de insensibilidade a de crueldade que costumam caracterizar todos os 
carrascos do mundo.
- Equal  a tua outra misso? - perguntei.
Caminhou algum tempo com o semblante carregado a por fim
- Da caravana da mulher do bax, que vinha de Jerusalm, u um moo 
da comitiva, creio que com a ajuda ...
- Com a ajuda ... - repeti eu, o corao desenfreado.
- ... com a ajuda - disse ele acentuando as palavras - de uns grinos que 
seguiam na companhia... No menos que a pena de to espera todos esses 
desgraados que o acobertaram.
- E esse fugitivo  turco? - perguntei, dissimulando a perturlo que me 
invadia.
- Porque perguntas ?
- Imagina que era um desses moos cristos, como tu, cativo turcos, 
arrancado a seus pais,  sua ptria e  sua f ... como tu...
32
- E se fosse? - desafiou.
- A estava uma boa ocasio de mostrares a tua piedade crist. Tens na 
tua mo o destino desse moo, como um dia outros certamente tiveram o teu...
Mais uma vez, por algum tempo, caminhou calado. No seu Intimo devia 
estar a travar-se bem amarga a acesa batalha.
- Sei que ainda sou muito grande pecador - disse ele. - Mas creio em 
tudo o que cr a Santa Madre Igreja de Roma a tenho confiana em Nosso 
Senhor que hei-de morrer cristo entre cristos... - Ento...
- No ter ate agora posto em obra este desejo  por me terem atado a 
prendido o sangue e a carne. Vivo muito rico, tenho duas mulheres em extremo 
formosas a meninos delas. Eles me tm cativo e sujeito com bem fortes 
cadeias de amor paternal, mas confio em Cristo que presto, a com sua ajuda, 
as hei-de quebrar.
- Como vs, presumo - atalhei eu, animado pelo caminho que a 
conversa estava tomando -, deve haver por toda a Turquia muitos cristos 
presos do mundo a da carne...
- Sim, so milhares. Detm-se, como eu, temendo a pobreza e grandes 
misrias que na Cristandade, se a ela tornarem, ho-de passar, por o gro-
turco ter aos seus tomado as terras e a riqueza. O bax de Damasco  
tambm, como eu, filho de cristos. As vezes em conversao com ele, que 
somos grandes amigos, insto-o a que digamos ambos o Credo, mas ele no 
quer ir alm do Creatorem caeli et terrae... - Eu ouvi j, vrias vezes, falar dos 
janzaros...
- Esses so um caso um pouco diferente. So arrancados, por lei,  sua 
pia baptismal. Ns somos os que fomos raptados ou ficmos refns - uma 
outra espcie de janzaros. De qualquer maneira, uns e outros podem atingir 
elevados postos na hierarquia turca... - e fez mais uma longa pausa. - Que 
homem  o guardio de Jerusalm?
-  esclavnio, de Aragusa. Dobrnica, como agora dizem. Um homem 
muito sbio a muito santo ...
- Acharei l algum frade de nao hngara? - Certamente que sim.
- No Vero que vem, com a ajuda de Deus, hei-de fazer o possvel por ir 
a Jerusalm s color de romaria a dar ao guardio conta da minha alma... 
Passar-me-ei a Chipre, se o puder fazer sem perigo dos frades.
322
- Rezarei por ti - prometi-lhe. Olhou-me sensibilizado a disse:
- Da hora em que fui cativo at este dia, nunca tive to grande 
coatentamento como este de to achar no caminho para consolao ;da minha 
alma. Vi-lo em Damasco, a ti a aos teus companheiros. Mandei !.ecretamente 
espiar a tua partida...
-Eras tu?
- Sim, algum por mim... Mas agora tudo est certo. Ficaria ~muito 
contente se to pudesse fazer a ti - e acentuava este a ti - algum ervio. Pede-
me o que quiseres que esteja na minha mo fazer... Pensei um instante, 
escolhendo as palavras
- Pessoalmente, neste momento, ser para mim um inefvel em a 
consolo se to deixares vir ao de cima os teus sentimentos cristos de 
compreenso, de perdo a de piedade, a se conseguires levar avante a tua 
resoluo...
- So esses os teus desejos pessoais? O meu bem a felicidade, a
vao da minha alma?
- So. No tenho outros.
,- Demorou uns segundos antes de falar, volvendo os olhos ao torizonte, 
 montanha, a nada, voltando-se na sela para fixar os meus SOmpanheiros, 
que vinham a boa distncia.
., - E para os teus companheiros, no queres nada?
N - Se to aplicares neles o que to disse que desejo para ti, nada
ma,s peo...
`: - E para Gaspar? G.
- Desejo para ele o mesmo que para ti - respondi calmamente, me dar 
por achado de ele saber o nome postio de Cristforo. Sorriu, num abrir largo a 
rasgado de boca que lhe mostrou os *ntes muito brancos
- Est bem... Mas escusavas de gastar tanta tinta, que o suor kk s 
caminhos deixa vestgios...
Caa a tardinha, chegmos a um pequeno lugar muito fresco de s, onde 
sacimos a sede... Vendo que se vinham aproximando s companheiros, 
despediu-se de mim, dissimulando um mero e C -rente afastar-se. Tinha os 
olhos cheios de gua a deteve-se um o no lugar, para ver  vontade os meus 
companheiros. Com sol
tommos a pousada por no haver tempo de podermos atingir ti. Como 
depois soube, o turco foi l dormir essa mesma noite.
323
Ns s chegmos no dia seguinte, entre as oito a as nove da manh e 
fomos acolhidos com muitas manifestaes de alegria pelos nossos irmos do 
Convento de So Salvador, todos meus amigos, pois os havia eu embarcado 
em Veneza, quando partiram a fazer a custdia da Terra Santa.
Rogaram-me estes frades que ficssemos com eles alguns dias: - Para 
nossa consolao, Frei Pantaleo - diziam rodeando-me e para vos podermos 
festejar condignamente...
- Que vos parece? - perguntava eu aos meus companheiros. - Determo-
nos aqui? - contrariou Frei Zedilho. - Esqueceis-vos das pazes quebradas com 
o turco?
- Quais pazes quebradas? - estranhavam, admirados, os frades. - No 
vos apoquente mais isso, Frei Zedilho - acudiu Misser Galeceo. - Foi rebate 
falso a vozes sem fundamento que correram por a. Informei-me junto de uns 
mercadores da cidade.
- Ficais ento ? - tornavam a perguntar os irmos franciscanos. - Dizei 
que sim, Frei Pantaleo.
- Se assim ... - conciliava meu companheiro.
- Alm de que - interveio Misser Carlo - temos muita necessidade de 
repousar a de nos limparmos a lavarmos nossas camisas e demais roupa. No 
acharemos to facilmente outro lugar to apropriado para,  nossa vontade, o 
podermos fazer.
- E se  a despesa que vos tolhe - acudiu o guardio - olhai que aqui  
tudo muito barato a em tanta abundncia que o pescado quase no-lo do de 
graa.
- Est bem - aceitei eu, com grande a ruidoso gudio da confraria. - 
Ficaremos uns dias para vos fazermos um pouco de companhia.
Isac Beiudo, a quem confiei a conversa que havia tido com o subassi 
turco acerca do jovem candioto, mostrou-se apesar disso receoso:
-No sei... E se h uma traio? Isto  terra delas. O prprio turco pode 
ver virar-se contra si a sua benevolncia e, de um dia para o outro, sofrer as 
mesmas justias que agora impe aos outros... O melhor - embarcar o rapaz 
o mais depressa possvel, enquanto os ares so favorveis.
Achei que era o mais avisado a prudente, a assim Isac partiu com 
Gaspar, agora devolvido  sua autntica personalidade de Cris
324
tforo, no primeiro barco que saa para Chipre. Fui ao cais dizer-lhe 
adeus. Cristforo tinha o rosto iluminado por uma irradiante alegria e Isac, 
comovido, recomendou-me
- Passai por Corfu. Escrevei-me, onde quer que estiverdes. Por 
intermdio do patro de qualquer nau veneziana me poder chega recado 
vosso... - e abraava-me com real amizade.
Largava o barco. Acenei-lhes com a mo enquanto pude distingui-los na 
amurada do barco que se afastava... No meu pensamento debatia-se, como 
chama ao vento, uma ideia que j me n.o incomodava... Gaspar ou 
Cristforo? Que importava, se o pobre rapaz era cle mesmo, com tinta ou sem 
tinta, vestido de turco ou de abeaim ou de candioto?... Joo ou Pantaleo? Que 
importava, se eu era eu, vestido de estamenha ou nu ao sol,  beira de um 
riacho no meu Portugal florido, cantando doidos salmos ao Criador?... A nica 
diferena... arrepio de almal... Uma porta que se abre, a surpresa, as 
egclamaes de jbilo molhadas de lgrimas, os braos quentes de uma me, 
l na ridente Cndia ... O frio tmulo, raso, num qualquer gelado cho de 
sombria capela ...
Vendo eu que o tempo nos oferecia ocasio, dei conta ao guardio do 
convento da minha inteno de aproveitar o ensejo para dar comigo em Tiro a 
Sidnia, satisfazer a minha curiosidade e a necessidade de distraco.
- Meu muito caro amigo Frei Pantaleo - respondeu-me ele -, fazei o que 
mais vossa consolao for a aceitai um conselho : j que assim determinais, 
ser melhor tomardes um barco a irdes por mar at Tiro. Trar menos trabalho 
a menos gasto. Depois podereis tornar por terra, visitando os lugares que 
desejais.
Agradeci o alvitre, que me pareceu bom, a apressei-me a comunic~-lo a 
Frei Zedilho, que logo se disps a acompanhar-me. No ficou por ali a boa 
vontade do guardio, que na manh seguinte providenciou estivesse  nossa 
espera, com todo o necessrio, um barco dum cristo muito amigo a devoto 
dos frades. Fomos bordejando ao longo da costa e a hora de vsperas a est 
Tiro  nossa vista, no corao do mar!
... in corde maris sita ... - balbucia Frei Zedilho, recitando o
profeta. ' Entra, de facto, a cidade pelo mar dentro, assente em dura 
penedia, altas a largas muralhas, da parte da terra quatro cercas a vinte e
325
quatro torres muito grandes, no meio delas um castelo fortissimo. No  
to lustrosa como antigamente nem tem a majestosa beleza, a riqueza 
portentosa que a fazia maxavilha a assombro de todos os povos das ribas do 
Mediterrneo, at para alm das Colunas de Hrcules. Enquanto o barco se 
dirigia para terra, pus-me sbito a salmodiar, como outrora, uma parfrase do 
treno belssimo do profeta Ezequiel:
Lamento sohre ti, pronto amarissimo, um carme lgubre
to cantarei,  Tiro,
princesa das princesas ribeirinhas em alta penedia colocada
no coraFo do mar 
De abetos de Samir to construram as cobertas dos barcos,
cedro aprumado do Lbano se arranca e erguem-se mastros
em que se enfuna de bordada vela o ftno linho de Egipto... Aplainam-se 
carvalhos de Basan para os teus remos,
so de marfim sem mcula da ndia os bancos dos remeiros
e de madeiras raras da Siclia as cmaras de popa...
O jacinto e a prpura de Elisa em teu pavilho tremulam
no corafo da mar
De toda a parte acorrem a teu porto as mais vrias riqueZas...
Da linda Tbal, na longnqua Ibria, dos confins do mundo,
e da Jnia, na Grcia, a de Mosoch; na spera Capadda,
escravos vm, musmlosos, belos, e dntilantes vasos de metal...
326
Eis chegam de Togorma ~akiros com cavalos a machos poderosos...
De prata a ferro Cartago tuas bancas e de estanho a de chumbo
vem encher...
Dedan os ilhos manila ter contigo e pelos lavores das tuas mos 
ebrneos dentes, duro a negro bano do em troca...
Tambm trato contsgo o Srio tem
que expe nas tuar feiras raras prolas, telas bordadas de pequenas 
armas, linhos de alvura a sedas estimadas... De Israel a Jud chegam a ti
as primdas do trigo mel a aZeite doirados
blsamo a resinas aromticas...
De Damasco o vinho generoso, a l inslita, de Crcia, Dan, Mosel, ferro 
polido,
a mirra destilada, o clamo oloroso... Cobifam-lo os magnficos tapetes
e os xairis para as selas dos cavalof... Aromas, ouro, pedras preciosas
de Rema a de Sab enchem as tuas lojas
e pelas ruas apinhadas a ruidosas crutam-se os mercadores
de Assur, Celmad, Haran, Cene a de den carregados de fardos de 
jacinto,
de mulcolores bordados...
Os teus barcos faZiam-lo o comrdo por tudo o que era mratdo
e to cheia de bens a de riqueZas foste a de glria
no rnraFo do mar...
Teve o teu rei o trono entre as deldas do paraso de Deus,
327
de pedraria rara era ornada
tnica, manto a coroa nunca vistos... O srdio e o topZio, a comalina, o 
jaspe e o crislito, a safira,
o berilo, o carbsnculo e o ouro
a altar-lhe a formosura concorriam at que nele entrou a iniquidade
e em seu poder se julgou Senhor a Deus... Triunfante os remeiros to 
levavam
sobre as profundas guas
mas eis a hora chega a vem soprando do meio-dia o vento que to 
quebra... e tudo se perdeu
no corafo do marl...
Quando terminei, ningum falou. A leve brisa enchia brandamente a vela 
e o barco cortava veloz as guas que marulhavam no casco. Frei Zedilho 
parecia meditar. Depois de longa pausa, disse-lhe, correndo o olhar pela costa 
da Palestina de uma ponta a outra:
-Terra de desolao, de runas, de la.mentos, de perda dos pais, da 
casa, da ptria  Tantas misrias a calamidades em devido tempo terrivelmente 
profetizadasl Que maldio foi esta? Porqu castigo tamanho? Que povo  
este que at a Deus crucificou? Ou que com Deus se crucificou?... Dor das 
dores  Sofrimento dos sofrimentos  Como empalidecem as agonias narradas a 
descritas nas tragdias antigas ...
Caa a tarde a pouco tempo houve nesse dia para visitar a cidade. No 
dia seguinte, tomando a refeio bastante cedo, visitmos a cidade mais de 
espao a depois fomos dali a meia lgua, no barco, ver o poo das guas vivas 
de que faz memria Salomo no livro dos Cantares.
Aqui se despediu de ns o barqueiro, que se foi caminho de Baruti, e 
ns essa mesma tarde samos da cidade a fomos dormir a uns casais junto da 
foz do rio Eleutrio. Na manh seguinte eis-nos a calcorrear a estrada real, 
para norte. Uma pequena lgua andada estamos em Sareta, ao presente uma 
pequena aldeia em que no h por que nos determos nela. Uma lgua mais 
adiante chegamos a Sidnia, cidade pequena, mas muito forte, com seus dois 
castelos robustos, um dentro no mar, como parte da cidade, sobre um rochedo, 
o outro do lado da terra.
328
Bom porto, que  causa de ser Sidnia mais frequentada das naus e 
mercadores que os outros lugares martimos daquela costa.
Terras viosas a pingues estas, que, estirando-se entre o mar e o monte 
Lbano, vo desde con, que fica abaixo de Tiro a agora se drama Acre, at 
Trpoli, na Sria  Paraso terreal abundante de todos os jardins a pomares de 
muitas a diversas frutas, todo o gnero de fruto de espinho, maior a mais 
perfeito que o de nossa terra, a numerosos canaviais de acar, campos de 
musas, grandes olivais a vinhas ...
Estava de partida para Baruti um barco quando j nos aprestvamos 
para seguir por terra. Mas um dos cristos apresentou-nos em contrrio razes 
que muito nos calaram. Era coisa mais acertada aproveitarmos o barco, 
porque, indo por terra, havia no caminho um passo em que se pagavam trs 
madins de cafarro por cada pessoa, alm de outros inconvenientes. Com este 
bom conselho nos metemos no barco e a muito boa hora chegmos a Baruti. 
Receberam-nos os frades com a costumada alegria. O guardio no estava. 
Seguira aquela manh para Trpoli, chamado pelos mercadores que se 
desejavam confessar, mas deixara recado ao seu presidente que nos 
festejasse o tempo que ali quisssemos permanecer a me dissessem que em 
Trpoli nos esperava.
Baruti, fora as sedas que so muitas, a terra grossssima a uma muito 
grande a formosa mesquita, que havia j sido uma s apiscopal dedicada a 
So Joo Baptista - de quem os mouros so particularmente devotos, tal como 
o so de So Jorge a de nosso padre So Francisco -, no tem coisa alguma 
peculiar que ver a notar. Assim, em vinte a quatro de Maro, em saindo o Sol, 
partimos de Baruti a caminho de Trpoli, num barco que fretmos, a fomos 
costeando ao longo da terra, sempre com a vista em jardins a pomares, at 
que a costa se torna ngreme e agressiva.  o Lbano; que se vem chegando 
ao mar, com sua floresta tspessa, seus precipcios, pegos a barrancosl Muito 
de noite chegamos a Trpoli.
329
XVII
Meu irmo urso!
... Vi yp xXP-~vTaL O~~A.aVTY~PLI~, T~ xocg7sava, cpr~P.i, ~ 
TLS X To xg7COV geTOvOgCkC$TOCL. 0C, yP  xg7rO, cpacaE, 
POUaOgvoLS ei~ 8oL7roPiaV cve7r8LGTO 7zPxeLTacs, oTCJ xai 
pT~5 xaaxoa-zgou xc58covo5 gETCJPOC, OLOLAOCXLC TOZC, 7La6LV 
E7LP0'LTOS ~7IXCJTaL.
... usam o sino, a campana, digo, que do campo toma o nome, porque 
assim como o campo aos que desejam ir de jornada se estende desimpedido, 
assim tambm o alto badalar das bocas de bronze a todos chega fcil a 
afvel.
(Chronicon Veneto-BjZantinum, an. 420)
- A velha cena - desabafa Frei Zedilho, vendo acudirem os guardas do 
porto mal pusemos p em terra. - Esta gente  esfomeada por dinheiro  Cafarro 
a mais cafarro ... S nos faltava isto ...
- Tambm a mim - disse eu - me no agradaria nada que me 
vasculhassem as coisas com tanta diligncia coligidas na Terra Santa... O 
melhor ser untar-se-lhes as mos. Creio que dois madins por todos deve 
bastar.
- Sim - disse kisser Gaieaceo -, mas primeiro vamos pedir-lhes que nos 
indiquem casa onde possamos pousar. J  muito noite para ir incomodar 
alguns amigos que tenho na cidade.
Assim se fez. Depois de nos terem levado  pousada, meteram-se-lhes 
os dois madins nas mos a eles deixaram-nos em paz.
33
- No vejo nada! -era no escuro a voz de Misser Antnio,  entrada da 
casa, sem saber por onde seguir. - No h luz nem temos candeia com que 
nos alumiarmos.
- Esperai um momento a logo os vossos olhos se adaptaro  claridade 
de luar que coa pelas janelas. Vinde. Aqui est um bom recanto em que nos 
podemos acomodar.
- Nem que comer ... Nem que beber ... Tenho fome de criar bicho ... E 
sede ... - lamentava-se Frei Zedilho, estendendo, como todos ns, sua manta 
no cho.
- Deveis estar satisfeito a orgulhoso, como bom espanhol que soisl - 
disse-lhe eu.
- Porqu? - perguntou, sem entender o que lhe dizia.
- Porque descansais enfim numa casa com as qualidades daquela to 
celebrada por um vosso afamado escritor.
- Qual?
- No me digais que nunca lestes o vosso Diego Hurtado de Mendoza . . 
.
- No, nunca li. Afora os livros sagrados a os compndios teolgicos, 
no estou interessado noutras leituras. Sobretudo obras profanas... Mas de que 
casa se trata?
- Da de Lazarilho de Tormes. - Como era?
- Como esta. Triste a melancolizada...
- Ora - exclamou o meu companheiro, sem vontade de rir. - Sois muito 
bexigueiro com as vossas graas - a embrulhou-se em sua manta virando-me 
as costas.
Embrulhei-me tambm na minha, admirado comigo mesmo por ver 
ressurgir o meu esprito faceto. Que querer isto dizer? Uma saudvel 
recuperao? Que os meus problemas foram superados e a paz definitiva se 
derramou na minha alma? Ou o cansao que leva enfim  desistncia,  
insensibilidade,  indiferena, ao suicdio interior?... Procuro em mim a ver se 
me di Helena... Aqui esto elas, as linhas do seu rosto, bem ntidas, o brilho 
dos olhos, o quente dos seus lbios nos meus ... A sua voz aveludada a lenta, 
meiga .. . O sabor salgado das suas lgrimas!... Afagam-me as suas mos, 
vejo-a erguida a esguia, as pregas da tnica descendo direitas at aos ps 
rosados, a fita da cintura desapertar-se, cair, a veste que se abre, o corpo nu, 
ncar emoldurado pelo ouro das tranas... Dou voltas sobre mim, no consigo
332
adormecer... Desejo t-la nos meus braos... Esvai-se a imagem com o 
atropelo dos pensamentos. Procuro recuper-la. No regressa. Vm ter comigo 
fragmentos de outras imagens : uma jarra de flores, o som de um sino num 
campanrio sem sinos a esboroar-se rodeado de runas... uma caminhada sem 
fim numa plancie rida, cansao, fome, sede... a sensao de frio que me 
trespassa os ossos, enrodilhado em minha manta, deitado 
desconfortavelmente entre pedras, num monte spero a desabrigado, no meio 
da escurido ... a pouco a pouco uma luzinha que vem despontando ao longe a 
se vem chegando, chegando ... e est aqui  Abro os olhos. Amanhece. Tenho o 
corpo num feixe. Saio.
Porto magnfico, de quantos h no Oriente o mais frequentado de 
mercadores de toda a Terra  Coalhado de naus do Egipto, de Constantinopla, 
aragsias, albanesas... Duas naus francesas esto carregando agalhas... Vm 
ter comigo alguns marinheiros dessas naus, por verem que sou latino. 
Saudamo-nos amistosamente. Pergunto-lhes para que serve aquela carga.
- So agalhas de Alepo, as mais famosas do mundo... - e vo-me 
,contando como so colhidas nos frescos a umbrosos carvalhais da .Stria a da 
Mesopotmia, a do seu grande use na tinturaria, no curtimento de peles a 
ainda, como mezinha, em irrigaes vaginais a gar=garejos para as anginas... 
Deles fico tambm a saber como proceder quanto  embarcao para Chipre. 
Juntam-se a mim os companheiros.
- Se quiserdes -dizem-nos os marinheiros franceses-, podeis abarcar j 
amanh.
- Temos ento de nos apressarmos? - perguntei. - E visitar cidade?
- Visitar a cidade? - admirou-se Misser Galeceo. - Fica daqui na grande 
milha e, lanadas bem as contas, caminho para l, caminho kra c a visita... 
Teramos de l dormir... No dava para embarcaros amanh...
-- Exagerais por certo as contas - retorqui.
- Ir  cidade? Nem pensar nisso - acudiu Misser Antnio, ~oiado por 
Misser Galeceo.
- Temos aqui embarcao certa ... - ajudou Misser Carlo.
- Escusaremos enfadamentos que nunca nas povoaes grandes ltam ... 
- continuou Misser Galeceo.
333
- E mais tendo aqui franceses com quem nos entendemos... - 
acrescentou Misser Carlo.
- E no ho-de faltar italianos ... - acolitava Misser Antnio. - No - opus 
eu firmemente. - Em nenhuma maneira  Hoje  dia de Nossa Senhora da 
Anunciao a amanh Domingo de Ramos. Esquecestes isso?... Achais bem, 
Misser Antnio, ter tal festa no mar?
- Credo  No, certamente ! - reagiu Frei Zedilho. - A missa seca no  
cannica.
- Com efeito ... - hesitava Misser Antnio.
- H na cidade - prossegui - cristos latinos com quem celebremos. 
Gostareis, vs os leigos, que ns os padres vos abandonssemos em tal dia, 
se estivsseis nas condies deles, em terra estranha, apenas com um padre 
guardio por demais conhecido, a desejoso de vos confessardes  vontade 
com padres que esto s de passagem?
Como a pergunta lhes tocava e, sinceramente ou por vergonha, n.o 
podiam responder que no, rendiam-se.
- Est bem, Frei Pantaleo ! - disse Misser Galeceo. - Conformamo-nos 
com vosso parecer.
- Assentemos ento em coisas concretas - acudiu Misser Carlo. - Vs 
podeis ir  cidade encontrar-vos com o guardio de Baruti e, por sua via, saber 
dos venezianos se ser melhor esperar no porto, j que temos embarcao 
certa para amanh, ou irmos  cidade tomar alguma recreao.
No me fiz rogado. Parti logo, na companhia de dois marinheiros 
franceses, um deles um enorme a espadado breto de poucas palavras, o 
outro um jovem de Avinho que, quando no tagarelava comigo a com o 
companheiro, se punha a cantar velhas canes que falavam da sua amada a 
do cu a vento da sua terra. Chegamos a Trpoli. Cidade plana, assente em 
campo raso, ao p do monte Lbano, para aquela parte a que chamam Mons 
Pardorum, o monte dos Leopardos, a muito junto ao mar, ainda que o porto 
est desviado uma grande milha. Em torno da cidade, espao de meia lgua, 
tudo so jardins a pomares de muitas frutas, rvores de espinho, musas, 
palmas de grossas tmaras. De uns grandes cabeos do monte sai um rio que 
atravessa a .eidade a tem muitas pontes, umas de pedra, outras de madeira. 
Espalhadas por todo o lado inmeras fontes, cada uma delas com dois 
caldeires pequenos, presos com sua cadeia, para a gente beber se quiser. 
Casaria muito nobre, ruas direitas a espaosas. HOS
334
pital para enfermos, peregrinos ou pessoas necessitadas. Um outro para 
gatos, com seu gateiro. Banhos reais, de egtrema curiosidade e lirnpeza, no 
s para mouros como tambm para cristos, a na sua frontaria uma pedra 
enormssima, de fino mrmore, em que das mesmas veias a guas naturais 
est uma imagem de Nossa Senhora belissinnamente matizada, com o Menino 
nos braos. jardins a hortos odoriferos as sepulturas de mouros a turcos, 
porque, mal enterram algum defunto, logo derredor da cova lhe plantam muita 
salva, manjerona, alecrim, lrios a outras ervas aromticas que em nossas 
terras no h... Mercadorias a rodos -loda a sorte de sedas; chamalotes, 
embora em menos quantidade que em Damasco; sabo branco, cheiroso, de 
vxias invenes a formas. Levam-no para Constantinopla e a toda a Turquia, 
Veneza a outras partes. De Antioquia acodem em especial coisas de botica - 
ruibarbo, escamoneia, alos, canafstula (n.o to boa como a do Egipto) a 
outras drogas do gnero... O vio e a grossura da terra consente que se 
ocupem os seus moradores em jogos a passatempos, em banquetes a 
demasiados comeres, sendo tudo de maneira a querer represent-la como um 
paraso terreal, donde estivessem prestes a ser egpulsos os seus Ades a as 
suas Evas...
Apresentou-me o guardio de Baruti aos mercadores venezianos, que 
me receberam com grandssima festa a cortesia. Dei-lhes coma do que se 
passava.
- Ser melhor - disse um deles, depois de consultar os seus amigos - 
virem os vossos companheiros  cidade. Ns os mandaremos buscar...
- ... mas depois de quietamente termos nossa missa -acudiu outro, `com 
grande acordo de todos- que hoje  a festa de Nossa Senhora. Logo entendi 
que entre si haviam resolvido no nos deisar par
tir seno depois de Pscoa, para connosco se confessarem mais  
von.tade. Tinham o seu capelo a estava com eles o guardio de Baruti, Xmas, 
sendo como naturais a familiares, com os estrangeiros sentiam ktm si menos 
pejo, como eu tinha dito no porto aos meus companhei~~os. Rezou-lhes a 
missa o seu capelo, que era um padre de Santo
gostinho, j. velho, a vivia ali isento, com proviso da Senhoria de  
eneza. Eu com alguns mercadores venezianos que sabiam muito m cantar lha 
oficimos e, acabada, cantmos vsperas o melhor e pudemos, com nosso 
stimo a oitavo, do que nos mostraram
de contentamento. Levaram-me a comer a casa de um Misser
335
Matia, onde me deram um quarto s para mim, fechado a muito bem 
provido de boa cama, limpa a bem arrumada, ornada de uma belssima colcha 
de damasco, uma arca encoirada para roupa, um lavatrio com seus jarros de 
gua a alvssimas toalhas de linho, no cho lindos tapetes persas. Recebiam-
me como quem eram, mas eu sentia-me confuso no meio de tanto luxo a s me 
dava para contornar os tapetes sem os calcar. Os meus ps vinham habituados 
do p, das pedras a dos cardos dos caminhos a todo o meu corpo n.o sabia 
que fazer em tanta moleza... Estando para nos sentarmos  mesa, aparece 
Misser Galeceo, vendo minha tardana. Como era de todos conhecido 
fizeram-lhe muita festa. Mandaram buscar a mais companhia a aposentaram-
na em casa de um Misser Rgulo, onde logo deram a meu companheiro 
aposento a cmara privada, como a mim, com todo o necessrio. Tratavam-
nos assim com o propsito de nos terem consigo toda a Semana Santa. E que 
mais fazia? Frei Zedilho no se opunha a eu deixava-me ficar, sem pressa nem 
ansiedade de partir, adiando em meu ntimo o enfrentar, mais que a monotonia 
da vida do claustro, a realidade crua que me aguardava na ptria... A ptria  
Vm-me  cabea ideias insensatas. Ptria  a terra dos pais... Ento eu no 
tenho ptria... Porque regressar ento, se a ptria me no espera nem tem 
lugar para mim? Sou como essa inumervel multido de judeus escorraados 
de que no se sabe o nome, nem a vida, errante pelo mundo  procura de 
poiso, de trabalho, de po... Mas quem os escorraou n.o foi a ptrial, diz-
me, empoleirado no meu ombro, o espectador de mim mesmo ao ouvido da 
minha conscincia. Foi um punhado de fanticos que se apoderaram da 
religio de Cristo e a adulteraram. A ptria no  desta ou daquela ideia, seita, 
religio, cl, tribo, raa, classe. Isenta a universal no tempo a no espao,  me 
de todos os que nela se criaram. Repara como os judeus tm saudades dela l 
to longel Odeiam os inquisidores, no a ptria que os viu nascer... Revolto-
me, protesto. O meu caso  outro. Sou aptrida porque... No digas mais. j 
ouvi. Mas que tem esse cho sagrado a que chamas Portugal con, o teu caso 
particular? Porventura aquele ribeirinho annimo...? Lembras-lo?... Nas suas 
margens cantaste um dia loas ao Criadorl... No tem ele para ti mais suave 
rumorejo, cristal mais lmpido, frescura mais leve que todos os ribeiros do 
mundo?... No assobiam em Portugus suas flautas os melros da tua terra? 
... Saudadinhas da ptria, batei-me  porta  Mas sinto que nestas paragens 
estranhas que estou
calcorreando fica para sempre alguma coisa de mim... Ficar, aproveitar a 
oferta daqueles judeus que me ofereciam uma mulher jovem e bela, a fazenda 
a riquezas... Revolta-se-me a inteligncia. Eu no sou nem serei judeu, no 
vendo a minha alma... Posso prevaricar quanto zos meus deveres morais a 
religiosos, pecarei sobretudo por incongruncia para comigo mesmo, mas no 
abdico de o considerar - eu mesmo ou o espectador de mim mesmo sempre 
atento - prevaricao a incongruncia... Revolta-se-me o corao. A ficar, 
ento procuxaria Helena ... Porque a deixei partir? Porque n.o permiti que Isac 
Beiudo ma procurasse?... Talvez porque foi cla, precisamente ela, mais forte 
do que eu, que me indicou o caminho. Trago ainda nos ouvidos as suas 
palavras : s um homem de Deus.l... Deus me d faras para fazer o que 
tenho a fazer... E no devo eu respeitar esta nobre atitude, seguir-lhe o 
exemplo? No  dela que me deve vir a fora que me est faltando? Se de 
novo encontrasse Helena, no seria a mim que me tocaria a vez de dizer-lhe 
s uma mulher de Deus ... e reunir energias para a deixar seguir o seu 
caminho?...
Vou-me deixando ficar, a pretexto de que se trata de passar a Pscoa 
em terra a no ter mais missas secas, como da outra vez quando vlnhamos a 
caminho da Terra Santa, a pretexto dos meus deveres de sacerdote para eom 
aqueles cristos to necessitados em terra de infiis, u pretexto de Frei Zedilho 
no oferecer qualquer resistncia...
- Amolecem-me a boa cama e a boa mesa - desabafo com meu 
companheiro.
Sorri a diz:
- Uma vez no so vezes. Ao menos por um momento vingamos tanta 
privao, desconforto, fome a misria...
- Franciscanos... a na Quaresma ... - lamentei.
Dia de Ramos. Rogo ao guardio de Baruti que ordene as coisas de 
maneira a irmos fazer o ofcio aos franceses.
- Olhai - lhe dizia. - Vs a vosso companheiro, eu a meu comhanheiro, a 
Misser Antnio, estamos aqui cinco padres. Eles s l trn o seu capelo. 
Deixai-me ir a levar comigo o vosso represen"te. Ficareis aqui quatro a ns l 
trs.
Ia o guardio a consentir, atalham os comerciantes venezianos Quito 
agastados
- Deixai os franceses em paz  Vs ficareis aqui connosco. Eles :m l o 
seu capelo. Que se arranjeml...
336; 337
- Digais o que disserdes - tornei determinado -, eu em minha conscincia 
de padre no acho bem. No sereis vs, venezianos a franceses, todos 
cristos? No estais no mesmo barco, isto , nesta mesma terra de infiis? 
Passar-vos- pela mente que podeis tomar s para vs um pobre frade 
franciscano, estrangeiro, s porque lhe dais uma hospitalidade de prncipe? 
Julgais que ele se desabitua de dormir ao relento, tendo por almofada qualquer 
pedra na berma duma estrada, e deixar de calcorrear os caminhos do mundo 
para cumprir a sua misso? - e estas palavras soavam dentro de mim como se 
a mim prprio fossem dirigidas. -  nesse esprito que considerais deverdes 
passar este tempo santo da Pscoa? Com o rancor no corao? Rancor de 
cristo para com cristo?...
Bem sentia eu que                 estava fazendo um pouco de teatro a usando 
de artimanhas de retrica, artifcios que eu sublinhava a fingia inflamarem-me  
medida que via os meus interlocutores cederem terreno.
- Estou cansado - continuava. - Por toda a Terra Santa s vi rivalidades, 
invejas, dios at, entre as diversas naes de cristos que os Turcos, quantas 
vezes to compreensiva a tolerantemente, consentem em seus domnios... 
Agora vejo-vos a vs nesta disposio. Prefiro ir-me embora.
- No  No faais isso - comeavam a surgir vozes entre eles. - Parto 
com o corao cheio de mgoa a pena de vs ... Evidentemente no me 
deixaram ir embora, mas eu desejava tirar partido da sua capitulao.
- S n.o irei com uma condio - disse eu muito srio, dando tom 
enftico s palavras.
- Qual?
- Dizei depressa...
- Aceitamos a vossa condio, seja qual for...
- Seja qual for, no ... Se for para bem das nossas almas... - S no 
partirei se me prometerdes...
- Est prometido.
-Est prometido? Qual est prometidol? Deixai ouvir primeiro...
- ... se me prometerdes que, no Domingo de Pscoa, fareis as pazes 
com os nossos irmos franceses.
Murmrios a zunzuns contrafeitos a mal mastigados.
338
- Pensais - adiantou-se o meu doce hospedeiro Misser Matia que as 
culpas de todo este, digamos, mal-entendido, as culpas de estarraos com os 
franceses muito diferentes, so s nossas? E os franceses, que mal conheceis, 
so uns santos, n.o?...
-Deixai-os comigo. Por isso l quero ir a traz-los junto de vs para que 
vos abraceis como filhos do mesmo pai Jesus Cristo. Batalha vencida, fui como 
desejava ter com os franceses. Acom
panha-me o aclito do guardio de Baruti. Um fradezinho novo, barba 
rala na face de cera, chupada, tmporas encovadas em que se salientam os 
cordes roxos das veias, mos friorentas sempre metidas nas mangas do 
hbito. Fra Tomazo. De Brio, a cidade que acolheu, como me diz pelo 
caminho, as relquias de So Nicolau de Mira a se espelha nas guas azuis do 
Mediterrneo. Mira, ao sul, na Lcia, e Nicomedia, ao norte, na Bitnia, a 
aqueles dois santos - no deixo de pensar - cujas relquias se foram por mar 
milagrosamente acolher a terras de cristos, fugidas dos turcos: um a Brio, o 
outro ... a Miragaial...
Que diferena ou zanga era aquela entre venezianos a franceses? 
Resposta ofegante, a respirao alterada pelo andar, uma voz 
inesperadamente grossa num corpo to frgil. No havia qualquer motivo 
imediato, evidente, concreto. Cria tratar-se apenas da ciumeira
' a inveja daqueles que tm negcios idnticos, natureza a origem 
idnticas... Compreendia Frei Pantaleo? Encontram-se em idnticas 
circunstncias em terra alheia a procuram afirmar-se aos olhos de toda a gente 
como superiores aos seus irmos a pares... A raa humana, !, no era 
verdade?...
Cristos, catlicos romanos, latinos ambos ... a era o que se vial Como 
viviam aqui as duas comunidades?
Soubesse a minha reverncia que nas cidades da Turquia onde ~' 
tratam mercadores venezianos, franceses ou italianos, como nesta cdade de 
Tripoli, em Alepo, Baruti ou mesmo em Alexandria, no Gro-Cairo, a outras 
muitas, tm este estilo. Os que vm para ficarem
'. anos granjeando sua vida tomam casa a fazem-se como naturais...
E o gro-turco permitia?
Que lhe pagam cada ano um cruzado de tributo. Vivem na terra com 
toda a segura.na, no temem guerras anda que as haja entre
ristos e o gro-turco, antes nessas ocasies so eles os que 
favore~''cem a socorrem os outros mercadores que n.o esto de assento a 
lhes
339
escondem as mercadorias ou as pem em salvo dizendo que so suas 
prprias.
E os outros? Os que no se queriam aposentar? Porque o no 
faziam?
Eram vrias as razes. No via padre Pantaleo? Havia os que 
andavam chatinando de umas terras para outras a no podiam fixar-se. Outros 
no queriam o incmodo do cuidado a arranjo da casa. Talvez para outros 
fosse apenas o receio de se prenderem, de no terem os movimentos livres, no 
seu natural inconstante... Tm nas cidades umas casas muito grandes, com 
muitas cmaras, lojas a aposentos, a modo de mosteiros...
- Uma espcie de grande hospedaria...
Sim. Minha paternidade dizia bem. Uma espcie de hospedaria em que 
so providos de quanto ho mister, comer, beber, camas, banhos, lavagem, 
tudo com muita presteza, abundncia a limpeza, como se estivessem em suas 
prprias casas, a ainda muito melhor...
Mas esses servios deviam set carssimos ...
Ento no via Frei Pantaleo que os mercadores que nestas partes 
tratam, venezianos a florentinos ordinariamente, gente muito nobre e principal, 
vivem de vultuosos negcios a comrcios a com isso juntam grandssimas 
riquezas?... No lhes faltava dinheiro, acreditasse minha paternidade, com que 
pagar um tanto pot ms ao que lhes d pousada a tem a seu cargo ministrar-
lhes, com toda a perfeio, as coisas necessrias que atrs referira a outro 
qualquer servio de que tenham preciso. Desta maneira viviam descansados, 
sem terem cuidado de alguma coisa das portas adentro.
Conversa no conversa, vim mais a saber que a estas casas ou 
hospedarias chamam vulgarmente alfndegas. Senhorio delas no  qualquer. 
Pessoa principal, posta pela Senhoria de Veneza, com licena do gro-turco, 
que grosso a pingue  o trato e a renda. Licena tambm para a comunidade 
ter juiz particular que julgue as diferenas entre eles havidas a prenda a 
castigue aos que o merecerem, como se estejam em terra de cristos. Do 
mesmo modo tm os franceses casas dessas, com seu administrador. 
Chamam-lhe cnsul a tem jurisdio a autoridade, outorgada pelo gro-turco, 
para fazer justia aos de sua nao quando for caso disso. Uns a outros, 
venezianos a franceses, tm seu capelo, com quem so obrigados, pot 
privilgios de
340
alguns pontfices romanos, a fazer seus testamentos, achando-se em 
artigo de morte.
-  muito populosa a cidade?
- Sim. Muito populosa a nobre. Muitos turcos... E tem sempre gente de 
guarnio. Inmeros cristos das naes orientais, que usufruem de mais 
liberdade aqui que nas outras partes.
- E judeus?
- Cerca de dois mil. Os mais deles so vossos conterrneos... Sinagoga 
enorme, mas feia a desajeitada...
Com isto chegmos aos franceses a lhes fizemos o ofcio de Ramos 
cantado a procisso pela claustra, que a tm bem leve a iluminada, e cantmos 
a Paixo a trs vozes com tanta liberdade como se fora em qualquer lugar de 
Cristandade. Com muita insistncia a importunao do cnsul fiquei com eles 
para tomar refeio e, para me festejar ;.melhor, ps ele connosco  mesa sua 
mulher a filhas. No deixei de zproveitar a ocasio para os predispor a fazerem 
as pazes com os venezianos, o que no foi difcil em tempo de penitncia, a no 
Domingo de Pscoa seguinte uns a outros j se davam como Deus com os 
anjos.
Quando  tarde regressei a casa, os nossos companheiros italia;xios 
tinham partido para Chipre.
- Como  isto ? - perguntei muito admirado a Misser Matia. - Eles 
decidiram ir... - disse ele encolhendo os ombros a espal-,xnando as mos em 
sinal de que nada pudera fazer para o impedir.
- E sem se despedirem de mim ... - exclamei melancolizado. y-- Podiam 
ao menos ter-me mandado chamar...
- Tivemos receio de que no quissseis ficar connosco, para no 
eleixardes uma companhia de tantos dias...
- Uma companhia de tantos dias a de to boa conversao e onvvio ... 
Fico com saudades dele&..
No se apoquentasse Frei Pantaleo ! Garantia-me que eles nem s no 
tnhamos embarcao em Chipre, salvo da a um ms e pore entura dois... E 
no se havia de partir sem seu recado. Descansasse n,
eles tomariam  sua conta a nossa ida.
Confirmava-se tambm, a mais uma vez, serem falsas as novas e nos 
tinham dado de se terem quebrado as pazes com o groco... Ficmos, pois, eu 
a Frei Zedilho. No foi, julgo eu, propriavV 2
to pot amizade que o meu companheiro se deixou ficar. Retara mas era, 
pot motivos diferentes dos meus, a hora da partida
34
daquelas terras sagradas. Mas eu senti satisfao pela sua companhia, 
a que me afeioara ia para trs anos... Semana Santa oficiada na alfndega de 
Misser Matia, onde eu estava aposentado por nela haver mais cmodo para 
tudo. Presentes todos os mercadores do stio.
Passo o tempo, aps as obrigaes religiosas, a percorrer a cidade. 
Visitam-me judeus meus conterrneos. Estou na pousada, um dia, com meu 
companheiro a outros religiosos vindos de Jerusalm, de passagem para 
Alepo, rompe sala adentro um judeu de aspecto autorizado, turbante amarelo 
na cabea.
- Qual de vossas reverncias  o padre Frei Pantaleo? - perguntou em 
voz entoada a muito grave.
- Sou eu.
- Queria de vossa reverncia, se me fizesse merc, dois pares de 
palavras.
Levanto-me, vou-me com ele a uma varanda, onde podemos falar  
puridade.
- Que me quereis ?
- Padre, chamo-me Levi Guedelha. Ainda que em pblico sigo o 
judesmo, em meu ntimo secretamente sou gentio. J desesperei da vinda do 
Messias. Sempre  espera, sempre  espera... J os meus pais o estavam e 
meus avs... Que vem amanh, que vem logo... E nada!...
- Veio uma vez  No quisestes crer...
-Isso pensais vs, os cristos! Achais que o mundo est melhor desde 
que veio o vosso Salvador, o vosso Redentor? No achais que est a ser 
preciso que venha de novo?... Ou que venha outro?... Ou que venha pela 
primeira vez?...
Era sempre assim. Procuravam-me. No me queriam nada, seno 
disputar. Para qu responder? O hbito que visto impe-me uma nica 
resposta... O meu pensamento, todavia, o eu e o mim esto-se rebelando, vo-
me dizendo c dentro que o mundo e a prpria Cristandade esto a necessitar 
urgentemente da vinda do Messias... Mas no veio Ele j? Os judeus n.o o 
reconheceram. E os cristos? Que fizeram d'Ele ao longo dos sculos? No 
continua a ser vlida a sua mensagem? No continua por cumprir? No foram 
homens - os ricos, os poderosos, os grandes do mundo - que se apoderaram 
d'Ele e o modificaram em seu proveito? No foram esses que amoldaram a 
religio aos seus intentos? No so esses os que pretendem cOmprar a 
absolvio dos seus pecados, comprar uma nesga do Paraso
342
como compram uma leira de terra? Prolongar na eternidade o bem-estar 
que tiveram na Terra? No continua o escravo a ser escravo? O pobre a ser 
pobre? O perseguido a ser perseguido? No foi Cristo que falou no buraco da 
agulha a no camelo? No foi nosso padre So Francisco que tentou repor 
Cristo na sua primitiva pureza perante os homens... no corao dos homens?... 
 issol So os homens, em seu corao, que O tm de rever, de O fazer 
renascer... J esqueceste a Inquisio de vora? Um Damio de Gis? Um 
Erasmo?... _0uid est veritar?... No haver algo de procura da verdade num 
Lutero ... num Calvino?...
- Tambm no acredito na ressurreio dos mortos - continuava, 
longnqua no turbilho dos meus pensamento, a voz de Levi Guedelha. Fiz um 
esforo para voltar  realidade do lugar a do momento. L adiante, para 
levante, a mancha verde-escura do Libano contrastava com a luminosidade 
quase branca do cu azul-plido, rosado, a cidade clara a seus ps...
- s saduceu? Sem ressurreio seremos puros animais... e cnto no 
vale a pena acreditar em nada...
D-me conta da sua vida a de como, enganado, sara de Portugal, do 
que estava arrependido. Descobre-me a sua prognie com muitas 
particularidades, que me movem a ter piedade do seu arrependimento. Podia 
rogar-me um favor?
Dissesse. Seria muito incmodo meu levar-lhe ao reino uma carta a 
seus parentes?
Anu, com a condio de ma mostrar antes de a selar, para que com Lla 
eu no carregasse escrpulos de conscincia.
No se admirava da minha caridade a boa vontade, pelo que de mim 
tinha ouvido a muitos judeus seus conhecidos por toda a alestina a terras 
circunvizinhas, mas principalmente a um seu velho
0xnigo de Jerusalm que me conhecia muito bem de quando eu era [ o e 
estudava em escola de judeus. No notara Frei Pantaleo ~e, aonde quer que 
chegasse, logo uma chusma de judeus, passando vra uns aos outros, acorria a 
v-lo e a falar consigo?
Muito me tenho admirado, com efeito  - respondi, aguaro explicao.
Ento Levi Guedelha fez-me uma revelao espantosa:
- que todos sabem que sois cristo-novo a que tendes nas
343
veias sangue judeu... E sangue judeu nunca renega nem repele sangue 
judeu ... Assim se explica a vossa simpatia por ns e a nossa amizade por vs 
e o acolhimento que vos fazemos...
J tinha, de h muito, posto a mim mesmo a hiptese de ser judeu. 
Nunca, porm, me haviam dito uma coisa to concreta. Cristo-novo ... Noutra 
altura esta notcia ter-me-is alvoroado, mas agora quantas cenas, imagens, 
factos, ela fazia ressurgirem da velha a poeirenta arca das coisas esquecidas  
No era a mais recente o ser o meu superior na Cria romana, Frei Antnio de 
Pdua, cristo-novo?... Mera coincidncia?... Fosse o que fosse, no me 
atormentavam j essas especulaes. Fiquei mas foi pensando sozinho na 
varanda, depois que o Levi se retirou, acerca dessa coisa extraordinria, 
dejecto ou vmito do esprito, que era dividir os cristos em novos a velhos, 
uns de primeira apanha com credenciais chanceladas a garantidas com vista  
serena a tranquila passagem ao Paraso, outros com alvars duvidosos, selos 
falsificados, assinaturas apcrifas, a verificar meticulosamente, acuradamente, 
no v haver nalgum refego do corpo e da alma contrabando de origem 
duvidosa, sinal de pacto com o diabol... Prova de limpeza do sangue!... Quem, 
dos filhos de Deus, tem o sangue sujo?...
- Estais pensativo? -  Frei Zedilho, que estranhando a minha ausncia, 
depois de ter visto Levi Guedelha sair, me vem procurar. -Aconteceu alguma 
coisa? Tendes ms notcias?
- No, irmo. Estai descansado. Olhava daqui o Lbano - disfaro - e 
pensava que muito gostaria de o visitar. Tenho desejos de ver como vivem os 
nossos irmos maronitas l no cimo da serra, alm de que tanto tenho lido a 
ouvido falar dos seus cedros ...
- Justus ut palma florebit: sicut cedrus Libani multiplicabitur... no deixa 
de recitar Frei Zedilho o salmo de Salomo. (O justo florescer como a 
palmeira a multiplicar-se- como o cedro do Lbano.)
- Estamos aqui de espao na cidade, sobeja-nos tempo... No gostareis 
de ir comigo visitar o patriarca de Antioquia que no alto do Lbano tem seu 
assento?
-N sei - respondeu, torcendo o nariz - se neste momento estou muito 
disposto a passeatas...
- Passeatas - retorqui. - Vive a, nesse espaoso monte, em companhia 
de muitos santos vares, ao modo que antigamente tinham
os padres nos ermos a desertos do Egipto, de Tebas a Palestina, 
apartados das criaturas...
O meu companheiro hesita. Sinto que h qualquer coisa de monta. Que 
tinha? Que se passava?... Nadal Ora nadal Cheirava-me a que escondia 
alguma coisa, algo importante l... Ri-se, o que nele  raro. Oh  Muito 
importante  Nem calculava ... Era um monstro... Um monstro?... Siml... 
Brincaval No brincava. Leviat? Beemote?... KPiorl Muito piorl... Qu 
ento?... No podia andar... Uma nascida numa perm l...
No havia nada a fazer. Tinha de ir sozinho. Disse-o queles Benhores 
venezianos, encomendando-lhes meu companheiro, a logo pc ofereceu para ir 
comigo um deles, mancebo dos mais nobres, chamado Gianantnio Tozolo, 
que, por ser novo na terra, ainda l no Onha ido como sempre no Vero 
costumam aqueles mercadores, por
ssatempo a recreao. Gianantnio aquela mesma tarde mandou scar 
as cavalgaduras para irmos no dia seguinte, mal amanhecesse, t aviar todo o 
necessrio para a jornada.
- So apenas cinco lguas - diz Misser Matia, assistindo aos 
~reparativos-, mas o caminho, em se comeando a subir,  to ngreme g 
spero que se no pode ir por ele a cavalo. Vereis 
Mal rompe a alva do dia, pomo-nos a caminho, levando connosco Om 
almocreve cristo, de nome Filipe, a um mouro amigo a familiar Oos 
venezianos.
Grande parte do caminho andado, chegamos ao sop da montaLarga 
ribeira de gua muito clara a fria, saindo rumorejante do ~ te, toda de uma a 
outra margem coberta de formosos pltanos.
mos a almoar, que o lugar a isso nos convida a comea j a calma 
kpicar. Mesa improvisada sobre um tronco seco, bancos as pedras que pLda 
um procura as mais azadas possveis.
Refeio acabada, comeamos a subir monte a cima por um carreiro 
eitssimo a muito ngreme de uma parte a outra. Pelo meio um ego to fundo a 
to cavado, por onde rompia nervosa a cachoante
ribeira, que nos causava medo, alm de que amos em sardenhos de 
costumados a andar como cabras por entre penedos... No tardou 'to que nos 
tivssemos de apear. No nos foi possvel ir monta
que o caminho era to a pique a difcil que em alguns passos nos namos 
tanto das mos como dos ps... Com duas horas de sol, os num pequeno 
plano metido a como que abafado entre aquelas 
344 345
speras montanhas. Avistam-se algumas casas e, logo que nos sentem, 
desatam a arrepicar sinos como em dia de festa, alegres, saltitantes, 
saltintantes, saltlintlantes... Fico especado a ouvir ressoar por abismo e 
montanha o tinido claro... Rebentam-se-me os olhos em lgrimas de alegria, 
que havia muito tempo os no tinha ouvido tanger a no estava avisado nem 
sabia haver ali sinos, por ter entendido serem proibidos em terras de turcos a 
mouros...
Saram logo a receber-me uns velhos muito venerveis que vivem ali 
como ermitos. Lanados a meus ps, pediam-me a bno como  seu 
costume a eu, j habituado  cena, fiz da mesma maneira e, abraando-me 
todos, levaram-me  igreja a depois a casa do patriarca, que  pegada. 
Apareceram duas velhas irms do patriarca, que, lanando-se igualmente a 
meus ps, me tomaram a bno. Fazem-no sempre que os visita algum 
religioso da Igreja Romana, a que os maronitas tm obedincia a grande 
devoo. O patriarca, diziam-nos as santas mulheres, apesar de passar dos 
cem anos tinha ido assistir  Pscoa a Jerusalm. Escusavam-se que, com a 
sua ausncia, no fssemos agasalhados a recebidos como era razo... Em 
bom convvio se foi escoando a tarde. Mostraram-nos os ricos ornamentos a 
alfaias do culto que possuam, a apontavam com especial orgulho um pontifical 
branco, alcachofrado de ouro a todo lavrado de aljofre, j meu conhecido, que 
um ano atrs o arcebispo Frei Jorge, comigo embarcado em Veneza, trouxera 
de Roma, aonde fora dar obedincia a Sua Santidade Pio IV em seu nome a 
dos cristos maronitas.  costume de muitos anos, quando elegem papa em 
Roma, virem embaixadores dos cristos orientais que no so cismticos, os 
armnios, os maronitas, os coptos, os sirios..., reiterar sua obedincia. No os 
deixa Sua Santidade regressar de mos vazias e, entre outras coisas, lhes d 
um pontifical dos usados.
A conversa prolongou-se pela noite dentro e, durante a ceia, soube 
algumas coisas que j tinha ouvido acerca da quantidade de cristos que ali 
vivem a muitas outras que a minha curiosidade suscitava.
- Por que razo - inquiria eu - sendo patriarca de Antioquia e sendo l 
sua sede patriarcal, mora aqui no monte Lbano?
Lugar muito acomodado, por toda a parte, ao cenbio, ao solitariamente 
servir a Deus ... No alto grandes campos rasos, fertwssimos a frutferos, 
abundantes de boas guas ... Desde tempos antigos
foi o Lbano povoado de cristos, que ali viviam quietamente, em 
especial depois que a terra comeou a ser conquistada por infiis. Razo disso 
o haver muitos passos inexpugnveis, no por artifcio humano mas por obra 
da natureza. Assim o patriarca se havia passado a este lugar para viver mais 
quieto.
- E estes sinos que tendes aqui? Como se compreende isto, se por toda 
a terra do gro-turco  coisa que se no permite a sempre vi os campanrios 
cegos a moucos de sinos?
- Estava meu irmo - respondeu uma das velhas mulheres no princpio 
do seu patriarcado, quando o gro-turco comeou a conquistar a Palestina a 
muita parte da Sria, que era do sulto do Egipto...
- Eu era pequena - interrompeu a outra irm -, mas ainda me lembro 
disso muito bem ... quando ele foi vencido a desbaratado, Gom todos os seus, 
ficando o sulto vencedor l...
- Fugiu, como dizem, a unha de cavalo - acudiu um dos velhos  
companhia - e acolheu-se a este lugar, onde j morava o nosso ~triarca...
- Foi guiado por alguns dos nossos irmos maronitas que trazia ~ seu 
campo a com ele escaparam. Conheciam caminhos nvios que hgum mais 
sabia a trouxeram-no ao mais imprvio a inacessvel r serra, entre precipcios 
fundssimos e a aspereza de acessos.
' Solcitos todos em me contarem aquela histria, l fui sabendo mo o 
patriarca acolhera o gro-turco em sua casa, o gasalhado que fizera e a todos 
que o haviam acompanhado. Provera-os muito iosamente de quanto podia, 
mas aquela gente no era de tantos dos a doces como os nossos de Franquia. 
No morrem os turcos
~mouros de comeres sobejos, como muitos nas nossas partes ociden05, 
que com a diversidade de manjares andam toda a sua vida cortos dos 
estmagos a dos costumes. A nossa natureza era to boa contentar, no 
concordava Frei Pantaleo? Naquilo em que a pomos sustenta... Mostrou-se o 
gro-turco to obrigado ao patriarca pelo
tratamento recebido, que vendo-se depois senhor da terra, morto to em 
batalha, o mandou chamar e, entre muitas a grandes merque lhe fez, lhe 
concedeu toda aquela parte do monte Lbano para pre, limitando-lhe termo 
para ele a para todos os cristos maronitas,
o patriarca tivesse sobre eles jurisdio a dominio, contanto que, Si
 nal de vassalagem, tivessem sempre um subassi turco ou mouro
346 347
que fosse quem eles pedissem a quisessem. Permitiu-lhe tambm que 
naquela sua igreja patriarcal pudessem ter sinos, o que para eles foi muito 
particular concesso, por constituir excepo nica eni todas as terras do gro-
turco.
- H na jurisdio do patriarca - me dizem - at quarenta mil homens que 
podem sair a campo com fundas, arcos a outras armas do mesmo gnero...
- Ouvi vrias vezes a meu irmo que, se cristos a latinos viessem 
conquistar a Terra Santa, se obrigaria a dar-lhes vinte mil homens, tudo gente 
limpa a escolhida.
E o subassi sabia disso?
Ora  O subassi que tinham era melhor cristo a mais devoto que todos 
eles!...
So horas de deitar. As irms do patriarca fazem-me a cama. Tanto 
lenis como cobertor em cada uma das pontas a no meio tm uma cruz azul, 
que  o sinal que os maronitas usam em todas as suas coisas a alfaias para 
mostrarem o que so, vivendo entre infiis.
Rompendo a manh, c vamos ns outra vez subindo o trilho spero a 
ngreme, para irmos ver os famosos cedros. Acompanham-nos uns mancebos 
maronitas para nos ensinarem o caminho. Alto da serra, vimos dar a uma 
clareira larga a despejada... Brancura de neve, frio de enregelar os ossos em 
ps descalos de franciscano, silncio acentuado pelo desferir do vento na 
rama das rvores ... Vista deslumbrante a vasta  A cordilheira de montanhas 
vem correndo de oriente, da terra dos Moabitas a dos Nabateus a de toda a 
Celecina a da regio Tracontida, a tornando a nordeste segue em direco a 
noroeste, tomando diversos nomes a incorporando em si outros montes at 
junto do Carmelo. Altssimo por vezes, cava grandes abismos a valadas, comp 
as que vi na nossa serra da Estrela, nos Pirenus a nos Alpes. Mas o stio em 
que estamos  que propriamente se chama Lbano, pelas muitas neves que 
aqui h, pois lfbano quer dizer cndido, branco e formoso, o que me faz em 
minha admirao glosar em voz alta ao bom Horcio:
Vies ut alta stet nive candidus Libanus...
348
pois No me dou ao cuidado de dar a verso em linguage%esso
reparo que meus companheiros vm ainda atrasados. Antes me a?~r, a 
a aproximar-me dos cedros a me ponho, atnito, nariz no
bra o olhar aquelas portentosas rvores que se erguem aprumadas p 
sua cu, querendo na sua grossura a porte gigantesco mostrar que 
perpetuidade  Sentindo, pelo som abafado de passos na never
no estou s, exclamo : obra - Que coisa majestosa, amigo  Que coisa 
grandiosa  a far o da criao  H aqui um ar de eternidade - a ponho-me a 
cast salmo de David:
 vs todos os montes a outeiros, rvores frutferas, cedros do Lbano,
louvai ao Senhor!...
Rompendo por debaixo dos ramos que se espalmam a ala0gme 
deixando cair sobre a minha cabea a ombros flocos de neve, cheg' lhas z um 
tronco, a observar a rvore em todos os pormenores, as ~ -hes como 
espinhos pequenos, os frutos umas pinhas a dentro delas pi  da pequeninos a 
pretos. O meu companheiro certamente vem cansaJ ar e subida, que o sinto 
sentar-se numa rama cada e o ouo resfoleo como que a rilhar qualquer 
comida.
o- Nem cinco homens - lhe digo, procurando enlaar o tron.~ o  so 
bastantes para abraar esta rvore  Vinde c, dai-me a vossa as ,,- a estendia 
a minha. Como no ouo resposta, olho para trs ..  dos fiesta altura o baque 
no corao  reforado pela gritaria a bradoo Ineus companheiros que vm 
chegando
- Pantaleo  Pantaleo  Cuidado  Fugi da  - Eh  Fora  Sus  Sus 
-- Fora  Fora 
Encosto-me ao cedro, mais morto que vivo ... mas o meu  ~om
lou ~anheiro tal como chegara, desavergonhadamente, assim ah rura 
itn silncio a desapareceu, a um tiro de malho, por entre a espey ersa 
floresta... Foi a primeira e a nica vez que eu five uma con
- um urso ... Quando me ressarci do susto, perguntei a Gianantl~ou -- 
Hbito castanho a capuz pela cabea, achais que ele me to
um seu igual?
E o episdio acabou em risota...
349
Depois de termos a sesta  sombra destes cedros, que eu considero 
uma das maravilhas do mundo, levam-nos os mancebos maronitas de regresso 
por outro trilho, mais comprido mas mais suave e deleitoso, de muitas guas, 
vinhas a sementeiras... Passam aldeias, mesas postas junto s casas na 
berma dos caminhos, com po, vinho, ovos a coisas de leite para que 
comamos.  use antiqussimo, quando c vm ter cristos latinos, em especial 
frades nossos. Pretende esta gente mostrar assim a devoo que nos tem e a 
gratido pelo abrigo e hospedagem que lhe damos quando vai a Jerusalm 
onde n.o tem outra pousada. Ficam muito magoados se no aceitamos do 
que nos oferecem, pois o fazem sem interesse algum... J quase noite 
chegamos a casa. Recebem-nos as irms do patriarca. Noto nelas mais 
familiaridade a desinibio, pela comunicao do dia anterior. Ouo de novo 
repicarem os sinos festivamente... De manhzinha, muito cedo, digo missa. 
Igreja apinhada de homens a mulheres que assistem devotamente. No fim, 
aps as despedidas, no nos detemos a partir de volta a Tripoli, aonde 
chegamos a muito boas horas.
XVIII
Ameaas turcas
... xai ~Ti xaTaaxeusei 8p~,WVa aTTou 8pogixor,rou, olwvei 
yaXacia, gov~pei asyogvou, Taxivo xaCi aacpo ...
... e tratars ainda de aparelhar naves corredoras, mais pequenas mas 
velocssimas, aprestaxs aladas gals das chamadas unirremes, rpidas a 
ligeiras...
(Leo in Tasticia, i9.io)
Com o varrer dos dias, a detena em Tripoli comea a tornar-se-nos 
penosa a mim e a Frei Zedilho. Insistimos com os venezianos que 
providenciem a nossa partida, j que sabem muito bem quando teremos nau de 
Chipre para Veneza. Todas as semanas tm recado, por causa das 
mercadorias que nela ho-de embarcar. Detm-nos com *Duita cortesia. No 
nos agastssemos, estava sempre a dizer Misser Matial Eles tomavam  sua 
conta a nossa partida, que havia de ser testes com a ajuda de Nosso Senhor ...
Todavia eu andava desconfiado se essa ajuda de Nosso Senhor, 
dado que qualquer pretegto lhes servia para nos retardarem, no seria putra 
espcie de ajuda, vinda n.o sei de quem a contra mim dirigida. kesolvi reagir 
e, ouvindo dizer que uma nau de Marselha estava no
rto a se preparava para partir, sem fazermos caso da desconfiana s 
nossos hospedeiros, fomos, meu companheiro a eu, ter com o hsul dos 
franceses a demos-lhe conta da nossa determinao. Cha
350
35
mado o patro da nau, que andava na cidade, concertmo-nos com ele 
acerca da nossa partida logo que o barco largasse.
- Tenho pena de vos no poder levar de graa - escusou-se ele -, mas 
sou pobre...
Fomos ao porto ver a nau. Que desiluso  O aposento que nos 
dstinavam era em extremo pequeno a desconfortvel, o barco tambm, todo 
ocupado de mercadorias, os franceses sujos a mal arranjados, descompostos... 
Viemo-nos embora, despedindo-nos deles e resolvendo, muito contra nosso 
desejo, esperar todo o tempo que bem parecesse aos venezianos.
- Na verdade - desculpava-se Frei Zedilho perante Misser Matia a Misser 
Rgulo -, uma jornada to comprida por mar, a no ir uma pessoa bem 
acomodada em muito bom navio...
- ... a mais no Vero ... - acrescentava eu. - ...  morrer 
- Pois   - concordou Misser Matia. - Ns sabamos que a coisa havia de 
sair desta maneira. Por isso vos no dissemos nada e deixmos a experincia 
ensinar-vos que tnhamos razo.
- Perdoai-nos - disse eu. - Mas  muito grande a vontade de nos vermos 
em terra de cristos...
- No vos apoquenteis - acudiu Misser Rgulo dirigindo-se a mim. - Aqui 
o vosso anfitrio Misser Matia dentro de poucos dias ter uma nau aparelhada 
para partir.
Misser Matia confirmou:
-No vos disse nada. Queria fazer-vos a surpresa...  verdadel Daqui a 
trs dias ...
Ficmos muito contentes com a novidade a eu duplamente, pois 
comeavam a desanuviar-se as suspeitas que me haviam assaltado quanto s 
intenes do meu hospedeiro. Dali a dias, nau carregada de mercadorias com 
destino a Veneza... Sem o sabermos, grande matalotagem a ns destinada, 
mandada fazer por Misser Matia,  sua conta, principescamente como quem 
ele era, de todas as coisas necessrias para o mar. Quando disso tommos 
conhecimento, disse-lhe:
- Misser Matia  Tanto incmodo por nossa causa  Agradecemo-vos muito 
a em troca,  a nossa moeda, rezaremos por vs. Mas at Chipre basta, que l 
nos proveremos do que houvermos mister.
- De maneira nenhuma - retorquiu.
- No consentiremos em tal coisa - acrescentou Misser Rgulo.
352
-E mais: de comum acordo a voto, vamos fazer entre todos os 
venezianos um peditrio de dinheiro para levardes...
- Qu? - admirou-se Frei Zedilho.
- Misser Matia - disse eu muito grave. - Misser Rgulo  A est o que em 
nenhum modo podemos permitir.
- No bastou j todo o acolhimento que nos fizestes, a hospedagem que 
nos destes durante tantos dias?...
- Ento no vedes o longo caminho que tendes a percorrer? tornou 
Misser Matia.
- Quantas jornadas a andar at chegardes a essa Espanha, a esse 
Portugall...
- No insistais - respondi. - No aceitaremos dinheiro de modo nenhum. 
Esqueceis-vos de que somos franciscanos?
Por ento se acomodaram os nossos amigos a desistiram do peditrio 
pblico, mas na hora da partida da caravela voltaram  carga. Despedamo-nos 
dos muitos venezianos a outros mercadores que ao porto nos acompanharam, 
pedindo-nos a bno com grandes perdes a cumprimentos. Davam-nos 
muitas cartas de recomendao para o !; capito de Famagusta, onde a 
caravela primeiro havia de tocar a deixarnos em terra, a para outros senhores 
da cidade, seus conhecidos. Tomaram-nos  parte Misser Matia a Misser 
Rgulo. No levassem a mal nossas reverncias se insistiam, mas, dado no 
termos aceito o peditrio pblico, haviam feito outro, entre si, secreto, a muito 
nos rogavam quisssemos aceitar aquela esmola, recordando a longura e 
trabalhos da nossa jornada at  longnqua Ibria como pernosticamente 
diziam.
A nossa determinao, todavia, permaneceu to inabalvel que, vcndo 
no querermos por nenhuma via admitir seus importunos rogos, >ficaram de 
nossa modstia muito edificados, louvando-a uns aos outros como coisa 
estranha. A verdade, porm, era que a nossa atitude no procedeu da virtude, 
mas de no termos evidente necessidade. Assim partimos para Chipre... 
Comoo a saudade ao deixar aquela terra para sempre ...
Cada dia que passa eu naso-me outro e a noo do real  movedia, a 
confundir-se sem fronteiras definidas com o sonho... Travo longos dilogos 
interiores entre eu a mim a acontece o que ontem sra opinio e o sentir de um, 
ser hoje o sentir a opinio do outro... Fundir a desfundir... a desencontro ... De 
modo que sempre ando
353
no fiado da sinceridade dos meus sentimentos a da objectividade das 
minhas ideias. s um fingideirol, digo-me, a outran vezes: Quando  que 
um dia vers claro?, ouo-me... Mas, por cima de mim, para alm de mim, h 
ainda uma terceira voz que ri descaradamente de tudo o que penso, sinto a 
fao, critica, analisa, desmembra, escalpela, desmonta pea por pea, destri, 
descompe ... a me deixa desfeito em pedaos que a muito custo eu tento 
juntar para ser eu mesmo. H ainda uma outra voz, sensata a calma, que me 
segreda: No to desdobres, funde-lo num s para seres sincero, para poderes 
ser to mesmo, uno de crebro a de corao ... Esta d conselhos, no passa 
da inteno...
Comoo a saudade l ... Eis o que sinto ou julgo estar a sentir ou devia 
estar sentindo em tal circunstncia como esta. Zarpamos de Trpoli com vento 
de feio.  fim de tarde. Bandos de gaivotas, com a azfama do abrir das 
velas a do estridor da corrente da ncora a ser iada, largam das vergas de 
mastros a mastarus a revoar em largos crculos serenos em torno da 
caravela. Permaneo na amurada, sozinho, vendo distanciarem-se aquelas 
terras benditas a fecharem-se sonolentas as roxas plpebras violetas da noite 
sobre o Lbano... Carmelo... Tiro... Sidnia... toda a linha negro-prpura da 
plancie de sdrelon para sul ... Jafo ... at perder de vista... No vieram 
despedir-se de ns as rolas que  chegada non haviam dado as boas-vindas, 
mas esvoaam em redor de mim as asas dos meus pensamentos, a esfriarem 
o calor da saudade a da comoo que me invadem a alma... Comoo a 
saudade l Eis o que jingo devia estar sentindo em tal ocasio... Sentimentos 
literrios ... poesia ...  hora da largada ... Comiserao de mim mesmo ! . . . 
Egosmo, dor, aperto, raiva, n.o daquilo que fica a restar na recordao do 
que se viveu, mas daquilo que se perde abandonando para sempre esta terra: 
a liberdade, lassos os laos da disciplina a obedincia monstica, a 
movimentao contnua a variada, a bel-prazer, por toda a parte, a 
possibilidade de ainda encontrar Helena ... A angstia de, com a partida, haver 
que revolver de novo dentro de mim a opo do meu voto ... como da primeira 
vez ... O dilema da minha identidade, na hora de voltar a casa!... Quem sou eu 
afinal? Quem you ser eu quando chegar? Pantaleo? Joo? Que  um 
nome?,.. Vem c, minha paisagem interior  To pouco to tenho olhado  Trago 
os olhos virados para fora, habituados a reparar nas main subtis mincias ... a 
to mope sou de
354
mim mesmo ... Despe o teu nome e a tua roupa  Despe a tua famlia e a 
tua prospia  Despe tudo o que aprendeste nos livros a nas escolas a nas 
catequeses  Despe os plpitos, as tribunas a as ctedras dos sbios ... S 
assim, nu, ao sol a ao vento, na bonana a na tempestade, sob as 
constelaes das estrelas, no alto das montanhas ou nas plancies sem fim, 
junto ao quebrar das ondas salgadas ou  margem do riacho, ouvindo os 
silogismos da gua chocalhando gargalhadas no cascalho do leito, os sofismas 
dos sardes pintalgados que se aquecem refastelados na barriga das lapas, os 
axiomas de todos os trinados a gorjeios entre a folhagem das rvores - s 
assim to sabers e sentirs que s apenas um homem no seio da Criao... 
Volta depois a casa. Torna a vestir-lo com o teu nome e o teu hbito, veste 
todas as coisas que to enrouparam a inteligncia e o corao, no resistas a 
sentir pungente, dentro de ti, a comoo e a saudade de agora, que tudo isso  
o momento, o instante no homem que to s...
- Irmo Pantaleo - chamava Frei Zedilho. - To distrado estais a 
envosmesmado que no ouvis o toque da sineta de bordo a chamar  ceia?
- L you ... - respondi, pensando que comer era a ltima coisa que me 
acudiria ao esprito numa ocasio destas.
Mas, como insistisse, despeguei-me a custo da amurada a dirigi-me para 
dentro. Sem me dar conta, fizera-se noite cerrada a de Trpoli, de toda a terra, 
j nada se distinguia, embora os meus olhos, por uma ltima vez, 
pretendessem rasgar as trevas naquela direco, recordando e revolvendo na 
lembrana tudo o que se passara enquanto vivera em terras de Palestina...
Trs dias depois, pela manh, Famagusta  vista  Desembarcados, 
aguarda-nos uma grande a inesperada contrariedade : as portas da cidade 
esto fechadas a no  a ningum permitido entrar. Apinha-se gente c fora, 
carregada de bagagens.
- Que sucede? - pergunto quando me aproximo.
- Guardam-se da peste. Parece que a h na Terra Santa.
-  verdade - disse um mercador. - Estive em Tiro a j l vinha chegando 
gente fugida de Jerusalm. Havia a peste na Semana Santa. Que ajuntaram 
tantas naes este ano pela Pscoa que pela cidade ia um grande fedor, alm 
de que quase toda aquela gente vive sujamente ...
355
- Mas quando ns de l samos - protestava Frei Zedilho ainda no havia 
peste nenhumal...
No so bastantes as cartas de favor que trazemos nem menos a 
indicao certa do tempo em que abandonmos Jerusalm a estivemos em 
Damasco a Trpoli. No somos admitidos a entrar na cidade. Do-nos, todavia, 
junto das muralhas a ao longo do mar uma ermida para nos recolhermos na 
companhia de um honrado homem natural de Famagusta a nela casado, de 
nome Himrio Caritpuli.  no pequeno privilgio a conforto, a cotejar com as 
condies em que fica a maior parte da outra gente. Triste espectculo o 
desses desgraados, ao desamparo na estreita lngua de areia a rebos que, 
para alm do porto, a mar deixava entre a gua e o muro da cidade  Nem 
sequer se podiam estender para o interior, que as rochas da montanha 
descendo at ao mar os impediam. Fome, sede, o frio, a humidade da maresia, 
a mngua de todo o agasalho ... durante tantos dias ... A ns no nos  de 
pouca ajuda a companhia deste famagustense, porque todos os dias a esposa 
e a sogra aparecem.
- Himrio ! - grita a mulher do alto do muro, por cima do nosso tugrio.
- L you - responde ele, saindo.
Ns acorremos tambm a ajudar a recolher as provises que vm 
muralha a baixo numa cesta suspensa de uma corda. No falta nunca um 
pichel de bom vinho cipriota para o hmido frio das noites.
Tambm o capito de Famagusta, vendo nas cartas que lhe envimos 
as muitas a reiteradas recomendaes dos nobres senhores venezianos de 
Trpoli, nos envia a visitar a dar suas escusas por nos no mandar logo entrar. 
Tem algumas pessoas muito honradas a suas amigas ali em degredo a mais 
desagasalhadas do que nossas reverncias. Seria escndalo admitir nossas 
reverncias a no a elas, embora muito bem soubesse que nossas reverncias 
vnhamos desimpedidos da peste, mas nos satisfaria com estarmos apenas 
oito dias, enquanto os outros, como era use nestas partes, haviam de estar os 
quarenta dias completos... Assim diziam. Uma tarde ele prprio nos vem falar 
ao muro, no que nos fez muita honra a no pequeno favor. O padre guardio 
do mosteiro franciscano da cidade no falta um s dia a consolar-nos com sua 
palavra e a prover-nos do necessrio a at do sobejo, que a meus rogos nos 
d com que possamos acudir a outros mais necessitados. Passamos os dias, 
eu a meu companheiro, a visitar
356
e a ajudar aquela gente, a todas as manhs na ermidinha dizemos missa 
a que todos devotamente assistem.
Os oito dias de degredo terminados, mandou-nos o capito entrar, na 
companhia de alguns amigos seus, e a nossa primeira preocupao foi a de o 
irmos visitar a agradecer o acatamento que nos fazia. Aposentmo-nos em 
seguida no nosso Convento de So Francisco, onde os padres conventuais nos 
receberam com mostras de grande alegria. Aproveitmos os cinco dias que 
estivemos em Famagusta para fazermos o biscoito a toda a mais proviso 
necessria para o mar, a daqui nos partimos para Salinas, onde estavam duas 
naus venezianas, j de todo carregadas esperando tempo para largarem. Ao 
longo da praia o mesmo triste espectculo de muita pobre gente em degredo a 
quarentena por ter chegado da Terra Santa. Entre ela, trs mulheres 
portuguesas, uma moa de Ceuta a duas velhas, uma de Moura, de alcu
s nha a Brava, a outra de Lisboa, por sobrenome Faluga. Muito 
necessitadas, mostraram-se em extremo ditosas com a nossa chegada, pois 
'zs provemos do que nos foi possvel, como prximas que de ns eram.
Havamos tomado aposento numa das naus venezianas, pronta a partir 
a todo o momento que nos surgisse vento de feio. Dias arreliadores esses 
em que as velas permaneciam inertes, pingadas, sem a
' mais leve aragem que as animasse!... Na cidade no se podia entrar, 
a praia estava coalhada de gente de quarentena... Invadia-me o tdio, um tdio 
pior que toda a melancolia monstica que por vezes me assaltava. Para me 
ocupar comecei a pr ordem nas minhas notas de viagem. S agora dava 
conta do acervo de material que havia ajuntado. Que quantidade a que 
variedade  Acrescentava dados que ainda estavam frescos na memria, fazia 
aditamentos de referncias bblicas ou de livros profanos a lugares por onde 
havia passado. Frei Zedilho, Sue tambm sentia a inaco, sentava-se muitas 
vezes a meu lado e ajudava-me nas citaes histricas. No tendo tendncia 
para escrever, mostrava-se no entanto entusiasmado com assistir ao nascer de 
um Itinerrio da Terra Santa. Era no tombadilho, a apanharmos sol como os 
lagartos.
- Quando o publicardes, no vos haveis de esquecer de me "enviar um.
- Estai descansado, irmo. Sereis o primeiro a ser lembrado ... se 
alguma vez o publican..
- Se alguma vez... ? Ento no tendes inteno.. . ?
357
- No foi com essa ideia que o escrevi...
- Voltais ao mesmo? J falmos sobre isso a vs prometestes... - No 
sei ... Estou to indeciso ...
Correm marinheiros  amurada a olhar o porto. Burburinho de vozes a 
bordo a pela praia. Dez gals turcas, de velas vermelhas com o crescente e a 
estrela, vm entrando no porto, as cerradas fileiras de remos batendo em ritmo 
certo na gua. So compridas, com um aguado esporo  proa, no beque 
afilado, a deslizam velozes.
- So turcos  So turcos - clamam vozes atemorizadas, mas o patro da 
nau, homem experiente a calmo, sossega-os:
-  gente de paz  So da guarda de Rodes. Devem vir por provises. 
No  caso para sustos.
E manda que a nossa nau, para saudar a chegada das gals turcas, 
dispare salvas de artilharia. A nau veneziana que est a nosso lado, cujo 
patro se chama Davo, faz o mesmo, mas por descuido ou acidente um dos 
pelouros que lana  de ferro-coado, o que os turcos muito sentem, embora 
lhes no tenha causado dano. Como, porm, as naus esto bem armadas a 
artilhadas a h outras da sua conserva, dissimulam a injria, vendo n.o ser 
ocasio de se vingarem dela.
Em terra as coisas no se passam sem um certo enfadamento. Qu,erem 
os turcos sair, mas logo acode muita gente de p a de cavalo que lho defende. 
Todavia proveram-nos de carnes a do mais refresco da terra e a coisa 
acalmou... Tempo da sua Pscoa, estiveram ali trs dias. Festejam-na com a 
todo o momento atirarem muita artilharia, as gals todas embandeiradas a 
alumiadas, de noite, com grandes fogos e luminrias. Nos disparos que faziam 
no lhes faltou malcia, que trs ou quatro, nocturnos, foram com pelouros de 
ferro-coado. Sentia eu com isto que havia ali algo mais do que desejo de tirar 
desforo do incidente com Davo : um estado latente de provocao, de medir 
foras, que no ensinamento da histria costuma preceder a guerra. Os 
acontecimentos futuros haviam de me dar razo ... Passados trs dias se 
partiram, ameaando Davo de que no esperaria pela demora.
Soprou-nos finalmente uma aragem a em breve, as velas enfunadas, 
com muita alegria de todos nos fizemos ao mar. Seguimos ao longo de toda a 
ilha a j navegvamos pelo golfo de Satlia quando comeam de nos tratar mal 
as calmarias, com to grandes sorbies do mar que a nau baloiava de uma 
parte a outra a os passageiros, em especial os no acostumados a estas 
viagens, enjoavam a adoeciam. Como eram
358
muitos, cerca de cem, a entre eles algumas mulheres com seus maridos, 
era cena vulgar v-los debruados da amurada a tentar, em grande agonia, 
volver ao mar a alma e o estmago vazio. Frei Zedilho no saa do camarote 
nem sequer tinha nimo para se levantar da cama, macilento a coado que 
estava. Eu andava pelo convs a acudir a quem podia e, no raro, a confessar 
os que com as tripas julgavam vomitar a vida. Durou tanto este enfadamento 
que o patro, com o conselho do piloto a dos demais oficiais de bordo, resolveu 
tomar terra a a esperar melhor tempo para a viagem. Tornando atrs, tomou-
se porto junto de Pafo, no mesmo abrigo onde  ida com a tempestade 
estivemos retidos quase um ms. Esvaziou-se o navio da gente que levava, 
pois todos ansiavam por terra. Meu companheiro a eu fomos logo procurar o 
nosso an-igo Constantim Polachi, que to bem nos acolhera da outra vez a nos 
escrevera para Jerusalm rogando-nos muito que  volta tornssemos por 
Pafo. Indescritvel a festa que nos fez  Chorou de alegria, abraava-nos a no 
descansou enquanto nos no convidou para sua casa a nos buscava todos os 
mimos a refrescos que melhor havia na terra, os oito dias que a nau esteve no 
porto de Pafo.
- Que queres - disse-lhe eu na hora de nossa partida - que to mandemos 
de Veneza?
- Nesta vida - respondeu ele com os olhos a gemerem gua no desejo 
outra coisa seno que tenhais memria de mim...
Aqui fica, amigo Constantim, a memria de ti ... De uma amizade pura, 
que nada pedia a em si mesma tinha sua finalidade, que eliminava todo o 
resqucio de egosmo a apenas se satisfazia em dar: Que o seu perfume se 
evole pelos sculos fora ...
Acode-nos tempo, ainda que no muito bonanoso, a damos vela 
navegando de novo pelo grande golfo de Satlia. Saem-nos ao encontro as 
gals de Rodes que haviam estado no porto de Salinas. Coisa temerosa de ver 
as dez barrigas enfunadas daquelas velas vermelhas, com o crescente amarelo 
no bojo inchado, as fileiras dos remos a baterem compassadas, a comearem 
a descrever o movimento envolvente, quatro pela nossa esquerda, quatro pela 
direita e a meio a capitaina com sua conserva, proximando-se velozmente l...
- Ai, meu Deus ! - geme uma mulher, agarrada ao marido. - o nosso 
fiml
Na maior parte de ns, porm,  o silncio a expresso do profundo 
temor. At a tripulao est atemorizada.
359
- Levamos pouco vento - disse um oficial junto do capito da nau. - Se 
no fosse isso, no nos apanhariam a nada tnhamos que temer...
- Oficial l - ordenou o capito. - Mande amainar um pouco a vela mestra, 
em sinal de obedincia.
- Amainar a vela mestra! - gritou o oficial, j o capito estava a dar 
ordens ao escrivo, que logo com dois grumetes se meteu em um esquife a 
remaram direito  gal capitaina, que vinha a meio a na traseira das outras. 
Quando a ela chegou, j seis das gals, trs de cada lado, estavam ao bordo 
da nossa nau, aguardando instrues da capitaina. O tempo parece que tinha 
parado a os nossos coraes deixado de pulsar. A morte estava ali na nossa 
frente. Vamos-lhe o ar frio, insensvel a irredutvel, no semblante daqueles 
homens de barba hirsuta, peito tisnado pelo sol, braos vigorosos, nas m.os 
adagas a pistoletes, punhais afiados na cintura. Eram rostos sinistros em sua 
apatia, no exprimiam dio, nem rancor, nem piedade, sentimento algum. A um 
sinal da capitaina a num breve momento a nossa nau ver-se-is abalroada, 
abordada, a as lminas a as balas cumpririam a sua misso ... e em poucos 
segundos esta centena de cristos iria tingir do seu sangue as guas do mar, 
sepultada no grande caixo incendiado que seria o nosso barco ... O nosso 
capito estava coisa piedosa de ver a toda a mais gente torvada a temerosa 
como quem se via na hora da agonia...
Fez sinal a capitaina, que ns os no mareantes no entendemos, mas 
as gals comearam imediatamente a afastar-se, o nosso capito e seus 
oficiais respiraram fundo, aliviados do pesadelo, a com a vista destas mostras, 
sem palavras trocadas, que todos estvamos mais que tartamudos, serenou 
pouco a pouco o nosso esprito. Regressado o escrivo  nau, contou como, 
depois de dar ao turco da parte do capito a obedincia, perguntou aquele 
quem vinha com a capitaina da nau a de quem era. Ouvindo a resposta, logo 
fez o sinal de paz a ofereceu-se do que levava, se queramos gua, lenha ou 
qualquer outra cvisa. Perguntou por Davo a onde tinha ficado, dizendo que o 
andava esperando.
- Hei-de vingar-me - afirmava - da injria que em Salinas me fez, 
salvando-me da sua nau com pelouro 
Seguindo nossa rota, livres de perigo, navegmos  vista da Cramnia, 
flectimos a noroeste e, na vspera de So Joo Baptista, um sbado  tarde 
desse ano de quinhentos a sessenta a cinco, tommos
360
porto da banda de frica, abaixo do Egipto, num deserto que, mau grado 
a sua aspereza, nos pareceu o mais fresco a vioso dos abases, < >u osis, 
como agora se vai dizendo, que sempre a terra  descanso para os incmodos, 
priso e o isolamento do mar. Andmos por ali a ajuntar o que pudesse servir 
de lenha, madeiros de naufrgios que as ondas cuspiam  praia, alguns ramos 
mirrados de palma, uns novelos grandes de gravetos a ervas secas que o 
vento rebolava pelas dunas, e trouxemos tambm alguma da nau, j que o stio 
escasseava, a fizemos as nossas fogueiras. Em redor delas cemos, 
acompanhados do bom vinho de Chipre. Depois, pela noite fora, mulheres a 
homens, e eu com eles, fazamos roda de mos dadas, cantando em volta do 
lume. Outras vezes os mais jovens pediam espao a vinham de longe correndo 
a saltavam por cima das chamas.
- Frei Pantaleo - desafiava-me uma moa bergamasca, muito 
donairosa, de olhos grandes a negros. -  a vossa vez de saltar... Mas cuidado 
no chamusqueis a sotaina 
Aplaudiram todos a ideia a uma outra rapariga acudiu maliciosa - E to 
que lhe ds, cachopa, se ele saltar?
- Que  que lhe dou?  Ora  Dez ris de mel coado !
- Venham eles - exclamei, entrando no jogo, ovacionado por todos.
- E onde vais to buscar o mel? - tornava a amiga. - S se for aos teus 
beijos!...
Apoiou a companhia a sugesto em grande alarido a batendo as palmas
- Bravo  Bravo 
- Um beijo  Um beijo 
- Est beml - concordou a moa muito corada. - Dou-lhe um beijo se ele 
saltar a fogueira.
No me fiz rogado a toda a gente abriu alas para me ver saltar, como se 
fosse coisa do outro mundo um franciscano saltar uma fogueira, demais de So 
Joo, o santo do meu nome de menino. Fi-lo com destreza a simplicidade, pois 
sempre fui gil de pernas.
- E no chamusquei a sotaina! - exclamei, quando do outro lado do fogo 
pousei o p em terra.
Grande ovao coroou a proeza, mas maior ainda quando a moa ae 
aprogimou a me beijou a face, o que lhe agradeci beijando-lhe a testa e pondo-
lhe a mo na cabea num afago que teve o dom de retirar
36
qualquer malcia ao acto, o que todos sentiram, menos Frei Zedilho que 
estava escandalizadssimo.
Assim se ia escoando a noite e, pela madrugada, quando o brasido 
comeava a esmorecer, voltmos  nau a prosseguimos nossa viagem. A 
bordo comeou a escassear a gua de tal maneira que no-la davam racionada, 
alm de que se tornou turva a fedorenta. Como se estava passando Cndia, 
para l mandou o capito rumar, com o propsito de se fazer aguada, mess 
preparando-se para lanar ncora mudou de teno. Que bebssemos vinho  
A nau levava muito l... Tocmos Zante a Cefalnia, com pouca detena, a 
fomos uma manh dar  ilha de Corfu. Isac Beiudo estava no porto  minha 
espera.
- Sabeis que eu vinha? - perguntei abraando-o, quando desembarquei 
com meu companheiro.
- No - respondeu. - Mas tenho estado atento a todos os barcos que tm 
chegado. Vinde. Comereis comigo em minha casa. Enquanto caminhvamos, 
quis eu saber novas de Cristforo.
Que o acompanhara, por trilho de tojo a pedra, atravs da montanha, 
atravessando Cndia desde o pequeno porto onde tinham ancorado, no Sul da 
ilha, at ao Norte,  cidade de Irclion, onde moravam os pais do moo. 
Imaginasse eu a comoo ao abrir da porta, ao encararem, ao verem 
inesperadamente entrar pela casa dentro o filho que julgavam perdido l... L 
tivera de contar tudo como se passara. Estavam-nos naturalmente muito 
gratos...
- ... mess sobretudo a vs, Frei Pantaleo  - Porqu a mim?
- Ora porqu? Cristforo insistiu com os pais, a todos ns sabemos ter o 
caso sucedido assim, que se no fosse a vossa instigao a encorajamento 
nunca teria tido nimo de levar a fuga avante. - Est bem. Mess se no vos 
tivesse encontrado... !
- Insistiram comigo que vos queriam escrever. Dei-lhes o endereo da 
vossa Cria em Roma. Deveis l ter carta  vossa espera. Ides por l, no  
verdade?
- Eu no sei se v - disse Frei Zedilho.
- Eu you - afirmei, por minha vez. - No tenho pressa de seguir para 
Portugal. Farei diligncias por ficar na Cria mais uns trs anos pelo menos...
Isac estacou, ps-me a mo no brao, obrigando-me a parar, e ia a 
perguntar qualquer coisa, mess desistiu. Continumos a caminhar,
362
embrenhando-nos pelas ruas da cidade, em direco  cases de Isac, 
onde a velha ... - como se chamava ela?... - me, ties, parenta ou l que era ao 
meu misterioso amigo nos acolheu com grande alegria e amizade, afadigando-
se logo em nos pr na mesa po, vinho, queijo, passas a outras viandas...
- Isto  para abrir o apetite - dizia -, para me dar tempo de amanhar 
coisa mais substancial para vosso almoo.
Enquanto comamos, conversvamos.
- H pouco, no caminho - disse eu a Isac -, pareceu-me que me quereis 
dizer qualquer coisa ... mess arrependestes-vos...
- Sim. No sei se deva...
- Dizei, apesar de tudo. Estou cheio de curiosidade. Habituastes-me a 
ver em vs uma espcie de mago!...
- No sei se deva - repetiu Isac. - Diz-vos respeito, diz respeito ao vosso 
foro ntimo...
- Dizei sem medo. Frei Zedilho sabe tanto como vs.
- Em Roma ... - disse ele hesitante. - O vosso segredo... ? No 
tentareis... ?
- Desvend-lo? Tenho pensado muito sobre isso. O meu segredo agora 
est comigo. Que mais quero eu?
- No conheceis, quanto me  dado saber, quem vos pretendeu matar 
em Cndia, na Terra Santa...
- Eu que o diga! - recordou com um esgar de arrepio o meu 
companheiro. - Que o erro ia-me sendo fatal, a mim ...
- ... nem se estais livre de nova tentativa... - No sejais agoirento 
- Agoirento? Sabeis quem desembarcou h dias aqui, daquela nau que 
est ancorada no porto junto  vossa?
- No.
- Adivinhai. - No sei.
-O aclito ou eg-aclito do bispo de Coimbral Um vosso amigo ...
- O cnego Miguel?!
- Sem tirar nem pr  Vem a acompanhar um tal doutor Ant-nio Pinto, 
secretrio da Embagada portuguesa em Roma, valido e agente pessoal do 
cardeal-infante D. Henrique...
363
- Hum  Vi-o uma vez - disse eu - a esse D. Henrique a presidir a um 
auto-de-f em vora, espectculo de que tenho triste recordao. No sei 
porqu, mas no gostei dele desde a primeira vez que o vi... Deus me perdoe 
... Mas esse Pinto... ?
- Passam-se coisas extraordinrias a esquisitas no reino ! Ou eu me 
engano muito ou tudo isso significa o comeo de uma profunda crise que ir 
dar a alguma grande desgraa. O rei  menor. O cardeal quer tirar a regncia a 
D. Catarina de Austria. Apartam-se e definem-se duas faces que travam 
entre si uma luta surda. Procuram uns a outros aliciar o Papa. Sucedem-se os 
embaixadores, mas Pinto permanece de pedra a cal. Parece que o cardeal vai 
ganhar a batalha...
- Quando eu embarquei em Veneza para Terra Santa, estava de partida 
para o reino D. Loureno Pires de Tvora, muito descontente e magoado com a 
paga que recebia do cardeal, depois do que tanto para ele havia conseguido...
- Sim. Quase o ia fazendo papa 
- Papa? -. admirou-se Frei Zedilho.
- Os quinze votos que o cardeal obteve no conclave que reuniu por 
morte de Paulo IV - respondi - foram resultado de todo um subtil trabalho 
diplomtico do incansvel embaixador portugus.
- A esse conheci-o eu muito bem - disse Isac -, que me carteei amide 
com ele a com ele me encontrei  puridade algures em Itlia. Homem valente, 
experimentado nas guerras do Norte de frica a na conquista da India 
Orientall... Amigo do vice-rei D. Joo de Castro!... No s perito nas coisas da 
guerra mas tambm da paz ... Fino conhecedor dos homens ! O Papa tinha-o 
quase como conselheiro privado e pedia  corte portuguesa que o conservasse 
em Roma por mais tempo que o costumado para o exerccio do cargo. Quando 
D. Loureno Pires de Tvora conseguiu para D. Henrique essas benesses a 
privilgios, a restituio da dignidade de legado a latere, que Paulo IV 
suspendera, a outras, props que, em prova de reconhecimento, se oferecesse 
ao Papa algum presente de valia. Sugeria um elefante, anis... No sei como 
se teve nesse negcio. Tive entretanto de partir para Levante, como sabeis...
- Foi mais ou menos por essa altura que chegou a Trento D. Fernando 
de Meneses, para substituir D. Loureno. Lembro-me dessa triste disputa sobre 
quem havia de escrever a ler a orao de sapincia na investidura de Pio IV. 
Aquiles Estao, humanista de primeira
364
gua, no aceitou proferir um discurso que lhe impunham, quando ele 
prprio j havia composto o seu com a aprovao do embaixador Loureno 
Pires de Tvora. Acabou por ser o douto dominicano Francisco Foreiro a ler 
essa pea oratria...
Chegava (Qual  a sua graa, tiazinha? - Ester, meu senhor, uma 
criada para servir vossa reverncial) ... chegava Ester com uma terrina 
fumegante de caldo de legumes a feijo, rescendente, que no tardou a ser 
atacado com sopas de po de centeio, um consolo para os nossos estmagos 
to enjoados da comida desenxabida a revolta de bordo. Enquanto comamos, 
os nossos pensamentos procuravam encontrar o fio condutor da conversa.
- Mas que estar aqui a fazer - perguntei eu - o secretrio da 
Embaixada?
- No sei - respondeu Isac. - Ele tem sido encarregado de cnisses de 
certo modo importantes a melindrosas. Quando da reabertura do conclio, foi 
enviado  Etipia,  corte do Preste Joo, com cartas de Pio IV a de D. 
Sebastio, que solicitavam o envio de embaixadores etiopes a Trento. No 
descansou enquanto os no viu embarcar no Gro-Cairo para Roma. Encetou 
ento o regresso, sem pressas, tomando o caminho da Terra Santa, onde 
encontrou a acolheu na sua comitiva o cnego Miguel, que o bispo D. Joo 
Soares, pelos motivos que ns os trs sabemos, havia corrido da sua 
companhia. Trouxe-o para Roma a parece que so unha com carne. O que 
esto aqui a fazer agora  o que eu no sei. Desceram de Veneza...
- No devem estar a tramar boa coisa ... - interveio Frei Zedilho.
- Tenho-os mandado vigiar discretamente... - E ento ?
- Aparentemente nada de suspeito. Nem sempre andam juntos. Uma 
destas noites  que fizeram uma estranha incurso, metendo-se num batel com 
um pescador que se d muito bem com os de ali em frente, do lado de l do 
estreito, na costa grega que  de turcos, como sabeis.
- No vos d isso cuidado. Olhai. Comigo  que o caso no . O cnego 
no pode adivinhar que eu estou aqui...
- No estejais to certo disso. Vi-o no porto,  chegada da vossa nau. 
Deve ter-vos visto desembarcar...
365
- Ora  Terei cautela. Saberei resguardar-me e, enquanto aqui estiver, 
andarei sempre na vossa companhia... - e acrescentei mudando de assunto: - 
Quando fordes a Roma ireis visitar-me?
- Sim. Irei l no prximo ms. Tenho importantes negcios a tratar.
No queria, evidentemente, declarar que os negcios eram 
comunicaes secretas para o nosso embaixador, mas eu tirei nabos da 
pcara:
- Tendes aqui  mo o secretrio da Embaixada. Porque no tratais com 
ele?
- Os meus contactos com a Embaixada - respondeu cheio de 
importncia - tm sido sempre directamente com o embaixador e em lugar a 
tempo secretos, no maior sigilo, escusado ser dizer porqu.
- Passa-se alguma coisa de extraordinrio? Pareceu-me, quando estive 
agora em Chipre, que os turcos esto a levantar cabelo... Se apanham um 
barco dos nossos a navegar sozinho, arrogam-se o serem senhores do mar...
- Sim  Isso a muito mais, relacionado no s com as suas ambies 
sobre a Europa e o Mediterrneo, mas ainda com toda a regio do golfo 
Prsico, do mar Vermelho, a com a ndia Oriental.
O bom peixe cozido que a anfitri nos punha na mesa distraa-nos desse 
fio de conversa para outros pensamentos mais leves a amveis, de maneira 
que o tempo se escoava sem o sentirmos.  tardinha regressmos  nau, 
acompanhados pelo nosso amigo, que se mostrava receoso de que me 
acontecesse alguma coisa. No aconteceu, nem nos dias que se seguiram, de 
modo que comemos, eu a meu companheiro, a andar confiantes pela cidade, 
o que Isac em extremo desaprovava, tanto mais que, tendo assuntos a atender 
- compreendamos, no era verdade? -, no dispunha de todo o vagar para nos 
prestar auxlio, se fosse o caso.
- A est uma pergunta que undo h muito para vos fazer. Quem vos deu 
recado para me proteger na Terra Santa?
- Sois muito curioso na maneira de fazer a pergunta  Quereis dizer com 
isso que a vossa referncia  apenas  Terra Santa, j que em Chipre...
- Em Chipre foi o acaso que me salvou.
366
- Sim, foi o acaso. Eu no tinha podido chegar a tempo de vos 
acompanhar desde Corfu, algures retido numa caravana por uma tempestade 
de areia no deserto do Sinai, vindo de Adm a Ormuz:
- Ent.o estveis encarregado de me proteger desde Corfu? E quem 
vos encarregava?
- No me compete a mim diz-lo, se ainda o n.o adivinhastes cum o 
que provavelmente mestre Jacob vos contou. Se no o sabeis, como a vossa 
pergunta o est inculcando, sab-lo-eis muito em breve ... por vs mesmo. No 
ser necessrio que algum vo-lo diga...
Isac Beiudo era evidentemente um homem seguro. Por isso mesmo se 
podia confiar nele, at para os segredos mais terrveis. Era bem o homem 
indicado para espio portugus nessa rea to crtica e perigosa que ia de 
Portugal  India, em que se jogavam interesses e ambies no s das 
principais naes da Europa, mas ainda da sia a do Norte de frica, 
interesses a ambies que se estavam j alargando s ndias Ocidentais e a 
terras do Pacfico... Era natural que no pudesse nem quisesse confiar a um 
Antnio Pinto qualquer os seus comunicados para o embaixador.
- Antnio Pinto  um homem servil a peganhento.  o prottipo do 
cristo-novo hipcrita a adulador. Seu av materno foi queimado pela 
Inquisio a ele sente arrepios s de o lembrarl
Isac desabafava, mas no dizia tudo o que sabia.
- Tende cuidado convosco - aconselhava-me insistentemente. Que 
estaria ele adivinhando?...
O stimo dia da mnha estada em Corfu  um dia de grande violncia e a 
minha vida ou o meu destino correram srios riscos. Estranhamente  um dia 
em que me no sinto. Tudo me acontece como em sonho. Ensurdecem as 
coisas  minha volta ou sou eu que estou surdo para o que me rodeia. No 
ouo vozes nem gritos, no me to~lhe o frio ou me alaga o calor, no 
experimento a dor ou o prazer, a alegria de estar vivo ou o pavor visceral da 
morte, como se o meu corpo fosse coisa no viva a nada mais que um 
invlucro. Olho-me, apalpo-me. Se isto  o meu corpo - digo a mim mesmo -, 
ele no  eu, eu no sou ele. Se  meu, no passa de uma pertena minha, um 
objecto, como o medalho que trago ao peito a j retirei da bainha a minha 
sotaina.  exterior a mim. O meu corpo  como o meu hbito. Posso despi-lo a 
todo o momento...
367
Ser assim? Que invulgar torpor me invade neste fim de tarde morno a 
parado em que caminho com meu companheiro pela praia deserta da ilha ... 
Ver-me de repente rodeado de uma malta de seis homens com paus, facas 
pontiagudas nas mos, em atitude agressiva,  para mim nesta ocasio quase 
o mesmo que olhar casualmente para a espuma das ondas ou para um bando 
de gaivotas que, pousadas na areia, levantam seu voo encolhendo as patas, 
quando nos aproximamos. Donde surgiram? Talvez de detrs de uns 
rochedos... No os senti. Tenho a vaga impresso de que Frei Zedilho ia a falar 
comigo, que o no ouvia, a deu sbito um grito, desatando a fugir. Dois dos 
homens vo atrs dele a afugentam-no ainda mais, sem se esforarem por o 
agarrar, regressando ao grupo quando totalmente o vem desaparecer para l 
das rochas... No h palavras a creio que aquele aparato de punhais 
desembainhados a paus em riste tinha o propsito de afugentar o meu 
companheiro. Recolhem as facas nos cintos, lanam os paus fora, vendo a 
minha alheada passividade, a um dos homens amarra-me os pulsos cruzados 
nas costas, sobre os rins. Levam-me para uma pequena abra que ali perto se 
esconde entre a penedia. Um batel na areia parece aguardar-nos. Falam entre 
si. Curtas palavras, mas o bastante para perceber que so turcos. A realidade 
comea a aproximar-se de mim em fragmentos de versos que me acodem ao 
espirito a emergem aos lbios...
... no haver lgrimas l longe em olhos de mulher...
Comeam alguns a empurrar o batel para a gua, inclinados para a 
frente, ps descalos enterrados na areia...
... no reboar pela claustra do convento o cantocho do coro...
J dois homens me esto levando para o barco, quando se ouvenm tiros 
vindos dos penedos. Trs deles caem feridos ou mortos, no sei. Os outros 
fogem para trs das rochas, deixando-me s na praia aberta. Descem guardas 
 areia, de armas aperradas, a agrupam contra uma grande lapa os homens 
que fugiram. O chefe dos guardas comea a falar, em turco. Presumo estar-
lhes a dizer que aquele  territrio
368
de Veneza a que, se tornam a pr ali os ps, sero todos mortos. 
Manda-os depois embarcar a levar consigo os que jazem por terra. Ficamos ali, 
como esttuas, a ver o batel afastar-se. Ouve-se apenas o espraiar das ondas 
na areia e o chape-chape dos remos na gua. Quando o barco j vai longe, o 
chefe vira-se ento para uma personagem que eu ainda no tinha visto a diz-
lhe em veneziano:
- A tendes o vosso frade, senhor doutor. Podeis lev-lo.
Os guardas retiram-se a eu olho a pessoa que desceu das rochas e se 
aproxima de mim.  um homem de meia-idade, cara flcida, barbela sob o 
queixo, sobrancelhas espessas a grisalhas, a calva descoberta aps tirar o 
grande chapu abado, com grande vnia diante de mim, adiantando o p 
direito com seu sapato de fivela, meia ajustada  perna at ao joelho, calas 
tufadas a golpeadas do joelho  cintura, bluso aberto a largo a ver-se-lhe no 
peitilho branco a rendilhado uma gorda corrente de prata.
- Antnio Pinto - apresenta-se numa voz submissa a servil -, um criado 
de vossa reverncia.
Sem dizer palavra, virei-me de costas para ele, mostrando-lhe as mos 
atadas. Comeou logo a tentar desligar-me. Tremiam-lhe as mos a custava-
lhe desenvencilhar os ns da corda. Por fim conseguiu.
- Julgo - digo-lhe eu, enquanto esfrego os puJsos - que me sabereis 
explicar o que se passa.
- Breve o ouvireis. Agora no h tempo a perder, que temos de ir libertar 
algum que se encontra sequestrado - respondeu, pondo-se a caminhar o mais 
lesto que podia.
Sigo-o, pensando em meu companheiro Frei Zedilho. Ter-lhe- 
acontecido alguma coisa? Rapidamente metemos por umas ruelas e, quando 
Pinto estaca, estamos, com grande espanto meu, diante da porta de Isac 
Beiudo. No  preciso bater. A porta abre-se a Isac aparece, tendo por trs 
Frei Zedilho.
- O dia  de surpresas - ocorre-me dizer, em minha confuso, enquanto 
Isac me abraa.
- A simplicidade e a calma com que dizeis isso I Como se no tivsseis 
sido vs o centro de tudo ... Sim. O dia  de surpresas a as maiores sab-las-
eis daqui a pouco. Entrai.
Entrei. Antnio Pinto, sem se mover, disse:
- No necessito de entrar. Volvei-me meu companheiro, o cnego
369
Miguel, como ficou combinado entre ns. Como vedes corri a alertar a 
guarda e a salvar o frade.
- Praticastes enfim uma obra de caridade - tornou-lhe Isac quase entre 
dentes, os olhos cortantes a frios como lminas de punhais. - H quanto tempo 
o no fazeis? Entrai embora, irmo  Festejaremos com malvasia uma to 
grande a desinteressada magnanimidade que leva a salvar, num rasgo herico, 
aquele que vossas tramas haviam destinado  morte ou s gals do gro-turco 
... Entrai ... - e puxou-o pelo brao, vigorosamente, a meteu-o dentro de portas. 
Pinto resfolegava, vermelho, apoplctico 
- Prometestes que se vos trouxesse o franciscano...
- No prometi nada - exclamou, irado, Isac Beiudo. - Exigi.  bem 
diferente ... E pensais que o vosso gesto vos alivia ou apaga a culpa?... No  
verdade que encontrastes pelo caminho o peloto da guarda?
- Sim. Falei-lhes imediatamente a logo se dispuseram a acorrer ao 
local...
- Sem nem sequer esperarem que lho indicsseis ... Como o 
adivinhariam, se eu de antemo os no tivesse alertado? Julgais que iria deixar 
 merc do vosso humor volteiro o destino do meu amigo? Como estais 
enganado ... S queria ver como vos haverleis perante os factos... Desejava 
saber at que ponto senteis peso na conscincia... E agora sei ...
Levou-nos para os fundos da casa que davam para um quintal e uma 
eira. Havia a uma espcie de arrecadao trrea, com utenslios agrcolas, 
aros de dornas, alfaias de marceneiro a uma forja a um canto, junto da qual, 
amarrado de ps a mos, se encontrava o cnego Miguel.
Foi uma sesso terrvell A princpio estranhei a violncia das palavras a 
dos propsitos de Isac a nem reparava na calma apatia to inslita de Frei 
Zedilho. O judeu havia fechado a porta  chave, retirando esta da fechadura a 
metendo-a no bolso. Apiedado, dei um passo para o cnego, que tinha um ar 
lamentoso, mais morto que vivo, enxovalhado de corpo a alma.
- Exac#amente, Frei Pantaleo - exclamou Isac, sarcstico. -  essa a 
ideia. Deveis ser vs a desatar os laos do vosso carrasco l... Desatar as mos 
do carrasco?... A partir daqui tudo se me torna
confuso, nebuloso, como em tantas outras ocasies semelhantes. Dir
370
-se-is que o meu esprito se defende distanciando-se, ouvindo as coisRs 
como um eco longnquo no tempo a no espao, vendo-as veladas e como 
escorrendo a deformao dos contornos. Isac parece agigantar-se, 
ensombrecendo a sala com o seu vulto ameaador:
- Ora aqui estamos ns os quatro sozinhos - ouve-se a sua voz ao longe. 
- Sozinhos perante Deus ... e o Diabo ... ahl ahl ahl... que nos esto a ver...
Frei Zedilho move os lbios silenciosos, passando nos dedos, numa 
incrvel rapidez, um rosrio enorme, de camndulas tamanhas como bugalhos. 
Acabo de desamarrar Miguel, que se pe de p, cambaleando um pouco, 
esfregando os tornozelos a os pulsos.
- E se fizssemos aqui uma pequena Inquisio, hem?... - continua a voz 
cnica de Isac, chocarreiro. - Uma Inquisio de trazer por casa a s 
avessas?... Os inquisidores a os carrascos que vs sois... - e comia com os 
olhos, terrvel, os dois desgraados - ... no lugar dos rus...
Sem eu bem saber como, aparece-lhe na mo uma pistola, o velho 
alfange de um mouro que eu encontrei um dia em So Sabas pende-lhe da 
cintura, juntamente com um fino a aguado punhal.
- Lembrai-vos de que estais em territrio de Veneza. Aqui no  a vossa 
coutada, a vossa praazinha pblica, provinciana, em que pretendeis, mais 
papistas que o papa, alumiar o mundo com fachos de judeus a arder.
- No tendes o direito de nos prender  - protesta Antnio Pinto.
- No tendes o direito de prender o franciscano, de matar o franciscano, 
de atirar para as gals dos turcos ou para a escravido dos mouros o 
franciscano!... - replica Isac tonitruante. - Estais mesmo ouro a fio para 
secretrio de embaixada! Conheceis como usar as pontas dos punhais, sabeis 
os segredos dos venenos mais subtis, no ignorais o poder de uma bolsa de 
ouro junto de assassinos a soldo... Mas soou para vs o Dia do Juzo e o 
perdo esgotou-se...
- Que ides fazer? - pergunta Miguel aterrorizado, aproximando-se de 
Isac, que com a mo esquerda o agarra pela sotaina no peito, enquanto a 
direita ergue a pistola a lhe passeia o cano pelas tmporas. O desgraado est 
branco como a cal, a respirao em estertor, camariti~as de suores frios a 
ressumar-lhe da fronte a do nariz. Encosta-lhe o judeu a arma  testa, no de 
frente mas de modo que o cano lhe fique
37
paralelo, a dispara.  um estrondo enorme no pequeno aposento, 
seguido do estilhaar de um cntaro que se encontrava pendurado na parede. 
Miguel, com o susto, d um grito a cai para o lado, meio desfalecido. Apoio-o. 
Isac pega-lhe pela roupa do cachao, de modo brusco, para o pr em p, a por 
segundos a sua cara encontra-se muito prxima da minha, o olhar grande 
muito aberto. Sem ningum ver pisca-me o olho a eu ento entendo a 
contrafaco e o jogo...
- Dei...dei...deixai-me ir embo...bo...bo...ra que eu no te...te... tenho 
na...na...nada com...com...com isto. Foi...foi...foi... ele que... que...que..: 
tra...tra...tramou tu...tu...tudo - gaguejava Antnio Pinto, cheio de terror.
- Mentes, dum co  - grita de l Miguel como um possesso, espumando 
raiva. - Mentes, assassino  Foste to que me aliciaste em Trento, prometendo-
me...
- Prometendo-vos - corta Isac - riqueza, proteco de muito alto a 
subirdes na hierarquia... Mas j l vamos. No tenho pressa. A verdade h-de 
aqui ser dita ... toda ... hoje ... agora ...
- Eu conto-vos tudo - dizia Miguel ofegante -, se me deixardes ir embora 
- ... se nos deixardes ir embora... - emenda Pinto.
- Se? - interpe Isac, fazendo-se muito espantado. - Se?  Pondes 
condies? Essa agoral... Quero toda a verdade, sem nada vos prometer. Toda 
a verdade, ainda que depois de a sabermos vos tenha de cortar aos 
bocadinhos a vos transformar em carne picada, ou vos tenha de queimar vivos, 
como costumais vs outros l na vossa terra... Para vs j no h moeda de 
troca.
Antnio Pinto, os olhos desvairados, comeou a coser-se com a parede 
e a deslizar em direco  porta. Isac fez que o no notou. Miguel gania como 
um cachorro.
- Mandar-vos para o Inferno o mais depressa possvel. Ansioso por vs 
est Satans ... Sei de um stio ermo, junto do golfo Prsico, onde da terra 
brota um lquido negro, esquisito, fedorento e asqueroso... - e Isac aproximou-
se de um barrilete que estava em cima de um banco de carpinteiro a entornou 
para uma pequena vasilha uma golfada de um lquido escuro, viscoso a 
peganhosento, de cheiro to intenso que num pice nos chegou s narinas. - 
Se se lhe lana fogo - continuava ele, ao mesmo tempo que petiscava lume na 
pederneira e o aproximava do lquido, que logo se inflamou numa
372
chama multicolor -, arde em grandes a lindas labaredas ... No  uma 
maravilha? gua a arderl Onde  que se vi:L?
- Isso  bruxedo ! Magia! Pacto com o diabo - vociferou hfiguel.
- Eu sei - tornou Isac. - Se estivesse em vora, ou em Lisbo ~a, ou 
noutro stio qualquer onde vs fsseis os senhores a os inquisidores, eu seria 
preso, torturado a queimado vivo como relapso, pr possuir mandrgora quanto 
mais por ter comigo tal maravilha!... Vosso av, doutor Pinto, por bem menos 
sofreu o mesmo, pobre dele!... Mas descansai. No estais l nem sois algozes 
da santssima Inquisio... Sempre pensei, quereis saber?, que era uma coisa 
excelente este lquido encantado para com ele se regar uma pessoa que 
queiramos queimar viva... Tenho ali muito naquele barril... Pensais que o f >go 
tudo purifica? Que  como gua lustral? Enganais-vos. A vs ncm o fogo 
eterno do Inferno chega para vos alimpar do excremento, da bosta, da trampa, 
da caca, da merda que sois ... Escarro, vmito, nusea da raa humanal...
Miguel deixara-se escorregar para o cho, numa imensa agonia, e 
chorava como uma criana. Antnio Pinto encostara-se  porta fechada, com 
as mos espalmadas na madeira e o olhar enlouquecido. Isac no deixava 
esfriar o pavor daqueles pobres diabos
- Qual de vs contaminou o outro, se ambos sois podrido e pstula? O 
vosso hbito - e apontava com a pistola a Miguel  roupa benta. Tirai-o, que 
no merece ser queimado. Despi-vos. Ou ser que se lhe pegou a vossa 
peonha, a baba ftida da vossa alma? - Perdo ! - gemia o infeliz.
- Especiarias da India, pimenta, noz-moscada a colorau, para 
condimentar esta carne de porco assada no espeto  Presunto fumado, primor 
da ucharia ... Chamuscar... - e Isac aproximava-se agora de Pinto, que dobra o 
cotovelo  altura da cara como a proteger-se de algum golpe ou pancada - ... 
fazer a barba s cerdas hirsutas, gordurentas a imundas do vosso coiro ...
Isac usava a abusava propositadamente da acumulao de vocbulos 
contundentes como pedras, de termos em gradao alucinante, tanto mais 
violentos quanto mais via as suas vtimas acusarem os efeitos do medo!... 
Recorria a um arsenal de palavras, a subtis artifcios retricos que eu no 
suspeitara nele. Na erupo, na eloquncia, na verborreia de substantivos, 
adjectivos, verbos, na ardilosa utilizao de
373
comparaes, metforas, smiles, anforas, sei l que mais, entrava a 
sordidez, a sarjeta, a latrina, o prostbulo... Como  que, admiro-me eu, me 
encontro em tal circunstncia a analisar friamente, distanciadamente, 
indiferentemente, a sua arte, conscincia ou intuio oratria? Foi decerto o 
efeito do seu piscar de olho...  isso  Aquelas palavras, para um auditor 
plcido, sereno, eram elas prprias um piscar de olho. S a perturbao de 
uma m conscincia as poderia tomar a srio... E no sou eu um pregador, 
conhecedor por dentro da estrutura do discurso, de que toda a retrica  um 
empolamento, um falseamento da realidade?... Aqui est Frei Zedilho, tranquilo 
contra o que seria de esperar dos seus naturais humores, perfeitamente 
industriado, ainda que srio a pensativo, pois o fundamento e a justeza das 
razes calam intimamente, para alm do artifcio da forma. Isac fazia teatro ... 
mas no s ...
Quando aqueles infelizes despejaram tudo o que tinham l dentro para 
contar, revelaram a fizeram luz sobre os mais nfimos pormenores, o judeu 
amarrou-lhes as mos, abriu a porta do casebre e, de arma aperrada, f-los 
seguir  sua frente. Fomos-lhe no encalo  distncia. Em breve estavam na 
praia. Vimos Isac met-los num batel, amarrar-lhes tambm os ps a 
desaparecer na noite, engolidos pela escurido, ouvindo-se apenas o bater 
ritmado dos remos a esfumar-se em direco  outra banda do canal... Frei 
Zedilho fez meno de regressar a comeou lentamente a afastar-se. Eu 
permaneci ali, especado,  espera ...  espera ... at sentir de novo o crescer 
do rudo dos remos... Isac voltava. Sozinho. Como um fantasma...
- No tenhais medo, meu senhor ... - disse-me ele.
- Meu senhor - repetiram, atrs de mim, os lbios de Frei Zedilho, que 
no tivera nimo de se ir embora.
- ... No tenhais medo  Apenas os entreguei nas mos da justia divina. 
Fui ao outro lado do canal coloc-los  guarda de uns turcos amigos, a quem 
recomendei os no matassem. Far-lhes-o somente passar aquilo que vos 
queriam fazer passar a vs. Uns anos nas gals do gro-turco obrig-los-o a 
apreciar melhor as delcias da vida ...
374
XIX
Idlio a elegia
Quant' bella giovinezza lhe si fugge tuttavia 
Chi vuol esser lieto, sia:
di doman non c' certezza.
Quanto  bela a mocidade mas foge logo a correr  Seja feliz quem 
quiser:
do amanh nada se sabe.
(Lorenzo de Medici, Poesie)
- E agora? - pergunta-me Frei Zedilho, que viera colocar-se a meu lado, 
na amurada, vendo afastar-se na neblina dourada da manh a ilha de Corfu.
Dir-se-ia que os nossos pensamentos coincidiam, revendo os ltimos 
acontecimentos ali vividos. Havia mais gente  nossa volta a alongar o olhar 
paxa a terra anilada a eu sentia uma necessidade esfaimada de estar s, pois 
a pergunta que me fizera o meu companheiro era a mesma que me acudia ao 
esprito e a que eu tentava dar resposta. Do outro bordo do baxco no havia 
ningum. Para l me dirigi a sentei-me sozinho num rolo de corda que se 
enrodilhava no cho do tombadilho. Frei Zedilho no me seguiu. Deve ter 
entendido a minha vontade de isolamento a respeitou-a.
Mar a cu fundidos na nvoa, a esta parte cor de cinza  No  
necessrio retirax os olhos desta solido para olhar a minha paisagem interior. 
Tambm a minha alma  cinza, nvoa, vaga e indefi
375
nida poeira de pensamentos a sentimentos contraditrios, fluxos e 
refluxos, ondas que cachoam a rugem a se entrechocam a espumam... Que 
diferena o estado de esprito revolto a angustiado em que me encontro 
daquela serenidade que de mim se apossou depois de ter ouvido o relato dos 
principais factos, na puridade majestosa a grave, que precede a morte, da 
confisso de mestre Jacob!... A revelao pblica dos acontecimentos, agora 
to violentamente completada at aos mais sinistros meandros, liberta-me do 
peso do sigilo a isso constitui um grande alvio, mas, feita por dois estranhos a 
testemunhada por duas pessoas que, embora amigas, me no so nada, vem 
colocar-me como devassado na minha privatividade perante o mundo. 
Incomoda-me o sentir que sou centro do dio de uns a da piedade a desvelo de 
outros, r agoa-me o saber que havia Pintos a Miguis h tntos anos 
cuidando de mim sem que eu prprio soubesse... E agora?, pergunta Frei 
Zedilho. At o mais neutral a simples e aptico a indiferente dos espectadores 
da ltima cena espera que a revelao, o reconhecimento, a anagnrise a 
verificada arraste consigo uma grande a trgica mudana no curso do meu 
destino. Que engano  Eu no sou o centro de uma tragdia. Outros o foram. Eu 
sou a personagem que colocaram fora da histria, fora dos acontecimentos, 
para alm da catetrofe, longe da cadeia dos sucessos, propositadamente para 
me salvarem deles, pelo muito amor que me tinham... Eu sou a personagem 
que a inveja, o cime, o demnio da vingana dos inimigos teimavam em 
alcanar para a destruir... Eu sou a histria mal contada, a histria que devia 
ser calada, silenciada, por amor ou por dio ... Reconstituo no meu espirito, 
embora sem a nitidez de traos a com as naturais falhas de um relato de factos 
passados h cerca de quatro dcadas a transmitido por terceiros de modo 
nenhum isentos, essa longnqua madrugada, chuvosa a fria, de Janeiro de I 5 
z7, esse preciso momento em que me jogaram fora da rbita dessa tragdia na 
qual o Cu, como os deuses antigos, no deixou de fulminar suas iras... Tinir 
de espadas, cintilaes sbitas, relampejantes, de punhais desembainhados, 
nas pregas da noite, entre dois grupos rivais de embuados, junto  alta cerca 
do pao de D. Francisco Coutinho, conde de Marialva a de LouJ, meirinho-
mor do reino. Para l do muro, por entre o arvoredo agitado a uivante, a negra 
mole da casa em cujas janelas no h a mais pequena rstia de luz. Nas 
traseiras, por trs de cortinas levemente entreabertas, uma lama perscruta com
os olhos chorosos as trevas da quinta. Perde-se na escurido a mata 
espessa e a mulher, contendo a respirao, apura o ouvido a captar os ltimos 
rudos, que s ela sabe seleccionar na instrumentao ululante da tempestade, 
de um galopar que se afasta apressado. O cavaleiro, vergado sobre o animal, 
protege a cara das fustigaes geladas da chuva com as onduladas bandas do 
chapeiro, a no regao, numa alcofa almofadada de l a forrada de seda, bem 
presa ao aro a s cilhas da sela, resguardada pelas dobras da grossa capa 
de estamenha preta, leva uma criana de seis meses, que, tomando o ritmado 
balano do cavalo pelo embalar do bero, vai de olho bem aberto num solitrio 
galrear a espernear enquanto mete  boca o medalho de ouro que traz ao 
pescoo. Por nvios atalhos se embrenha a montada, evitando as povoaes, a 
desaparece a caminho no se sabe donde. Por detrs da janela batida da 
chuva fica a me angustiada. Os cordes de gua que choram as vidraas dir-
se- que esto comungando com os que escorrem desses pobres olhos aflitos. 
Quantas alegrias secretas e profundas desde aquele dia de Novembro de i 5  8 
at chegarem agora os extremos destas lgrimas a destas angstias ... Foi 
naquele dia...
Casava pela terceira vez el-rei D. Manuel. Era na vila do Crato. O luzido 
cortejo nupcial, acabada a cerimnia religiosa, dirigia-se da igreja para os 
paos reais. Aps os charameleiros, muito garbosos com seus mantos, prata 
em veludo azul, pendentes do ombro sobre os arneses faiscantes, 
arremessando ao ar o amarelo guincho das trombetas, vinha o casal rgio em 
seus palafrns ricamente ajaezados, rodeado dos prncipes D. Joo, D. Luis a 
D. Fernando, dos duques de Coimbra a de Bragana a de muitos outros 
representantes da melhor fidalguia portuguesa. Seguia-se-lhes a gerao mais 
nova dessa mesma fidalguia, formosas donzelas a gentis cavaleiros que 
rondavam os dezassete anos. Era muito o povo nas bermas das ruas, que as 
aldeias e lugares de muito longe se despovoaram com o alvoroo de assistirem 
a to lustroso acontecimento a festejarem sua rainha, a filha de Filipe I de 
Castela a de Joana, a Louca. Embora fosse geralmente de contido a respeitoso 
silncio a atitude da multido, era possvel no entanto distinguir-se aqui a ali 
um comentrio desgarrado a ciciado
- To meninos ainda - ouvia-se,  passagem dos infantes n. Luis a D. 
Fernando, onze a dez anos apenas.
O acompanhamento passava, devagar, solene.
376 377
- Que linda   - Quem  ela?
-  D. Guiomar Coutinho, filha do conde de Marialva.
Os olhos dos jovens cavaleiros tambm haviam sido atrados pelo garbo 
e a formosura da fidalguinha, que pela primeira vez servia na corte como dama 
de honor de Sua Alteza a Rainha D. Leonor. Quebrando o protocolo, na 
irreverncia da idade a da prospia, Joo de Lancastre vem colocar a sua 
montada a par da gua rabe de Guiomar.
- Eis na manh primaveril o Sol desponta a irradia a sua claridade e 
frescura nos corpos a nas almas !... As mnhas homenagens, senhora  - 
Costumais dirigir madrigais s donas? - perguntou ela. -  poeta o senhor D. 
Joo de Lancastre?
- Perante a vossa beleza no s as aves do cu a as flores dos campos 
mas at as pedras do caminho cantam vossos louvores...
- Sois poeta. Falais por metfora como todos os mais.
-  com brincos de palavras que se homenageiam as formosas 
pastoras...
- Ih  Meu Deus ! O que a vai !
Um segundo cavaleiro aproxima-se a coloca-se ao lado da jovem.  D. 
Teodsio, filho de D. Jaime de Bragana.
- No sei que deu aos poetas da nossa terra - continuou Guiomar, muito 
segura de si, no dando mostras de se envaidecer com estar ladeada pelos 
herdeiros das duas melhores casas portuguesas. - Por este andar qualquer dia 
no se entende o que eles querem dizer. Por mim reajo ... ao contrrio das 
outras donas da corte, que so todas sorrisos a olhos para os vossos 
mentirosos galanteios.
- Mentirosos?
- Sim. No falastes ainda h pouco numa manh primaveril quando a 
realidade  que est uma fria a agreste manh de fins de Novembro ?
- Talvez nos demais casos tenhais razo a os poetas so mentirosos. 
Quanto a mim, a vosso lado s Primavera existe... Quem pode mentir ao dizer 
que v estrelas do cu nos vossos olhos?...
Guiomar Coutinho olhou, levemente irnica, o seu galanteador e, 
caracoleando a montada de modo a que ficasse de frente para D. Joo, 
ripostou
- Olhai antes os da minha gua. So maiores, espelha-se neles mais do 
cu ... - e acicatou o animal, que se retardava.
378
- Ou os de um burro, que so mais pensativos ! ... - atirou, com breve 
gargalhada, D. Teodsio seguindo a jovem.
Joo de Lancastre deixou-se ficar para trs, sem grande zanga, 
pensando que vozes de burro no chegam ao Cu. A noite houve sarau no 
pao. Gostava el-rei fossem estas festas brilhantes, alegres, mas, no 
conhecendo ainda bem o pendor da rainha, ordenou que lhe imprimissem um 
tom mais moderado. Nada de danas demasiado mexidas a muito menos de 
costumes ou mscaras. Que se ficasse pela grave pavana para os mais velhos 
a no fossem os jovens alm da galharda. De resto, entretivessem-se as 
damas com darem seus motes aos poetas a estes com lidarem em lhes dirigir 
seus namorados primores. Guiomar Coutinho, mal entrou no vasto salo com 
as demais jovens que seguiam a rainha, encontrou os olhos de Joo de 
Lancastre, que procuravam os seus. Sorriu-lhe. Aproximaram-se da a pouco, 
quando el-rei iniciava a primeira dana com a noiva, a comeavam a desfilar, 
atrs do par real, os restantes pares. Teodsio de Bragana aproximava-se 
tambm, mas a jovem dirigiu-se decididamente para o senhor de Lancastre, 
que a tomou com a ponta da sua rno direita,  altura do ombro, entrando no 
desfile danante ao chegar a sua vez.
- Tendes visto por a muitas estrelas? - perguntou Guiomar com seu ar 
faceto, sem fazer caso das contraces irosas que o Bragana mal reprimia.
- Perdoai-me se vos ofendi - respondeu, entre sorridente e sisudo, D. 
Joo.
- Mas vs no me ofendestes - protestou ela com simplicidade. - No 
quis dar s minhas palavras o sentido que lhes incutiu a graa pesada de 
Teodsio de Bragana...
O baile seguia lento, arrastado, ao longo das colunatas do salo, no 
ritmo montono dos instrumentos msicos, a que vinha juntar-se o zuazum das 
conversas despreocupadas a sorridentes que cada par sustentava.
- Fizestes-me compreender, a muito vo-lo agradeo ... - disse D. Joo 
afastando-se do par, em dois passos  retaguarda, a fazendo uma vxia a que 
ela correspondia.
- Qu? - perguntou Guiomar, tornando-se o par a juntar. - Para uxn 
esprito alertado como o vosso...
- Entrais de novo no galanteio ?
379
- De modo algum. Escutai... - e deram uma volta sobre si mesmos, 
unindo de novo as mos. - No aceitais as convenes a os preconceitos sem 
primeiro os coardes no filtro do exame...
-  isso um mal?
- Pelo contrrio - tornava D. Joo, fazendo uma vnia a retomando a 
posio inicial. - Mas no tinha nunca encontrado um esprito assim...
-  defeito de nascena ou de ser filha nica, no sei.
- Compreendi que para vs um galanteio, um ornamento de linguagem...
- Que tm?
- ... a artificiosa habilidade do recorte da frase... Compreendeis? - Sim.
- ... da escolha da imagem esquisita a inslita, pode constituir para vs...
- Para mim?
- ... uma ofensa... - Oh!
- ... de mau gosto, uma agresso... - Exagerais 
- ... uma agresso gratuita a impensada  vossa inteligncia... Ficou 
calada Guiomar, aparentemente concentrada nos passos da dana. O par, 
muito harmonioso a galante, dava nas vistas. Num volteio dos corpos, as suas 
cabeas ficaram quase juntas, face a face, os olhos nos olhos interpenetrando-
se.
- Quer dizer que j no h estrelas nos meus olhos? - perguntou 
Guiomar sorrindo.
- Se h - murmurou emocionado D. Joo.
At ao fim da dana no disseram mais palavra, mas tambm no 
deram conta do que se passava  sua volta, como se todo o mundo em redor 
tivesse desaparecido a s eles a essa comoo interior que ambos estavam 
sentindo existissem. Imposies de regimento a etiqueta afastaram-nos at o 
baile acabar, mas por toda a parte os seus olhos sempre se andavam 
buscando eloquentes. Teodsio de Bragana no escondia o seu despeito por 
ter sido preterido pelo Lancastre, na primeira dana, a mais furioso ficou 
quando, preparando-se para emparelhar com Guiomar na segunda, o duque de 
Coimbra lhe arrebata o par, muito apreciador que era de lindas jovens. A 
terceira
380
vez novo desaire, pois foi o prncipe D. Joo em pessoa que a solicitou. 
Quando finalmente conseguiu danar com ela, estava em brasas, gaguejava, 
vermelho, exteriorizando j a truculncia mrbida e vingativa que herdava do 
pai, o famigerado D. Jaime de Bragana, que numa sinistra madrugada de 
Novembro de i 5  2 apunhalara em Vila Viosa, movido por falsos cimes, a 
inocente esposa, D. Leonor de Mendona, filha do duque de Medina Sidnia, a 
mandara matar um jovem fidalgo de sua casa, Antnio Alcoforado.
- Desfeiteastes-me diante de todos - protestou D. Teodsio quando, 
enquadrado na dana, conseguiu falar.
- Senhor l - retorquiu imediatamente, muito altiva, Guiomar. - Vejo que 
estais mal disposto. Se quereis, suspendamos a dana e volte cada um ao seu 
lugar.
Teodsio, sem deixar de prosseguir no baile, caa em si a via que tinha 
sido inconveniente, mas, no desejando pedir desculpa das palavras 
intempestivas que proferira, no encontrou mais que dizer nem Guiomar 
alimentou qualquer teor de conversa. Foi uma dana fria, martirizante, que a 
jovem suportou com dignidade. Quanto ao seu companheiro, dir-se-is que cada 
passo que davam, cada volta, meneio ou vnia que faziam, mais lhe azedavam 
o fel que lhe cachoava na alma.
Mudava a corte para Almeirim, para Santarm, para vora, por 
recreao ou para fugir s pestilncias de Lisboa, a com ela mudava Guiomar 
na comitiva da rainha a Joo de Lancastre na do prncipe herdeiro. 
Encontravam-se amide nos banquetes, nos seres, nas caadas, raramente 
ss, o que fazia medrar aquele sentimento nascente e o alimentava. Aos mais 
prximos dos movimentos a postura dos dois jovens, do haverem-se um 
perante o outro, j no era possvel tsconder a sua propenso mtua. O cime 
sestro a soslaiento de Teodsio espiava enraivecido o par enamorado e, por 
seu lado, o prncipe D. Joo cedo deu conta do que se passava e, em conversa 
com Joo de Lancastre, apenas um ano mais velho do que ele, ficou no 
segredo dos deuses. Cavalgavam nas margens do Tejo, a par de Santarm, a 
distanciaram-se as suas montadas dos demais cavaleiros.
- Tenho reparado, amigo, que andais plido a quase no comeis ... ^T-, 
disse o prncipe sorrindo.
- Assim , senhor. Tenho andado sem apetite...
38
-  curioso - continuou o herdeiro do trono, divertidamente malicioso - 
que tenho encontrado os mesmos precisos sintomas em uma jovem dona da 
corte.
- E poder saber-se qual? - perguntou Joo de Lancastre sem se dar por 
achado.
- E perguntais-mo a mim, vs? Andai l, D. Joo! Palidez, falta de 
apetite, suspiros a ais pelos cantos a vos de janela em cavaleiro a dama so 
certos sinais de coitas de amor. S um cego no entende os vossos olhares 
ardentes. No h seno uma espcie de cura para esse mal...
- Confesso-vos, senhor, que amo D. Guiomar Coutinho. Achais muito 
mal nisso?
- Porque haveria de achr mal?
- Sabeis melhor que eu, senhor, que casamento na corte entre pessoas 
de nossas qualidades s com autorizao de Sua Alteza. Um dia sereis vs o 
rei e...
- Se amais Guiomar Coutinho a ela vos ama a vs, se h nas veias de 
um a de outro sangue real, no vejo por que razo seria o vosso um 
casamento contra-indicado.
- Muito grato vos fico por vossas palavras, meu senhor. - Parece-me, no 
entanto, que encontrareis um obstculo... - Um obstculo?
- ... de peso...
- Quereis dizer-me qual?
- D. Francisco Coutinho  uma velha raposa ambiciosa. Para a sua rica a 
duas vezes nobre herdeira  muito capaz de alar a vista mais alto a no vai 
consentir...
- Casarei a furto  - exclamou Joo de Lancastre exaltado. Vinham-se 
aproximando cavaleiros.
- Quereis um conselho de amigo? No vos precipiteis - disse o prncipe, 
dando de esporas a disparando o cavalo  desfilada, logo seguido do 
companheiro.
Amor nestas idades  apressado a impaciente, irreflectido, irreverente, 
pertinaz, determinado, cruel para com tudo o que o cOntrarie. Que faz que em 
todas as pocas os jovens que se amam se revoltem contra as convenes, se 
elas interferem no seu destino? O amor  o momento em que a vida  impelida 
pela energia criadora do universo.  um rumo, uma fora imparvel. Prefere 
morrer a que o limi
382
tem, o garrotem, o abafem, o mirrem nos preconceitos do sangue e da 
linhagem, nos clculos das fortunas a haveres. Se pode, desvia-se das regras 
que as leis a as religies dos homens lhe instituram. No as aceita nem tolera, 
pois se sente lesado na sua pureza csmica, acha sempre uma intruso o ter 
testemunhas, o ser devassado por um grupo de assistentes, o ter regimento, 
normas, tradies, frmulas programando-lhe smbolos de palavras, objectos, 
gestos... Isto sentia.m a pensavam tambm Guiomar a Joo, mas era muito 
forte neles o vnculo s famlias a que pertenciam e a presso da educao 
dirigida que haviam recebido, para poderem de um s golpe fazer de tudo 
tbua rasa. Havia uma nica porta aberta, um nico caminho de rvolta. 
Escolheram-no. Seria a furto o casamento, mas seria casamento...
Foi numa capelinha afastada, nos subrbios da cidade... a horas a que 
os sinos da s, o nico templo nesse matutino momento aberto ao culto, 
chamava os fiis ao ofcio divino. Quem poderia adivinhar que aquela 
desgarrada capela estaria em tal hora a dia  espera de algum?
Sai a don!~elinha vai  confisso uma aia a segue bate o corafo...
- Por aqui, menina - diz Sara, toda embiocada, empurrando a pesada 
porta de castanho que ringe nos gonzos.
Do escuro, dentro, vm ao seu encontro os vultos de Joo de Lancastre 
a de Frei Gaspar. Mais afastada, humilde, est uma outra pessoa.  mestre 
Jacob, marido de Sara, que h pouco ainda se formou em medicina em vora. 
 fsico do duque de Coimbra a muito afeioado a seu filho D. Joo. Cerimnia 
simples a rpida, comovidamente balbuciados os sins a colocadas as alianas, 
assim se recebem por esposa a esposo Guiomar Coutinho a Joo de 
Lancastre. Frei Gaspar j tem preparado documento que ele prprio, os noivos, 
Jacob a Sara testam com suas firmas.
Doba o tempo seu novelo a durante trs anos ningum suspeita do 
casamento. A princpio D. Teodsio estranha que Guiomar e Joo, quando se 
encontram na corte, s troquem cumprimentos de Qonvenincia a no 
demorem, como dantes, um ao p do outro. No
383
encontrando, porm, o mais leve indcio, nem sequer nos olhares, que        
        ser cumprida ... ou ento remida em sangue  Respeitai, senhora, os
o leve a desconfiar de alguma coisa, egulta intimamente, julgando que        
        meus cabelos brancosl...
a jovem havia repelido o rival, a afrouxa a espionagem. No a esmo-        
        Precipitam-se os acontecimentos. Investido, por emanao divina,
recesse, reconheceria certamente o cavaleiro embuado que, acom-        
        nas pesadas funes do poder real absoluto, s a razo de Estado preo-
panhado por seus criados, se dirige alta noite, por caminhos no tri-        
        cupa o novo monarca. O jovem companheiro de Joo de Lancastre
lhados, para os lados do pao de Guiomar Coutinho, a v-los-is regres-        
        das margens do Tejo j n.o existe, deu lugar ao rei. Desejando cumprir
sar alta madrugada, no maior silncio, abafando o tropear dos cavalos        
        o estabelecido por seu pai, ordena Sua Alteza que se faam as capitu-
com envolver-lhes as patas em uns pantufos de couxo atados nos arte-        
        laes do ajuste, que se realizam em dez de Maro em casa do conde
lhos. O prncipe D. Joo faz que no d conta da mudana de atitude        
        de Marialva, ficando o casamento adiado para quando o infante D. Fer-
entre os dois jovens. Percebe o que se passa? Facto  que no torna        
        nando fizer dezassete anos, o que se dar a cinco de Junho de i 5 Zq.. 
Tor-
a tocar no assunto. Envolvido ele prprio, com o fervor da mocidade,        
        na-se assim pblico o assunto. Sai o marqus de Torres Novas a terreiro
em aventuras amorosas, o que h-de ser o rei sisudo distancia-se,        
        afirmando no se poderem realizar tais desponsrios, por ter ele h
nesse ano de i 5 Zo, como a criar perspectiva real  sua imagem. Em        
        muito clandestinamente casado com D. Guiomar Coutinho, a exi-
fins de Maro, D. Manuel faz marqus de Torres Novas a D. Joo        
        ; gindo ao pai desta que lhe entregue a filha, seno que a h-de pedir
de Lancastre, o que confere a este maior liberdade em relao  corte.        
        por justia. Apresenta-se na corte o conde de Marialva a Loul a expor
Poucas vezes se encontram agora.  de mudanas o ano seguinte. No        
        ' diante de el-rei esta nova a estranhissima contenda. Passante dos 
setenta,
meio dos grandes acontecimentos que so a morte de D. Manuel, a 
treze                ' o fidalgo, que servira na guerra a na corte desde o tempo de 
Afonso V
de Dezembro, e a aclamao de D. Joo III, logo no dia dezanove, 
quase                a cuja casa  considerada uma das primeiras do reino em 
grossura
ningum se d conta de que o prncipe comea a ter bastardos : nasce        
        ' de rendas a dinheiro, poderosa de grandes terras a muitos vassalos,
D. Duarte, que h-de ser arcebispo de Braga. Mas o que vem modi-        
        sente-se ferido no ntimo da alma. O que sobretudo o preocupa  des-
ficar o destino de Guiomar a Joo de Lancastre  a abertura do tes-        
        cobrir-se Joo de Lancastre s agora.
tamento do rei defunto e a leitura do codicilo em que D. Manuel a        
        - No se atreveu no tempo de el-rei D. Manuel- remi con-
onze de Dezembro, dois dias antes de falecer, confirma as disposies        
        sigo mesmo. - Dever ser a confiana que pe em rei de to pouca
tomadas entre si a D. Francisco Coutinho. Contm o primeiro as        
        idade como este. So da mesma criao...
clusulas em que se recomenda ao prncipe herdeiro Guiomar Couti-        
        Pede a el-rei o queira ouvir em conselho.  admitido.
nho para esposa do prncipe D. Fernando e o segundo confirma essa        
        - Senhor - disse. - Valei-me em grande aflio 
inteno a estipula que, a no se realizar o casamento, no ser rei-        
        - Ento que h, conde?
terada a doao das casas de Marialva a de Loul em D. Guiomar.        
        -Era antigo foro destes reinos que os cavaleiros agravados
Fica esta aflita quando o pai lhe d a notcia a lhe conta do contrato        
        de outros, em vez de entrarem em justias a libelos, pedissem aos reis
firmado entre ele a el-rei. Rebela-se:                , lhes-designassem 
campos aprazados para dirimirem pelas armas suas
- Prefiro ir para um convento                 querelas.
- Ensandecestes? Esquecestes cuja sois, que ficareis a pertencer        
        - E fostes agravado vs? Quem vos agravou?
 famlia real, que sereis princesa?                - Beijarei as mos de 
Vossa Alteza fazer-me justia do marqus
- Antes quero morrer! Antes quero morrer - responde ela                de 
Torres Novas.
em pranto desabrido, a agonia na alma.                Carregou el-rei o 
sobrecenho, logo figurando do que se tratava,
Irado com a louca determinao da filha, a altas vozes que troam        
        enquanto a voz do conde continuava, entremeada com a da sua cons-
pelas salas do palcio, exclama o pai:                cincia. Que aquilo ia 
contra o assento tomado por el-rei seu pai
-A palavra que D. Francisco Coutinho deu a el-rei ter que                " que 
Deus tivessel... Ento ele sempre casou a furto!... Ia contra as
384 m 385
leis do reino a contra sua vontade de pail Pretendia ser casado com sua 
filha D. Guiomar, chamando casamento legtimo ao que Deus no ordenara 
nem sua filha confessava. A cobia a falsidade do marqus o inventaraml... 
Como poderei estar certo disso?... Grande ofensa por certo era difamar uma 
donzela inocente, sem outra fora de amor mais que o desejo da fazenda 
paternal Acudisse Sua Alteza a to pesada demasia a no fosse esta querela o 
primeiro exemplo de sem-justia do rei, que tinha na Terra lugar de Deus para 
lha no negar...
Estava el-rei abalado com a nova a no escondia a funda mgoa que 
sentia, lembrado do que conhecia dos amores de Joo de Lancastre a Guiomar 
Coutinho, confrontado agora, pela queisa do conde de Marialva, com a razo 
de Estado, com a palavra dada pelo rei seu pai a confirmada por si prprio.
...Entendesse o marqus que, deixando el-rei D. Manuel sua filha como 
desposada, nem ela podia querer outra coisa seno o que fosse servio do rei, 
nem o marqus devia ter outro gosto. Tratasse Sua Alteza este negcio, no 
como contenda a litgio de um estado. O marqus assim o julgava, mas do que 
se tratava era de toda a sua honra, sua de D. Francisco Coutinho, do 
contentamento da sua vida e da salvao da sua alma. Infelizes setenta anos 
os seus, se sobre tanto sangue como tinha derramado em servio de trs reis 
antecessores de Sua Alteza, houvesse de duvidar de o valer em tamanho 
agravo. Agravo que, sendo seu, era igualmente ofensa a um rei ontem 
enterrado, visto ser menoscabo da mulher que esse rei com tanto gosto 
escolhera para nora. Desacato de Sua Alteza, pois essa mulher era sua 
cunhada. Desacato dos anos de el-rei, j que quem pretendia tirar essa mulher 
devia cuidar que ou el-rei lhe queria mais que ao prprio irmo ou que a pouca 
idade encurtava os espiritos a Sua Alteza a fazia que sofresse vassalos 
insolentes a descomedidos.
- Basta, conde - disse com grave solenidade D. Joo III. - Saberei honrar 
a vontade de el-rei meu pai. Podeis retirar-vos.
Na solido da noite a da insnia o rei volve a revolve, examina e 
reexamina todas as facetas do caso, em que est duplamente envolvido. Uma 
coisa lhe dita a conscincia: no agir precipitadamente, procurar um meio de 
conciliao... Logo, porm, se d conta de que isso  impossvel. Em matria 
de amor a de honra no pode haver entendimento entre rivais ... D voltas a 
mais voltas no leito, ner
386
voso, angustiado, indeciso... De manh, quando os camareiros o vm 
vestir, s um dos lados do problema se lhe apresenta claro, preciso, 
matemtico, definido. A palavra de seu pai no pode ser negada... A sua 
prpria palavra, havendo ordenado as capitulaes, no pode voltar atrs. 
Manda chamar  corte D. Joo de Lancastre a logo fica interiormente 
indisposto quando o v chegar acompanhado do pai, o duque de Coimbra. D. 
Joo III no tem por D. Jorge o carinho que el-rei D. Manuel por ele mostrava. 
Dir-se- que intimamente sempre teve recnditos zelos da deferncia havida 
na corte para com o filho de D. Joo II. A irredutibilidade do marqus de Torres 
Novas quanto ao seu alegado direito a Guiomar Coutinho e a impertinente 
aluso a que Sua Alteza, quando prncipe, bem sabia o que se passava e at 
dera o seu consentimento, irritam o rei. Mas  quando v a arrogncia a altivez 
com que D. Jorge vem em apoio do filho que el-rei explode. Ordena 
imediatamente que o duque de Coimbra se recolha a suas terras de Setbal, 
exilando-o da corte, a manda que Joo de Lancastre seja preso no castelo de 
Lisboa. Era uma segunda-feira de Abril de i 5 zz. Quando fica s, est el-rei 
muito malavindo consigo mesmo. Ressoa-lhe nos ouvidos a na conscincia a 
ltima frase de D. Jorge, ao retirar-se numa vnia:
- Senhor  Um rei no se zanga seno consigo prprio ...
Tinha razo o duque. Eram aquelas palavras proferidas por quem 
poderia estar sentado naquele trono, se o tivesse querido o destino. As 
decises tomadas foram-no debaixo de grande irritao a reconhecia agora 
que essa irritao era afinal o reflexo do seu ntimo remordimento. Decidiu ser 
mais prudente de futuro. Para comear, ps de pane o solucionar o caso pelo 
recurso ao seu poder absoluto a resolveu entregar o litgio ao foro eclesistico, 
para o que nomeou telogos a canonistas. Dirigem-se estes ao palcio de D. 
Francisco Coutinho a fim de inquirirem a donzela, que os recebe dignamente 
serena, mas melanclica. Esto presentes seu pai a sua me, a condessa D. 
Brites de Meneses. No obstante, no se intimida. Ouve no mais absoluto 
silncio a exposio que lhe fazem os juizes. A primeira pergunta, se a 
requestara o marqus de Torres Novas, no responde a aguarda a segunda. 
No responde  segunda, se casara a furto com D. Joo de Lancastre, a 
espera formulem a terceira, se mantinha com o filho de D. Jorge relaes de 
esposa a esposo, a que tambm no responde.
387
Esto embaraados os ministros de Deus. Quando acabam, diz-lhes 
Guiomar
- No adnto ser inquirida sobre assunto do meu foro ntimo. Vs no 
sois meus confessores. S vos posso adiantar que desejo ir para um convento 
a professar... - e retira-se, deixando iradssimo o pai, desfeita em lgrimas a 
me, os juzes totalmente interditos.
No desarma de suas razes, na priso, o marqus de Torres Novas. 
Apresenta papis, indica testemunhas. Esbraceja a barafusta como homem 
que no deve, no teme, no mente. So cerca de duzentos a seis dias de 
priso que o no esmorecem. Apesar de vigiada - a rainha no a quer na corte 
enquanto o caso se no resolver como julga de justia e o pai envia-a, com 
forte escolta de criados, para uma quinta distante -, Guiomar consegue fazer 
chegar notcia ao esposo pondo-o ao corrente do que se passa. Esmorece o 
litgio por impotncia do tribunal eclesistico que, dada a atitude da jovem, no 
pode chegar a uma concluso, a por aparente desinteresse do rei como que 
esquecido do assunto. O conde de Marialva vive ralado de desgosto que o vai 
consumindo a olhos vistos. Que congeminar o monarca? Nada se podendo 
provar, at o momento,  difcil, sem desprestgio da autoridade real, continuar 
a reter na priso um fidalgo de to alta estirpe. Em Outubro ordena el-rei que 
D. Joo de Lancastre saia do castelo a se mantenha, como seu pai, afastado 
da corte. Vem ele para Azeito, fingindo-se humilde a acatador, mas no lhe 
sofre o nimo esperar muito tempo inactivo sem tentar ver sua mulher. Envia 
servos disfarados a esculcar as redondezas da quinta e a aliciar, se puderem, 
com boas bolsas de ouro, alguns dos homens de D. Francisco. No  difcil, 
que com o empurro do dinheiro a causa de Guiomar - o amor perseguido pela 
prepotncia -  de molde a criar partidrios de alma simples. Em breve no s 
comunicam os dois amantes com frequncia a segurana, mas combinam a 
maneira de se encontrarem. Assim se escoa o ano de vinte a trs e o seguinte, 
passa a data aprazada do casamento do infante D. Fernando. Este e seu irmo 
D. Lus andam estomagados, feridos no seu orgulho de prncipes. Junta-se-
lhes, rancoroso, Teodsio de Bragana, a quem o escndalo faze mais que a 
ningum, vibrar a fibra do dio a enfervecer a escachoar a borra do cime. 
Escogita a rumina vinganas. Em quinhentos a vinte a cinco, depois de dois 
anos em que o poder e a liberdade real, de mos dadas com as quenturas da 
mocidade, tra
ziam el-rei distrado com mulheres, de que houve filhos, esquece a corte 
de todo o caso de Guiomar a Joo de Lancastre, para se comprazer com as 
bodas do monarca, que casa no Crato com D. Catarina, irm de Carlos V. A 
noite, no sarau, a um vo de uma janela, Teodsio contempla o baile a recorda 
um outro baile naqueles mesmos sales uns anos atrs. De sbito, a ausncia 
de Guiomar a de Joo torna-se-lhe to concreta que sente um aperto de alma a 
imagina-os muito longe dali, na quinta distante, abraando-se a beijando-se 
despreocupados do mundo, atendendo apenas  sua felicidade. To dolorosa  
a figurao, que jura a si mesmo haver de mandar vigi-los.
- No me ho-de fazer segunda vez o ninho atrs da orelha! - rosna ele.
Pelo fim do ano, amanhece um dia Guiomar Coutinho sem que lhe 
assista a esperada lua.
Estou grvida , pensa ela com alvoroo a logo invadida de 
sentimentos a pensamentos contraditrios. Procura a solido para se examinar. 
Vaga longas horas pelos jardins a matas, ensimesmada, ora sonhando futuros 
sem sombras, ora pressentindo desgraado destino. Fora depois, numa maior 
disciplina a frieza do pensamento, o sopesar das consequncias de tal 
realidade nas actuais circunstncias. Parece-lhe evidente que os pais, 
sobretudo o pai, no devem vir a saber, ningum, quase ningum deve vir a 
saber... Lgrimas a brotar dos olhos  Pobre criana sujeita a nascer no sigilo 
como se fosse filha do pecado!... Consolao a apoio s os encontra nos 
braos do marido, que, num primeiro exaltado impulso, pretende pelo contrrio 
que tudo se passe na mais lmpida luz do dia, na claridade dos actos 
abenoados por Deus.
- Ser esse o nosso grande argumento, a prova suprema, a todos se 
ho-de render  evidncial
Acode a mulher a esfriar o exaltamento irrealista, a lembrar que, contra o 
tribunal nomeado pelo rei, esses argumentos no colhem e no fim de contas 
seria a criana a sofrer as consequncias, nas bocas do mundo considerada 
bastarda... O vexame, o enxovalho por que passaria ela, a me, a ele, o pai, 
para si no contavam. Tambm era coisa de somenos o que pudesse sentir 
seu pai, o conde de Marialva, a vergonha que lhe faria corar as faces de fidalgo 
orgulhoso. A criana, era a criana que sobretudo se impunha preservar. Cai 
em si Joo de Lancastre a concorda com sua mulher a comeam a tomar as 
conve
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nientes medidas para que tudo se processe no mais rigoroso segredo. O 
retiro a que a obriga o pai, que com a condessa sua esposa est no corte, 
facilitam a Guiomar o esconder a prenhez, de modo que s um nmero muito 
restrito de pessoas de confiana a conhece. Mdico a parteira so escolhidos 
pelo marqus de Torres Novas : mestre Jacob a sua mulher Sara. A vinte a 
sete de julho nasce um rapaz, sem demora baptizado por Frei Gaspar com o 
nome de Joo. Uma moa da quinta, Balbina de nome, recentemente me, d-
lhe o peito e a criana passa por seu filho. Ningum estranha, naquela casa, 
ouvir vagidos de criana, mas j ento rondam estranhas sombras na noite dos 
pinhais circunvizinhos a olhos espiam as idas a vindas de D. Joo de 
Lancastre. Sente-se este seguido. No teme por si, que  valente a traz 
sempre consigo rija escolta, mas receia pelo filho. Est de acordo a me que 
se torna urgente proteg-lo, tir-lo do crculo em que giram as suas vidas, pelo 
menos por uns tempos, at os seus destinos serem clarificados.
- O nosso caso continua pendente do tribunal eclesistico - diz Guiomar. 
- No sabemos como acabar. J pensaste, esposo, no que suceder se os 
juzes conclurem pela no existncia ou pela nulidade ou pela falsidade do 
nosso casamento? Trago amargurada a alma s de cuidar nisto  Pode muito 
bem vir a acontecer que tenha de abandona.r tudo, tudo ... No so as 
riquezas, no ..., nem os ttulos de nobreza ... s to e o nosso filho. Talvez 
tenha de recolher-me a um convento ... Casar com o prncipe  que no ...
- Ouve  Poderemos fugir... - Fugir? Para onde?
- Tenho parentes em Espanha. Ajudar-nos-o.
- Que loucura a tua  Julgas que no cairia tambm sobre eles o antema 
da corte de Carlos V, que com nosso rei tem tantos comuns acordos?... 
Estaramos isolados, sozinhos no mundo, o que seria o menos conquanto 
estivssemos juntos... Mas o nosso menino? Como proteg-lo?... Irei para um 
convento, tomarei hbito... A tua casa ser grande. H-de el-rei arranjar-lo uma 
noiva a condizer com a tua qualidade... - dizia a chorava, chorava, a infeliz 
Guiomar.
- Cala-lo 
- ... Mas estars livre para o proteger ... para o guiar... Talvez eu morra 
at l ... Seria isso o melhor de tudo ... morrer ... Oh  Beija-me 
Combinaram que mestre Jacob levaria no maior sigilo a criana para 
longe dali, uma daquelas noites. Haviam-lhe colocado no pescocinho um 
cordo de ouro com um medalho que Joo de Lancastre mandara lavrar. Era 
o medalho uma cixinha em que se guardava uma relquia de So Pantaleo, 
trazida do Porto pelo duque de Coimbra, quando com el-rei D. Manuel fora 
assistir  trasladao das relquias do santo para um relicrio condigno, com 
isso fazendo cumprir um voto do rei anterior. D. Jorge dera ao filho um 
pedacinho dessa relquia. Numa face de dentro do medalho havia um 
desenho de que Guiomar a Joo tanto gostavam. Fazia-lhes recordar aquele 
idlico perodo em que se namoravam s escondidas pelos cantos, furtavam-se 
beijos a abraos pelas sombras das rvores dos jardins a matas reais, e 
inscreviam nos troncos promessas de amor eterno: Joo ama Guiomar, 
Guiomar ama Joo, Para sempre... a seguia-se a data ... muitas datas ... 
espalhadas por tantos troncos de pltanos, de faias, em ulmeiros a freixos, nas 
accias mimosas... Um dia Joo fez com a ponta do punhal o desenho de um 
pelicano no sangue de um sobreiro descortiado. Era o emblema do braso de 
seu pai, que o tomara de D. Joo II.
- Empresta -- disse Guiomar pegando da arma que ele lhe apresentou 
pelo punho. - Este pelicano deve ter no corao um smbolo especial - e gravou 
no peito do pelicano uma estrela de cinco pontas, como as que figuravam nas 
armas dos Coutinhos.
Joo de Lancastre mandou gravar no interior do medalho o pelicano 
com a estrela no peito e a data de vinte a sete de julho de i f 26. Saa um dia 
Sara, mal rompia a aurora, em direco ao sul, a espe
rar o marido num albergue do caminho, cujos donos eram judeus seus 
parentes. Rugia l fora a tempestade e a pobre mulher encostava a cara s 
vidraas a ver se surge do desgrenhar das sombras embravecidas a fustigadas 
de gua o vulto fantstico de uma montada com seu negro cavaleiro. Aperta-
se-lhe o corao ao pensar no pequenino que l vinha, na alcofa de seda, por 
um temporal desfeito. A um canto, no fogo da sala, aguardava danando o 
conforto das labaredas laranja e azul de um lume de sobro a oliveira... Algures, 
muito longe dali; juttto aos muros da quinta de Francisco Coutinho, tiniam 
espadas, punhais refulgiam suas fascas assassinas a os sicrios de Teodsio 
de Bzagana saam muito mal feridos da contenda, obrigados .a fugir eu 
debandada por entre matagais pedragulhentos, levando os feridos
390 I '39
de borco, escorrendo sangue, sobre as selas dos cavalos... Dias 
volvidos chega mestre Jacob a Tavira, com sua mulher Sara, ao colo um 
pequenino que todos julgam naturalmente seu filho. No se do eles ao 
cuidado de o desmentir.
Truditur dies die... Desliza o tempo, esfuma-se. Um dia o Sol atravs das 
nuvens que fogem ensanguentadas lembra a coroa de um rei chispando 
revrberos sinistros e  noite as estrelas cintilam os diamantes a rubis do seu 
roxo manto de prpura a toma a Lua o jeito de macabra roadoira prateada... 
Glido ruflar de asa lvida, invisvel, soa no ferir do vento ... a nos ecos vagos 
do tempo a do espao vm descendo tropis apocalpticos...  a noiva da noite 
a do silncio eternos que chega. Busca lauta presa, festim bem suculento. Bate 
aos portais de el-rei ... a no lhe deixa vingarem os filhos. Visa, mais ao longe, 
o prprio reino ... De passagem monda aqui a ali, afiando a foice para os areais 
de Alccer...
O conde de Marialva cai na ceifa.  o ano de quinhentos a vinte e nove. 
Logo insiste o monarca que o tribunal eclesistico resolva, de uma vez por 
todas, o litgio h nove anos pendente do suposto casamento de Guiomar com 
Joo de Lancastre. Aconselha a que a flha de Francisco Coutinho seja ouvida a 
diga livremente a sem nenhum receio, constrangimento ou ameaa se  
casada com o marqus de Torres Novas ou no. Todavia no se lhe dever 
esconder que, de acordo com as disposies de el-rei D. Manuel, ela no ver 
em si confirmados os ttulos a doaes das casas de Marialva a de Loul, se o 
casamento com o infante D. Femando se no realizar. No quer D. Joo III 
usar do poder absoluto que lhe assiste, mas para to grave querela, em que 
est envolvida a palavra de dois reis, o mnimo aceitvel como desfecho de to 
lamentvel sucesso, caso Guiomar Coutinho se mostre irredutvel,  o 
convento. No se deixa ela demover quando os juzes entram em sua casa. 
Recebe-os no salo nobre, de p, toda de preto do recente nojo, apoiada ao 
espaldar lavrado de urn cadeiro. Inculca serenidade mas o seu intimo  um 
vulco. Casar com o prncipe? Nunca l Lembra que a rainha viva do rei 
Manuel foi para Frana casar com o rei Francisco . Fmea de raa para 
cobridor real- no consegue impedir pensamentos de uma crueza a violncia 
de que se no julgava capaz. Procriou aqui, vai procriar l.  o que so as 
damas de condio! Fmeas para seretn cobertas a darem crias puro-
sangue!... Para satisfazerem os instin
tos, os caprichos da carne, tm os nobres todas as outras mulheres ao 
seu alcance, desde a lavadeira  cozinheira, s esposas a filhas dos maioriais, 
caseiros a criados, s aias a damas de companhia das rainhas a demais 
damas. Se as esposas prprias lhes so infiis, matam-nas, mas no admitem 
que seus vassalos se sintam feridos por os fazerem comudos, antes julgam 
que devem sentir-se honrados com o ureo a rgio enfeite. As grossas paredes 
dos palcios, as pesadas Aortas de castanho, o emaranhado das matas, o 
isolamento dos pavilhes de caa no conseguem conter os gemidos diurnos a 
nocturnos da fornicao geral. Os conventos de frades esto a abarrotar de 
bastardos de sangue azul a os de freiras repletos das amantes de reis, 
prncipes, senhores que tiveram o privilgio de no serem descendentes de 
Ado. As ctedras episcopais esto reservadas aos filhos naturais dos nobres, 
bem como as cadeiras dos lentes, os mestrados das ordens militares, as 
capitanias, as alcaidarias, as frontarias do reino... Pode-se ser bispo e cardeal 
aos onze anos ... A Guiomar Coutinho repugna ser fmea destinada, por 
contrato a que foi alheia, a ser coberta por um prncipe muito mais novo que ela 
e a quem no ama. Sente dentro de si uma onda de asco que lhe remexe as 
entranhas a revolta-se, disposta a no ceder s presses dos juzes, do rei... 
Serenidade, calma aparente, por fora. Dentro, uma cachoeira ... Ouve os 
ministros falarem. Convento? Ahl Sim! Tambm ela abraa com entusiasmo 
essa soluo a no se fala mais no assunto... Que a deixem em paz... Ficam 
os juzes alarmados, sabendo que aquele no  o desfecho que el-rei pretende 
mas apenas uma sua ameaa. Entreolham-se interditos. E o prestigio prprio, 
que est em jogo?... Um deles, movido por subtil instinto, resolve aventurar-se 
mais fundo na alma daquela mulher. Se no lhe importa a sua senhoria perder 
o nome, a posio, o poder, a riqueza, o convvio e o brilho da corte, a prefere 
tudo deixar por um hbito de freira, se a sua conscincia suporta o deixar 
extinguirem-se duas casas como as de Marialva a de Loul, de tanto esplendor 
a grandeza, sofrer ela o peso da responsabilidade de vir a ser a causa da 
perda de posio, poder, riqueza, nome de terceiros?...
- Como assim? - sobressalta-se Guiomar.
- ... a perda de uma casa to grande como j  e muito mais 
acrescentada pode vir a ser a do herdeiro do prncipe D. Jorge a duque ce 
Coimbra a senhor de Aveiro, que  o senhor marqus de Torres Novas, D. 
Joo de Lancastre?
392 393
- Oh  Meu Deus - exclama ela sentindo-se entontecer a sentando-se no 
cadeiro.-No pode ser! No pode serl... Poder?
-  isso mesmo que vai acontecer, senhora. Alm de que o senhor D. 
Joo de Lancastre poder contar como certo o seu regresso  priso do 
castelo de Lisboa, desta vez para no mais de l sair...
De repente tudo desabava sobre a desgraada... Desvairo, angstia, 
agonia, o estraalhar dos ltimos laos de uma esperana... E o filho? E o 
filho? Era preciso salvar o filho!... Custe o que custar!...
- Preparastes, presumo, uma declarao para eu assinar no caso de ... - 
disse em voz sumida, sem fitar os carrascos, os olhos toldados de gua.
- Aqui est.
- Eu assino - e com a mo tremente firmou o documento a caiu 
desmaiada no cho.
Apressa-se o rei a casar o irmo, D. Fernando, com Guiomar Coutinho - 
casamento sem pompa, modesto... Tinham medo de qu? -, a confirmar nela 
os ttulos a as doaes das casas de Marialva e de Loul. Corre o ano de 
quinhentos a trinta. A filha do meirinho-mor do reino, alm de duplamente 
condessa,  duquesa da Guarda e de Trancoso, princesa de Portugal... Depois 
vem a voragem e o rodopio macabro, insaciado, da morte. Arrebata-lhes o 
primeiro filho logo aps o nascer, toms-lhes o segundo impiedosa. Nasce o 
terceiro, uma menina, a uma noite paira sobre o palcio um manto viscoso e h 
mido de verme peonhento, verde-negro, a sobre os telhados h pios de 
mochos ominosos. Afastado de Abrantes, por via de afazeres prementes, est 
o prncipe na vila de Azinhaga, mas sente em sonhos as vibraes funestas. 
Ao levantar-se, de manh, diz para quem o est vestindo
- Estranho pesadelo o desta noite !
- Falar de namorado   pesadelo a mais pequena ausncia da mulher 
amada ...
- Sonhava-me em Abrantes...
- No stifre amor de pai muito tempo apartar-se da filha querida!... - 
Pesada nvoa envolve a entrada de minha casa e, do boqueiro negro da porta 
que se escancara de par em par como se um vento insensvel lhe soprasse, 
vejo sarem em lenta procisso,
um aps outro, cobertos de veludo negro, luzindo ao claro dos 
brandes bordada cruz de ouro, trs caixes...
- Meu Deus, sinistro agoiro l Que desgraa anuncia?
- ... vinham surgindo atrs mil carpideiras, esfumando vagarosos gestos 
doloridos, escondendo seu pranto nas dobras de esvoaantes vus da cor da 
noite...
-Ohl Terrvel viso! Que tragdia pressagia?... Eis um pajem que 
chega...
- Que desejas tu, pajem? Que recado me trazes? Em teu rosto fizeram 
seu ninho sombras que me assustam a em teus olhos vejo adejar a asa do anjo 
da morte...
- Triste nova vos trago, meu senhor. Vossa filha morreu...
Era Outubro de quinhentos a trinta a quatro. Acode  pressa a Abrantes 
o infante a consolar a esposa. Logo adoece e a sete de Novembro  a sua 
tumba que se v sair os portes da sua casa. No necessitaria Guiomar 
Coutinho de vestir crepes. Anicham-se-lhe sob os olhos e nos lbios os 
negrumes do luto que lhe vm da noite da alma amargurada. Castigo do Cu? 
Que importa! Tudo fez por amor... amor redime... Sabe que vai morrer, sente 
tambm em si o toque frio de uma branca mo que em derredor esvoeja. Vaga 
de noite, como um fantasma, pelos sales desertos do palcio. Pensa na sua 
vida, no filhinho, longe, algures, um medalho de ouro pendente ao pescoo. 
Ter agora oito anos, coitadinho!... Um pelicano com uma estrela de cinco 
pontas no peito... Pensa no amado... Senta-se a uma escrivaninha. Adeusl 
Perdoa!, diz o papel encontrado sob o rosto que descara sobre a mesa, 
quando vo dar com ela morta, na manh seguinte. Era o dia nove de 
Dezembro daquele ano de desgraa...
O arrudo do caso desde o seu comeo havia provocado grande 
esc.ndalo na corte a por toda a nao, entre os nobres mais chegados e no 
mais remoto a humilde campons. Com o casamento do prncipe esmorecera a 
j quase estava esquecido, quando to dramtico desenlace vem abalar de 
forma violenta os espritos crentes a timoratos de todos. A voz corrente  que 
fora a mo de Deus a prova provada de que o casamento imposto pelo rei era 
ilegal a pecaminoso. O prprio monarca,  medida que as notcias das mortes 
sucessivas vm chegando, fica profundamente abalado. Em sua conscincia 
sente-se culpado. O seu pendor melanclico a taciturno mais se acentua com 
ver
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tambm os filhos irem-lhe morrendo. Ao receber a notcia da morte de 
Guiomar, apenas murmura j esperava! a vai esconder no vo de uma janela 
os olhos rasos de gua. Como tudo tinha acabado! Tudo a morte levara, as 
prospias de nobreza, a satisfao pessoal de riqueza a de mando, a 
obedincia ao poder divino do rei ... Guiomar escapara-se ao casamento que 
no quisera... Nada restava, nada!... Ah! Sim! Ele era vivo ainda, o marqus de 
Torres Novas... Continuava exilado da come mais seu pai... E vm agora os 
desgnios incompreensveis de Deus mostrar ao rei como estava errado!... 
Corrigir, corrigir de certo modo o que ainda tiver remdio... Fazia dois anos que 
havia confirmado em D. Teodsio a sucesso da Casa de Bragana, por morte 
de D. Jaime. No menor nobreza tinha a casa dos Lancastres... Ordenaria que 
voltassem  corte o senhor D. Jorge a seu filho... A D. Joo de Lancastre faria 
tambm duque ... duque de Aveiro ! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . 
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . .. . . . .
......Vindos.dos.tempos.que..j.no..so chegam-me aos ouvidos os ecos 
de uma voz remota
- Pantaleo sim, mas no de Miragaia : Pantaleo de Aveiro . .. de 
Aveiro ... de Aveiro ...
XX
Vingana
... Depois que reinou, d'ahi a trs ou quatro meses fui preso, a 
degradado da Crte por culpas que se offereceram, o que no confesso nem 
Deus tal quizera; eram alheias, a no minhas nem de Sua Alteza por nossa 
edade; e de isto por que no parea que alego com testemunhas mortas ainda 
poderei mostrar papeis ou papel em que mostrarei minha innocencia contra 
quem me culpasse...
(Carta do marqus de Torres Novas e duque de Aveiro, D. Joo de 
Lancastre, a D. Catarina, regente do reino na menoridade de D. Sebastio.)
Decididamente o vento no queria nada connosco. Ora nos levava 
perigosamente para a costa dos turcos, ora nos atirava para a Itlia sem que a 
viagem progredisse. Resolveu o patro da nau aguardar melhor tempo a 
ancorou numa abra junto a um lugar chamado La Madona di Galpoli. 
Encostados  amurada, a ver a manobra de atracagem, no poderamos 
aproveitar a ocasio para nos livrarmos do enfado do mar?, eis que a voz de 
Frei Zedilho interrompe o silncio. No lhe dou logo resposta. Descemos a 
terra a desemperrar as pernas, a sossegar o estmago dos balanos das 
ondas... No gostaria eu de fazer o resto do regresso por terra?, insistia o 
meu companheiro. Era tal o seu enjoo do barco que rebuscava argumentos 
para me aliciar. A estava o reino de Npoles, com as plancies da Aplia a as
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montanhas da Campnia  No lhe dissera eu um dia que no desejaria 
deixar a Itlia sem visitar essas terras?... Acolho a proposta de boa vontade. 
Um franciscano no se quer parado e a mim, num momento em que a inaco 
me fazia galopar as ideias a eu necessitava com urgncia de refazer o meu 
equilbrio interior, nada seria mais proveitoso do que uma longa caminhada 
atravs da natureza criadora, com todos os sentidos sorvendo os seus 
estimulantes eflvios... Deixar o mar e aquela hmida a cinzenta atmosfera de 
neblina, que tudo dilui e nivela, a pr o p em terra  como repetir o gesto 
divino do Gnesis,  sair do caos amorfo para o cosmo organizado, do universo 
do absoluto a do indefinido para o mundo do contingente, das formas, das 
cores, dos aromas, delimitados no tempo a no espao. Com esse banho lustral 
a franciscano das pequenas a morredoiras coisas da vida tambm o meu 
panorama interior deixaria de ser cinza de crepsculos passados a de lutos 
longnquos... Tratou logo meu companheiro de ir  povoao prxima a fretar 
cavalgaduras para o dia seguinte e prover-se do mais necessrio para a 
jornada, a nessa noite viemos dormir  nau. Despedimo-nos do capito, que 
compreendeu muito bem a nossa ideia. Ahl Se fosse livre, quem ia connosco 
era ele..., e batia com a mo espalmada no peito saliente, forte, peludo, 
atravs da cansa entreaberta, ... era ele, soubessem nossas paternidades, 
ceguinho fossel... Fechadas a seladas na sua cmara, deixmos-lhe a 
guardar as coisas de mais estima e o resto de nosso fato encomendado a um 
mancebo veneziano que nos servia na nau. A tudo depois haveramos de ir 
arrecadar a Veneza. Assim, de manhzinha em a alva rompendo, nos pusemos 
a caminho, era o dia dois de Agosto de sessenta a cinco... Terras de olivais a 
vinhedos, perfumados pomares de macieiras a de laranjais onde faz ninho o 
melro, rebanhos de ovelhas nevando serra a baixo na contraluz da alvorada, 
cabras a carneiros tilintando seus guisos, o bulioso co do pegureiro de olho 
atento e orelha guicha, aqui a ali uma hortinha viosa de gro-de-bico, fava, 
feijo a tomateiros, ou na montanha a urze, a carqueja, o rosmaninho, o 
medronheiro, tojo a alecrim, um que sei eu de plantas rasteirinhas de cheiros 
capitosos, ou os altos a copados verde-negros pinheiros mansos onde -canta o 
cuco a esvoaa o gaio, sinto-me em terras de Setbal, Arrbida, Azeito ... e a 
alma vai-se-me curando... Passamos Tarento, metemos por plainos de Aplia, 
visitamos junto ao Adritico o porto de Brio e o santurio de So Nicolau, 
guinamos depois
para o interior, caminho de Npoles, atravessando os Apeninos, e 
vamos subindo sempre em direco a Roma. Jornada calma, feita de espao, 
sem hora marcada, sob um sol esplendente a reconfortante de Vero, dando 
tempo para comer da fruta dos pomares a do po fresco que fazem nestas 
doces paragens, beber da gua purssima das fontes que brotam na montanha 
a conversar mansamente, devagar... Sobem-me farrapos de versos  garganta, 
 vista do Vesvio que cospe lava, labaredas, fumos do inferno... Alguns ainda 
magoados de sangue a morte, mas um tanto rebuscados, sintoma de que a dor 
 menos sincera a me retorno, com o meu crtico espectador de mim mesmo, 
ao delrio da forma
Soprou o magma da rocha seu hlito funreo
e transformou-se em lpida de tmulo ...
Era tempo - Frei Zedilho ao ouvir-me - de cristianizar esta dor que me 
aflige. Olhasse a natureza como dava a lio de se recompor dos destroos a 
avassalamentos das tempestades. No era esse um tema grato aos poetas de 
hoje, fazerem o cotejo da paisagem interior com a paisagem exterior?... 
Julgava-me o meu companheiro mais doente a abalado do que eu na realidade 
estava. Toda aquela estranhssima histria de minha me a da sua morte me 
causou funda impresso a perturbao, mas assim no distanciamento dos anos 
e dos lugares sentia-a como entorpecido num sonho. Se experimentava 
tristeza, era uma tristeza fria, cerebral. No verti uma lgrima... Falvamos 
sobre estas a outras coisas enquanto caminhvamos, s tantas pergunta ele:
- H uma particularidade que no atino em compreender em todo este 
lastimoso sucesso. Cime a vingana completam-se, entende-se, est disso o 
mundo cheio a ns, confessores, sabemo-lo bem... Mas vingana estendida at 
to longe, at uma outra gerao, mais nova, a atravs do mundo, exercida 
sobre vs que estveis fora do curso dos acontecimentos, porqu?... Em 
Cndia, na Palestina em lugar to inspito, em Corfu, ilha perdida no 
Adritico...l Sabe Deus em que mais stios tenha sido preparada a por qualquer 
motivo gorada...
- Do que vos livrastes, meu irmo - dizia eu bem-humorado. - Porque por 
uma vez fostes meu escudo, em So Sabas, a de outra
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talvez vos molestassem a vs, em meu lugar, em Corfu, se no fossem 
as vossas pernas levarem-vos para longe ...  procura de auxlio...
Que eu tinha algum santo tutelar que por mim velava. Em Cndia ... 
aquela casual troca de brevirios... - fora a mais srio o caso, recordei. 
Morreram nossos irmos... Era ento - retorquia que sem sombra de dvida 
se via ser inteno matar-me, eliminar-me... Porqu? Porqu?...
No fundo eu no estranhava a incompreenso do meu companheiro. J 
me tinha eu prprio posto a questo a tambm achara estranha a princpio 
tamanha a to afincada a porfiada a determinada perseguio. Essa 
tenacidade no dio provinha de duas fontes : a demncia de D. Teodsio era a 
de uma paixo patolgica, mals, que, vendo-se repelida, no suporta que 
reste o mais pequeno vestgio de um amor rival a aceite; depois vinha a sua 
metdica meticulosidade, a mincia com que organizava, pelos principais 
pontos da Europa e da sia, toda uma fina malha de agentes, pagos a bom 
dinheiro, que lhe permitiam estar a par do que se passava no teatro do mundo, 
notcias de que pacientemente ia fazendo colheio a arrumando em volumes 
a que punha nome Os Livros de Muitas Coisas. A morte de Guiomar Coutinho 
exacerba essa incontrolvel insnia. Para Teodsio h apenas um culpado, o 
senhor de Lancastre, e  com insuportvel e doloroso rancor que v o rei fazer 
duque de Aveiro ao seu inimigo e comear a coloc-lo em posio do mais alto 
destaque a considerao, depois de o haver metido na cadeia. Mas  quando 
um caso fortuito lhe traz ao conhecimento a extraordinria notcia de que existe 
algures um filho, jamais suspeitado, de Guiomar a Joo que a sua alma 
ressuma e geme toda a babugem langonhenta dos dios mal cevados, a borra 
das invejas que juravam nas trevas as vinganas mais srdidas, numa corte 
em que a toda a hora, nas dobras dos reposteiros, na penumbra das 
antecmaras, nos recnditos a esconsos das caves, rebrilham afiados os 
punhais a est prestes o veneno mais mortfero, exalaes pestilentas de 
mandrgoras, filtros de nojo preparados no sacrilgio de missas negras em 
horas de sabat...
E que acaso fora esse, interrompia o meu companheiro, que dera a 
conhecer a minha existncia? No se recordava de o ter ouvido referir nas 
confisses arrancadas por Isac Beiudo na ilha de Corfu... Talvez tivesse sido 
distraco sua, a rezar as contas...
- Foi o caso que, com o desfazer da casa do principe D. Fernando a de 
sua mulher, aquela moa que fora minha ama... Chamava-se, ora deixasse 
ver... Chamava-se Balbina. Tinha enviuvado, compreendia Frei Zedilho? Havia 
seguido para Abrantes na comitiva dos criados de sua senhora, aquando do 
casamento. Mas agora a sua senhora tambm estava morta I ... Que fazia ela 
ali, em terra desconhecida?... Resolveu regressar para ao p da me, em Vila 
Viosa. No lhe foi difcil arranjar trabalho na casa dos senhores de Bragana. 
O caseiro, um homem de uns trinta anos, alto, seco de carnes, com uma longa 
cicatriz vertical na face direita, correndo da comissura da plpebra at ao 
queixo, desfeando-o, agradou-se da rapariga a ela dele. No tardou serem 
amantes. Nas suas intimidades perguntava-lhe Balbina como arranjara ele 
aquela cicatriz, to longa, to funda... Devia ter sido um horror, pobrezinho do 
seu querido ... E ele, afagando-lhe os cabelos muito negros sobre os ombros 
de leite, contava de uma noite de grande vendaval a chuva, em tal parte, junto 
da cerca da casa do conde de Marialva... Do conde de Marialva?, exclamava 
ela levantando a cabea do peito do amigo a olhando-o de olhos arregalados. 
Mas ela servia nessa casa  Que estava ali a fazer ele,  chuva e ao vento?... 
E ele de responder que com um grupo de criados, mandados por seu senhor D. 
Teodsio, faziam espera aos homens do marqus de Torres Novas... Houvera 
luta, fora ferido, mas ainda no desesperara de cobrar vingana do malandro 
que lhe fendera a carne com um punhal... Mas qual era a funo dela l na 
casa dos Marialvas? Era servial?... Mais do que isso, meu querido. Mas  
grande segredo , diz, logo alarmada pondo a mo na boca para impedir que 
saiam as ltimas palavras. Insiste o amante, com carinhos, que lhe conte esse 
segredo assim to grande. Diz respeito  senhora D. Guiomar?, fareja ele. 
Que importa agora? J tudo findara. Ela morrera e com ela acabaram-se os 
segredos todos... Balbina resistia: Pelo contrrio  Agora o segredo era da 
cova, pertencia a Deus,  morte  ... Fingia-se ele amuado: que ela j n.o 
gostava dele, no confiava nele... - e beijava-lhe o pescoo, a nuca, atrs da 
orelha... No era verdade l, protestava ela meia alquebrada... Mas aquele 
segredo... No era dela, compreendesse... Ela tinha jurado ... jurado... No lho 
perguntasse, pelo amor de Deus ... Levanta-se o homem sbito da cama, 
arremedando comear a vestir-se, simulando indiferena, frieza, zanga : Est 
bem l Tenho entendido l. .. Puxa-lhe ela com
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meiguice pela mo, abraa-lhe o tronco, beija-o : Conto-lo s a ti, s a 
ti, ouves?... A mais ningum... Jura-me que no dirs nunca ... nada ... a 
ninguml jura! Jural...-Jurol...-Se o fizeres ...
morro...
......Paravam,os.muares ..beira.de um riacho a beber gua e a tosar 
erva. Como eu deixasse de falar, olhando-os sem os ver, de olhar perdido, e 
depois?, pergunta Frei Zedilho.
- E depois ... - respondo - da a dias Balbina apareceu a boiar, afogada, 
num poo ao fundo da quinta. O poo continuava a ser a ltima soluo para o 
cdigo de honra da gente do povo. Teodsio sabia de mestre Jacob a de um 
menino com um medalho de ouro ao pescoo. S desconhecia ainda onde se 
encontravam. No tardaria a descobrir. Envia esculcas em diversas direces a 
em breve localizam o mdico judeu em Tavira. Fica furioso a desorientado 
quando lhe dizem que Jacob a Sara no tm consigo nenhum filho. Ordena 
que continuem as pesquisas a quanto ao fsico judeu uma denncia  
Inquisio vai dar  vingana o aspecto de um acto piedoso. Sem que eu o 
suspeitasse, you ser eu prprio o veculo do aviso urgente a mestre Jacob para 
que fuja do reino se no quer morrer queimado. O superior do nosso convento 
franciscano de vora, onde eu esta-a como novio, havia sido aiertado por D. 
Joo de Lancastre. O confessor deste  membro do tribunal da Inquisio. 
Conhecei-lo muito bem: D. Frei Joo Soares... A pretexto da minha hesitao 
em me decidir a tomar hbito, manda-me o meu superior com um outro novio, 
de nome Diogo, a visitar os nossos conventos do Sul. Chego a Tavira a visito 
Frei Gaspar, a quem Diogo entrega um recado escrito do superior de vora. 
Visitamos os trs, de um jeito que parece casual, a mestre Jacob a sua mulher 
Sara, que eu ento estava muito longe de saber quem eram. Nessa altura eu 
no podia compreender o carinho alvoroado com que me acolhem, os olhares 
humedecidos, a emoo com que de mim se despedem como se fosse de um 
filho que iam para sempre perder. Ao cair dessa noite um terramoto quase 
destri Tavira. Entre centenas de mortos que ajudamos a enterrar, est Frei 
Gaspar. Quando dias depois corro a casa de mestre Jacob, s encontro 
escombros. Dizem-me vizinhos que ele e a mulher esto sepultados debaixo 
daqueles destroos. Os corpos deles no so encontrados, mas numa nau que 
est partindo para Veneza,
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por entre os passageiros que se apinham na amurada, dou de relance 
com o rosto de Sara chorando a acenando-me adeus. Mestre Jacob da a dias 
era queimado em efgie num auto-de-f em vora. Eu assisti.
Seguimos caminho.muito.tempo.calados.eu.e.meu.companheiro. Para 
qu palavras? Silncio, eloquncia... Mas eu bem sabia que meu companheiro 
desejava conhecer como  que Teodsio... Ele no podia adivinhar... Como 
adivinharia ele que daqueles dois novios um era o filho de Guiomar 
Coutinho?... Estava ansioso Frei Zedilho por ver como  que eu reconstitua 
os factos. A vingana na minha pessoa devia ter sido desencadeada a partir de 
um momento preciso. Qual?... Ora! Uma imprudncia aquele medalho de 
ouro, ao meu pescoo, ali  vista de toda a gente, naquele momento solene em 
que, perante o rei a toda a sua numerosa comitiva de nobres, um pobre novio 
tomava na s de vora o hbito de franciscano
- Pantaleo de Aveiro  - chamava a voz clara a timbrada do bispo.
O duque de Bragana estava l, lado a lado com o duque de Coimbra a 
seu filho D. Joo de Lancastre. Fez-se-lhe uma luz no entendimento : 
medalho de ouro a aquele apelido de Aveiro ! ... Olhou para o companheiro 
do lado a tanto lhe bastou para saber a verdade, bem patente na comoo dos 
msculos da face que se contraem para se dominarem, no fosse aquele 
instantneo alfinete de luz que fulgurou rpido na gota de gua cada de um 
dos olhos a logo sumida afogada por entre a barba loura.
- De Aveiro  - murmura entre dentes... E eu ouvi, com um baque no 
corao. Mas o duque de Aveiro tambm ouviu...
As minhas deslocaes contnuas desorientam possveis armadilhas, a 
no convento franciscano, como se uma epidemia de amnsia tivesse ali 
grassado a varrido aquelas mentes, ningum sabia do meu paradeiro. Que 
perigo podia assim correr aquele jovem monge de So Francisco que de seu 
vagar vai subindo a Arrbida, seguindo com 0 olhar uma nau que se perde no 
horizonte a leva para terras do Brasil o seu amigo Diogo? Era perigoso, sim, 
para sicrios da casa de Bragana andarem por estas terras dos ducados de 
Combra a de Aveiro... Tambm em Lisboa no encontram rasto meu. Calcula-
se o deses pero de Teodsio a como dio recalcado  dio acrescido... A 
mesma invisvel mo - agora o compreendo - que ia guiando meus passos
403
de modo a proteger-me, faz que eu venha para Roma, para a Cria, 
como secretrio de Frei Antnio de Pdua. O cardeal D. Henrique, que 
desejava colocar na Cria representante da sua confiana, na pessoa de Frei 
Cristvo de Abrantes, v com maus olhos a nomeao de Antnio de Pdua, 
um cristo-novo de patre et matre, como ele no deixa de acentuar em carta 
azeda ao chanceler do Papa. Um pequenino escndalo de diplomacia que 
basta para alimentar durante algum tempo o circunscrito mundo dos que 
ocupam altos cargos sem qualquer mrito pessoal. Na Embaixada portuguesa 
junto do Vaticano o caso  naturalmente falado a comentado. Antnio Pinto  
secretrio, ao mesmo tempo que faz secretamente parte da rede urdida por 
Teodsio de Bragana. No falta em enviar-lhe notcia do sucesso. No teria 
sido preciso, que o duque de Bragana, privado do cardeal, j conhecia o 
litgio. Mas h na carta de Pinto um pormenor deixado por acaso, na rotina da 
meticulosidade: a referncia ao insignificante a desconhecido frade franciscano 
que vem ajudar Antnio de Pdua, um tal Pantaleo de Aveiro ...
- E da em diante ... - pensa em voz alta Frei Zedilho.
- Da em diante comea a tecer-se a grande teia, logo embada e 
frustrada quando Frei Bonifcio de Aragusa, que se torna particular amigo do 
to falado D. Frei Bartolomeu dos Mrtires, por sugesto Jeste me vem buscar 
a Roma a me leva consigo por terras de Itlia a reunir a nova famlia 
franciscana para a Terra Santa, idas a vindas, Roma, Trento, Veneza..., que 
desorientam os assalariados de Antnio Pinto.
- ... at que surge um dado seguro ... - segue o meu companheiro com 
ateno o meu pensamento...
- Sim, um dado seguro  estar eu encurralado num barco a caminho da 
Palestina. At ao fim, no mais poderia escapar...
- A no ser por um acaso, como em Cndia...
- Sim. A no tinha ainda chegado a mo protectora de Isac Beiudo, 
que tambm ia falhando em Chipre se no fosse aquele terrvel naufrgio, em 
Pafo, em que morreu Argirpolos.
-Como entra Isac em todo este enredo?- exige a curiosidade do meu 
companheiro.
Ento no via? Isac Beiudo  um judeu portugus amigo de mestre 
Jacob a de Joseph, o livreiro portugus de Veneza. Joseph, atravs do filho 
Joaquim, que fora em criana meu companheiro
de escola a era agora mdico em Setbal,  o ponto secreto de liga o 
entre Joo de Lancastre a mestre Jacob, sobretudo numa altura em que 
Pantaleo de Aveiro, este pobre fianciscano que no sonha a enredada trama 
que anda urdida  sua volta, vai a caminho de Jerusalm. Outros agentes do 
duque de Aveiro junto de mim em Roma so D. Frei Bartolomeu dos Mrtires, 
ntimo amigo do duque, hspede assduo de sua casa em Azeito, antes de ir 
para o arcebispado em Braga, a D. Frei Joo Soares, bispo de Coimbra. Estes 
dois pre-. lados descem de Trento a assistem em Veneza  minha partida para 
Terra Santa. Tambm l est Joseph. Dir-se-is que vm assegurar-se a de que 
tudo est a decorrer em boa ordem. Pela segunda vez na minha vida sou eu 
prprio, sem o suspeitar, o portador de uma mensagem que me diz respeito.  
para entregar a Isac em Corfu, Isac que entretanto, industriado por mestre 
Jacob, j vem aodado ao meu encontro. Embarca em Salinas na nau Quirina, 
a caminho do naufrgio a talvez da morte em Pafo; se no fosae o caso de 
descer a terra em Limison, em busca de informaes acerca da chegada da 
nau de Veneza. Confiado que a falta de vento esteja para durar uns dias, 
deixa-se ficar em terra com amigos a quando chega ao porto para voltar a 
embarcar j a Quirina havia partido para a sua perdio. Quem nela tinha 
embarcado, por seu mal, foi Argirpolos, que procurava alcanar em Pafo a 
nau de Veneza em que vnhamos. Toma ento Isac uma nau francesa, que 
vem de Tiro carregada de galhas a se faz ao largo, em direco a Creta, mal a 
tempestade comea a fustigar a ilha. Assim se d o nosso desencontro, que se 
h-de prolongar por bom tempo, mas muito mais tempo h-de demorar a 
chegar aos ouvidos de Pinto o que se passou em Cndia e o naufrgio da 
Quirina, em que encontra a morte Argirpolos...
- Se  que chegou ... - comenta o meu companheiro.
- Sim. Podemos bem supor que apenas tenha deduzido ter corrido mal 
alguma coisa ao receber notcias da Terra Santa de como o guardio de 
Jerusalm a seu companheiro portugus, Frei Pan taleo, se encontram de 
perfeita sade. Parte nessa altura em peregrinao  Palestina o bispo de 
Coimbra. Pinto alicia Miguel, o aclito dele, com promessas que fazem calar a 
conscincia do cnego ambicioso. D-lhe ouro para pagar a quem ache que 
deva executar qualquer plano de eliminao do infeliz visado... E o resto...
404 m 405
- O resto eu que o diga - ri Frei Zedilho, esquecido agora,  distncia, de 
como havia tremido ento, castanholeando os dentes, na quentura dos 
acontecimentos.
- Mas estava l, felizmente, Isac Beiudo, vindo da sombra e do nada 
como um fantasma......................................................... ......Vamo-nos , 
chegando. a..Roma,..cujo .perfil,..erguendo-se da doce campina, comea a 
ensombrear-se ao longe. Ressoa no ar calmo o compassado toque das 
ferraduras dos muares no empedrado de amplas lajes de basalto. So restos 
da velha Via pia, aqui a ali durante a caminhada encontrados quase intactos. 
A um lado a outro, runas de nobres casas romanas a esboroarem-se a de 
tmulos vetustos, na luz mansa coada pela larga copa verde-negra dos 
pinheiros a pelos ciprestes afusados. Pairam no ar as sombras de Crassos, 
Metelos, Cipies e das colunas a lpides tombadas das aras sagradas 
espreitam melanclicos os manes patrcios. Passam por ns pedaos de 
aqueduto, teimosamente de p, de longada desde as montanhas vizinhas, pela 
plancie fora, a caminho da grande cidade. Por momentos parece-me reboar 
nos ouvidos o estrpito de passos pesados a ferrados das legies imperiais, o 
tropear da cavalaria, o rodado dos carros dos impedimenta. Mas aquela urna 
de mrmore branco como ossos de esqueletos calcinados est a dizer-me que 
tudo se reduziu a cinzas.
- A tendes - digo a meu companheiro - no que deu o amor e o dio...
- Um punhado de p que se pode guardar numa pequena caixa ou 
esparzir ao vento  Por isso eu dizia ser tempo de cristianizardes a vossa dor...
Chegados a Roma, Frei Zedilho pretende despedir-se de mim, com 
pressa de prosseguir caminho, ir buscar suas coisas a Veneza e encetar a 
viagem de regresso a Espanha. Vs ficais na Cria, no  verdade? Rogo-
lhe que espere um pouco, at eu confirmar que posso ficar mais algum tempo 
no Vatcano. Depois acompanh-lo-is a Veneza e l nos despediramos um do 
outro. Assim se faz. Frei Antnio de Pdua recebe-nos como se estivssemos 
ungidos do bafo do prprio Cristo, acabadinhos de chegar dos santos lugares. 
Claro que sim, o lugar na Cria aguardava por mim o tempo que eu desejasse, 
nem outra coisa ele esperava. Sinto-lhe, no acatamento que me faz, o toque 
subtil a discreto da mo que de longe me protege. Frei Zedilho tam
bm o sente, que me diz, assim que nos retiramos a iniciamos a subid, 
at Veneza:
- Estais a fugir de vos chegardes a Portugal? Qualquer um julgaria, pelo 
contrrio, que, depois do que sabeis, correreis ao encontro de...
- De qu ou de quem? Colocai-vos no meu lugar. Entrava agora um 
pobre frade franciscano calado de pau, vestido de saco, uma corda em volta 
da cintura, por uns to nobres paos ducais como aqueles, no seio de uma 
famlia constituda, diante da senhora duquesa D. Juliana de Lara a de seus 
filhos, o senhor D. Jorge de Lancastre e o senhor D. Pedro Dinis de 
Lancastre... Com que cara? Com que direito? Com que fim?... Se esses nem 
sequer sabem da minha existncia.. .
Mas el havia de gostar de ver-me insistia meu companheiro. Eu  
que ... no me quadrava a situao. Personagem fora da histria, assim havia 
de continuar de ser. At condizia mais com o meu voto de pobreza, de 
renncia, de desprendimento do mundo ... a com a minha maneira de ser ... 
Intruso, nuncal... Intruso?! Mas tinha direitos! Lembrasse-me de que era filho 
legtimo!... Seria preciso prov-lo. Aos olhos das gentes no era. O tribunal 
eclesistico havia julgado insuficientes as provas a no fidedignas as 
testemunhas apresentadas por Joo de Lancastre... E porque no tentar 
prov-lo, agora que as paixes esfriaram e o juzo dos homens pode ser mais 
sereno?, desafiava-me o companheiro. Talvez ainda houvesse provas, 
papis...
- Tenciono faz-lo - respondi eu gravemente a Frei Zedilho. - No por 
mim, que no me incomoda ser isso a que chamam um filho bastardo. Perante 
Deus no h filhos bastardos...
- Blasfemais
- ... h, quando muito, pais bastardos. Tenciono faz-lo por eles. 
Sobretudo por ela... Para mostrar ao mundo que ela consentiu em casar a 
segunda vez para proteger o marido das retaliaes da corte e, sobretudo, para 
proteger o filho. Para mostrar ao mundo que o castigo do Cu fulminou foi a 
prepotncia sobre uma infeliz indefesa, o preconceito da infalibilidade a 
omnipotncia da palavra real, o arrogar-se anular o qe um sacramento havia 
ligado, o pecado de se pretender no ser pecado o adultrio s porque o 
sancionam um rei, um prncipe, um pai orgulhoso de sua inepta prospia... 
Guiomar Coutinho no morreu em Dezembro de quinhentos a trinta a quatro, 
mas em
406 407
Maro de quinhentos a trinta quando a casaram com o prncipe D. 
Fernando. Foi a que entrou em agonia...
-Coisas terrveis so as que dizeis!... Mas onde podereis achar esses 
papis? Que as pessoas, as testemunhas, vo morrendo, esto 
desaparecendo...
Tinha uma diligncia a fazer na biblioteca vaticana. Um pequeno 
apontamento quase indecifrvel que Sara me dera em Damasco, deixado por 
mestre Jacob. Talvez a encontrasse alguma coisa, no achava irmo Zedilho? 
Quem sabia! Quem sabial Em Azeito talvez, na posse do principal 
interessado, o duque de Aveiro...
Entrava Setembro a comeavam os veludos da luz a adoar-se de subtis 
meios tons nos poentes laranja-prpura arroxeados, nos crepsculos suaves 
que tingiam de violeta as plpebras da noite nos recncavos dos valados. Em 
Veneza o meu companheiro despedira-se, estugado. Queria transpor os Alpes 
antes das grandes neves, compreendia? Sempre seco, frio, cerebral, foi s 
quando nos abramos pela ltima vez que me disse esta coisa admirvel que 
no era propriamente emoo:
- J no sei bem como hei-de haver-me sem a yossa companhia. Tenho 
de rever-me completamente, como se fosse de novo. Sinto-me profundamente 
desorientado ...
Regresso a Roma com as primeiras chuvas que me foram a ir 
retardando a jornada. Ensejo bom para dar pasto ao meu gosto minucioso de 
ver coisas. Prazer mais que do esprito visitar na Toscana, velha Etrria que 
me recorda os meus primeiros anos a sabatinas de latim, esse viveiro de 
artistas a de altos engenhos que  Florena, cidade de igrejas a palcios de 
lavra secamente rectilnea, de equilbrio clssico, a quebrar a contrariar as 
formas redondas de arcos a ogivas do passado. Como o homem  vrio nos 
seus critrios estticos!...
Passo Arcio, contorno as margens enevoadas do Trasimeno onde 
evoco a legio de Flamnio surpreendida a esmagada, mal o nevoeiro levanta, 
pela mole imparvel, pesada, estremecendo o solo, dos elefantes de Anbal, 
barrindo, estrdulos, encurralando os romanos entre montanha a lago. Por 
Persia, de ruas estreitas, sinuosas, ngremes, desvio-me a fazer minha 
romagem a Assis, a recolher-me ao p do tmulo serfico. A recolher-me  Pode 
l chamar-se a isto recolhimento I Os meus olhos no se viram para dentro de 
mim. Erram, saltam de parede em parede, por estes frescos de Cimabue, de 
Giotto!...
As sagradas bodas de Francisco com Dona Pobreza! E o meu 
esprito, verrinoso - porqu assim to azedo? -, a dar a volta  coisa e a 
imaginar o contraponto, As sacrlegas bodas de Todo o Mundo com Dona 
Riqueza ... Preso, demasiado ligado  terra  o que eu estou!... Aqui jaz este 
santo homem, canonizado por Gregrio IX apenas dois anos depois da sua 
morte. Rpida canonizao! Recordo as palavras que um dia, em Damasco, 
me dissera um judeu: Cristo aps tantos sculos ainda no foi canonizado! 
Revolta-se-me o pensamento : ningum canoniza um Deus ! ... Mas este que 
aqui est neste tmulo  um outro Cristo, quis repor Cristo na sua pureza 
primitiva... Os judeus, por toda a parte por onde passei, continuam ainda  
espera do Messias. Veio o primeiro, no o aceitaram. Vem o segundo ... at o 
Papa lhe delimita a circunscreve a aco... Quantos mais Messias
 estaro por vir, a salvar a humanidade que se afunda? Desespero e 
recomeo  Desespero de tudo, recomeo outra vez a descrer de tudo... 
Atravessada a mbria, os Sabinos, sigo a margem do Tibre,
dentro da minha concha, em-mim-mesmado. No tarda que os meus 
passos soem nas brancas a lustrosas lajes de mrmore dos amplos corredores 
do Vaticano a ecoem por aquelas altas abbadas a profundos desvos. Na 
Cria tenho as primeiras notcias do reino. Sem interesse. Excepto uma, que 
constitui para mim particular alvio, Deus me perdoe l Teodsio de Bragana 
morrera em sessenta a trs. Espantosa coisa  Os seus esbirros no o sabiam 
... a continuaram a executar as suas ordens, em Corfu, at com ele morto ... Se 
Pinto a Miguel no escaparam do destino que Isac lhes preparou, andarem 
remando algures no Egeu, nas galeras do gro-turco, eu devo estar 
definitivamente livre de perseguies, armadilhas, atentados. D. Henrique, 
arcebispo de Lisboa, inquisidor-mor, regente do Reino, legado permanente da 
Santa S, protesta mais uma vez junto do Vaticano, na pessoa de Carlos 
Borromeu, contra o envio a Portugal de Frei Antnio de Pdua como 
comissrio dos franciscanos de observncia no nosso pas. Carlos Borromeu, 
arcebispo de Milo, alm de ser secretrio do Papa Pio IV, seu tio,  o 
protector das duas ordens de frades menores, conventuais a observantes. O 
incidente no me impressiona. A minha ateno volve-se mas  para Carlos 
Borromeu. O chanceler do Papa  amigo de D. Frei Bartolomeu dos Mrtires. 
Carteiam-se amide. Ora a estl  preciso abrir caminho para ter acesso aos 
arquivos da biblioteca vaticana, a certo gaveto esquecido a talvez igno
408 w- 409
rado. O papel que me deu Sara em Damasco parece agora falar claro. 
Quantas voltas dei  cabea para deslindar aquele Bor. !... O resto parecia-me 
fcil, mas Bor.!... At que agora a est a chave do enigma: Bor.  Borromeu, 
Carlos Borromeu, amigo de um dos meus protectores ! No perco tempo a 
procurar descobrir quem teria feito chegar tal indicao s mos de mestre 
Jacob, mas no tinha dvidas de que ali devia andar dedo de Isac Beiudo, 
tocado por Joseph, tocado por Joaquim, tocado por ... No Vaticano no ouso, 
de entrada, utilizar os meus trunfos.  uma espcie de bravata, ou de teste, da 
minha parte. Eu sei que  difcil ser recebido pelo atarefado sobrinho de Pio IV. 
Podia referir a minha qualidade de companheiro de Bonifcio de Aragusa, o 
facto de j uma vez ter sido acolhido por Sua Santidade, que me fez confessor 
apostlico, o pertencer  Cria romana para os assuntos franciscanos da 
minha terra, o conhecer Bartolomeu dos Mrtires, que sei eu... Mas no. 
Anuncio-me apenas a secamente Pantaleo de Aveiro ... a d-se o imprevisto: 
Carlos Borromeu recebe-me imediatamente ... de braos abertos a com um 
compassivo sorriso no rosto!... Aqui est mais uma pessoa - no deixo de 
pensar - que, primeiro que eu, sabe quem eu sou... Da a nada seguia eu atrs 
de um bibliotec.rio por aquelas vastas galerias desertas, de paredes 
revestidas de estantes de madeiras a lavrados preciosos, de tapearias a 
quadros de mestres. A povoar o largo espao estatuetas de mrmore a de 
bronze em suas ricas peanhas. Ressoam os passos no cho lustroso de 
embutidos e o mais pequeno cicio toma corpo de trovo. Como me quadra esta 
calma solido em que o tempo parece ter parado no silncio dos livros 
eloquentes  No chega aqui o estrebuchar das paixes e a , arte soube fixar a 
vida no momento mais belo. Das mos que a terra h-de comer saram as 
obras eternas, triunfo do homem morredoiro sobre a morte infalvel. Sorrio ao 
dar conta de que este pensamento contradiz aquele sentimento que tive ao 
passar pelas runas da Via Apia, runas que, se apesar de tudo existem, ainda 
continuam a significar a vitria do homem efmero sobre o tempo. Perco-me 
nestes pensamentos antagnicos - como  vria a contraditria a esquiva a 
alma humana e no me vivo, no me sinto o importante passo que estou 
dando. Sou um sonmbulo de mim mesmo a estou de fora a observar-me o 
caminhar. O bibliotecrio pra em frente de um armrio cheio de gavetos a 
cuidadosamente abre um a retira um rolo de papis. L-lhe na parte de fora a 
cota.
-  curioso  No  a mesma cota!
Desata o lao a desenrola os papis passando-lhes um rpido olhar.
- Dissestes Joo de Lancastre? No. Estes papis dizem respeito a D. 
Jorge de Lancastre, duque de Coimbra. So o requerimento, e mais 
documentao, feito a Sua Santidade para que conceda sua licena  
realizao do casamento de D. Jorge com D. Maria Manuel. O Papa no 
deferiu... Mas devia existir aqui um outro rolo ... - e procurava melhor no fundo 
da gaveta, donde retirou uma fita solta e um pequeno rtulo. - Aqui est o que 
sucedeu. Vedes? - e mostrava-me a cota do rtulo cado. Era a mesma do 
papel que Sara me tinha dado. - Como pde acontecer semelhante coisa? 
Algum retirou esses documentos... Vinde. Vamos dar uma olhadela  lista 
geral da documentao existente - disse, depois de tornar a colocar a fita e o 
rtulo no fundo da gaveta a de a fechar cuidadosamente. O catlogo geral era 
explcito : aquela cota dizia respeito  documentao enviada por D. Joo de 
Lancastre  Santa S a solicitar o reconhecimento e a bno de Sua 
Santidade para o seu casamento com D. Guiomar Coutinho. Os papis haviam 
desaparecido. A mo de Pinto, provavelmente. Mas a mim j no restavam 
dvidas nenhumas. O simples facto de terem sido furtados era a prova de que 
existiram... todavia perante o mundo eu continuava de mos vazias. Sinto-me 
como se de repente se fizesse um vcuo dentro de mim,  minha volta. As 
coisas e a prpria vida parecem-me ter perdido o seu sentido, a sua finalidade, 
ser completamente inteis. Nem sequer lhes encontro j a motivao de 
outrora para descantar hinos de louvor ao Criador. Aonde foi parar a minha 
alma de franciscano? Vejo-me como perdido no meio de um deserto de que 
no tenho pressa, coragem, sequer vontade de sair. Caio na rotina inspida, 
aptica, ablica, de me levantar cedo, cumprir sem o lampejo da mais leve 
chama as minhas obrigaes religiosas, o dia-a-dia burocrtico da Cria... As 
vezes pego em mim, violentando-me num assomo de reaco, a saio pela 
cidade a ver se espevito o velho gosto de mandar s malvas regulamentos a 
horas certas, a toque de campa, de ver coisas novas, de falar com gente, ao 
acaso dos encontros... A princpio, nestas minhas sadas, ia ter invariavelmente 
s runas do Frum, do Coliseu, ou s margens do Tibre ande estivessem mais 
desamparadas de convvio humano. Depois, como era o isolamento que eu 
precisamente me esforava por evitar,
40 L; 4
comecei a procurar os lugares mais frequentados, os mercados cheios 
de movimento a barulho, que os Italianos falam aos berros a esbracejam em 
excesso... Embora o rudo me incomodasse, aquelas mulheres a regatearem a 
altas vozes o preo dos legumes, da carne, do peixe, como se se tratasse de 
uma questo de vida ou de morte, de honra a ganhar ou perder, da salvao 
ou perdio da alma, com fazer-me pensar tinham o condo de me distrair. Era 
aquele o mundo das pequeninas coisas, dos interesses mnimos a imediatos. 
Porque havia eu de tender a considerar sempre o grande a absoluto mediato, 
os ltimos fins do destino humano?... Aqui vai  minha frente uma mulher 
idosa, de costas abauladas, cheia de rugas a desdentada, contando com os 
olhos umas magras moedas na palma aberta da mo esquerda, enquanto 
segura na direita o cesto das compras. Acaba de virar as costas  banca da 
peixeira e, como sada de uma cena de Plauto, caminha resmungando que 
tudo est caro - porca misria ! -, o peixe, a carne, a hortalia... Deitar contas  
vida!... Se um franciscano no deve ter contas da gota de gua que basta a 
saciar-lhe a sede nem da cdea de po que chega para lhe enganar a fome, 
como pode ter contas de me ou pai?...
Atraem-me as lojas dos livros. Alguns ttulos passam sob o meu olhar 
superficial a indiferente : Il Principe, de Nicol Machiavelli, as Vite de'piu 
eccellenti pittori, scultori a architetti, de Giorgio Vassari, o Orlando Furioso, de 
Ariosto, as Pasquinadas, de Pietro Aretino... Quase escondido, entre uma rima 
de livros, encontro as Laudes creaturarum ou Cantico del Sole, de meu padre 
So Francisco. Obra antiga, j quase esquecida. Interesso-me por ela. 
Compro-a. Tambm o Cortegiano, de Baldassare Castiglione, me chama a 
ateno. No pelo assunto em si, mas por vir dedicado ao reverendo a ilustre 
senhor D. Miguel da Silva, bispo de Viseu. Bem me lembra a mim de to 
insigne figura, grande latinista a helenista, doutor pela Universidade de Paris, 
embaixador de el-rei D. Manuel junto da Santa S, amigo a defensor dos 
cristos-novos. O dio truculento de D. Joo III a dos prncipes seus irmos 
move-lhe, pela sua altiva dignidade a lisura a porque o Papa o faz cardeal ao 
arrepio deles, uma tal perseguio que  constrangido a fugir para Roma. 
Despoja-o el-rei de todas as honras, mercs, privilgios, liberdades a 
imunidades, graas, isenes a franquias, desnaturaliza-o do reino, persegue-o 
com sicrios encarregados de o assassinarem se puderem, redu-lo  misria 
de no poucas vezes ter de recor
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F t: I
x4
rer  mesa do Papa Jlio III, seu amigo. Acaba em Roma na velhice, na 
doena, na extrema pobreza... A evocao de tamanhos dios e vinganas 
traz-me de novo ao pensamento aqueles outros dios e vinganas que 
gravitaram em redor de mim... Mas j outro ttulo prende a minha ateno por 
ser de autor meu conhecido, o telogo Frei Francisco Orantes, que, em 
representao do bispo de Palncia, Filipe I enviara a Trento acompanhado de 
Frei Zedilho. Tinha-o ouvido pregar naquela assembleia no Dia de Todos-os-
Santos, em quinhentos e sessenta a dois. Antes de regressar a Segvia este 
mesmo ano, dera-se ao incmodo de descer a Veneza a despedir-se do seu 
companheiro que comigo partia para a Terra Santa. Deixara aqui o fruto de um 
ano de intenso labor conciliar, os sete livros de apologia da f romana contra a 
doutrina de Calvino : Locorum Catholicorum pro Romana Fide adversus Calvini 
institutiones Libri VII... Veneza, i 5 64... Lembro-me do meu companheiro, de 
quem nestes tempos sinto a falta, a prometo a mim mesmo visit-lo quando 
regressar a Portugal por terras de Espanha, ir v-lo, estar uns dias com ele 
em...  a memria que me falha? No me recordo de lhe ouvir dizer o nome da 
cidade, da vila, do convento em que reside!... Terei de perguntar na Cria. 
Sabero? Ho-de saber... Um outro livro est impacientemente a acenar-me 
que lhe preste ateno, o folheie : De Visibili Monarchia Ecclesiae Libri Octo... 
Auctore Nicolao Sandero... Nicholas Sanders! Outro amigo que conheci em 
Trento!... Ingls de nao... Charlwood, Surrey, gostava ele de acentuar, a 
acrescentava ter cursado Winchester e o New College em Oxford, Oxnia 
claro... A ascenso ao trono da rainha Isabel, protestantssima inimiga dos 
padres de Roma, f-lo vir para a cidade pontifcia, onde toma ordens. Em 
qunhentos a cinquenta j se fala nele como bem aceite candidato ao chapu 
cardinalcio. Ajuda entretanto o cardeal polaco Hossius a combater na Prssia, 
na Litunia, na Polnia, o alastrar da heresia. Encontro-o em Roma, em 
sessenta a cinco, vindo de Lovaina onde se doutorara. Exuberante, activo, 
cheio de projectos dinmicos contra os protestantes na sua Inglaterra. Se eu 
no queria acompanh-lo - tentava-me - por terras de Espanha, junto do rei 
Filipe, a angariar dinheiro a recrutar homens para se formar uma fora, uma 
cruzada - no via eu? -, um exrcito que expulsasse daquelas terras, da 
Irlanda, da Esccia, da Inglaterra, aquela ndoa?... Mas a dignidade de cardeal 
acenava-lhe prestgio, fora ... a ele aguardava, aguardava ... e o tempo ia pas
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sando... De sbito reparo na data do livro : Lovaina, I S 7 i ! Mil 
quinhentos a setenta a uml... Abismado! A conscincia de que se me haviam 
escoado cinco anos de modorra doentia! Quase me no apercebi da voragem 
do tempo, de como se esfumaram a correr invernos, primaveras... Um dia ao 
levantar-me a ao abrir a janela do quarto deparam-se-me os trinos das 
andorinhas que revisitam, no seu esvoejar zinzilulante, rpido, nervoso, no 
ruflar das asas inquietas, os restos esburacados dos ninhos escapados da 
invernia passada. Agarro-me ao smbolo. Se elas restauram, reconstroem as 
runas dos ninhos, pacientemente colmatando-lhes as brechas com bolinhas de 
lama, consolidando-os nas junturas dos beirais, porque no entro eu pela via 
da minha reconstituio interior?... E de sbito sinto saudades da minha terra 
longnqua  Sinal de convalescena? Mas eu estive doente?... A flor dos lbios 
versos de outros tempos:
Criaturas da terra a aves dos cus louvai ao Senhor l
Nesse dia celebro o ofcio divino com uma ateno a calor h muito no 
sentidos e  sada da igreja dou com a chilreada de crianas a caminho da 
escola. Algumas vm pedir-me a bno a beijar-me a mo. Quase fico 
envergonhado. Por onde tm meus passos andado h tanto tempo, que me 
no tenho encontrado a praticar o meu apostolado, a ensinar a minha 
catequese?... Os mais velhos devem continuar a transmitir s geraes mais 
novas a sua experincia, a sua sabedoria, as tcnicas dos ofcios, os cdigos 
ticos da 7sacS... Tenho sido perfeitamente intil a egosta.  preciso 
urgentemente pr cobro a isso, regressar quanto antes  minha terra a a 
exercer serenamente a minha tarefa junto dos outros... Encontro Nicholas 
Sanders. Desiludido do cardinalato que no chega  Prope-se acompanhar-me 
at Espanha, a pr em aco as suas ideias. Apresso-me. Nos ltimos dias de 
Abril de setenta a um abalo na companhia do ingls das doces terras de Itlia 
que por tanto tempo me abrigaram a donde um dia, que j l vai to distante, 
eu partira para a peregrinao  Terra Santa a s origens da minha vida. Lvo 
um fito. Anseio por chegar, mas a jornada  longa. A meados de Maio estou em 
Avinho a em junho transponho os Pirenus a chego a Monserrate. Sigo 
caminho por Tarragona, Cuenca, terras de Castela... Nicholas Sanders 
despede-se de mim.
Havia dissidentes catlicos na Esccia a no Norte da Irlanda, sabia eu? 
Iria juntar-se a eles, logo que conseguisse dinheiro a mercenrios dispostos a 
lutar. Haviam de vencer, veria... Passo Toledo, Mrida, Badajoz...
So vinte de Agosto quando entro por Elvas e, atravs de terras to 
minhas conhecidas que sinto - enfim, graas a Deus - derreter-se-me como 
outrora o corao, chego a Setbal, est o ms no fim a logo me vem ao 
conhecimento, no nosso convento onde pernoito, que a casa de Aveiro est 
duplamente de luto : no ano anterior tinha falecido a duquesa D. Juliana de 
Lara, a uns dias antes de eu chegar havia sido sepultado em Coimbra, na 
Igreja de S. Domingos, o senhor D. Joo de Lancastre, duqLe de Aveiro. 
Recolho--me  capela a rezar ... comovido.
44 45
XXI
A casa do p
... In Geth nolite anuntiare, lacrimis ne ploretis, in domo pulveris pulvere 
vos conspergite.
... No o anuncieis em Geth, no derrameis lgrimas, na casa do p 
cobri-vos tambm de p.
(Miqueias, I, zo)
- Irmo, que desejais? Entrai na copa, pelos fundos da casa, que l vos 
daro uma sopa quente.
Eu estava sentado na pedra de um degrau,  entrada do pao. Tinha 
repetido o caminho, havia tanto tempo no trilhado, pelo alto da serra, a visitar 
o convento dos capuchos, a banhar os olhos do azul daquele mar a do verde 
daquelas matas, descera a Azeito a sentara-me ali, diante do casaro do 
duque de Aveiro a recordar como a morte viera fechar o ciclo do amor a do 
dio. Desistira de procurar ali papis que documentassem a autenticidade do 
casamento de Guiomar com Joo de Lancastre. Se este os possua, alguma 
razo o levara a no os publicar, aps o t-lo uma vez feito,  puridade, 
perante o foro eclesistico. No o fazer, consumado o casamento dela com o 
prncipe D. Fernando, revelava finura de sentimentos a era silncio que com 
mais razo cumpria manter depois que ela morreu. Compreendia eu agora 
como era essa a nica atitude digna do sacrifcio de Guiomar Coutinho. Como 
me passara pela cabea a loucura de pretender revelar o que eles quiseram 
calar? E revelar a quem, se a morte
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j havia levado aqueles que intervieram no caso, dele foram juzes e 
algozes? Quem actualmente ter interesse no repor da verdade? O nico 
interessado ainda vivo sou eu ... a eu estou escondido atrs de um hbito de 
franciscano a de um nome religioso... A vem saindo, garboso em seu cavalo 
branco, acompanhado de luzida comitiva, o novo duque de Aveiro, D. Jorge de 
Lancastre, formosos vinte a trs anos. Bina emplumada, gola a punhos 
encanudados, peitilho de veludo azul, golpeado, colar de prata pendente sobre 
o peito, rico punhal  cintura em sua bainha lavrada de ouro a pedraria, cales 
tufados at meia coxa, perna torneada em meias de seda at aos chapins. Vai j 
untar-se a el-rei D. Sebastio na caa de montaria. Ei-lo que pra diante de 
mim, me trata por irmo a me oferece da sua sopa... Irmo  Logo esta a 
primeira palavra que me dirige 
- Senhor - respondo-lhe -, descansava da caminhada...
Como o cavalo pateasse impaciente, saudou-me com sua bina de 
plumas a largou  desfilada seguido dos companheiros. Fiquei-me a v-lo 
desaparecer l em baixo, por entre os pinhais da plancie que se estendia a 
perder de vista para os lados do Coina... Irmo ... Sigo caminho em direco a 
Lisboa, atravesso, como em um outro dia h muito tempo, o velho Tejo... H 
algo nele que me inculca diferena. No  a multido de naus, caravelas, 
galees, barinis, barcas, uns a chegar, outros a partir, a lufa-lufa do imprio... 
 desigual espcie de actividade que, sem ser indita, causa um alertado 
espanto.  a febre com que se est a trabalhar, os estaleiros armados em lugar 
recatado, sob escolta, a construrem em ritmo nunca visto. Pergunta indiscreta, 
atrevida, talvez intil a minha ao barqueiro, homem velho e habituado ao rio. 
Que se passava? Oral No se passava nada. Era o rei - o reizinho... Esse 
catraio, esse... Um puto, pensava eu  italiana... E o homem remava calmo, 
seguro, ritmado. Podiam vir terramotos, pestes, desabar cataclismos... Nada o 
alterava. J tinha visto muito com aqueles que a terra havia de comer a 
passado muito, cresse minha paternidade. Mas como aquilo, aquela 
insensatez, aquela loucura, nada l ... Deus lhe perdoasse se no lhe estavam a 
agoirar as coisas a perda do reino... Se todas as minhocas que rabeiam no 
lodo daquela - cabea se viessem pendurar no bico do m'anzol, eu houvera 
de pescar tanto pexe, tanto pexe, tanto pexe, que no se passara mais fome 
em Portugall...
- Sois algarvio, vejo.
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- De Tavira. Tambm l fervem os estaus. O que aqui vedes de barcos a 
construir no  nada acomparado com o que a vai por esses portos mais 
pequenos a abrigados. At para o Norte dizem que se constri em grande, no 
Porto, em Viana... H espies por todo o lado... De Espanha, de Veneza, de 
Marrocos... O mundo anda intrigado com o que podero ser tais preparativos. 
O rei faz saber que quer dar apoio eficaz s nossas terras de alm-mar a 
desencorajar os corsrios franceses a ingleses que costumam atacar as 
nossas naus. Mas o que se diz  boca pequena  que pretende conquistar 
Marrocos e o Norte de frica at s terras do Preste Joo, destruir o gro-turco 
e libertar a Palestina dos infiis...
A sua voz distancia-se a as batidas ritmadas dos remos trazem-me  
mente imagens de remeiros de troncos nus suando nas galeras turca.s. Ouo o 
alarido a grita do combate a estrondear. No se falava de outra coisa em 
Espanha quando por l passei, a grande vitria de espanhis a venezianos 
sobre o turco em Lepanto, como represlia por se ter apoderado de Chipre. 
Contavam-se horrveis atrocidades cometidas desde que o Crescente comeou 
a flutuar nas muralhas de Nicsia ... trs dias de pilhagens, o massacre dos 
cristos, a Catedral de Santa Sofia transformada em mesquita, a venda das 
crianas no mercado dos escravos, as mulheres violadas a levadas para os 
harns... S faltava conquistar Famagusta. As foras de Lala Mustaf sitiam-na 
por mar a por terra. Defendem-se os venezianos a gregos valentemente, mas a 
breve trecho o isolamento em que se v Marco Antnio Bragadino com os seus 
sete mil homens, sem munies a sem vveres, leva-o a propor ao turco a 
rendio da cidade em condies honrosas: garantia da partida das tropas para 
Creta a de que os habitantes vero respeitado o livre exerccio da sua religio e 
a guarda dos seus bens. Mustaf aceita, mas quando Bragadino vem ao seu 
quartel-general para ultimar o acordo manda-o prender. Na praa pblica  
armado cadafalso. Vem Bragadino, grilhes nos ps a mos, a rematar o 
macabro cortejo dos seus gentis-homens, cujas cabeas da a pouco, do alto 
das muralhas, contemplam escorrendo sangue o suplcio do seu comandante, 
escorchado vivo, a pele recheada de palha a ser passeada pela cidade para 
incutir terror aos habitantes, ' antes de ser enviada ao gro-turco como trofu 
dos trofus...
. - Conseguiu do Papa uma bula de cruzado ! - ouo de novo a voz do 
meu remeiro falando de D. Sebastio. - Uma loucura que
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nos h-de perder a todos, haveis de ver... Os impostos so insuportveis 
a j me contaram que h casos em que os comerciantes at so obrigados 
pela fora a ameaas a dar voluntariamente os anis a as unhas dos dedos...
- Voluntariamente 
- A vida est para vs, os frades... Meteis-vos numa toca, l no alto da 
serra, uma gota de chuva a uma migalha de po vos alimentam como aos 
passarinhos... Vede no que do as ambies do mundo 
- Dizeis bem, amigo, dizeis bem. Vinde comgo, que tambm para vs h 
lugar...
Chegvamos  margem, o remeiro atracava. Que no se admirasse 
minha paternidade se por um destes dias me batesse  porta. Para onde ia eu? 
Para Enxobregas? L o teria  perna um destes dias ... um destes dias... E 
sorria com a boca desdentada, o carapuo de l retirado da cabea. Barretava-
se de novo, cuspia nas mos calosas para agarrar melhor os remos lisos a 
brilhantes ... a l. se vai embora de volta... Deixo-me ficar ainda por muito 
tempo junto ao cais, sentado num cepo a que se enlaam as toas dos barcos 
ancorados perto da margem. Sinto uma estranha relutncia em voltar  rotina 
do convento a retardo-me o mais possvel. Uma nau est chegando da India 
Oriental. Ancora ali diante, mesmo em frente de mim. L vm os batis com 
passageiros. Vejo as pessoas porem p em terra, no semblante bem marcado 
o cansao do mar e a alegria por estarem na sua ptria. Alguns ricamente 
aconchegados em seus jubes, os dedos das mos pejados de anis, seguidos 
de escravos de cor, jovens, de olhos assustados... Dois homens de meia-idade 
param junto de mim. Observo-os. Um deles, baixo a encorpado, de cara 
rapada, pousa uma sacs no cho e fala com o companheiro. A distncia, 
humilde, com um pequeno ba ao ombro, um rapaz de feies asiticas, tez 
cor de aafro.
- Tenho de esperar pelas minhas duas arcas de bagagem. Deves estar 
ansioso por ver tua me. Se tens pressa, Luis, no to prendas...
No se prendesse  Oh, Diogo do Couto  Assim to rpido se esquecia 
de que o,..encontrara em Moambique to pobre que vivia de amigos a lhe 
pagara a viagem, mais a do seu pobre amigo javans, para poder chegar a 
Lisboa? No sabia ele que o seu Lus chegava a esta terra madrasta...
- Ah  Agora falas assim! A terra madrasta ... Mas ainda h pouco, na 
amurada da nau, quando comemos a avistar terra, to me recitavas aqueles 
lindos versos do teu poems: Esta  a ditosa ptria minha amada... Ohi 
Lus!...
Este Lus  uma figura curiosa. No muito alto, magro, parecendo 
avelhentado na sua barba grisalha,  aquele olho vazado que primeiro nos 
chama a ateno. Gola de folhos, colete de fendas avelutadas, coado, capa 
pendente do ombro, cales tufados pela coxa, a meia torneando a perna at 
morrer nos borzeguins de couro.
- No me venhas com esse pessimismo  - dizia Diogo do Couto. - Agora 
ests em tua casa. Tens amigos...
- ... a inimigos...
- ... muitos amigos a poderosos. Nas duas maiores casas portuguesas. 
O filho do duque de Aveiro, D. Jorge,  poeta como to e consta-me que at 
imita os teus sonetos. Mal saiba que chegaste... Entre os senhores de 
Bragana tens srios admiradores. No tardar que de novo a corte to acolha. 
E esse teu livro de que fiz o comentrio histrico? Porque o no dedicas ao rei? 
Exaltado como dizem que  com a glria da ptria, h-de gostar...
Compreendo que Lus  um poeta, mss estava longe de supor que me 
encontrava perante um Homero, um Virglio, a que nos amos tornar amigos 
como poucos h. Foi trs semanas depois, ou quatro, no me lembro bem. 
Passo eu defronte da tipografia de Germo Galhardo a entro a cumpriment-lo. 
Tinha-me esquecido o dobar dos anos! Encontro a casa modificada, com outro 
alor de trabalho. Germo Galhardo havia morrido ia para dez anos e o 
impressor agora era Antnio Gonalves, homem afvel como o seu antecessor, 
que sabendo ser eu amigo do antigo tipgrafo logo me pe a casa  
disposio. Mostra-me as obras que esto em imprimisso a algumas 
acabadas, ainda frescas do prelo. Obra grande, sim senhora,  esta que est 
agora mesmo a comear! Nunca vista! Obra de um gniol... E dependura do 
seu fio uma lauds que est a secar. Leio. Eu el Rey fao saber aos que este 
Alvara virem que eu ey por bem & me praz dar licena a Luis de Cames pera 
que possa fazer imprimir nesta cidade de Lisboa, hua obra em Octava rima 
chamada Os Lusiadas, que contem dez cantos perfeitos...  o alvar de el-rei, 
com data de vinte a quatro de Setembro deste ano de setenta a um. No verso o 
parecer do censor Frey Bertholameu Ferreira a na pgina seguinte
420 42
comea a obra com o seu Canto Primeiro. Antnio Gonalves, com um 
brao por cima do meu ombro e a cara quase chegada  minha, j est 
declamando com entusiasmo antes que eu comece a ler:
As armas, d~ of bares assinalados... - A Eneida portuguesa  - exclamo.
Leio com sofreguido maravilhada a nem reparo que por trs de mim 
algum, alm do tipgrafo que est a meu lado, observa sorrindo a minha 
reaco.
- No h mais? - pergunto ao impressor, quando acabo a folha.
- Tendes de esperar pela fornada - diz aquela voz que nunca hei-de 
esquecer.
Volto-me a dou de cara com o autor. Tambm ele me reconhece. No 
era eu aquele franciscano que estava no cais no dia do seu desembarque? 
Antnio Gonalves ia a dizer-me qualquer coisa, mas eu atalhava-o. No era 
preciso. Sabia muito bem em frente de quem me encontrava. Grande privilgio 
por certo conhec-lo. Apertamos as mos a da a uma hora seguamos os dois 
conversando animadamente pela beira do rio. A partir de ento a enquanto a 
obra est a imprimir-se, todos os dias nos encontramos na tipografia. Eu sinto-
me comovido por estar a assistir ao nascimento de um to grande poema. Ele 
conta-me toda a sua vida, a sua pobreza, os seus desiludidos amores, de que 
finamente falam os seus versos, as invejas de outros poetas...  uma alma 
amargurada a desencantada. A nica coisa que lhe acende ainda um lampejo 
no rosto tisnado do mar  a sua obra, sobretudo esse poema  ptria. 
Conseguira ler a el-rei, em Sintra, algumas passagens, sobretudo o comeo, a 
que juntara uma dedicatria muito elogiativa ao jovem monarca... (Precisava 
de favor, compreendia Pantaleo amigo?)..., e o final, tambm laudatrio, em 
que incita o rei a superar um Aquiles, um Alexandre, a dar matria eterna  sua 
musa... D. Sebastio gostara, mas o Lus no anda de bem com a sua 
conscincia. Porqu? Ora porqu! Desde que dera conta da perigosa a louca 
imaginao do soberano, tem a impresso de que  um grande erro fazer coro 
com os louvaminheiros que enxameiam  roda dele. E logo descai em 
vaticnios profticos de apocalipses para o reino a nas suas diatribes amargas 
sobre o estado das coisas. Poeta
moderno, desta corrente que bebe seus cnones nos poetas a artistas 
italianos, ouo-o muitas vezes expender ideias que j a mim me haviam 
acudido quando andava por terras onde se podia presenciar a coexistncia de 
opinies a credos diferentes. Era um paradoxo - dizia ele que uma nao, que 
descobre uma nova dimenso no espao a no tempo csmico, a comunho 
das raas a das crenas, dos usos a maneiras, seja em que hemisfrio ou sob 
que constelao for, permanea fossilizada nas resolues do Conclio de 
Trento a nas peias da Inquisio. O caminho natural de um pas que ajudou a 
abrir o mundo  modernidade  o da Reforma... E perguntava-me se eu estava 
escandalizado. E eu de responder-lhe que no senhora, que pelo contrrio 
tambm eu, all para ns, Deus me perdoasse...
Com o tempo e a evidncia da ingratido dos homens, amargura-se-lhe 
mais a vida. A doena e a nmisria batem-lhe  porta. A tena que o rei lhe 
concedeu no basta ao sustento a vm-me dizer que o seu companheiro 
javans j tem andado pelos portals a pedir esmola para o poeta. Procuro 
minorar-lhe as necessidades na medida do possvel a assim fao que ele 
venha frequentemente at ao convento, a pretexto de me suavizar a melancolia 
monstica.  agora quase a nica amizade que tenho a na sua companhia 
sinto renascer por vezes o meu esprito alegre a faceto de outros tempos. 
Levo-o  cozinha a tomar um caldo quente com boroa esmigalhada. Enquanto 
comemos entro com ele
- Ento, Luis, como vai o teu estado macho?
E ele, sem se desmanchar, sorvendo a sopa, lambuzando a barba j 
grisalha:
- Incerto.
Entendeu h muito a minha brincadeira e, com a muita amizade que me 
tem a eu retribuo,  complacente com o meu jeito galhofeiro. Desta vez 
parafraseio aqueles seus formosos versos em que fala das incertezas a 
contradies do seu estado de alma:
Tanto de meu estado me acho incerto
que em vivo ardor tremendo estou de frio...
E eu:
- Pobre Luis  Que ardor tremendo ! Ests sempre apaixonado 
422 423
Ele ri-se.  das raras ocasies em que o vejo rir-se, que as nuvens da 
tragdia j estrondeiam no horizonte. Um dia, estava-se em quinhentos a 
setenta a oito, toda a cidade se despovoa para vir  ribeira ver passar o cortejo 
marcial que embarca para a frica. Nunca se viu povo to triste a despedir-se 
dos seus filhos. Nunca se viu tanta insegurana a apreenso no semblante dos 
mancebos que partem. Eles sentem melhor que ningum a sua impreparao 
para a guerra, na mobilizao apressada, forada, imposta. No se faz um 
exrcito tirando das mos dos homens vlidos a enxada a colocando nelas a 
espada, a lana, o arcabuz. Alguns jovens nobres aparentam, como o rei, uma 
altiva coragem. No meio deles alvejam venerandos os cabelos de D. Jorge da 
Silva.
- Quer morrer no campo de batalha - cicia-me ao ouvido Lus. - Nem 
aquelas cs serviro para fazer parar esta loucura colectiva? Amigo, vamos 
daqui que se me quebra a alma. Isto  o exrcito da morte  Vers ... - e 
arrastou-me dali, ainda eu me detinha a ver junto de D. Sebastio o garbo e o 
donaire do moo duque de Aveiro. Irmo ...
Nos comeos de Agosto chegavam as primeiras vozes da imensa 
desgraa a pronunciava-se a medo o nome de Alccer Quibir ... a em dois anos 
apenas tudo baqueia. O rei fora a morrer l longe sem deixar semente. Figuro 
aqueles areais juncados de cadveres, horas depois do desastre, quando s o 
silncio, os abutres, os corvos, os chacais do deserto descem ao campo da 
morte. Fixa-se-me na retina, como viso real, a imagem do jovem corpo do rei, 
nu depois de espoliado das ricas armaduras a do precioso vesturio, com 
profundos golpes de laivos esverdeados, estropiado, um abutre sobre o peito a 
dilacerar-lhe a carne do pescoo a engolindo gostosamente pedaos a sangrar, 
outro a debicar-lhe a polpa apetecida dos olhos, enfim horrorosamente vazio o 
negro buraco orbital...
O novo monarca  um cardeal senil, que no tarda a falecer. Filipe II de 
Espanha prepara-se para realizar a to desejada unificao peninsular. As 
discusses legalistas sobre o direito ao trono so um mero exerccio de 
especialistas, sem juiz que dirima a questo a no ser a fora ... e a nossa 
fora ficara l, nas areias de frica. O prior do Crato ainda tenta juntar a si os 
restos da coragem portuguesa, mas quem o segue so aqueles que s tm a 
perder a camisa do corpo ou o saco da pobreza, gente do povo a frades. Um 
destes  o meu amigo Frei
Nicolau Dias. Estou disposto a seguir-lhe o exemplo, sobre a hora em 
que j o solo do reino estremece com a pesada marcha dos homens do duque 
de Alba. Triste contratempo surge - o moo javans que aparece aflito no 
convento : Luis est a morrer  Ainda corro a tempo de escutar o ltimo pulsar 
daquele peito ilustre lusitano a de o ungir. No tem outros companheiros a 
seguir-lhe os restos seno a mim e a jau... Tudo est perdido  A derrota de 
Alcntara  O prior do Crato a, fugir pelo Minho a muitos dos seus apoiantes 
presos a enviados para as masmorras de Espanha  O meu pobre Nicolau Dias 
 um deles... Chegam-me tambm notcias de que com igual sorte l longe, 
nas geladas florestas da Esccia, outro Nicolau perdeu sua batalha : Nicholas 
Sanders morre de frio a de fome depois de ver derrotado o exrcito em que 
seguia...
Sinto necessidade de sair, como dantes, a calcorrear ao acaso as 
povoaes, os montes a as plancies, caminhar pelas ribas dos regatos. Desta 
vez, todavia, o acaso  premeditado a deixa de ser acaso. Dirijo os meus 
passos para Abrantes. Desejo visitar o tmulo de Guimar Coutinho, que 
repousa na capela do convento dos domnicos. Ao chegar, pro em frente da 
igreja da Misericrdia, ali perto, a apreciar o fronto do prtico em que o 
principal ornamento  um pelicano. Esta  a terra onde nasceu o senhor D. 
Jorge, duque de Coimbra, filho de el-rei D. Joo II. Estranhas coincidncias da 
vida ... Mas na capela dos dominicanos, onde penso ajoelhar-me na pedra rasa 
do tmulo de minha me, nenhum vestgio existe de lajes tumulares. O 
sacristo, homem novo, perguntado diz nada saber de sepulturas antigas 
naquela igreja. Conta, no entanto, ter ouvido dizer aos mais velhos que aquele 
cho  recente, reedificado depois de um terramoto que quase destruiu o 
convento. Imagino que duas lajes deviam ter estado ali deitadas, lado a lado, 
defronte do altar-mor, mas que o Cu nem isso consentiu que permanecesse.
424 , , 425
Notas
i. De Frei Pantaleo de Aveiro no se sabe seno que escreveu o 
Itinerrio de Terra Santa a era frade menor da Ordem de So Francisco, da 
Observncia da Provncia dos Algarves, como se l no frontispcio da 2.a 
edio, a que estava no convento franciscano de Xabregas ao tempo da 
publicao do seu livro, em 593, dizendo-se velho a com a memria cansada. 
Trs anos depois, em Agosto de 596, recebe licena para publicar a 2.a edio 
da sua obra. x
No se lhe conhece pai nem me, nem familiares, nem o nome do 
sculo. No se sabe quando nasceu ou quando morreu, nem onde. Supem 
alguns, considerando o nome religioso, que seria natural de Aveiro. Na sua 
obra ele fala de muitas terras, sobretudo para sul de Lisboa - Setbal, vora, a 
serra de Ossa... O Alentejo, o Ribatejo, o Algarve, a Beira interior so-lhe 
conhecidos. Faz referncia a Coimbra a ao Mondego, mas de modo a inculcar 
nunca l ter estado. Aveiro parece desconhecer. Frei Jernimo de Belm, na 
sua Chronica Seraica da Santa Provincia dos,Algarves, Lisboa, 750-758, nem 
isso adianta em seu laconismo. Diogo Barbosa Machado (Bibdioteca Luritana, 
Tomo III, Lisboa, 752) n.o hesita em dizer que ele  natural da vila do seu 
apelido do bispado de Coimbra a d-o como autor de uns Louvores de So 
Joo que tero ficado em manuscrito ... que ningum sabe onde pra. 
Inocncio Francisco da Silva  mais prudente. Escreve: Ignoram-se as 
circunstncias que lhe dizem respeito, constando apenas que fora natural da 
vila (hoje cidade) do seu apelido... (Dic. BibL Port., Lisboa, 862). Ningum 
sabe nada dele a nem sequer se pode acusar deste silncio o terramoto de 75 
5, de to largas costas, pois
_ j antes disso se no sabia. O prprio Pantaleo de Aveiro, embora 
empregue a primeira pessoa em todo o Itinerrio, fala pouqussimo
427
de si a cala muitssimo ou quase tudo. Dificilmente levanta uma pontinha 
do vu de mistrio que o rodeia ou de que se pretende rodear. Explica-nos 
como surgiu a oportunidade de ir  Terra Santa. Estava ele na Cria romana 
como adjunto do secretrio da Ordem, Frei Antnio de Pdua, trabalhando 
ambos com o seu geral, Frei Francisco de Zamora, aparece o recm-nomeado 
guardio de Jerusalm, Frei Bonifcio de Ragusa (a actual Dubrovnik), a 
convid-lo para o acompanhar por terras de Itlia a formar a nova famlia 
franciscana que havia de ir revezar na Palestina os frades que, ao fim de 
cumpridos trs anos, deviam regressar. E no se pense que estes dados to 
precisos aparecem de mo beijada assim arrumadinhos. Eles tiveram de ser 
respigados aqui a alm na i.a a na Z.a edies (as nicas que o Autor viu). H 
pormenores que esto na primeira a desaparecem na segunda, a nesta ltima 
h abundantes a naturais acrescentos... Mas como vamos encontrar em Roma, 
em lugar de destaque, este ignorado frade franciscano? Porque o procura o 
grande Frei Bonifcio, o homem que j estivera na guardiania do Santo 
Sepulcro sete anos atrs a que tanto prestgio tinha at entre os Turcos? 
Quem, que fora ou influncia estaria por trs da nomeao de Frei Pantaleo 
para a Cria em Roma? Essas nomeaes envolviam por vezes altos choques 
de lutas pessoais entre os grandes do tempo.  ver a sanha do cardeal D. 
Henrique ao darem a Frei Antnio de Pdua - precisamente Frei Antnio de 
Pdua, junto de quem Pantaleo trabalha em Roma - o cargo que desejava 
para um frade da sua confiana, Frei Cristvo de Abrantes ... Com Frei 
Bonifcio, Pantaleo  recebido pelo papa Pio IV, antes de partirem a formar a 
famlia franciscana, e  feito confessor apostlico  Que fradezinho  este que 
visita o tesouro de Veneza com a duquesa de Ferrara? Conhece a convive com 
pessoas gradas da sua poca, em Lisboa, em Roma, em Trento, nobres a 
eclesisticos.  uma galeria notvel, de que destaco D. Frei Bartolomeu dos 
Mrtires, arcebispo de Braga, primaz das Espanhas; D. Frei Joo Soares, bispo 
de Coimbra a conde de Arganil; Frei Lus de Souto Maior, doutor em Teologia, 
figura de relevo no Conclio de Trento... Em Veneza, aquando da sua partida 
para a Terra Santa, essas excelentes a reverendssimas personalidades 
descem a despedir-se dele. Frei Luis de Souto Maior partiria mesmo com ele 
se no lhe tivesse sobrevindo sbita doena. Alguns deixaram obra escrita, o 
prprio Frei Bonifcio. Porque fazem sobre Pantaleo o mais fechado silncio? 
Parece uma con
jura. Em Chipre, a algum que lhe perguntava se existiram de facto 
aqueles grandes portugueses que to estrondosos feitos cometeram, no mar a 
em terra, nas partes do Oriente, responde que conheceu muitos deles. O 
arcebispo de Lisboa, D. Miguel de Castro, vice-rei e governador do reino, 
acede a patrocinar-lhe a publicao do Itinerrio, que ostenta no frontispcio as 
armas do prelado...
Quando h uns doze anos atrs, numa traquitana que estacionava 
encostada  esquina da Avenida de Roma com a de Joo XXI, entre folhetos a 
revistas em segunda mo, de literatura de cordel como fotonovelas a histrias 
aos quadrinhos, topei com a inesperada lombada quente a luzidia, de boa 
carneira castanha, da 4.a edio do Itinerrio de Pantaleo de Aveiro, dei-me a 
rever o estudo da obra a do escritor, inclinado como sou a coisas de 
investigao. Captou-me logo o mistrio. Perdi longa.s a pacientes horas em 
bibliotecas a arqaivos a perseguir fantasmas de pistas que, evidentemente, no 
podiam deixar de sair do texto da obra. Nada consegui saber a no ser o 
descobrir que da i.a edio h pelo menos uma contrafaco com ligeiras 
dissemelhanas a que o frontispcio do exemplar da Torre do Tombo no tem o 
verso impresso como todos os outros; o verificar a importncia da Z.a edio 
em relao  primeira e a necessidade de uma edio crtica baseada nos dois 
textos vistos pelo Autor; o apurar das datas certas em que ele realizou a sua 
viagem  Palestina - que to erradas andam em enciclopdias a compndios; a 
todo um amontoar de material que constitui o complemento preciso de 
referncias vagas muitas vezes feitas quando, pela idade avanada, ia 
cansando a memria. Resolvi ento construir uma hiptese atrevida a partir  
procura de a comprovar. Encontrara uma histria paralela a espantosa ... em 
que tambm existia a conjura do silncio, a tal ponto que os documentos que a 
poderiam sustentar haviam desaparecido. Chegou, porm, at os nossos dias 
um documento que diz terem existido esses papis.  a carta do duque de 
Aveiro  regente D. Catarina de ustria, de que um excerto constitui o texto 
motivador do Captulo XX deste romance.
A ligao entre os dois mistrios poderia, portanto, a haver 
documentao, resultar talvez numa tese a apresentar  Academia de Histria 
ou a outro instituto acadmico, a publicar numa revista da especialidade, como 
Armas a Trofus, e a surgir depois na comodidade d.a separata. No existindo, 
todavia, a documentao a no se podendo
428 429
verificar se a ousada hiptese batia certo com a realidade histrica, 
decidi enveredar pelo caminho da fico, onde toda a inveno  possvel, a 
reconstituir, nimbado de alguma poesia, esse formoso a triste drama do sculo 
XVI... Teria de ser, obviamente, uma narrativa em primeira pessoa, porque o 
Itinerrio de Terra Santa  uma narrativa em primeira pessoa. Pantaleo de 
Aveiro  pois o narrador.
2. Mas Pantaleo de Aveiro e o seu Itinerrio so uma vertigem. 
Rasgam, rompem, estraalham horizontes que esto muito alm das restritas 
fronteiras de um qualquer formoso a triste drama pessoal: da selva 
emaranhada das citaes bblicas, das aluses s pormenorizadas cerimrias 
litrgicas, das incurses pelo Antigo Testamento, da referncia fastidiosa s 
indulgncias que se ganham em cada lugar visitado da Terra Santa - o que se 
compreende natural no mbito dos objectivos de um Itinerrio do gnero - 
ressaltam anotaes de viagem colhidas pelos olhos a ouvidos atentssimos do 
nosso frade, que vo desde a mincia da descrio de um fruto que comeava 
a ser introduzido entre ns, como a banana, a indicao do preo dos 
alimentos em Damasco, at ao universalismo dos grandes problemas da 
humanidade de ento, muitos dos quais, mutatis mutandis, continuam a ter 
sequelas candentes na humanidade de hoje. Palpita a a Histria, embora o 
Autor que dela se faz eco nem sempre tenha plena conscincia do alcance dos 
acontecimentos. A Reforma e a Contra-Reforma, a desunio dos cristos, o 
fanatismo religioso, a guerra santa e o esprito de cruzada; os judeus 
escorraados, espalhados, perdidos pelas bordas do Mediterrneo, esperando 
a vinda do Messias; a nao forte subjugando a nao fraca, os prenncios da 
queda de Chipre s mos do gro-turco, o teatro de litgios que  a Palestina, a 
talassocracia veneziana disputada pelas galeras de Solimo, o Magnfico; a 
azfama do comrcio nos portos do Mdio Oriente; as embaixadas das igrejas 
latinas orientais a Roma; a espionagem internacional veiculando informaes 
secretas entre os principais interessados num mundo em transformao; a 
prepotncia, a injustia, a pirataria, a pilhagem, a ganncia, a riqueza e a 
pobreza, o sexo, etc. - um manancial temtico . xo vasto que no podia ser 
desprezado.
Havia ento que fazer do Itinerrio uma base de trabalho, expurgando-o 
do contedo religioso ad usum peregrinorum a nele engastando a fico. Assim 
se fez. Mas no s. A imprecisa referttcia das datas
foi substituda pela data precisa a minuciosa, to trabalhosamente 
investigada que va.i por vezes at ao dia da semana. A leve aluso a factos 
histricos  ampliada a pormenorizada. A nota bibliogrfica errada  corrigida, 
a que no tem autor descobre-se-lhe o autor. Onde Frei Pantaleo se cala, 
quando pressente que o assunto poder no agradar a grosadores mal-
intencionados de que o mundo est cheio ou  Mesa Censria (Do impresso, 
j lhe risquei duas cousas, escreve Frei Antnio Tarrique, censor da z.a 
edio), faz-se a reconstituio do que ele no disse, atravs de aturada 
investigao -  o caso da matria, apenas vagamente aludida, da querela das 
imagens, das embaixadas das igrejas crists sria, armnia a maronita ao 
Conclio de Trento, da referncia ao rei de Chipre, da descrio de uma 
circunciso na ilha de Corfu. Conservou-se a meticulosidade das descries de 
templos, lugares arqueolgicos, retratos de pessoas - mas modernizando os 
traos, avivando as cores, carregando a tornando ntidos os contornos, 
perspectivando os quadros. A mesma meticulosidade se usou para o que o 
Autor no descreveu nem narrou, fazendo-se afadigada recon.stituio de 
terras a monumentos tal como eram ou se presume que seriam no sculo XVI, 
antes de serem total ou parcialmente destrudos por terramotos (o caso de 
Tavira, por exemplo), retratando personagens, recriando episdios, 
dramatizando pelo emprego abundante do dilogo onde ele  sugerido ou onde 
podia ter existido... Recortou-se, desmontou-se o texto do Autor a fez-se uma 
espcie de colagem que constitui uma releitura do texto original. Desfez-se a 
sistemtica subordinao peculiar ao discurso clssico, mas adoptou-se um 
meio termo ao conservar-se a ptina da poca com alguns arcasmos, a 
construo frsica caracterstica na boca de personagens imbudas de 
latinidade, o tratamento da segunda do plural entre personagens mais gradas. 
Mas no se julgue que isto  um buscar a cor ambiente a epocal  maneira dos 
romnticos. Nada disso. Tratou-se, foi, de no perder de vista que o narrador  
culto, sabe latim, tanto l a Bblia como Ovdio ou o LaZarilho de Tormes, 
convive com telogos a pregadores, conhece o discurso por dentro, isto , 
sabe dosear a linguagem conforme o interlocutor, sabe falar retrico a 
pronstico como lhano e maneirinho. Ainda quando no h por base prosa do 
Itinerrio, que  a maior parte deste romance, procurou-se ter em conta a 
peculiaridade desse narrador a as variaes da sua idiossincrasia.
430 43
;. Mas como se pode falar da sua idiossincrasia, se dele nada se sabe? 
Que espcie de Pantaleo de Aveiro nos apr _sentam estas pginas?... H 
dados certos, captados nas linhas a entrelinhas do Itinerrio, a deles se partiu 
para a construo da personagem, que,  preciso no esquecer,  personagem 
de um romance a no de uma biografia histrica.  dado certo que o seu 
humor era vrio: a cada passo ele refere os seus acessos de melancolia 
monstica, a solido da vida conventual, agravada por vezes pela ausncia 
de livros. E os livros e o seu gosto de ler tudo so outro dado adquirido: bastar 
colher um ainda que apressado respigar das citaes que faz. Devia ser 
pessoa de grande a fcil a afvel comunicabilidade pelas amizades que tem, 
pelo chegar-se a conversa a trato com os desconhecidos, sobretudo judeus 
que encontra por todo o Mediterrneo. Fala com toda a gente a toda a gente 
lhe fala ... a gosta de dizer sua gra^a:  brincalho. Por seu feitio, e, deduz-se, 
talvez pelo aspecto fsico, caa no agrado das mulheres a era muito sensvel  
beleza a frescura femininas:  ver como ele regista a sensao das moas a 
encostarem-se a ele ao assistirem a uma circunciso em Corfu; ou atentar no 
episdio da janela indiscreta de duas formosas turcas a quem oferece uns 
leques que comprara em Veneza, o que parece indicar predisposio 
consciente para tais abordagens; ou notar como o impressiona em Chipre, no 
porto de Salinas, aquela caloira grega (esta mulher era de um estranho 
parecer a formosura..., escreve ele). Melancolia monstica, trato afvel a 
faceto, sensibilidade s graas femininas, que outros ingredientes seriam 
necessrios para dar, numa obra de fico, um passo em frente a emprestar-
lhe a falta de funda a vera vocao ou imaginar uma dessas tomadas de hbito 
imposta, preparada desde a infncia como destino talhado de fora, facto muito 
comum na poca?... Para l de todo o aparato religioso, cannico, do Itinerrio, 
para inquisidores lerem, no se furta a falar com os judeus, mouros, turcos 
sobre assuntos da f de cada um. Em tempos de intolerncia, ele era a seu 
modo a quanto possvel tolerante : Advirto aqui aos que lerem este meu 
Itinerrio que muitas vezes de necessidade hei-de falar de judeus, que destas 
partes ocidentais achei nas orientais, a afirmo como cristo no ser minha 
inteno caluniar pessoa alguma nem a gente de nao: da qual eu creio haver 
neste reino muitos santos a virtuosos, a as maldades dos maus no prejudicam 
aos bons: os homens julgam o de fora, Deus autem intuetur cor... Assim que 
havendo muitos fiis escon
didos, no devemos a todos ter por infiis, a os que se tm por catlicos 
no me devem caluniar o que eu singularmente escrevo, que se minha 
inteno fora outra dissera muitas cousas que calo por no magoar; a quem se 
achar culpado, cale-se a emende-se ... A bon entendeur... E que mais se sabe 
ao certo da sua maneira de ser? Era activo, empreendedor a tinha qualidades 
de chefia: em grupo estava naturalmente  cabea. E que era observador 
sagaz, atento, minucioso, das coisas a das pessoas, das velhas pedras a dos 
novos costumes, dos tipos humanos encontrados pelo mundo visitado, do 
comportamento psicolgico do3 seus inrerlocutores, anotador paciente de 
tantos pequenos factos cujo acervo forma um preciosssimo a raro peclio 
histrico quase desconhecido a desaproveitado - toda a sua obra o est 
atestando. No exguo mrito s--r o de este romance se ajudar a fazer sair do 
esquecimento, junto do comum dos portugueses, este nosso excelente a to 
ignorado escriror do sculo XVI.
Outro trao de Pantaleo de Aveiro era o seu jeito franciscano de 
apreciar os dons da natureza, seja uma simples couve murciana ou os 
dourados pomos das rvores de espinho ou o bom pescado comido  borda do 
mar no porto de Jafo, a moderna Telavive. Habituado a jejuns a privaes,  
cdea de po e  pinga de gua da fonte dos caminhos, no despreza, quando 
adrega, um saboroso manjar e o reconforto de um bcm copo de vinho de 
Cndia, de Chipre, das formosas vinhas de Belm. A par disso a sua alma era 
sensvel, que o  quem assim fala:  cousa maravilhosa a muito de notar que, 
se daquele outeiro olhais para Jerusalm, ~cntis em vossa alma uma 
compassiva tristeza a um no sei qu de melaiicolia que vos aflige a cobre o 
corao... So esse franciscanismo natural, essa sensibilidade comovida, o 
gosto confessado de cantar e o tom em que aplica s coisas d.a vida ou aos 
lugares visilados certas citaes biblicas, de salmos, profecias, versculos, que 
me levaram a conferir  personagem a capacidade de exprimir a exteriorizar o 
seu sentir em cnticos a arrebatos poticos. Para alm disto, a sua reaco 
aos acontecimentos, por vezes to trgicos a de to extrema violncia,  de 
domnio, se bem que tenso, sobre si prprio. E este domnio de si, o saber 
calar de si a dos outros ao longo do Itinerrio, leva-me  concluso de que 
Pantaleo de Aveiro era pessoa que se olhava interiormente a se examinava. 
Da o ter desdobrado a personagem do romance, em passos de solilquio mais
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ntimo a contraditrio, de debate interior, entre o eu e o mim, a ter feito 
aparecer por vezes o seu espectador que  ele mesmo.
4. E as outras personagens?... Primeiro Guiomar Coutinho e Joo de 
Lencastre a os seus amores. No vamos repetir esse triste caso. Para quem 
gosta da objectividade histrica damos bibliografia:
Francisco de Andrade, Chronica de D. Joo III, Lisboa, 63. Fr. Lus de 
Sousa, Anais de D. Joo III, 2.a ed., Lisboa, 75. Antnio Caetano de Sousa, 
Provas de Hist. Geneal. da Casa Real Port. 739-748.
Conde de Sabugosa, Neves de Antanho, Lisboa, 98.
Marqus do Lavradio, Descendncia de El-Rei D. Joo III - O Ducado de 
Aveiro, Lisboa, 945 .
O tema no podia deixar de atrair os romnticos. No  aqui lugar de 
fazer juzo de valor. Eis as obras
Camilo Castelo Branco, O Marqus de Torres Novas, drama em cinco 
actos a eplogo. Porto, 849.
Bemardino Pereira Pinheiro, D. Guiomar Coutinho, Episdio do reinado 
de D. Joo Ilb>, doze pginas incompletas in Revista Contempornea de 
Portugal a Brasil, Tomo IV, pgs. 489-500. (A revista foi fundada por Antnio 
Brederode a dirigida por Ernesto Biester. Comeou em i-IV-859 a terminou em 
865.)
Teodsio de Bragana s tem do autntico o nome e a sua 
meticulosidade de procurar saber, atravs de uma rede de informadores, o que 
ia pelo mundo a reunia nos tais volumes intitulados Os Livros de Muitas Coisas. 
Era sugestivo o facto. Uns pozinhos de tenebricosas e subterrneas malcias, a 
j estl Emprestou-se-lhe ento um carcter truculento, odioso a vingativo, 
herdado do pai D. Jaime, ps-se-lhe  roda uma malta de sicrios assassinos a 
transformou-se nessa personagem horrvel que a est. Ele que me perdoe ...
Quanto s outras personagens pouco h que dizer. Umas so tiradas do 
Itinerrio, outras puramente inventadas, a h as que, embora histricas, so 
recriadas. Frei Zedilho, que Pantaleo de Aveiro refere invariavelmente por o 
meu companheiro, s uma vez na i.a ed., Cap. IV, tem referidos, sem nome, 
alguns dados da sua identificao ... meu companheiro, o qual era hum Padre 
de muytos merecimentos,
que de Hespanha havia ido ao sagrado Concilio de Trento, em 
companhia de outro Padre doctissimo de nossa familia franciscana, por nome 
frey Francisco Orantes, que ao mesmo concilio foy em nome do Bispo de 
Palencia... Na 2.a ed., no sei porqu, esta anotao desaparece 
completamente, mas, s tantas, no Cap. XXXVII, fl. 23, aparece o nome: ... 
estando eu com meu companheyro Frey Antonio Zedillo... Tentei perseguir a 
sua figura nas listas a obras acerca dos padres espanhis que estiveram no 
Conclio, mas n.o encontrei. Gostaria de ter ido a Espanha, a algures no sei 
onde, investigar o seu trilho a ver se o descobria, mas no me foi possvel. J 
assim no aconteceu com Nicholas Sanders. Pantaleo refere apenas um 
padre ingls que foi ao Conclio a escreveu, sobre a primazia a unidade da 
Igreja de Roma, uma obra cujo titulo em latim cita de memria ... e com erro. 
Encontrei a obra, depois de aturadas peripcias, rendilhada de filigranadas 
galerias escavadas pelo tisanuro a pela broca. Existe na BNL. Com ela a 
histria do autor.  personalidade de nome. Vem nas enciclopdias. Fiz dele 
uma. personagem simblica...
De Isac Beiudo, Frei Pantaleo apenas diz o seguinte (Cap. XCI, 2.a 
ed., fl. 292):
Achey outro judeu, a quem chamavo Isac beyudo Portuguez: o qual 
me disse que servia de espia, mandando avisos ao nosso Embayxador, que 
estava em Roma, das cousas da India com toda a fidelidade, e pouco 
interesse. Este me foy visitar alguas vezes as escondidas dos outros, porque o 
reprendio sabendo que falava com Portugueses, pola sospeyta que tinho 
delle ser espia, o qual me disse que se o satisfizessem se atrevia de dar 
recado cada tres meses em Lisboa, de quanto se fizesse na India...
Isto passava-se em Tripoli. No me compete a mim julgar a 
transformao que nele operei, assim como penso no ser curial fazer 
consideraes sobre as demais personagens.
5. E como estas notas n.o pretendem apresentar a documentao 
acumulada nem o acervo da fastidiosa erudio que implica (fastidiosa, 
entenda-se, para o leitor que lhe no provou o gosto nem est habituado a tais 
andanas), tern-ino com quatro breves apontamentos.
Primeiro apontamento: conheo vrias descries de autos-de-f, entre 
elas a de Herculano e a de Camilo. A reconstituio que
434 ~ 435
fiz de um auto-de-f em vora no deve nada a qualquer desses autores 
nem a outros. Tem por base do seu plasmar literrio o seco documento 
publicado no Boletim Internacfonxl de Bibliogr. Luso-Brasileira, Vol. III, Julho-
Set. 962, n.o 3, Compromisso da Misericrdia de Lisboa, Cap. 27, Dos 
padecentes, pg. 464 a seg.
Segundo apontamento : no quadro da vida quotidiana de Lisboa no 
sculo XVI, a conversa entre dois cidados sobre os atravessadores (os 
intermedirios, como diramos hoje)  uma adaptao-colagem da Arte de 
Furtar, Amsterdam, 744, Cap. V.
Terceiro apontamento : o retrato de D. Frei Bartolomeu dos Mrtires e o 
pormenor da roupa nova que usava contra vontade em Trento so respigados 
de Frei Luis de Sousa, A Vida do Arcebispo.
Quarto apontamento : Nam escrevo aqui, diz Frei Pantaleo de Aveiro 
no seu Itinerrio, Z.a ed., fl. i2, o modo que se teve naquella circunciam, nem 
as cerimonias com que a fizeram... Era um desafio diz-lo o Pantaleo 
desempoeirado do romance. Entre outras fontes da descrio apresentada, 
como as iconogrficas muito numerosas e a Bblia, o relato extremamente 
pormenorizado que Montaigne faz de uma circunciso a que assistiu em Roma, 
precisamente no sculo XVI (Oeuvres Compltes, Bibliothque de la Pliade, 
Paris, 962; Journal de Voyage en Italie, pg.  25 a seg.). Que estas coisas da 
fico tambm tm os seus alicerces na realidade, quer seja a realidade do 
passado, quer a do futuro como na moderna fico cientfica. No se julgue 
contudo que com este livro pretendo fazer uma incurso pelo chamado 
romance histrico. O que a es_ so velhos problemas da humanidade que, 
vindos de h sculos, ainda hoje persistem nos mesmos cenrios a saltam 
para outros mais alargados a vastos.
NDICE
436
NDICE
Pgs.
Prtico .................................................................................
7 Ei gaurv...........................................................................
I - O medalho de ouro ................................................. i i lI - A letra 
pitagrica ...................................................... 3 5 III - Um olhar entre muitos 
................ .............................. 5 7 IV - A porta do mundo 
.................................................... 83 V - Roma... Veneza... Trento 
........................................... ioi VI - A tempestade ......... ........................ 
........................... 7 VII - O brevirio ............................................................. 33 
VIII - O rei de Chipre ....................................................... 5 3 IX - Os muros das 
crenas ................................................ iP X -A caloira grega 
......................................................... 95 XI - Isac Beiudo, espio de Portugal 
................................. 27 XII - A cidade fantasma 
.................................................... z33 XIII - A virtude do vinho ... ...... 
.......................................... 25 5 XIV - O jovem candioto 
.................................................... 275 XV - Damasco, encruzilhada do mundo 
............................... 293 XVI - O janzaro hngaro 
................................................... 33 XVII -Meu irmo ursol 
...................................................... 33 XVIII - Ameaas turcas ............ 
............................................. 3 5 XX -Idlio a elegia 
.......................................................... 375 XX - Vingana 
.................................................................. 397 XXI - A casa do p .......... 
..................... ........................... 47 Notas 
.................................................................................. 427
439
ciou em Filologia Clssica a foi professor no Liceu Pedro Nunes, em 
Lisboa.
Para alm de algumas obras didcticas a pequenas monografias de 
investigao etimolgica a literria,  autor do romance histrico A Casa do P, 
a sua primeira obra de flego a ser publicada a que o colocou entre os grandes 
escritores portugueses, a que se seguiram Psich, O Homem da Mquina de 
Escrever, O Pesadelo de dEus e A Esmeralda Partida, este ltimo distinguido 
com o Prmio Ea de Queirs de Literatura 995, institudo pela Cmara 
Municipal de Lisboa.
Algumas das suas obras j foram editadas em Frana, na Alemanha e 
em Itlia.
Fernando Campos Nasceu em 924 em guas Santas, concelho da Maia, 
nos arredores do Porto.
Estudou em Coimbra onde se licen
